Friday, May 30, 2014

Crônicas Gregas 7 ::: Metaxa


Claro que provei da Metaxa, legendário destilado grego feito a partir de varietais nativas. Os nomes não permitiriam mentir: Korinthiaki, Savatiano, Sultanina. O líquido inicial descansa alguns anos em barris de carvalho. O que se evapora recebe o nome de "tributo aos anjos". Algo como "pro santo". Numa segunda destilação, o líquido com sua já característica cor de por-do-sol de Belo Horizonte, passa por mistura de ervas, guardadas em segredo há mais de cem anos. Sabe-se apenas que pétalas de rosa são usadas.

O bouquet é característico e poderia já deixar os mais delicados embriagados. Na boca, tem a agressividade de um cognac. Mas desce muito mais suave. O que pode ser dangerosíssimo.

Provei da Metaxa no alto do Monte Licabetus. Não me venham dizer fiquei alto, que bem alto já estava.




Wednesday, May 28, 2014

A Vila Isabel com Instagram

E para a Vila Isabel não ficar com ciúmes, tá, algumas fotos recentes que recentemente publiquei no formato quadradinho do Instagram.










Grajaú Faz 100 Anos (com o patrocínio de filtros Instagram)



Algumas fotos deste burgo centenário que andei publicando no Instagram.













Tuesday, May 27, 2014

Desposse


they shall have stars at elbow and foot
dylan


a tarde tem as suas crispações
reverberadas em teu corpo a noite
já me acenava em tuas axilas
onde mora este outono que inventamos

 a varanda revela que esta tarde
é finda
há mesmo excesso de um breu nas ruas
homens voltam escuros para as casas
os corpos sujos gastos de cidade
em casa sonham desaparecer

tua mão esquecida em minha coxa
é sempre o teu convite irrecusável
e nós meninos mais nos possuímos
e mais despossuídos nós ficamos

Monday, May 26, 2014

Dois Caras Sortudos :: ELP & Marillion



Assim como Drummond achou impossível escrever hoje poema de verdadeiera poesia, e ao fazê-lo escreveu verdadeira poesia, não creio ser possível, sendo você quem é, uma banda de rock progressivo chamar uma música de "Lucky Man" sem se lembar do ELP.

Não digo que porque foi feito não se pode fazer, muito pelo contrário :: porque foi feito é que se pode fazer. E, talvez, não se pode é fingir que não foi feito.

Em seu álbum mais recente (latest, not last, alas!), o Marillion intitula a penúltima faixa... "Lucky Man".

Que música. Eles são mais progressivos em "Gaza", em "Montreal", mas quando ficam em casa, são o Marillion nem sempre amado, mas com o que têm de melhor :: a composição impecável, a letra linda e crítica, jamais banal. E os vocais do Hogarth. We are lucky men to have this.


A música do ELP tá no disco da pomba. Quando era fãzaço do ELP, e isso tem mais de trinta anos, eu nem ligava, pois queria as piruetas. Bem recentemente, mais velho e mais menino, descobri as piruetas desta canção fantástica. A voz maravilhosa do Greg pulando de canal, às vezes distante. O Carl. Se essa música chega a ser etiquetada como folk (sem o menor preconceito), me mostrem onde em folk existe um acompanhamento assim. E o maluco do Keith que teve que ficar quieto quase que a canção inteira resolveu mostrar ao mundo o que o Moog podia fazer. Até o Robert caiu de quatro. E a letra, falta falar, Greg escreveu aos 12 anos. 

Ia fazer pequena análise contrastiva-comparativa das letras, mas isso fica pra outro post, que essas músicas e essa serra e esse Gewürztraminer põem a gente comovido como o diabo.






Thursday, May 22, 2014

Finismundo, de Haroldo de Campo ::: A Poesia num Mundo Abandonado pelos Deuses



Em Finismundo :: A Última Viagem, Haroldo de Campos reelabora o fim de Ulisses, cuja curiosidade insaciável mesmo na velhice é lembrada por Dante  (" l'ardore... a divenir del mundo esperto "), de duas formas :: numa cadência épica, neoépica, a la Pound, e numa paródica, neste nosso mundo que parece prescindir de poesia.

O poema é pequeno. Em se tratando de épico, mínimo. Mínima também a primeira edição, pela Tipografia do Fundo de Ouro Preto, apenas 733 exemplares saídos no inverno de 1990.

O meu é tesouro, com dedicatória para mim :: este poema onde Odisseu viaja, algum dia de 1991, ocasião em que eu e o bardo trocamos algumas palavras em russo.

PS: Mas o de que mais gosto no livro é a explicação do Haroldo sobre ele. Sua poesia fica longe de me agradar em cheio, esteticamente falando. Ele é um poeta-leitor. (E que leitor!) Eu também sou poeta-leitor, mas muito menos leitor.



