Friday, May 26, 2017

Luísa Mahin, cerveja ::: Insofrida e Vingativa


 Hoje à tarde bebemos da Mahin, da Cervejaria da Mulher Guerreira, Artesanal e Feminista.

Eu poderia estar roubando, como o Temer, ou mesmo matando, como o Aécio, eu poderia arriscar uma análise organoléptica da birra, eu que estou longe de ser entendedor, mas prefiro, por ora, deixar que o poeta Luís Gama, que foi escravo e analfabeto até os 17 anos, faça uma análise de sua mãe -- ela mesmo, a Luísa Mahin.

Segue:

 Sou filho natural de uma negra, africana livre, da  Costa Mina (Nagô de Nação) de nome Luísa Mahin , pagã, que sempre recusou o batismo e a doutrina cristã.

Minha mãe era baixa de estatura, magra, bonita, a cor era de um preto retinto e sem lustro, tinha os dentes alvíssimos como a neve, era muito altiva, insofrida e vingativa.

Dava-se ao comércio – era quitandeira, muito laboriosa, e mais de uma vez, na Bahia, foi presa como suspeita de envolver-se em planos de insurreições de escravos, que não tiveram efeito.

Era dotada de atividade. Em 1837, depois da Revolução do Dr. Sabin  , na Bahia, veio ela ao Rio de Janeiro e nunca mais voltou. Procurei-a em 1847, em 1856 e em 1861, na Corte, sem que a pudesse encontrar. Em 1862, soube, por uns pretos minas que conheciam-na e que deram-me sinais certos, que ela, acompanhada de malungos   desordeiros, em uma “casa de dar fortuna”, em 1838, fora posta em prisão; e que tanto ela como os seus companheiros desapareceram. Era opinião dos meus informantes que esses ‘amotinados’ fossem mandados pôr fora pelo governo, que, nesse tempo, tratava rigorosamente os africanos livres, tidos como provocadores. Nada mais pude alcançar a respeito dela.

PS: Não consegui organizar o texto da citação a contento. Fontes e cores misturadas. Isso, a rebeldia



Tommy, do The Who, by John Fahey



Quando o The Who preparava o Tommy, eles tinham dívida acumulada de 1 milhão e 400 mil libras. Uma banda de renome com seis singles no TOP 5 britânico com uma dívida inacreditável. Isso, claro, devido aos eternos embusteiros gerenciamentos de bandas de rock (olha o Black Sabbath, olha os Beatles!), mas também devido aos quebra-quebras no/do palco que John e Keith promoviam, que já haviam se tornado marca registrada, de maneira que cumpria mantê-los mesmo que a motivação não fosse a mesma da época de "My Generation".

Se a intenção de Tommy era gravar um ópera-rock, a primeira da história, e se estávamos em 1968, claro que deve ter rolado na cabeça do Pete e do produtor Kit Lambert fazer uso de uma orquestra, ao menos em algumas partes, como a introdução. Utilizar uma orquestra em um disco de rock era, em 1968, sinal de grande transgressão, exemplo claro de pós-modernismo.

Por que não há orquestra em Tommy?

Acho maravilhoso que não haja. Trabalhos que efetivamente usaram orquestra de fio a pavio, como Days of a Future Passed (1967) do Moody Blues, envelheceram mal.

Tommy é eterno.

Acho que não usaram porque estavam fodidos. E isso foi uma bênção. A 'orquestração' limitou-se ao violão inicial e à trompa do John Entwistle. E agora acho que aquele início de violão -- simplesmente fantástico -- deve muito a John Fahey.

Não sei sei já detectaram isso ou se perguntaram ao Pete.

Mas se o acorde inicial do Tommy, que não dura nem um segundo, não é simplesmente igualzinho ao que se ouve aos 21:36 de Yellow Princess (1968), então não entendo nada de música mesmo.




