Sunday, December 30, 2012

Nós, Aliás



Ambos dotados de memórias prodigiosas
de causar inveja às velhas aliás
sentamo-nos para inventariar nossos trinta anos.
Se a sessão assume às vezes tons de disputa
será disputa de frescobol sem vencedores
ou vencidos: um pega a bolinha caída
e a devolve com novas lembranças
assim completando o mosaico.

A única.
A única dúvida que não se resolve
da única
da única vez EM QUE NÓS
é: afinal
afinal de onde saímos naquela noite de lua sobre a Igreja de São José?

Digo que foi do Bar Luiz.
Teimas que do Bar Urich.

Saturday, December 29, 2012

OS VELLOS non deben de namorarse



Trouxe Os vellos non deben de namorarse de Santiago de Compostela, para onde eu fora estudar galego, de que me tornei eterno defensor.

À época estudante de Psicologia da UERJ, emprestei-o a uma tal de Adriana, com quem tinha afinidades literárias e musicais. Ela tocava violoncelo e na certa eu quis impressioná-la.

Me dei mal: ela não só nunca devolveu o livro como teve a audácia de vendê-lo. Pelo menos assim, numa interpretação perfunctória, o parece.

Minha querida ex-aluna Letícia, aquela para quem cometi este soneto, comprou-o no sebo da Letras da UFRJ e ora me devolve, em mãos, passados 24 anos, 2 meses e 27 dias. Letícia sequer nascida quando a trapalhada se deu.

Os vellos non deben de namorarse, peça do Alfonso Castelao, grande autor e genial desenhista galego que em galego escreveu e desenhou. Emprestei-a jovem e recebo-a velho.

Quero dizer, vello é o cacete, que o que mais faço é enamorar-me. Os xóvenes é que non deben prestar os libros.

Friday, December 28, 2012

O Coro dos Anjos. E a Minha Vó.



Eu tinha grandes dificuldades de levar minha vó à ópera. Em verdade, nunca consegui. As poucas vezes em que fomos juntos (uma Aida, um Rigoletto) não foi porque eu a tivesse convidado, eu é quem estava sendo levado. Porque a partir do momento em que decidi tomar a iniciativa e a convidava, a réplica era sempre a mesma: "Ah, não, é muito triste!...". Ao que não adiantava eu insistir: "Mas é bonito, vó!".

Sempre me lembro, e às vezes conto, dessa história quando trabalho algum texto ou alguma canção que seja, digamos, "triste". Há sempre quem torça o nariz, e muito. Como se não houvesse beleza na "tristeza". E como se literatura, arte, tivesse que ser disneylândia ou paulo coelho. Uso aspas em "triste" e "tristeza" porque nem vejo tristeza aí. Triste é música medíocre, é texto idiota.

Exemplo clássico é "Paul's Case", da Willa Cather. Todo o conto, mas sobretudo a cena final do suicídio. E tantas vezes parecia que eu era o único na sala a cada vez achar aquilo lindo, a cada vez me emocionar. Muitos alunos torciam narizes e bocas e eu só não ficava zangado porque me lembrava da minha vó.

Que estava longe, não será difícil imaginar, de ser grande conhecedora de ópera ou música em geral. Mas ela me falava de uma ópera pouco conhecida entre nós, o Mefistofele, do Boito, e seus olhinhos se enchiam d'água quando dizia Ah, o Coro dos Anjos!....

Vim a conhecer enfim esses anjos em 1993. Toquei para ela, que, claro, se desmanchou.

Há, de fato, dois coros dos anjos no prólogo (que, logicamente, se passa no céu). O primeiro é apenas a Falangi Celesti ("apenas"), enquanto no segundo temos a Falangi, os Penitenti e os Cherubini. Imaginem ensaiar tudo isso.

Achar no youtube não é muito fácil, pois o que geralmente aparece é a "Ave Signor" do Mefistofele, ele mesmo, o anjo caído, a debochar do que os anjos tinham cantado.

O que ora posto é a versão que tenho.

Música, er, celestial. Daquelas de se  enfiar numa sonda e mandar para o espaço ou enterrar numa cápsula para que resista aos apocalipses.



PS: O menino da foto não é o Dante. Não deu tempo.

Thursday, December 27, 2012

A Flauta na Cena Progressiva Italiana



Em almoço recente com o Eric Licen no Evandro's, o melhor pastel de lagosta do Cachambi, este (o Eric, não o Evandro's nem o Cachambi) me reclama que eu quase não escrevo mais de música por aqui, só poesia, poesia, poesia.

Ora, como o Eric é meu paulista dileto e como ele veio de Sampa prestigiar o lançamento dos meus livros, direi que as estatísticas estão erradas, ele tem razão e daí este post aqui.

O rock progressivo italiano dos anos 70, sabemos bem, é pródigo em flautas memoráveis. Se dos três grandes, só o Premiata com Mauro Pagani, no resto da enorme cena pense num Jumbo, num Delirium, num Celeste, nun Biglietto e molti, molti altre.

Mas como sou um apaixonado de nariz empinado, nesta mini-antologia cito três temas lindos bastante obscuros para a flauta do prog italiano.

São eles:

1) La Casa del Vento - Le Mani
2) Il Vento ha Cantato - Franchi Giorgetti Talalamo, disco de que tratei aqui.
3) Serenesse - de Alan Sorrenti, de quem já escrevi aqui também. Neste último a flauta é... David Jackson (VdGG)...

Tem algum flautista por aí? Poderia me dar de presente isto assim ao vivo, hein?

Lembrando que meu niver é amanhã.



Saturday, December 22, 2012

A Primavera se foi, não sem pena


Não sem pena vejo que a primavera se foi.

Tá, sei que aqui no hemisfério sul não temos isso assim tão definido, Vivaldi não teria feito o que fez tivesse ele vivido no Rio de Janeiro.

Mas por outro lado temos cigarras e parece que gritam mais forte e precoces.

Queria que essa primavera, que me trouxe tantas coisas boas, durasse mais. Retê-la nos dentes.

Mas o verão chegou nesta canção com o Dante e nada posso senão amar.

Seguem então duas músicas: "Primavera nos Dentes" (toda ela em decassílabos) e "Dante", do Tir na Nog, que fala da chegada do verão.

A tradução é da Pampi.


 


 
 
O verão veio de algum lugar
Ele estava em todo o país
A terra era boa e quente na mão
O pastorinho teve uma visão linda, linda
Em noites estreladas os carneirinhos gordinhos saltitavam

Porque o verão veio de algum lugar
Agora já fez seu caminho
Dante ama o sol de verão.

Árvores e montanhas, Um espetáculo lindo, lindo
Dante volta para casa novamente com as bochechas rosadas durante a canção da tarde
ele não vai deixar os carneirinhos sozinhos

Porque o verão veio de algum lugar
Agora já fez o seu caminho
Dante ama o sol de verão.