Monday, May 19, 2014

Antimanicomial? Pra quem?



Recebo convite para participar de uma comemoração do Dia Nacional da Luta Antimanicomial, mas não vou, eu não sou a favor do movimento antimanicomial. Sou a favor de que haja discussões, claro, mas assim, simples, ptooff, acabemos com manicômios? De jeito nenhum.

Escrevi aqui sobre maus tratos em instituições psiquiátricas. Mas isso não me fará advogar o fim dos manicômios, mas sim a sua melhoria. De modo análogo, quantos e quantos estragos a escola já não causou ao redor do mundo em séculos de existência? Quanta humilhação, quanta doutrinação, quanto castração, quanto bullying, para não falarmos em ações abertamente criminosas? Mas não se vê ninguém pregando o fim das escolas. Lutamos pela sua melhoria. Uma escola aberta, democrática, cidadã, intrigante, instigante, acolhedora, inclusiva.

Ferreira Gullar tem um filho esquizofrênico internado em uma fazenda em Pernambuco. Perguntem a ele o que acha do movimento antimanicomial, conversem com ele sobre o que é ter um filho esquizofrênico em casa. Os surtos. Eduardo Coutinho tinha um filho esquizofrênico em casa. Tinha. Foi assassinado por ele. Serão casos extremos, reconheço, mas sabe-se o que é aproximar-se da velhice, entrar na velhice, quando se passa a precisar de cuidados e ter que despender cuidados ainda maiores com o filho?

Percebo por detrás do movimento certa ingenuidade de base foucaultiana rasteira. A demonização do Estado. O Estado é sempre o Mal. Aliás, este mesmo Estado que mal cumpre seu papel para com a saúde física dos cidadãos e é praticamente nulo quando se trata de saúde mental, não vai amar essa história de acabar com os manicômios? Lavará as mãos. Me lembro do bufão Salazar exortando os portugueses a cuidarem de seus doentes... em casa!

Aliás, novamente, e claro que falo dos casos que realmente necessitam de institucionalização, quem ficará com os pacientes? A família?? Faz-me rir. A vida não é disneylândia. A família só se une e vê seu amor imorredouro crescer por aquele membro que necessita de tratamento especial no Globo Repórter, na voz marcante do Sérgio Chapelin. Falo de carteirinha. Embora eu tenha irmãos e sobrinhos, meu filho autista Dante praticamente não tem tios ou primos. Mesmo que eu já tenha apelado abertamente em seu favor.

Sou a favor de bons espaços de internação para casos agudos de pacientes mentais. Claro que Síndrome de Down, autismos moderados estão fora disso. O pobre do Arthur Miller teria que ficar com o seu filho com Down que internou e jamais quis ver a cara! Para os casos de esquizofrenia, de paranoia e tantos outros, cuidados, terapias, inclusão, carinho, espaço físico adequado. Profissionais bem preparados, estimulados e bem remunerados.

Utopia? Prefiro esta ao movimento antimanicomial.

Os Quartetos de Tsalahouris



Em outras viagens comprei tanto CD, enchi malas, recebi ultimatos, voz de prisão, enough is enough, mas mesmo assim desci do hotel em Gênova e visitei mais uma loja, escondendo no bolso do casaco um CD do Quarteto Kronos.

Isso em outras viagens, que o tempo passou, as lojas todas fecharam, neste mundo que escolheu continuar girando sem lojas de CD e, pasmem, sem livrarias. 

CD virou artigo de perfumaria, naquele cantinho da loja você encontra um e outro.

Na loja da Ópera de Atenas, linda, cheia de lápis e guarda-chuvas, nesse tal do cantinho encontrei os quartetos do Philippos Tsalahouris, soberbamente executados pelo New Hellenic Quartet.

Só hoje caí de boca. Venci meu preconceito contra a moda da "música sacra" erudita atual por uma boa causa. Tsalahouris nomeia seu terceiro quarteto "El Greco", com movimentos chamados "The Arrest of Christ", "The Crusifixion" etc. A última peça do disco se chama "The Seven Last Words of Christ on the Cross". E eu que nunca gostei de Haydn levando isso pra casa.

Sua música nada tem de Haydn. Suas composições, ricas em dissonâncias sem a pretensão de descobrir a pólvora, colocam-no ao lado na tradição da literatura de quartetos da Europa Oriental :: Shostakovich e Janáček (o Larghetto do segundo ::: a  "Sonata Kreutzer" do compositor tcheco)

Incontornável.


