Friday, September 30, 2016

Poesia Visual de Tango




Gostei muito do texto em que Siddhartha Mukherjee discorre sobre a persistência da esquizofrenia em sua família, fiquei triste (porém gostando muito do texto) com a volta  dos confrontos em Moçambique e furioso com o perfil do presidenciável bolsomerda (blergh). A capa, retratando um Michel chegando em casa e sendo idilicamente recebido pela família perfeita, o que inclui, óbvio, a recatada do lar, é perfeita. Mas o que mais gostei mesmo na edição de setembro da Piauí foram os cartuns sutis em preto-e-branco espalhados ao longo da edição.

Essa história de espraiar os cartuns pelas páginas nos faz lembrar as impagáveis 'marginais' que Aragonés fazia para a Mad. O cartunista aqui atende por Tango, nome artístico do chinês Gao Youjun.

Talvez a melhor palavra para definir seu trabalho seja wit, tão Wilde. Há grande ternura aqui, mas também sarcasmo, poesia, sonhos e solidão. Enxergar o que estava ali, escondido. Isso também traz à mente o chapéu do Pequeno Príncipe, que era, em verdade, jiboia a fazer digestão.

Mais do seu trabalho pode ser conferido aqui.











Thursday, September 29, 2016

L’arte dei poveri fa paura ai generali



Em 1969 o MASP montou "A Mão do Povo Brasileiro", exposição que incomodou tanto que foi fechada pelos milicos, suscitando artigo do arquiteto Bruno Zevi intitulado “L’arte dei poveri fa paura ai generali”.

Idealizada por Lina Bo Bardi, Pietro Maria Bardi e Glauber Rocha, era a primeira exposição temporária do museu na Avenida Paulista e incluía carrancas, ex-votos, tecidos, roupas, móveis, ferramentas, utensílios, maquinários, instrumentos musicais, adornos, brinquedos, objetos religiosos, pinturas e esculturas. Valorizava o que sempre ficou de fora do espaço sacrossanto do museu. 

Foi fechada pelos militares.

L’arte dei poveri fa paura ai generali.

Nestes tempos temerários de fundamentalismo religioso e de viúvas da ditadura, visitar a reconstrução ora feita é mais que um deleite para os olhos, é um ato político.










Wednesday, September 28, 2016

El Rinconcito Peruano e meu Psycho Sour



O chef e chefe do Rinconcito Peruano, Edgard Villar, experimentou na pele o preparo da polícia paulista quando esta recolheu todo o artesanato que ele vendia na 25 de Março. É aquela história, gente, um helicóptero cheio de coca a gente deixa passar, mas umas bonequinhas de pano, jamás! Bem, talvez a polícia estivesse agindo em legítima defesa, como em Carandiru.

Sem nada em seus bolsilhos, Edgard virou marmiteiro e, depois de muita ralação, abriu o Rinconcito Peruano. O nome soa estranho? Mas quem não se lembra do 'Rincão Gaúcho'? É por aí.

Fica em rua de nome lindo, numa zona complicada de São Paulo: a Rua da Aurora. Mário morou quase a vida toda ali e, lembrem-se, no número 100 está o Bar Léo então dá para tomar uns chopes antes.

Não cheguei a escrever em nenhuma das Crónicas Chilenas, mas nosso preferido da culinária chilena foram os restaurantes peruanos. Longe. Aqui no Rio já visitei algumas vezes o Intihuasi, de que gosto muito, mas não amo. Em Sampa, já estivéramos no La Mar, bonito, bom e caro. O Rinconcito não é propriamente bonito, mas é ótimo e não é caro. Isso o torna lindo. Não tem tacu-tacu, mas tem ceviches muy bien servidos e deliciosos. O leite de tigre é do outro mundo e o pisco sour não deve nada aos inesquecíveis chilenos / peruanos. É tão bom que se chama 'psico souer' num erro evidente de digitação que torna tudo mais gostoso.