Wednesday, December 19, 2012

Voo sem Pássaro e Caderno de Sonetos (ou Bartleby, Goodbye)



Óbvia e merecidamente a personagem mais conhecida de Herman Melville é Moby Dick, seguida talvez pelo seu algoz Capitão Ahab. Mas não nos esqueçamos de Bartebly, aquele escrivão em um escritório de Wall Street que, ao monocordicamente repetir "I'd prefer not to", desestrutura seu chefe e todo o trabalho do escritório. E todos nós leitores.

Bartleby é a peça da engrenagem que se recusa a sê-lo. Bartleby é a desobediência civil de Thoreau e a ahimsa de Gandhi. Bartleby é a revolução silenciosa, é o espelho, a chance do espelho, à nossa frente.

O escritor catalão Enrique Vila-Matas viu na recusa do escrivão uma "pulsão negativa ou a atração pelo nada" e, por antonomásia, diagnosticou uma "Síndrome de Bartebly". Seriam bartlebies aqueles escritores que não escrevem ou, mais bartlebysianamente, escrevem um ou ou dois livros para depois renunciar à escrita.

J.D. Salinger será porventura o caso mais conhecido. Entre nós, citaria Raduan Nassar.

Também eu fui um bartleby e dizia isso aos meus alunos já lá para o fim da interpretação do texto. Tendo publicado Taipa em 1994, os anos passavam e o pequeno volume da Editora Mundo Manual continuava filho único. Não havia glória aqui, mas tampouco demérito. Menos ainda comparava-me a Salinger e Nassar. Leitor voraz, não sou sem noção para essas coisas.

Mas...Bartleby, meu irmão, ainda te chamo assim, I will love you forever, mas saí do clube, tá? Eis que 18 anos depois Taipa ganha dois irmãos. Gêmeos. Voo Sem Pássaro e Caderno de Sonetos sairão pela Editora Laphroaig e virão a público amanhã na Livraria Al-Farabi.


Sunday, December 16, 2012

Jehan Alain: Litanies ou Plágio do Renaissance?



Seria no mínimo de mau gosto levantar qualquer suspeita contra o Renaissance, não transcorrido nem um mês do passamento do Michael Dunford.

Não se trata disso. Este é um post antigo, estava nos rascunhos há pouco mais de ano e como vivi circunstância que me fez revisitá-lo, resolvo terminá-lo e publicá-lo.

Janeiro de 2005. Estava eu em um recital de órgão na fabulosa catedral de Strassbourg (sim, aquela que muda de cor e, sim!, aquela imortalizada pela linda música do Focus, com direito a repicar de sinos) quando... de repente... lá para o meio da aprersentação, epa, espera, eu conheço isso! CONHEÇO ISSO, MON DIEU, DE ONDE? Sabe aquela sensação absolutamente torturante de que se tenta lembra que música é e não se consegue? O programa, todo clássico, me informava: "Litanies", de Jehan Alain. Ora, mas nunca tinha ouvido falar nesse sujeito. A música continua, gloriosa, e eu descabelando-me a alma, a vendida e a por vender quando: HA! ISSO É RENAISSANCE!!!!

Dias depois, back in Paris, encontro um CD duplo com a integral para órgão do Jehan Alain. Em casa, a prova dos 9. Pego os Cds do Renaissance, leio encartes de cima abaixo, reviro capas e nada, nem uma referenciazinha....

E aí, plágio? Citação? Intertextualidade? Diálogo? Apropriação?

Não dá para fazer isso com Bach, Brahms, Beethoven, são conhecidos demais, mas um obscuro compositor francês morto na flor da idade na Segunda Guerra...

Tampouco dá para dizer que "não tem nada a ver". Ou, pior, que foi coincidência.







Quem acordar primeiro chama o outro




QUEM ACORDAR PRIMEIRO CHAMA O OUTRO

Quem acordar primeiro chama o outro
eterna senha dos meninos quando
se dormiam pelas casas dos amigos
tão grande a ânsia de nada perder
do dia que infinito se abriria.

Quem acordar primeiro beija o outro
fazemos nosso trato ao sucumbir
exauridos deste primeiro round
(eterna sanha de nós dois meninos)
para que logo o enlace reinicie
exatamente ali onde paramos
o voo deslumbrado em precipício

tão grande a ânsia de nada perder
desta noite infinita que nos veste.

Saturday, December 15, 2012

As Cartas Eróticas de James Joyce



Há exatos 112 anos James Joyce escrevia mais uma de suas cartas eróticas para Nora. Dizer erótico é eufêmico, suas cartas são desabridamente pornográficas, oh docemente pornográficas.

Reparem que a carta faz referências a cartas passadas, estas sim!, ainda mais "sujas".

Não há sujeira aqui, apenas traduzi um termo do inglês.

Não há sujeira aqui, mas Jim bem teve que lavar as mãos ao fim da escrita.

E não peçam que traduza nada, que ando em fase muito pudica.


To NORA


Dublin 15 December 1909

………………………………………….

No letter! Now I am sure my girlie is offended at my filthy words. Are you offended, dear, as what I said about your drawers? That is all nonsense, darling. I know they are spotless as your hearth. I know I could lick them all over, frills, legs and bottom. Only I love in my dirty way to think that in a certain part they are soiled. It is all nonsense, too, dear, about buggering you. It is only the dirty sound of the word I like, the idea of a shy beautiful young girl like Nora pulling up her clothes behind and revealing her sweet white girlish drawers in order to excite the dirty fellow she is so fond of; and then letting him stick his dirty red lumpy pole in through the split of her drawers and up up up in the darling little hole between her plump fresh buttocks.

Darling, I came off just now in my trousers so that I am utterly played out. I cannot go to the G.P.O. though I have three letters to post.

To bed - to bed!

Goodnight, Nora mia!

JIM

Wednesday, December 12, 2012

While My Sitar Gently Weeps pt. 2



Agora para realmente chorar a água de uns três cocos....

O álbum Chants of India é de 1997 e foi produzido pelo George.

O vídeo de "Prabhujee" começa com foto clichê da Índia, mas depois tem uma monte de foto linda do George. E a música me faz pensar o que ainda faço neste calor do Rio de 12 do 12 de 2012.

Em Goa faz calor também. Mas lá tem monção.

Vamos viver de monção, Anarina.


While My Sitar Gently Weeps



Ontem Ravi Shankar partiu, aos 92 anos. Foi se encontrar com George e ouvir histórias diretamente da boca infinita de Ganesha.

Para os que ficamos, seu legado é imenso. A visão que um músico indiano clássico teve ao aproximar-se dos Beatles, ao dar aulas de cítara ao George. A visão que teve para logo depois viajar para o Ocidente onde faria dueto com o violinista Yehudi Menuhin e, mais tarde, compor concerto para a London Symphony.

E ele estava apenas começando.

