Saturday, July 07, 2012

Bocaina



BOCAINA

Amo esta capela abandonada
de pedra fria, pasto de Deus.
(Que santos outrora habitaram
teus nichos vazios?
Já foi teu altar sereno
manchado pelo sangue do Cristo?)

Amo esta capela sem memória,
onde o que se vela é a vida,
que o tempo devora.

Sem pretensões de eterna, ao toque do vento
desfaz-se.


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Este é um poema muito velho, de Taipa (1994). Livro tão pequeno, com apenas 24 poemas e no entanto com a pretensão de ser dividido em três partes: "Memória", "Pedra e Cal" e "Taipa" pp. dita. Este poema é o quinto da primeira seção, a dedicada às viagens. É dos poemas que ainda assino embaixo, daí a publicação no blog.

Mas o que motivou seu resgate neste espaço terá sido, antes, o encontrar de fotos no Google Images da capela que mo inspirou, a Capela do Sagrado Coração de Jesus, que eu tanto amava visitar nas três vezes em que estive no Caraça.

Enquanto o transcrevia aqui, ocorreram-me dois pensamentos: é interessante o algo longo trecho em parênteses. Não por acaso a apresentação do livro, a cargo do Gilberto Mendonça Teles, se chama "Entre Parênteses". Acabo de contar (nunca o tinha feito): uso parênteses em nove dos 24 poemas. (Talvez uma forma de, mesmo me revelando, me esconder.)

O outro pensamento: hoje dividiria a última estrofe em três versos:

Sem pretensões de eterna,
ao toque do vento
desfaz-se.

Acho que fica melhor assim, dando mesmo a ideia do vento passando e desfazendo a superfície de pedra.

Mas é poema muito velho. Quase tão velho quanto a capela. E se calhar também em ruínas.



4 comments:

Raul Agostino said...

Quero um! Compro onde?

Marta Rodrigues said...

Gostei da divisão que você (re)fez (para me manter em sintonia fina com seus parênteses rsrs).
E gostei ainda mais da sua observação final, da análise do poema. Lindamente poético, poeticamente lindo.

Fernanda Fonseca said...

Estou escrevendo exatamente sobre a mesma Capela! E pelo mesmo motivo:amor. Assim que publicar meu texto, gostaria que você lesse, já que tocamos em aspectos muito parecidos! Ah! e eu não conheci a Capela com essa aparência de pedras - coisa mais maravilhosa!

A VIDA NUMA GOA said...

Olá, Fernanda, obrigado pelo comentário. Sim, gostaria muito de ler o seu texto, mande assim que puder.

Abraço.