PS: O endereço visitado parece ser o da matriz. Já está cheio de filial, inclusive na própria Aurora! Oxalá a qualidade não se perca.

PS 2: Trilha-sonora: Los Jaivas e, claro, Psycho Killer!





Tuesday, September 27, 2016

O Painel de Vitrais do MAB-SP :: Fogueira a arder no dia findo



O dia já estava mais que ganho. Duas belíssimas exposições no MASP (Portinari Popular e a emblemática A Mão do Povo), além de uma passada pelas pérolas do acervo, onde há quatro Modiglianis. Um almoço em um peruano com preços de povo peruano, leite de tigre e pisco sour ótimos.

O já estava ganho, podia baixar a coisa fria, também chamada noite, mas eu quis ainda visitar Higienópolis, onde jamais estivera, atrás de um mosaico de pastilhas. Encontrei, gostei, depois posto.

Dia, portanto, ganho, repito. Gastei meu dia, nele me perdi. As árvores lá fora se meditam e a recém-chegada primavera é quente em mim, que a estou berçando.

E eis que encontro, sempre por acaso, o MAB, o Museu de Arte Brasileira, e nele o salão de entrada mais bonito que há dentre todos os museus visitados.

Este blog fala de painéis de azulejos, trata de painéis de mosaicos, e aqui era um painel, imenso painel de vitrais, onde já se viu isso.

São 230 m² na escadaria, com 216 quadros de 103 X 103 cm, dos quais 56 são vitrais artísticos entremeados por vidros leitosos com pintura de “cipós” feitos por Cláudia Andujar, artista naturalizada brasileira, autora também do painel da claraboia. Alguns destes 56 são assinados. Um Carybé ali, um Poty aqui, um Portinari perto da Tarsila.

E de lá saí vagaroso, de mãos pensas e coração radiante. Aquele painel, uma fogueira a arder no dia findo.





O teto



Aldemir Martins


Fulvio Pennacchi
Noêmia Mourão

Tarsila do Amaral

Portinari

Carybé
Poty

Bruno Giorgi




video

Monday, September 26, 2016

Portinari Popular :: Os Pés


Dialogando com a linda "A Mão do Povo Brasileiro", o MASP monta "Portinari Popular", imperdível antologia do mestre de Brodowski, de que o museu possui 18 obras em seu acervo. Esta é, aliás, a 12a exposição de Cândido no MASP desde 1948.

Portinari pintou muitos retratos da elite brasileira. Encomendavam, pagavam, ele fazia. Aqui não há nenhum. Há o do Mário de Andrade, mas Mário não é elite, ao menos não naquela acepção feia de grupo arrogante que não quer ter nada a ver com nossa gente.

Citando o texto de apresentação : "Por que Portinari popular hoje? Ainda padecemos de uma representação precária e preconceituosa dos sujeitos e das culturas africanas, indígenas e populares na mídia, na política, na sociedade e também na arte. É preciso aprofundar a reflexão sobre essas estratégias de representação, algo que a obra do artista antecipa, daí sua urgência e relevância."

Eu me emocionei muito, e bem antes de chegar aos Retirantes.

Aqui me foquei nos pés.












Beco do Batman



Havia um sabiá insistente e melancólico cujo canto nos acompanhou por todo o percurso e voltou agora quando abri as fotos, misturando-se ao seu primo carioca que ora canta aqui por sobre meu ombro

Havia muita muita cor muitos estilos muitos temas muitos bichos os olhos crianças recém-chegadas à festa sem saber pra onde correr

Os grafites soberbos bem-humorados políticos críticos oníricos : no chão nas paredes no ar no gorjeio melancólico do sabiá confuso que quer pousar na palmeira pintada na parede. E às vezes consegue


Beco paraíso, valparaíso da arte urbana, aonde se deve voltar para sempre ver coisas novas: o grafite que não estava na última visita e o que estava

E ficam martelando na cabeça os atentados que o governo golpista e ilegítimo quer promover contra a arte