Arrisco dizer que este é um dos legados de todo aquele movimento mágico da segunda metade dos anos 60. O lado que deu certo.

Dois vídeos absolutamente geniais: o mestre em Woodstock e uma lição de cítara para o George.




Apelidos Inventamos




APELIDOS  INVENTAMOS


Para nós inventamos apelidos
ao achar pouco o que nos deu a vida.
Tu crias sempre mais e sempre ávida
teces anagramas, diminutivos

e do apelido jorram apelidos.
Temos mil nomes e mil nomes somos
(É pouco ainda, apenas começamos)
como se fossem infindas mitoses

vida em primavera brotando ramos.
Mas para que eu ria, para que tu gozes
seja tudo segredo de oráculo

interdito a este mundo de espetáculos.
Deles falo, a ele louvo mas, perverso,
não os revelo no final de um verso.

Sunday, December 09, 2012

Viagem, de Cecília



Não tenho nenhuma edição autógrafa da Cecília, mas esta primeira edição do seu primeiro livro (Editoral Império, uma editora portuguesa, de 1939) é um tesouro. Seu lindo ex-libris ("Como uma cegonha que sonha, que sonha e sonha"), a precisa dedicatória: "A meus amigos portuguêses", que me inspirou "Aos meus amigos goeses" da minha tese.

Cecília diz a que veio. Neste Viagem figuram três de seus poemas fundamentais: "Motivo", "Estirpe" e "Destino",

O primeiro é, creio, o seu mais conhecido. Merecidamente. Cecília pura: simples e exato, asa de borboleta e força.

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

O segundo, em versos livres, trata do alheamento do eu-lírico, um dos seus motivos mais caros.

Os mendigos maiores não dizem mais, nem fazem nada.
Sabem que é inútil e exaustivo. Deixam-se estar. Deixam-se estar.
Deixam-se estar ao sol e à chuva, com o mesmo ar de completa coragem,
longe do corpo que fica em qualquer lugar.
(...)
Ah! os mendigos maiores são um povo que se vai convertendo em pedra.
Esse povo é que é o meu.

¨**************************************************

Nunca me foi difícil enxergar nessa tribo apátrida os próprios poetas.

"Destino" lança mão de um metro pouquissimamente empregue entre nós: onze sílabas (hendecassílabos ou de arte maior).  Só me lembro do Fagundes Varela fazendo isso. Onze sílabas, com o acento caindo na 2a, 5a, 8a e, claro, 11a.

O efeito é espetacular.

Como em "Motivo", também aqui a quebra de metro: depois dos versos tão longos, o dissílabo "Eu, não".

O efeito é espetacular.

Pastora de nuvens, fui posta a serviço
por uma campina tão desamparada
que não principia nem também termina,
e onde nunca é noite e nunca madrugada.

(Pastores da terra, vós tendes sossego,
que olhais para o sol e encontrais direção.
Sabeis quando é tarde, sabeis quando é cedo.
Eu, não.)

(...)

Pastora de nuvens, com a face deserta,
sigo atrás de formas com feitios falsos,
queimando vigílias na planície eterna
que gira debaixo dos meus pés descalços.

(Pastores da terra, tereis um salário,
e andará por bailes vosso coração.
Dormireis um dia como pedras suaves.
Eu, não.)

Friday, December 07, 2012

Soundgarden e o Elefante

 
 
É de todo lamentável que uma das mais absurdas canções do Soundgarden tenha sido interpretada como um bilhete (de) suicida. Eu, que defendo todas as interpretações. Acho isso.

"The Day I Tried to Live" é o próprio Elefante do Dummond, um dos poemas mais belos jamais escritos.

O elefante termina destroçado e (não usarei 'mas') conclui: "Amanhã recomeço".

O I da canção de Chris é impiedoso ao lembrar que " The day I tried to live \ I wallowed in the blood and mud with \ All the other pigs", mas o refrão, afinal, é: "One time around \ Might do it."

Joga no google translator: One time around might do it = Amanhã recomeço.


O post não ficou grande coisa.

Amanhã recomeço.

THE DAY I TRIED TO LIVE

I woke the same as any other day
Except a voice was in my head
It said seize the day, pull the trigger, drop the blade
And watch the rolling heads

The day I tried to live
I stole a thousand beggar's change
And gave it to the rich
The day I tried to win
I dangled from the power lines
And let the martyrs stretch
Singing

One more time around
Might do it
One more time around
Might make it
One more time around
Might do it
One more time around
The day I tried to live

Words you say never seem
To live up to the ones
Inside your head
The lives we make
Never seem to ever get us anywhere
But dead

The day I tried to live
I wallowed in the blood and mud with
All the other pigs

I woke the same as any other day you know
I should have stayed in bed

The day I tried to live
I wallowed in the blood and mud with
All the other pigs

And I learned that I was a liar
Just like you

Trecho final do Drummond:

E já tarde da noite
volta meu elefante,
mas volta fatigado,
as patas vacilantes
se desmancham no pó.
Ele não encontrou
o de que carecia,
o de que carecemos,
eu e meu elefante,
em que amo disfarçar-me.
Exausto de pesquisa,
caiu-lhe o vasto engenho
como simples papel.
A cola se dissolve
e todo o seu conteúdo
de perdão, de carícia,
de pluma, de algodão,
jorra sobre o tapete,
qual mito desmontado.
Amanhã recomeço.

Thursday, December 06, 2012

O Amor na Ópera-Rock



De maneira que não será possível qualquer estudo sério sobre as óperas-rock sem levar em conta a temática do amor de tal modo este sentimento esquisito surge em canções tão maravilhosas.

Na segunda ópera-rock do The Who, Quadrophenia (1973), muito melhor que a primeira e mais badalada Tommy, "Love reigns o'er me" fecha toda a história e, God, que fechamento. Ela vem mesmo depois de mais um interlúdio instrumental, "The Rock", que faz às vezes de conclusão clássica ao recapitular trechos do álbum, os quatro trechos que representavam as quatro facetas da persoanlidade de Jimmy e, de certo modo, os quatro membros do The Who. Ou seja, os acordes iniciais da música vêm depois do fim.

Épica, grandiosa, transbordante, "Love reigns o'ever me" mostra-nos um Jimmy já completamente frustrado e derrotado. Restou-lhe a chuva. E o sentimento esquisito, ouso afirmar. A ambiguidade da homofonia aqui é tão óbvia quanto verdadeira e bela: love reigns, love rains. love, reign!, love, rain!.



Foi preciso que 21 anos se passassem para que outra obra-prima tematizasse o sentimento esquisito, e agora falamos do Brave, do Marillion. Pobre Marillion, too mainstream to be progressive, too progressive to be mainstream. Água. Marillion é o que é, nasceu influência cuspida e logo estava cuspindo influência para todo lado. Brave é repleto de musicão, daquelas de encher estádio e, portanto, fazer torcer o nariz de tanto proghead.