Algo do compositor aqui ::




Saturday, May 17, 2014

Recebo a solidão nesses telhados



recebo a solidáo que me recebe
com seu hálito torpe com sua boca
preterida
recebo a solidáo nesses telhados
acalentados pelo sol de maio
a solidão :: a vaga adaga curva
surda curda se desfalece lenta
e mergulha. sem pressa. neste peito
de maio a solidão habita a sala
faz dela ilha a solidão se instala
se espraia pegajosa pelos cantos
já não há dispersá-la os dias sujos

estão de volta :: nos gestos presentes
o que era ilha faz-se continente


Friday, May 16, 2014

Elogio da Imperfeição I



Compro pela Estante Virtual Visitações de Alcipe, do Ivo Barroso, e me vem escrito na etiqueta EDIÇÃO IMPERFEITA. Mais te amo assim, exemplar acepipe, imperfeito. 

Eu quero as coisas imperfeitas.

Wallace Stevens ::

The imperfect is our paradise.
Note that, in this bitterness, delight,
Since the imperfect is so hot in us,
Lies in flawed words and stubborn sounds.


E então me vem à mente a  música preferida de O Piano, chamada, what a surprise, "All Imperfect Things".

E depois escrevo sobre o Primo Levi, sentindo-se impuro e imperfeito na Itália pré-fascista. Impuro como o zinco de sua tabela periódica, o livro perfeito (epa!) que eu queria ter escrito.




Show do Marillion ::: Rothery & Co.

Aquele gordo calvo ali à esquerda


Dizer que sou mau fã do Marillion é ainda pouco apropriado, pois sequer chego a ser fã. Não o digo por desprezo ou despeito, a falha está em mim :: pouco conhecimento. A fase inicial, Fish e francamente pastiche do Genesis, não me agrada. Prefiro o Marillion como é hoje, como começou a ser desde o Brave, disco que amo. Aliás, deste trabalho sim sou fã incondicional, como testemunhei aqui, aqui e aqui. A banda que nasceu cuspida e escarrada, passou a cuspir influências.

Lembro das discussões no Orkut :: o Marillion dividindo a galera, amor ou ódio. Gosto de ver o amor que desperta, sobretudo em pessoas queridas. Porque o Marillion não é lá banda para se gostar. Não é cool. Não é difícil, não é virtuose. E disso eu gosto.

Fui ao show para ouvir boas músicas e acabei vendo bem mais do que isso. Mas fui ao show principalmente para ver o Hogarth e o Rothery. 

Hogarth, Mr. h., mora já em meu coração, porque não se ama o Brave sem amar seus vocais apaixonados. Gostei ainda mais ao vê-lo em ação: o frontman showman, a entrega. Se um dia eu fosse vocalista de rock, eu quero ser assim quando crescer.

E o Rothery. Porque não existe este subgênero incompreendido de nome neoprogressivo? Estava ali uma das caras dele, um dos responsáveis por sua definição. Rothery is the guy least likely to rock in town. Ali no canto do palco, magnífico, hierático, algo assim como um patriarca bíblico de olhos antigos cujos filhos pródigos acabaram de retornar ao lar. Rothery humilde, sem carisma, acariciando as cordas da guitarra sem que qualquer som excessivo dela irradiasse. Rothery preciso, maestro. E quando seu rosto é iluminado por um sorriso, do artista que sabe a que veio, sabemos que estamos no show certo e que o Marillion é um dos nomes seminais da história do rock progressivo. Graças a ele.


Sorri




Tuesday, May 13, 2014

São Paulo! Comoção de Minha Vida...




"São Paulo! comoção de minha vida...
São Paulo! como ação de minha vida
São Paulo! louca emoção de minha vida
São Paulo! locomoção de minha vida!"

Gilberto Mendonça Teles (at 2 o'clock GMT)









PS: Não coloco legendas de propósito. Descubram.

PS 2: Com esta série, fechei a estrofe do Gilberto.

INES ::: Pisos



Todos sabemos que fotografar é ato tremendamente pernicioso e insidioso, amiúde causando danos insanáveis, irremediáveis.

Antes que o segurança do INES, o Insitituto Nacional de Educação de Surdos, predião do Brasil Império ali nas Laranjeiras, me proibisse, fiz estes registros dos maravilhosos pisos de azulejo hidraúlicos ali da entrada...

Ele pediu e parei. Não fiz ouvidos moucos, que debochado não sou.




30 Anos Com Nava



Hoje, 13 de maio, não é apenas o aniversário de Lima Barreto. Hoje, 13 de maio de 2014, faz trinta anos exatos que Pedro Nava se matou.

A morte com um tiro na cabeça perto do Relógio da Glória será aqui e ali lembrada na imprensa na clave de sempre :: era homossexual? recebeu a ligação? foi chantageado?, para a alegria do jornalismo Caras. E Nava segue desconhecido, pouco ou nada lido, mesmo por aqueles que às vezes se debruçam perfunctoriamente sobre sua obra apenas para a obtenção de um título acadêmico.

