Friday, August 30, 2013

O Primeiro Livrinho em Croata Nunca Esquece


Tive amigo croata em Chicago, o Dragan Petrovic, com quem mantive contato por anos até que a vida fizesse suas costumeiras separações.

Ele me deu um dicionário servo-croata-inglês e me ensinou um servo-croata básico como "Zdravo" que poucos anos adiante eu reconheceria no russo здраствуите.

Reparem que falo em servo-croata. Eram ainda dias de Iugoslávia, cujo fim o esperto Dragan já previa. Eu não entendia.

Hoje é língua croata apenas, como é língua sérvia apenas. Como é bósnio e macedônico.

Nunca morri de paixões pela Croácia. Aquela história da Ustasha, a camisa da seleção reproduzir os infames quadradinhos (algo como se a da Alemanha tivesse não uma suástica, já seria bandeiroso demais, mas uns SS estilizados...) sempre me afastaram.

Mas toda generalização é tosca. E o que quero falar mesmo é que a coleção minha e do Dante de livrinho de histórias de bichos nas línguas todas do mundo foi recentemente enriquecida com belo exemplar presenteado pela Juliana.

Jezeva Kucica é uma joia :: a história de um porco-espinho em croata. Com direito a vinho com a raposinha.



Ainda mais limeriques para o Dante




Passear em casa em seu velocípede
é esporte preferido do meu bípede
para cá pra lá pra cá
para lá pra cá pra lá
e já estamos próximos Sergipe de.

Quem mora mesmo na casinha torta
sem janelinha e sem porta?
Papai, a gatinha e Dante
(isso em ordem de importante)
e tudo mais que o coração comporta.

De autoritarismos eu sinto asco
e estou longe de ser algum carrasco
na hora do time escolher
pode ter o que quiser
conquanto que este time seja o Vasco.

Agora aprendeu a usar o penico.
O dia inteiro com a mão no tico-tico.
Tudo vira desculpinha
pruma boa mijadinha.
Ele nem fica cansado. Eu fico.

Belo penico esmaltado com asa
mas se por um segundo ele atrasa
ele logo se alivia
numa infernal alegria
qual cachorrinho pelo chão da casa.

Se um dia eu tiver carro, fique
claro: eu queria um Maverick.
O Dante começa a rir:
"Tu nem sabe dirigir!"
"Quer rima pro teu bobo limerique!"


Pra quem não conhecia Maverick

Thursday, August 29, 2013

Mais Limeriques para o Dante




Foi só começar que babau. Para quem ainda não sabe, o limerique tem algo de nonsense, de wit britânico. Não por acaso Edward Lear e Lewis Carroll (o próprio) escreveram carradas, acabando mesmo por definir o gênero. Outra característica muito típica é a utilização de nome geográfico no fim do primeiro verso, amiúde repetido no fim do último. O primeiro aqui segue essa tradição.

Talvez se morássemos no Peru
tudo mais fácil, sem tanto rebu
mas que ideia mais avessa
nem passa pela cabeça
ir com ele pra esse tal de Peru.

Com meu Dante nem rola rame-rame
todo dia é dia de tsunami
acho que igualzinho assim
nem em Lima ou em Pequim
ou na República do Suriname.

O Dante e a gata são grande amigos
"Te ignoro", "Não conheço", "Nem te ligo"
Pois será este o segredo
eu me pergunto com medo
da amizade dos profundos amigos?

Se tem lugar que gosta é do banheiro
abrir as torneiras molher-se inteiro
imagina se um dia
uma alma bem vadia
dá de presente caneta-tinteiro?


Grande preparação para a pracinha
leva roupa, brinquedo e papinha!
Seis minutos no balanço
e "Ai, pai, eu já me canso"
vamos todos de volta pra casinha.






Wednesday, August 28, 2013

Limeriques para o Dante




Enfim começo o projeto Limeriques para o Dante, deste e para este ano ainda.

Após brevíssima hesitação, fechei em fazer os versos 1, 2 e 5 em decas. O 3 e o 4 serão redondilhas maiores. Isso sempre assim. Uma rigidez aparente para garantir voos.

Nada é definitivo nos que seguem, vale mesmo como pontapé inicial.



O meu pequeno pirralho do Ingá
bonito como ele assim não há.
Mas god como é teimoso
quando cisma é perigoso.
O meu pirralho pequeno do Ingá.