Canção definitiva sobre o esquisito sentimento ("It makes you desperate and it makes you dream / It makes you dangerous and it makes you scream / But it's all worthwhile / Just lie back and smile"), "Hard as Love" surge quando a jovem encontrada pela polícia à beira de pular da ponte discorre sobre suas experiências amorosas fracassadas, seja com namorados seja na família. Não fica claro se ela se dirige aos policias (como claramente antes, em "Standing in the Swing": "I appreciate your concern / But don't waste your time on me").



E vieram mais oito anos para que a nova onda de prog, já gloriosa e defininivamente instalada, e ainda em plena pulsação, produzisse Snow do Spock's Beard. Aqui, mais uma vez: o êxtase, bliss, celebração. Walt Whitman lido de cima de uma mesa.  Snow, que podia ver o interior das pessoas, apaixona-se perdidamente por mulher que o despreza. E, claro, isso ele não pode ver. "Open wide the flood gates / And let love take your soul / Open wide the flood gates / 'Til there's so much you overflow". O amor rebenta as fronteiras e os diques e as represas. To hear with ears wide open. To feel with skin wide open.






(Só está aqui a parte 1. Fico devendo a segunda. A passagem de uma à outra é soberba)

Wednesday, December 05, 2012

Sangremos Juntos, com Soundgarden



Nirvana, Alice in Chains e Mudhoney me perdoem. Mesmo Pearl Jam, do belo e carismático Eddie Vedder, me desculpe, porque minha banda favorita daquela cena grunge de Seattle foi e sempre será o Soundgarden.

O grupo de Chris Cornell lançou álbuns seminais na primeira metade dos 90 até culminar com a obra-prima Superunknown. Depois, como poucos, souberam a hora de parar.

Tanta música para destacar, mas fico exatamente com a última de uma coletânea (eu, que as repudio), que jamais saíra em disco.

O extremo senso de urgência que a tinge somado à pungência das letras faz dela uma obra-prima do grunge existencial. E essencial. E Chris pode gritar do alto de seus pulmões, mas sempre melodicamente.

Funny thing: ouvi muito esta música em algumas fossas lá pelos idos de 2000. Hoje a reouvi, várias vezes já, e foi como esbarrar com velho amigo na rua e naturalmente retomar a conversa onde a havíamos deixado.



I know you're half awake

And no hate and I know how to do it
Hold the door and let it out
Don't get it right or wrong
No I don't get it

I know you're half afraid
Half amazed, all insane
I know it's all a cage
And all the rage
And all together gone

You and me we're average
With simple minds and lungs, eyes and skin
You and me we're hopeless
We're nowhere hearts so tear it out
And open it

I'm giving blood tonight
I don't care how, don't care why
I'm giving blood tonight
I'm feeling just like I could give it all


[Chorus]
I know you're sick and alone
Mothers and suckers alike
We can bleed together

Show me and hand me down
And hang me up alone and cold and bury me
Show me and throw me out
And hold me down, air me out
And wear me

I know you're half afraid
Half amazed, all insane
I know it's all a cage
And all the rage
And all together gone

So altogether cold
Too altogether numb

I know you're sick and alone
I know you're sick and alone

Come away and come with me
And come around and come and see
And cover up and come along
Before race before the calm
And he walks out and fires the gun
Happy with the things he won
The head of God on the wall
Ahead of us the heads of us

Sunday, December 02, 2012

Amor é Privilégio


 

AMOR É PRIVILÉGIO

Amor é privilégio de maduros
Carlos

Para a menina.


Amor é privilégio de quem ama
e com amor constrói secreta ciência.
Amor é privilégio dos devassos
amor é privilégio da inocência.

Amor é privilégio dos insones
que cismam cuidados pela noite adentro.
Amor é o nome da palavra fome
e é a sede que não se dessedenta.

Insone e boêmio, amor começa cedo
na madrugada dos corpos que se atam
e segredam segredos que se calam.

Pelas ânsias e gozos, pelos medos,
pelos incêndios, ternuras, desatinos
amor é privilégio de meninos.


Friday, November 30, 2012

O Marido da Cabelereira



Não bastasse ser O Marido da Cabelereira (1990) o mais bonito filme de Patrice Leconte e um dos mais belos da história do cinema, a trilha é ainda do Michael Nyman. Covardia, não? E nem é só o Mike, é ele e música árabe da melhor qualidade.

Lembro-me de quando estive na Tunísia. Ao pisar os pés em casa, antes mesmo de fechar a porta ou examinar os whiskies adquiridos no freeshop, tive que colocar uma dessas músicas árabes para tocar (no caso, "Wadana").

A cabelereira (Anna Galienna) é linda, doce e sensual. Mas impagável mesmo é o seu marido (Jean Rochefort). E ele enquanto menino.

A dobradinha Leconte-Nyman começara no ano anterior, com o também perturbador Monsieur Hire. Infelizmente a trilha deste jamais foi lançada. E infelizmente a colaboração entre os dois resume-se, até onde sei, a estes dois filmes.

Ah morrer assim, nos auges do amor de modo a  fugir à ferrugem...





Thursday, November 29, 2012

A última da tribo



A ÚLTIMA DA TRIBO

Com o que então te dizes  surpresa ao ouvir tua voz gravada. Uma voz de criança, estranhamento.

Uma experiência: tocaram certa vez para uma índia velha, última sobrevivente da tribo, sua própria voz gravada.
Sua própria voz de língua que com ela desapareceria para sempre.
A velha índia há anos já não tinha com quem conversar. Ao menos na língua da tribo.
A índia velha dá saltos, grita, ri, chora, vocifera, voz e fera, acalma-se, ouve.

Ah minha índia velha linda cuja voz me alimenta noites e dias, também eu me espanto ao te ouvir.
És também a última da tribo?
Cansei de bancar o antropólogo, outside looking in,
me deixa passar para o outro lado, o teu lado, fazer a travessia,
para nunca mais voltar.
Me deixa ser o Lance de Apocalypse Now,
pintar minha cara, dar as costas para tudo.
Me deixa ficar ao lado da tua voz.

Fermentemos nosso cauim.

Wednesday, November 28, 2012

Gambá Gamboa




GAMBÁ GAMBOA

Agora tem televisão no meu ônibus Charitas-Gávea-Charitas e, embora eu seja inimigo declarado de televisão há pelo menos 44 anos, e ainda que eu francamente prefira, seja ida ou volta, dormir, ler, ouvir música, corrigir testes ou simplesmente contemplar paisagens e gentes que se descortinam ante minhas retinas fatigadas, televisão tem algo de hipnótico e não raro meus olhos caem sobre a tela.

Menos mal que não é televisão aberta, normal, mas uma tal de bustv. Veja, só, segmentação é isso aí.