Amor para todas as estações / A Song for All Seasons



Longe de ser o mais apreciado pelos fãs (do período 72-78 tem a nota mais baixa no progarchives), A Song for All Seasons é para mim disco belíssimo e, claro, já sentiram o teor do que direi: injustiçado. Se tem duas músicas insuportáveis, "Kindness" e "She is love", tem "Closer than Yesterday", "Back Home Once Again" e "Northern Lights", de altíssimo astral e que nada ficam a dever a "Let it Grow" ou "Carpet of the Sun". E tem a fantástica faixa de abertura "Opening Out" (nunca 'entendi' esta música e espero nunca entendê-la) e a faixa-título, para mim tão clássica e progressiva e imorredoura quanto "Ashes are Burning" e "Scheherazade". Com a vantagem de que "Ashes" e "Shehera" foram compostas em anos receptivos ao progressivo, enquanto "A Song for All Seasons" é ali no olho do furacão da disco music e de John Lydon vestindo I hate Pink Floyd.

Foi o primeiro disco do Renaissance que comprei, numa tarde de sábado em outubro de 1982. Depois fui pra casa do Renato viajar para Pouso Alto com seus pais. Era época do vinil, comprei o disco e não o ouvi imediatamente, pois. Mas na viagem ouvimos Pell Mell (aqui).





Thursday, May 25, 2017

Um Adeus a Jaki Liebezeit



Tento evitar surpresa quando morre alguém do rock dos anos 60 ou 70, embora a morte seja sempre uma surpresa, mesmo que esperada. As reações nas redes sociais, quase sempre patéticas, apenas revelam que boa parte comenta porque se vê no dever de comentar.

Tento evitar surpresa porque, oras, de certo modo estamos falando de mortes em seu tempo, esqueçam os macróbios das montanhas da Geórgia porque estes não viveram a vida louca, a hard road, disso que chamamos rock.

Assim, a morte de Chris Cornell aos 51 anos foge do escrito acima e me chocou e entristeceu.

Já a de Jaki Liebezeit, o monstruoso baterista do Can, ocorrida em janeiro deste ano, foi daquelas 'esperadas'. Então isso aqui é mais para lembrar.

Escrevi já sobre o CAN no blog aqui e aqui e numa dessas postagens brinquei que ele leva a banda nas costas, mas foi mentira que isso não seria CAN.

Um baterista metade homem metade metrônomo. Por horas de show.




Wednesday, May 24, 2017

No Ateliê do Marcelo Ment



Já escrevi sobre o artista / grafiteiro / artista grafiteiro Marcelo Ment aqui. Desde que conheci seu trabalho num muro em Vila Isabel, ainda um dos seus trabalhos de que mais gosto, temos mantido um contato virtual que, hoje, enfim, 'realizou-se'.

Para um admirador, a visita ao seu ateliê na Glória é qualquer coisa de paradisíaco. As lindas moças de cabelos coloridos por toda parte, em aquarelas e telas, em camisas e pôsteres, em skate e capas de caderno. Emolduradas e penduradas ou ainda in the making. Ainda as garrafas e os copos (morri!) da cervejaria Motim. Tudo ali, claro, é Marcelo Ment, mas há ainda trabalhos de outros artistas e aqui entrevemos dois objetivos do Marcelo para o espaço: um laboratório de trocas e ideias e espaço para exposições.

Sobre a mesa de trabalho, fitas cassetes ao lado de trabalho inda pingando de fresco.

Conversamos bocado, aprendi muito. Sabedor que a qualquer momento seu herdeiro Francisco está para vir ao mundo, não posso senão agradecer imenso a gentil acolhida.

PS: Marcelo Ment promete-me um desenho do Dante. Eu não sei se aguento essas coisas.











Tuesday, May 23, 2017

Já leu seu Livrinho em Indonésio - Balinês?



Pensei muito na Beth domingo passado : teve Vasco X Bahia em São Januário às 11 da manhã e como eu gostava de ter ido ao jogo mais ela, ela com a camisa do tricolor baiano. Tudo era propício : o horário, o domingo, as afinidades. Ela estava na Bahia, recebendo Pampi, eu estava por cá mesmo e como levei o Dante à Quinta da Boa Vista, pude ver a torcida vascaína passando, sempre coisa bonita de ver.

Aí no dia seguinte chega o presente da Beth pro Dante: livrinho em indonésio e em balinês. Como não amar (*suspirei aqui)? As línguas vêm todas no alfabeto latino, mas gostava mais se fosse em abugida. Mas tudo lindo.