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Dantuca Zuzu meu pequeno guelfo
tem um quê de duende um quê de elfo
é bem curto o limerique
ou este iria a pique
à falta de outras rimas em -elfo

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O moleque e eu temos coleção
de histórias em mil línguas :: alemão
provençal croata galês
húngaro hindi e chinês.
Se entendemos? Ora, com o coração!

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De dormir nunca foi um grande fã
isso hoje, ontem e, ai, amanhã?
Quando eu já vou quase louco
o grito do galo rouco
vem nos mostrar que é chegada a manhã.

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As refeições ao som do Grupo Olá
seja o almoço seja o jantar
caracol o calhambeque
a casa torta :: o moleque
gosta mais da comida ou Grupo Olá?

Tuesday, August 27, 2013

Igreja Nossa Senhora do Brasil :: Os Azulejos



Meca incontornável para amantes de azulejos, a Igreja Nossa Senhora do Brasil, em Pinheiros, pede muitas e demoradas visitas.

Embora eu jamais tenha sido fã do estilo neocolonial, não há como não se render aqui. Desde os campanários (que me lembraram a estupenda matriz de Catas Altas), seu interior é pródigo em azulejaria. O que é mais interessante :: a vocação para azulejos desta bela igreja neocolonial é respeitada, de vez que há inúmeros paineis mais recentes e mesmo uma capela dos Cavaleiros de Malta (!), em insólitos azulejos ocres.

O responsável pelos azulejos mais antigos atende pelo nome de Antônio Paím Vieira, que também pintou o teto ca capela-mor. Paím desenhou os azulejos que ocupam quase todos os espaços disponíveis - capela-mor, altares laterais, corredores, portas e fachada. Uma festa para os olhos, Sevilha irrompendo em Pinheiros.

Seu nacionalismo explícito nas pinturas da capela-mor (de que tratarei em breve) amplia-se em um pan-americanismo quando ele convida para a festa diversas Nossas Senhoras latino-americanas. Estão lá, num altar lateral, a Virgem de Guadalupe (México), a Virgem da Caridade do Cobre (Bolívia), a Virgem de Caacupe (Paraguai) e a Nossa Senhora de Lusan (Argentina). Encontrei também uma pequena imagem da Nossa Senhora dos 33, possivelmente colocada ali por algum uruguaio que se sentiu enciumado ou excluído.

O habitual azul e branco da azulejaria colonial cede espaço para a policromia e o efeito, sobretudo em Lupe (mira mi intimidad con la mejicana), é de uma beleza pungente.









Nossa Senhora dos 33 :: Uruguai


Monday, August 26, 2013

O segundo mais quieto pousará em teu sexo

Azulejaria da Igreja N.S. do Brasil :: Pinheiros



acordar no escuro despir a noite
de sua comprida camisa escura
morrer pequenas mortes infinitas
vezes
no último planeta do céu da
boca um peixe nada até o centro
o susto como lei e regra o assombro
como cota de água e de alimento
pela janela entram os dois pássaros
pousa o primeiro sem pressa em teus ombros
o segundo mais quieto pousará
em teu sexo
enquanto de um a outro teço a ponte
o dia quebra as barras no horizonte

Eu nem sabia que ela estava ali




QUINTA DAS VINHAS - PINHEIROS


A tilápia banhada em catchup
é defumada com o dióxido dos marinetes
mas a batata frita
puta que o pariu as batatas
foram fritas pela minha avó
e eu nem sabia
juro
eu nem sabia que ela estava ali

Tuesday, August 20, 2013

A luz se eterniza ao tocar-te



nunca uma tarde assim tão duradoura
ao mesmo tempo tão breve :: a luz
se eterniza ao tocar-te o corpo e doura
o que de ouro não havia ainda
em teus cabelos : e esta tarde infinda
traz em seu útero bússolas que-
bradas que não apontam pra lugar
algum : a tarde apenas pede que
abracemos a paisagem da janela
uma miragem ao cair do sol
passadas duas semanas a tarde
continua com a mesma luz e susto
e se alguma coisa em meu peito arde
talvez memória :: talvez gozo :: ou fruto

São Bento do Sapucaí - SP

Assim como defendo a independência de Euskadi (cheguei a insinuar aqui), defendo a criação de um Estado denominado Mantiqueira, para sempre livre do jugo de Minas, São Paulo e Rio, de vez que cidades e povoados têm cultura, língua, clima e vacas próprias.