Vira e mexe aparecem matérias interessantes e tem um programa em especial que me faz cócegas: "Nosso Português é Brasileiro". Rá! Apesar do título, a abordagem do sujeito, um tal de Professor Agnaldo, é a mais fechada, prescritiva, gramaticoide possível. Estilo Pasquale.

No início da semana ele discorreu sobre o presente do subjuntivo do verbo "ser". O objetivo, claro, era espinafrar o uso do "seje", pois ele concluía afirmando "Seje não existe".

Tá bom, "seje" não existe. Mas então aquilo que muitas pessoas falam é o quê? Na boa, como se pode falar algo que não existe? Isso não dá uma aura de poder, tipo falar o nome verdadeiro de Deus oculto na Cabala?  Ou: imagino-me entrando numa loja de carros pedindo para ver um modelo. Quando o solícito vendedor perguntar qual, responto ligeiro" "Um que não existe" (Ou exista, epa!).

Mas hoje ele se superou, porque hoje ele veio ensinar a forma feminina correta de "gambá". Prescritivo como ele só, terminava "Tem gente aí que fala gamboa, mas gamboa não existe!" Caraca, então tem muita gente aí falando gamboa?!?!! Morria e não sabia! Me encantaria conhecer essas pessoas, puxar uma prosa, assuntar qualquer coisa. E Professor Agnaldo concluía: "Não digam gamboa", como quem adverte que bebida e direção não combinam ou que se use camisinha. Rárárá. E não eram nem 7 da madrugada.

Poxa, e eu tinha acabado de usar gamboa no terceto final de um soneto bobo:

e teria meu boteco na Gamboa
vestido de azulejos bisotados
e em cada um teu rosto desenhado.

Agora, depois do Professor Agnaldo, corrigindo:

e teria meu boteco na Gambá Fêmea
vestido de azulejos bisotados
e em cada um teu rosto desenhado.

PS: By the way, a história de eu entrar numa loja de carros é mero exemplo. Prefiro bustv a carros.
Assim seje.

Monday, November 26, 2012

The Virgin Suicides - A Trilha



Lost in Translation é um filme tão idiota que não tive gana alguma de assistir a Marie Antoniette ou Somewhere.

Mas The Virgin Suicides (aqui traduzido por As Virgens Suicidas, vejam que o inglês fala de coisa bem diferente...) é um filme poderoso, inesquecível, arrepiante e, sim, por que não?, lindo. Aqui, sim, Sofia Coppola revela-se filha do peixe.

Mas quero é falar da trilha.

Aqui esconde-se um dos álbuns mais recheados de mellotron de que tenho notícia. Sim, coloque-o lado a lado com o Morte Macabre, com o Spring, com o Änglagård

A trilha é do Air, que ninguém chamaria de rock progressivo, por elástico que seja o termo. Eles fazem eletrônica, ambiente. Mas se a alguém vier o clichê de "frio": sim, frio e cortante como lâmina afiada.

E há também guitarras, bateria (também não eletrônica), baixo e violão, voz.

A canção final, "Suicide Underground", com uma voz eletronicamente modificada a explicar o enredo do filme, isto é, aquelas cinco meninas reprimidas lindas que se matam - todas as cinco, é de fazer peixe pular do aquário.

(E me lembra, embora sonicamente bem distinto, Raul Cortez narrando no final da igualmete belíssima trilha de Lavoura Arcaica)



Friday, November 23, 2012

A Minha Casa de Porão Alto

A MINHA CASA DE PORÃO ALTO

A minha casa de porão alto
ardeu ontem à noite.
Minha casa de porão alto
namoro diário de longe
pela janela do ônibus.
Tanta vez pensei penetrá-la
pela frente pelos fundos
por chaminés inexistentes.
Eterna eu a cria
com sua cantaria
seus azulejos
e seu muxarabi.
E seus porões altos,
leões de chácara
postados vigilantes
porões tão altos
tão pouco porões
indignos talvez do nome.
A cria eterna
a mim enterraria.
Qual, lambeu ontem
não só a madeira das folhas
mas toda a cantaria
muxarabi
e porões altos.
O serviço das chamas
profissa dir-se-ia.

Nesta manhã um vácuo
amanhã um estacionamento
em seguida, espigão.

OU FADA VERDE (OCTETO)

 
 
OU FADA VERDE (OCTETO)

Antes de te conhecer, te perdi
mas antes de perder, juro, parti
em mil pedaços essa gema de platina
que aninhas em teus olhos de felina.

Se recorro à poesia em hora desta
é para melhor confundir o que te sinto
Chega de docinho, docinho, vem
passa ligeiro a garrafa de absinto.

Thursday, November 22, 2012

Botequins Constantemente Amanhecendo

A combinação de azulejos bicolor azul-rosa está longe de ser das mais frequentes, motivo de enorme consternação para mim e Rixa.

Quando nos pegamos com ganas de chorar sem motivos aparentes, não é depressão não senhor, que isso não pega na gente, mas é, sim, por causa dessa baixíssima ocorrência desses azulejos que ora denomino "constantemente amanhecendo".

Quem atopar com boteco assim, por favor, escreva para a minha caixa postal.

Café e Bar Almara - Praça da Bandeira

Café e Bar Tomáz Rebelo - Estácio

Café e Bar Lamas Rivera - Vasco da Gama


E o poema da Adélia:

Uma ocasião,

meu pai pintou a casa toda
de alaranjado brilhante.
Por muito tempo moramos numa casa,
como ele mesmo dizia,
constantemente amanhecendo.


Tuesday, November 20, 2012

Aaj Mera Jee Karda - Hoje Meu Coração Deseja



Quando assisti a Casamento à Indiana (tradução algo apelativa, como sempre, do tão mais bonito nome Monsoon Wedding) pela primeira vez, não gostei muito. Final de tarde no cinema da UFF. Mas saí triste porque chegaria em casa e não poderia ouvir novamente a música linda do final.

Depois reassisti ao filme, tenho o DVD inclusive, e o acho lindo. Memorável mesmo, em alguns momentos. As atuações, bem, isso aqui é Bollywood.

Tenho duas versões da trilha, uma delas comprada lá mesmo, não no Punjab, mas na minha loja de Cds favorita de Goa, a Raga and Rock.  A trilha sublinha o filme de perto: nada de clichês, nada de macumba para turista. É Índia velha em contato e conflito com a nova..Tem trechos de filmes antigos em hindi, tem gazeis urdus, e tem muita música eletrônica frenética. Eu desgosto dessa música eletrônica frenética, mas aqui no contexto fica bonito bagaray.

Como o filme é recheado de música (é casamento, gente!), tem uma penca de trilha-sonora incidental,de que tratei no posto sobre O Quarto do Filho.

E tem "Aaj Mera Jee Karda", a música do primeiro parágrafo.

O vídeo que postei não traz esse hino de alegria completo. Mas tem o mérito de mostrar, logo no início, as lindas cenas da câmera caseira de Mira Nair nas ruas de Nova Délhi. Um dos meus trechos preferidos.