Vi semelhanças entre o balinês e o indonésio. Como o livrinho lindo é na verdade trilíngue -- indonésio, balinês e um tal de inglês -- consegui entender, com a ajuda das belas ilustrações e o balinês que eu lembrava do ginásio -- que se trata de uma história ecológica, ensinando a garotada e os turistas e os surfistas a preservar aquelas praias lá que devem ser bem bonitas.

Uma joia para a coleção.

Aqui o livrinho em sotho, aqui o em macedônio.





Beth com a mãe no Grajaú, pouco antes de ela se encantar.

Monday, May 22, 2017

Crônicas Sergipanas VII ::: Grande Painel Azulejar de Jenner Augusto



A inspirada e inspiradora obra Azulejaria Contemporânea no Brasil, de Frederico Morais, divide-se em dois volumes, o primeiro tratando dos artistas e o segundo dos locais, da integração dos azulejos com a arquitetura e dos naïf (por isso citei-o já aqui, por ocasião das minhas postagens sobre os Irmãos Igejas e sobre Celino).

Com muitas páginas dedicadas ao Nordeste, faz-se justiça ao mencionar e analisar o sergipano  Jenner Augusto, se bem que apenas as suas obras realizadas na Bahia. Não se menciona seu lindo painel de 1957, típico da estética modernista / regionalista  localizado no coração de Aracaju, pertinho do Cacique Chá (aqui)

Retratando elementos da economia sergipana e no indefectível azul cobalto, o painel de 1.148 peças tem peculiar forma abaulada, ao acompanhar a esquina da parede do prédio em que está assentado.

As peças foram queimadas na cerâmica de Udo Knoff, alemão quase tão baiano quanto Pierre Verger.

A influência de Portinari é clara e benfazeja. Aliás, lembrei agora, o interior da Pampulha tem também azulejos em superfície abaulada.

Para concluir: um gaiato arrumou jeito de deixar sua mão ali, em meio aos cajus, canas e peixes. Um gaiato pós-moderno derribando a velha noção de arte de não toque! não ultrapasse!, é isso?








Saturday, May 20, 2017

Cerveja FORA TEMER ( e muito mais )



O dever cívico pedia uma FORA TEMER gelada e aqui dois esclarecimentos. Existe uma cervejaria de nome Leopoldina, cuja IPA provei em Beagá semana passada, mas ao contrário do que possa parecer -- o nome e o local onde a tomei --, não é da cidade mineira de Augusto dos Anjos, mas de Porto Alegre. O segundo esclarecimento é que há uma FORA TEMER de um assentamento no Paraná, mas eu queria a FORA TEMER da cervejaria Leopoldina do subúrbio carioca de Riachuelo e para lá fui de mala, cuia e sedes.

Chegando lá, descobri que se tratava não de uma, mas de duas cervejarias ao mesmo tempo: o Diogo toca a Leopoldina e a sua mulher Leinimar, a Cerveja da Mulher Guerreira, Artesanal e Feminista. Diogo, para 'piorar' estava brassando na hora em que cheguei.

A dois passos do paraíso, como há muitos anos cantou meu xará.

Bebi da FORA TEMER que, em que pese a carbonatação excessiva, revelou-se, dadas as circunstâncias, a melhor alternativa do Brasil.

Depois provei a Maria Fumaça, uma rauchbier muito equilibrada. Diogo quer vê-la sendo bebida em churrascos, ou seja, uma rauch sem extremismos. Acertou.

E depois bebi uma alt, a grande surpresa da manhã (opa! começo da tarde). Porque a cerveja que farei para o Dante será uma alt, cerveja 'altista', com o algum incômodo que isso possa gerar. Eu nunquinha que tinha provado uma alt artesanal brasuca e ver que é possível, e tão pertinho de mim e do Dante (menos de 10 reais o Uber) me deixou comovido como o diabo.

Ah, e no meio disso tudo, literalmente no meio, no meio da Leinimar e do Digo, da Leopoldina e da Mulher Guerreira, passeando no meio das minhas pernas, tinha o Francisco, o piá mais lindo tomando o pote de sorvete e fazendo fotos comigo.