Digo-o de brincadeira, é claro, mas é verdade.

Principalmente depois de conhecer o terceiro santo da região. Primeiro, São Francisco Xavier, depois Santo Antônio do Pinhal e enfim São Bento do Sapucaí.

Este Sapucaí nada tem de samba. No Bar Borges, pelo contrário, tocava Focus e havia fotos dos Beatles sobre as mesas de sinuca.

Aqui alguns registros. Quilombo, a Capela de Mosaicos e as igrejas já mereceram ou merecerão posts à parte.









Sunday, August 18, 2013

O tempo não é como os cães de um trenó



O tempo, Maud,
o tempo não é como os cães de um trenó
que, à voz do dono, se detém.

Algo, pois, de tempo em Dante
que nunca se detém
se por ele chamo.

Pequeno insurrecto, guelfo
de leis próprias, responde apenas
ao seu tempo.



PS: a primeira estrofe é do Zen Eugen Jahra.

Um gato chamado Gatinho II - O ron-ron do Gatinho

video

Dando continuidade ao post anterior (aqui), a vó da Isolda lê o poema do Gullar.

Em seguida um vídeo pescado no youtube com o poema musicado pela Adriana Calcanhoto. No youtube encontrei a música com a própria num show, mas não consegui passar para cá.

Por fim, a Isolda. Para que ela não fique com ciúme do gatinho do vídeo e pare de fazer ron-ron-ron-ron pra mim.





Saturday, August 17, 2013

Um gato chamado Gatinho - Ferreira Gullar



Autor do Poema Sujo, Na Vertigem do Dia e Dentro da Noite Veloz, Ferreira Gullar recém lançou A Menina Cláudia e o Rinoceronte, pelo menos sua terceira incursão no campo da literatura infantil.

As anteriores foram Dr. Urubu e Outras Fábulas e Um gato chamado Gatinho.

Este último é uma pequena grande jóia. Os 17 poemas nada querem senão mostrar como é o Gatinho, siamês amigo que vive com poeta, suas atitudes, manias, preferências. O poeta e homem grave realiza isso com tanta graça e leveza e simplicidade que o livro encanta também aos adultos, como deveria acontecer sempre com livros e músicas para criança.

Difícil escolher um ou dois poemas, mas ao menos fica a certeza que qualquer um representaria bem o livrinho delicioso.

Seguem "O ron-ron do Gatinho" e "Regime Militar".

O primeiro foi já musicado pela Adriana Calcanhoto (que entende muito bem que música "infantil" deve agradar também aos adultos, às vezes entende até demais, como revelam excessos do seu Dois). E o segundo... carajo!, Ferreira Gullar conseguindo fazer poema terno para seu gato e o nomeando "Regime Militar' é dar MUITO a volta por cima. Bravo.

O RON-RON DO GATINHO

O gato é uma maquininha
que a natureza inventou;
tem pêlo, bigode, unhas
e dentro tem um motor.

Mas um motor diferente
desses que tem nos bonecos
porque o motor do gato
não é um motor elétrico.

É um motor afetivo
que bate em seu coração
por isso ele faz ron-ron
para mostrar gratidão.

No passado se dizia
que esse ron-ron tão doce
era causa de alergia
pra quem sofria de tosse.

Tudo bobagem, despeito,
calúnias contra o bichinho:
esse ron-ron em seu peito
não é doença - é carinho

REGIME MILITAR

Gatinho é metódico
e odeia confusão.
Dorme sempre no mesmo
ponto do colchão.

Quando vou pro quarto,
vai comigo junto.
E acorda sempre
às seis em ponto.

Se por acaso tenho
um sono mais comprido,
ele então me acorda
miando ao meu ouvido.

Gatinho é da pesada.
regime militar:
ao toque da alvorada
tenho que levantar!