Vejam como chove, vejam como chove demais.






Monday, November 19, 2012

É próprio da ferrugem


É PRÓPRIO DA FERRUGEM


Isso foi antes da ferrugem
estes sorrisos
estralando a manhã
esta música
ecoando pelos quartos
adentrando as peles.

É próprio da ferrugem primeiro devorar o ferro
É próprio da ferrugem - uma dama - primeiro bater ao portão

E logo a mansuetude dos encontros
logo todo gesto de carne torna-se
pasto para os
dentes da oxidação inexorável.

Darling, be home soon...

 
 
Li há um tempão por aí que qualquer enciclopédia de rock só poderia ser levada a sério a partir do momento em que checássemos a inclusão do Slade.

Ou seja, era perversamente ambíguo: não dava pra saber se a enciclopédia só poderia ser levada sério se incluísse ou excluísse o Slade. Assino embaixo.

Nos anos de 1981-82 ninguém - NINGUÉM - amou o Slade como eu e meu irmão, ao menos aqui no Brasil.

A banda, expert em fazer rockers hipercomerciais, teve seus Alive I e II. Ambos clássicos.

No I havia a notória "música do arroto". Pena ter ficado conhecida assim. É que os palhaços achavam que tinham que dar um toque slade à música tão linda do John Sebastian. Não o digo com rancor: a versão deles é antológica. A que posto, sem arroto, tem o uivo inicial do Noddy Holder, tão pouco John Sebastian, tão Slade.

E isso sim será um "cover".

Não é pouco: o próprio Sebastian a cantou em Woodstock. Um tal de Joe Cocker a incluiu no repertório.

A letra do John Sebastiam é linda de morrer e de doer:

(For the great relief of having you to talk to}

DARLING BE HOME SOON

Come
And talk of all the things we did today
Here
And laugh about our funny little ways
While we have a few minutes to breathe
Then I know that it's time you must leave

But darling be home soon
I couldn't bear to wait an extra minute if you dawdled
My darling be home soon
It's not just these few hours but I've been waiting since I toddled
For the great relief of having you to talk to

And now
A quarter of my life is almost past
I think I've come to see myself at last
And I see that the time spent confused
Was the time that I spent without you
And I feel myself in bloom

So darling be home soon
I couldn't bear to wait an extra minute if you dawdled
My darling be home soon
It's not just these few hours but I've been waiting since I toddled
For the great relief of having you to talk to

Darling be home soon
I couldn't bear to wait an extra minute if you dawdled
My darling be home soon
It's not just these few hours but I've been waiting since I toddled
For the great relief of having you to talk to

Go
And beat your crazy head against the sky
Try
And see beyond the houses and your eyes
It's ok to shoot the moon

So darling
My darling be home soon
I couldn't bear to wait an extra minute if you dawdled
My darling be home soon
It's not just these few hours but I've been waiting since I toddled
For the great relief of having you to talk to

Sunday, November 18, 2012

I want to tell you - Hey, George, que obra-prima



Tenho aqui um livro bonitão só sobre o George, capa dura, lançado pouco depois de seu encantamento: Harrison, by the editors of Rolling Stone.

Mais lá pro final tem um capítulo chamado "The Stories behind the Songs", em que várias de suas composições, Beatles e solo years, são analisadas e contextualizadas. Mais adiante, um outro capítulo, "25 Essential Harrison Performances", faz algo semelhante, mas com composições de John e Paul também. O foco, claro, recai sobre a participação do quiet Beatle.

Soberbos, escritos com verve e paixão (os caras são, meu português falha aqui, realmente opinionated, pro bem e pro mal), os textos, no entanto, não dão atenção a esta obra-prima e uma das minhas favoritas, e não apenas do George, nem apenas dos Beatles, nem apenas do rock, mas de toda a história da música ocidental, que atende pelo nome de "I want to tell you".

Talvez seja lamentável que ela esteja escondida como quinta faixa do lado B. Mas, convenhamos, George já conseguira não apenas emplacar a primeira do lado A ("Taxman", de que falo aqui), como, pela primeira vez, incluir três músicas em um disco dos Beatles.

Talvez esteja aqui a melhor percussão do Ringo. Tem um piano nervoso do Paul, criando uma atmosfera dissonante. Tem os quatro batendo palmas. E tem a letra maravilhosa, sublime do George. God.

Eu repito isso em momentos de júbilo ou quase: "I don't mind / I could wait forever / I've got time".

E tudo isso em 2 minutos e meio.


I WANT TO TELL YOU

I want to tell you
My head is filled with things to say
When you're here
All those words they seem to slip away

When I get near you
The games begin to drag me down
It's all right
I'll make you maybe next time around

But if I seem to act unkind
It's only me, it's not my mind
That is confusing things

I want to tell you
I feel hung up and I don't know why
I don't mind
I could wait forever, I've got time

Sometimes I wish I knew you well
Then I could speak my mind and tell you
Maybe you'd understand

I want to tell you
I feel hung up and I don't know why
I don't mind
I could wait forever, I've got time
I've got time
I've got time

Por que machucaste justamente aquele? - Marillion



Gustavo, você se lembra dos nossos tempos do Ummagumma? Teve um dia em que postei um tópico tratando do mais lindo trecho de toda a hitstória do rock progressivo (de "Epitaph", do King Crimson, de 3:58 a 5:15) e aí respondiam coisas como "Eu não acho" ou, pior, "Mas isso é subjetivo, né, Evandro?" e eu replicava aos lepdópteros que não, que era objetivo como os besourinhos dos olhos da amada.

É que há outro trecho desses, Gustavo, desta feita em "The Great Escape", do Brave, precisamente de 3:34  a 4:10. Localiza aí, é bem o momento da passagem de "Last of You" para "Fallin' from the Moon". Veja como lembra um outro momento, do final de The Wall, em que uma pena flutua pelo céu. Aquilo me confundia muito quando eu assistia ao filme no cinema e aquilo me confunde até hoje.

Então é isso, meu amigo. E não bastara a lindeza deste trecho (a orquestração, veja só, é do Darryl Way), ele está ainda entre versos tão simples e bonitos que beiram a estupidez.

O final de "The Last of You":

Why did you hurt the very one?
Why did you hurt the very one that you should have protected?

e o começo de "Fallin'":

"Don't ask me why I'm doing this
You wouldn't understand".


E, claro que você não perguntará nada. Porque você entende já. Abraço e bom domingo.

Saturday, November 17, 2012

O que veste tua voz?



O QUE VESTE TUA VOZ?


O que veste tua voz?
O que lhe empresta esses contornos
de névoa e sonho?

