Tuesday, July 10, 2012

Hoje morreu um poeta


Não foi bem hoje, mas foi tão recente que a mentira passa como comestível.

Gerrit Komrij realizou três de meus sonhos: ser holandês, escrever poesia e ir morar nos Trás-os-Montes.

Segue um poema, na tradução do escritor Fernando Venâncio, meio às avessas do Gerrit em que, nado em Portugal, hoje tem nacionalidade holandesa.

Máscaras

O homem com a máscara brincando
Até chegar a hora em que o seu rosto
Partilhava com ela uma só vida:
Já miúdo a história me punha indisposto.
Negava-me a aceitar. Quando crescesse,
 Ia mostrar que outra maneira havia:
Que cada máscara, sem dor ou risco,
Como um capuz tirar-se podia.
Fiz disso muito tempo um firme credo.
Escondi, confiante, a minha natureza.
Extinto o fulgor do jogo que eu fazia,
Teria ela a original pureza.
Hoje sou velho, só para admitir:
A história é real. A máscara agarrou-se.
É como habituares-te ao inferno.
Como se olhar vazia cova fosse.

Gerrit Komrij (30.03.1944 - 05.07.2012)

3 comments:

Marta Rodrigues said...

Absolutamente perfeito! Em um mundo em que as máscaras se colam, em que as pessoas são simulacros, fakes de outras, em que tudo se copia, nada se cria (bem, alguns, poucos, criam, outros, simplesmente acham que o fazem), o poema fala fundo. Tudo a ver com meu estudo, tudo a ver com a vida.

Marta Rodrigues said...

A propósito, que fique claro que o incluo na categoria dos que fazem. E muito bem, aliás. Só pra esclarecer rsrs

Luiza Machado said...

Nossa.. Que forte isso. E bonito.