O exemplar aqui de casa tem dedicatória do poeta para a Isolda e o Dante



Friday, August 16, 2013

Que bordam as andorinhas em seus voos



que bordam as andorinhas em seus voos
mergulhos cegos sobre a tela azul
o que desenham essas trapezistas
sem trapézio que da borda do céu
se precipitam se suicidam
sempre certas de renascer em dobro
depois de cada voo de cada dobra
que descosturam com os seus arroubos
o céu pertence a elas e também
o trabalho das mãos que ao imitá-las
em meus cabelos cardam fiam dobam
guiadas por teus olhos de opala
será o tempo grande ladrão mas
esta manhã amor ninguém nos rouba

Wednesday, August 14, 2013

Bairro do Quilombo :: São Bento do Sapucaí




O lindo livro Quilombolas :: Tradições e Cultura da Resistência arrola quilombos de todo o país, sendo 85 só no estado de São Paulo. Não entendo por que o Bairro do Quilombo, em São Bento do Sapucaí, não está lá. Não acredito que o nome seja uma casualidade e sei que lá tem uma congada de respeito.

Outros item de respeito é a capelinha branca e rosa com torre sineira ao lado. O santo não é de preto, é N. Senhora da Conceição, mas o piso é de azulejo hidráulico. O vendedor de fruta vai de porta em porta com seu carrinho de mão e ao lado da igreja tem um bar mercearia daqueles deliciosos. A cerveja é Lokal e Itaipava (não consegui terminar uma ou outra), mas tem mesa de sinuca e biscoito de polvilho e a luz miraculosa que nos chega pelas janelas tem cheiro de coivara.

Os meninos jogam bola na praça que nada é senão grama. São quilombolas. Como fui / fomos quilombolas, livres do jugo dos capitães-do-mato que às vezes nos batem à porta na forma de ações judiciais absurdas ou de trabalhos igualmente absurdos e injustos.

Quilombolas por uma tarde. Mas o gostinho se pega e lambuza a alma de grama e coivara, céu azul e gritarias das jandaias.
 








Tuesday, August 13, 2013

Os teus cabelos lentamente afago



os teus cabelos lentamente afago
neste carinho claudicante e vago
tua negra lã da mais negra ovelha
(que és) se rende ao deslizar da pele
que neles soletra desenhos gagos
sempre desconfiado : me olhas de esguelha
mas teus nervos e ríctus e teus medos
se deixam dissolver pelo alcatruz
que eu nem sabia possuir nos dedos
assim te entregas e encontramos paz
e quando teus meus olhos fecham meus
teus olhos lassos não pedirão mais
que uma noite sem sustos e sem sonhos
quebrada apenas pelos sabiás

Capela de Mosaicos - São Bento do Sapucaí



Antes de Gaudí veio-me à cabeça a Casa da Flôr (sobre a qual escrevi aqui e aqui) em São Pedro D'Aldeia, do Gabriel, com a diferença de que Ângelo Milani é artista com formação acadêmica, sem que isso implique trabalho academicista.

Até onde sei, ele e a sua mulher Cláudia Villar moram ao lado da Capela de Santa Cruz, que lhes foi cedida para que pudessem fazer a sua intervenção.

Como na capelinha havia centenas de imagens entulhadas e como tivessem por hábito levar-lhes imagens para que fossem restauradas, os dois revestiram paredes externas e internas com cacos de azulejos e imagens :: mosaicos espetaculares, festa para os olhos, aqui e ali juntando fichas telefônicas e moedas.

O resultado tem algo de transgressor :: o acúmulo de Sãos Jorges, de Nossas Senhoras Aparecidas, de Meninos Jesus :: e isso é bom.

Mas a capela continua fazendo as vezes de capela, a galera ali se reúne de quando em quando para rezar o terço. Ou seja, não é mero objeto de deleite turístico (Proibido Tocar!) tão ao gosto de patrimonialistas.

E isso é bom.








Monday, August 12, 2013

Sujar o pé de água pra depois lavar na areia




sujar o pé de areia pra depois lavar na água
arnaldo



sujar o pé de areia pra depois
lavar na água sujar o pé de água
pra depois lavar na areia lavar
o pé de areia pra depois sujar
na água sujar a areia do pé
pra depois lavar na água sujar
o pé de areia pra depois aguar
na lava pisar o sujo de areia
pra depois lavar na água sujar o pé
de água pra depois depor na areia
ser a areia sob teu pé que move ser
a água que te lava pra depois
esculpido em areia renascer
com as águas nascidas em tua (f) (v)oz