 O que roreja
sobre as sílabas
(paina)
que pingam sobre as sílabas
formando a substância de tua fala?
(mel e aveia)

(E em seu interior
enroscam-se outras vozes
como a polifonia
dos olhos dum gato)


Friday, November 16, 2012

O Peso Insuportável dessas Lágrimas




O PESO INSUPORTÁVEL DESSAS LÁGRIMAS

O peso insuportável dessas lágrimas
verga-te o rosto para o chão escuro.
Assim te quedas, vergado, dorido,
lágrimas: a memória dos dias idos,
carne-viva que friccionas com dedos
e com palavras, versos, as lembranças
são os ratos famintos que te invadem
quando aqui fora tudo era orgiástico
e celebratório.

Ratos famintos que tu alimentas
a ponto de tornarem-se insaciáveis.

(Assim te quedas e assim te quero:
vergado, bêbado, uma criança, mas
homem. De pé em meio aos espantalhos.)

Dino Buzzati, Mestre



Ainda que goste um bocado dos seus romances O Deserto do Tártaros e Um Amor (talvez mais absurdo, a começar pelo título, que uma fortaleza encravada no meio da nada aguardando inimigos que nunca chegarão) e embora eu goste imenso de seu infantil La famosa invasione degli orsi in Sicilia, incluindo as ilustrações do próprio, foi com as narrativas curtas que Dino Buzzati me conquistou.

E aí falamos de As Montanhas são Proibidas, As Noite Difíceis, Naquele Exato Momento. No primeiro, 25 contos; no segundo 51, no terceiro, 156 "contos". Aspas para explicar os fragmentos, anotações, parábolas, poemas em prosa. O primeiro texto de Naquele Exato Momento, por exemplo, tem apenas 7 linhas.

Textos por vezes desabridamente simbólicos, amiúde filosóficos / metafísicos, mas é raro que Dino, finíssimo observador, pese a mão.

"A Grande Faxina" é daqueles que carrego no coração para sempre. Graças a ele entendi uma coisa que eu não conseguia entender na vida.

O  SILÊNCIO  DOS  ANIMAIS

Finalmente viu-se um pouco de luz. O amanhecer. Pulei da cama e olhei para fora: bonito dia. Chamei o cachorro Gufo: "Vamos, Gufo", disse, "temos que estar às oito horas na passagem, assim a veremos quando chegar." Gufo sacudiu a cabeça, bocejando. Pusemo-nos a caminho.

À sombra de uma grande árvore, Gufo estava sentado com as patas dianteiras bem retas e fixava, com gigantesca seriedade, a estrada que subia entre os bosques. Era verão.  Ouvi-se o barulho do ônibus chegando. Depois apareceu, azul, e ao sol os cromados brilharam.

"Você a está vendo?", perguntei. Ele levantou as orelhas e não se moveu. O ônibus já estava perto. Parou na passagem. Eu já compreendera. "Vamos!", disse a Gufo. "Ela deve ter perdido o ônibus, chegará à tarde."

Já eram quatro horas. Nuvens brancas como odres estavam reunidas entre dois mil e dois mil e quinhentos metros: e o vento as impelia. Viajando assim, suas sombras corriam sobre os bosques. "Gufo, Gufo, você que sente as coisas de longe, acha que ela chegará?" O cão, imóvel, olhava os tourniquets desertos.

O último raio palpitou, sobre os picos extremos, depois se apagou. "Gufo, vamos?" O cão, que dormia, levantou-se e seguiu-me com a cabeça baixa.

Todos já tinham ido dormir. No pátio, a lâmpada suspensa oscilava um pouco ao vento, e com seu balanço, as sombras das cadeiras vazias se alongavam, encurtavam, se alongavam. "Gufo", disse, só para romper o silêncio. Pouco depois repeti: "Gufo". Ele me olhou, com os lábios caídos como festões de chocolate derretido. Parecia um bispo. "Gufo, você não diz nada?" Continuou a olhar-me, mudo. Durante todo o interminável dia, não dissera uma palavra.

Thursday, November 15, 2012

Alunos que Escrevem Haikais





Se trabalhar poesia com alunos pode ser traumático (para ambos os lados e em qualquer nível), pedir-lhes que escrevam poemas poderá sê-lo ainda mais.

Mas como não devemos ter medos de traumas e como logo na descida da ponte agora tem o INTO grandão, boto a galera para escrever haikais. Ou haiku, se preferirem.

Tema único: as amendoeiras do pátio.

Os que descem a rampa cuspindo raivas rosnando que não conseguirão são aqueles que, passados 15-20 minutos, apresentam-me 5 ou 6 haikais.

Para júblio das amendoeiras.

Pequena mostra da produção deste ano.

Hey, my bird
just come and see:
the same shy almond tree. 
(Julia F. Basho)

Poor pretty almond tree
so full of life
but not even free.
(Maria Clara Moritake)

Nothing's gonna stay
even the leaves
leave.
(Mariana Boncho)

Almond tree so quiet
talks louder than those
grey players.
(Lina Kikaku)

I saw an almond tree
crying
her last yellow tear.
(Stéphanie Onitsura)

A leaf leaps from the upper branch.
Another follows.
Romeo and Juliet.
(Doravne Fujiro Nakombi)

Outcoming newborn light
burst its colours
learning to fly.
(Isadora B. Yayu)

Almond tree
not only one
but three.
(Lucas Nuwanda Buson)

Almond tree
(Excuse me,
I need to pee)
(Amanda Taigu)

Under the almond tree
feeling lost
just you and me
(Julia A. Issa)

As I watch you getting green
Autumn whispers:
we meet again soon.
(Rafaella Shiki)

Green and so full of life
Will you help me
in this hard part of my time?
(Francisco Kyoshi)

Another summer, but still long I can tell
for you to be fallen cold and dead
Oh Almonds! My Almonds! Rise and feel their smell.
(Felipe Sokotsu)

I am like this almond tree
full of life
when you are with me.
(Izabelle Santoka)

The yellow we hardly see
the green came to me
Summer, have you arrived?
(Camila Hosai)

Almond tree, I like your shadows
just like your almonds
fresh.
(João Victor Seisensui)

Free fallin'
the almonds
so far.
(Thiago Soseki)

Generally we can see
but as strike stroke us
we missed the fruit of the almond tree.
(Gabriel Akitagawa)

There the trees
full of almonds
But I ate the plums.
(Fukuda Chiyo-ny)

Big big almond tree
grows and hopes and dreams
I stopped long ago.
(Sarah Gayu)

Almond tree
very pretty and
the almond flower is sweet.
(Isadora M. Engetsu)

Wednesday, November 14, 2012

Psicoterapia Indústria & Comércio



Luna sabia que Adélia precisava de terapeutas, não só os fisio. Mas como era difícil acertar com os psi.

Houve uma, indicação, claro, que Luna achou legal. O preço, naturalmente, salgado: 150 reais por 45 minutos. Duas vezes por semana. Mês: 1200 reais. Quase o preço da escola. E, para mais parecido com escola ser: em caso de falta, a sessão é cobrada do mesmo jeito.

Luna reclama, não tem essa grana toda. (Qual o público alvo da psicoterapeuta: magistrados? políticos? globais? jogadores de futebol dos grandes clubes? Então, a psicoterapeuta toda riponga e incensos quer uma clientela bem selecionada. Quem não puder, se foda, vai pro SUS.) Luna regateia, a terapeuta acede: meu preço não baixo, mas deixo então uma sessão de cortesia. Assim, 8 sessões: 600 pau.

Razoável, Luna aceita. Mas Adélia às vezes dorme de tarde. E vêm as febres. E vem o horário de verão, desestabilizador. Adélia falta a muitas sessões. A terapeuta chama Adélia no cantinho: "Olha, ela tá faltando muito, então acho que o melhor vai ser cortar a sessão de cortesia".

Luna não entende a lógica, argumenta. A psicóloga (psi-có-lo-ga) não ouve. Gosta de falar, não é chegada a ouvir. Uma pessoa como todos nós. Chega a dizer: "Ora, mas eu sou uma profissional!"

Engraçado, né? Como ser profissional não pudesse abarcar ser generoso, ser humano. E ninguém está pedindo caridade.

De modo que no momento Adélia está sem psicoterapeuta.

Tuesday, November 13, 2012

Happy Birthday, Neil! - If I could have her tonight



Hoje é aniversário do Neil, Neil Young, nascido há exatos 67 anos em Toronto.

Como (evoé Picasso!) leva-se muito tempo para tornar-se jovem, creio que Neil tá chegando lá.

Ou será ele mesmo precoce, Young desde as penugens. Seu primeiro álbum (um de meus preferidos ever) prova-o.

Este primeiro disco lindo, que termina com a épica "Last Trip to Tulsa" e tem de quebra um quarteto de cordas ("String Quartet from Whiskey Boot Hill").

E tem "If I could have her tonight". Antigamente se estreiava assim.

By the way, disco lançado em outro 12/11. Mas de 68. Magic year.

PS: post com um diazinho de atraso.




IF I COULD HAVE HER TONIGHT

All of a sudden she
was on my mind
I wasn't ready for her kind
And she was taking her time.

What if she came to me
Would she be kind?
And if she stayed with me
Do you think that
she'd like to do anything
I would, or would she leave me?

Lately I've found myself
losing my mind
Knowing how badly I need her
It's something hard to find.

What if she came to me
Would she be kind?
And if she stayed with me
Do you think that she'd
like to do anything
I would, or would she leave me?

If I could have her tonight
Does she want to go?
Look at those eyes
Does she want it?
If I could have her tonight

If I could have her tonight
If I could have her tonight.







Monday, November 12, 2012

Aqui esse



Uma das pragas a assolar boa parte da poesia contemporânea é o trocadilho. Poesia se faz mais com palavras do que com ideias, è vero, mas daí a limitá-la a um verso final com aquele trocadilho "genial" é fueda.

O próprio Gilberto Mendonça Teles, que prefaciou meu Taipa, fez questão de dizer em público que meu "Bia" era ruim.

BIA

Avelã
Ave lã
Ave lúdica
Aveludada
Ah, vê-la!...

Talvez ele tenha razão, mas à época houve quem gostasse e, detalhe importante, não foi uma pessoa só.

Por que digo o próprio Gilberto? Ora, porque voltei à sua poesia há alguns meses. Ele é poeta de grandes recursos, mas hoje, passados 18 anos do Taipa, acho que... ele abusa do trocadilho!

Talvez estivesse ele então em mecanismo de transferência? Não sei. Sei que escrevi outro na mesma linha.

Não há-de entrar em livro. Mas se calhar alegra um e outro.


Aqui s
aqui o
aqui s
aquiesce
aquece
aqui esse
que te ama.

+++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++


PS: percebem que os três primeiros versos fazem sos.

SOS   SOS    SOS   SOS   SOS 

Sunday, November 11, 2012

Esquecer que Existes



esquecer que existes
                        esquecer

para de súbito lembrar
o susto
ao erguer a perna para vingar o degrau
ao correr para pegar a barca
ao lavar aos olhos nas nuvens da noite

o susto ao lembrar

pupilas dilatadas na pele
só porque existes
e lembro

so i don't feel alone
on the weight of the stone

(any fool knows a dog needs a home)

Wednesday, November 07, 2012

Viagens Interditas - Madredeus



Parece piada escarninha, mesquinha, ordinária, black humour, practical joke, dizer que sou apaixonado pelas músicas instrumentais do Madredeus.

Porque fica parecendo algo do tipo Porque nelas não tem a voz...

Ora, imagina se eu diria isso, eu que amo a Teresa e tenho foto dela em parede aqui de casa.

Mas sou apaixonado pelas músicas intrumentais do Madredeus. E, oras, amo o Pedro também. E jamais me esquecerei do Madredeus primeiro: ela, ele, o Rodrigo, o Gabriel, o Francisco. No Convento de Xabregas.

Procurei "A Península" para uma amiga. Debalde. Segue, daquela (deu vontade de falar galego), "Viagens Interditas", do Ainda.

Igualmente.


Meu Bem, Estivesse Dia Claro... : Grande Sertão: Veredas



Da coleção de primeiras edições autografadas merece destaque, claro, o Grande Sertão: Veredas, comprado em 4 de junho de 1991 no Sebo Dantes, quando ainda em Ipanema.

O preço de 100 dólares era o meu salário exato como professor / recreador do Tabladinho. O livro estava já reservado para mim (não tinha eu conta em banco, cheques, à época) e na véspera tive sono agitado.

Quando peguei o Grande Sertão para enfim ler não foi obviamente esta edição, inda mais porque levei para o Ceará e Brasília em mítica viagem de janeiro de 1992. Não se leva uma primeira edição autografada em mochila. Levei a quarta, em que podia sublinhar e anotar nas margens à vontade.

Li tanto na rede do Felipe Barroso que em meus sonhos eu falava tal qual o Riobaldo.

Escolher trecho preferido aqui é muito perigoso, impossível mesmo. A passagem final, quando Riobaldo descobre, dói demais:

Diadorim era mulher como o sol não acende a água do rio Urucúia, como eu solucei meu desespero.... Mas aqueles olhos eu beijei, e as faces, a boca... E eu não sabia por que nome chamar; eu exclamei me doendo:

- "Meu amor!..."

Mas hoje fico com o Tatarana, em desesperos e confusões de amor, se revelando, para logo levar uma senhora reprimenda de Diadorim:

 E tudo impossível. Três-tantos impossível, que eu descuidei, e falei: - ...Meu bem, estivesse dia claro, e eu pudesse espiar a cor de seus olhos... -; o disse, vagável num esquecimento, assim como estivesse pensando somente, modo se diz um verso.


E agora está escuro aqui em casa.  Fosse dia claro...