Não se navega em Nava senão com total entrega e paixão. Baú de Ossos, Balão Cativo, Chão de Ferro, Galo das Trevas, Beira-Mar, O Círio Perfeito, o inacabado Cera das Almas permanecem como monumento memorialístico perene a que qualquer literatura pode almejar. E ainda temos seus poucos poemas, sua pequena literatura de viagem, seus desenhos admirados por Mário.

Disse poucos poemas? Quem escreveu "O Defunto" sabe que nada mais havia a ser escrito.

Eu não teria conhecido Pedro Nava, não o leria e releria obsessivamente, não fosse pelo meu pai. Aliás, todos os Nava que tenho são os que meu pai comprara e lera e sublinhara a lápis e nos quais fizera anotações marginais. Ele depois comprou tudo de novo para ele.

Só para terminar, hoje eu e um amigo leríamos "O Defunto" perto do Relógio. Uma forma de comemorar a data. Não se veja algo macabro aqui. Co-memorar :: lembrar com, este nosso intuito. Por motivos vários, adiamos a data.
PS: Já escrevi sobre Nava aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e  aqui, para citar apenas alguns.

Monday, May 12, 2014

Meninos, eu vi! ::: Eddie Vedder



Meninos, eu vi.

Vi Eddie chegar ao palco puxando levemente de uma perna para ser aclamado de pé pela multidão que lotava o teatro.

Vi Eddie já na segunda canção atacar de cover :: "Brain Damage". Eddie levemente ébrio.

Este Eddie toujours ivrede vin, de poésie, de vertu, e de caipirinha, claro. Eddie livre a tocar o que quer, a eleger o ukelele seu companheiro, a explorar suas não muitas possibilidades como quem decide pintar quadros com uma cor apenas.

Com o instrumento em punho, Eddie desfila seu repertório de ukelele songs, "Can't keep", "Longing to belong", a linda "Without you".

Eddie brinca com o público, apaixonados ambos. Chama Glenn para o palco, meu conhecido Glenn, o vale de Glennfiddich, Glenlivet, Glenmorangie, e juntos tocam "Falling Slowly", para gozo da amada ao lado.

Meninos, eu vi. Vi Eddie, o Messias de Seattle, casar Maurício e Vanessa no palco, chamar a este um deus de voz soturna da terceira galeria (já ia dizendo 'categoria'), aquecer-se numa fogueira fake.

E as canções não param. Todas as do Pearl Jam são boas, mas as melhores são, hoje, as suas :: "Far Behind", "Rise", "Guaranteed", "Society".

Aos poucos ele vai ficando sóbrio, pero sin perder la ternura. Tanto que ainda dá tempo para "You've got to hide your love away".
 
E para o fecho com "Hard Sun", novamente com Glenn, as luzes se acendem. E o que era para ser um pocket show assume ares de celebração. De missa campal em sol maior, eu diria. 


PS: Eu já escrevera sobre o Pearl Jam aqui. E "sobre" "Hard Sun" aqui.

Thursday, May 08, 2014

Dante Sobe ao Palco



Dante sobe ao palco na festinha do Dia das Mães (dos Pães, como sempre). A mediadora está com ele. Seus colegas executam mais ou menos as coreografias ensaiadas (sempre lindamente) :: uns são fiéis aos ensaios, outros esquecem tudo e são fiéis a si mesmos, alguns sorriem enquanto outros ficam tristes.

Dante é Dante, o que vale dizer que apenas é, o verbo de ligação fica solto sem se atar a nada, corda solta no abismo.

Mas ele faz! Sorri, se enrosca, às vezes faz uns passinhos, se vira e pede colo.


Jim Sinclair, uma pessoa autista e intersexual escreveu: "Quando os pais dizem 'Eu gostaria que meu filho não tivesse autismo', o que elas realmente estão dizendo é 'Gostaríamos que o filho autista que temos não existisse e tivéssemos em vez dele um filho diferente (não autista)' (...) Isso é o que entendemos quando nos falam de suas mais caras esperanças e sonhos para nós: que o maior desejo de vocês é que um dia deixemos de existir e estranhos que vocês possam amar entrem atrás de nossos rostos".

Andrew Solomon conclui : "A maioria dos pais supõe que um autêntico não autista está escondido dentro das pessoas autistas, mas Sinclair e muitos outros que têm autismo não veem mais ninguém dentro deles."

E isso tanto! O encontro na pracinha com o vizinho de bairro que diz: "Ah, ele é tão bonito, pena que..." Ou, de quem só conhece por foto: "É? Mas nem parece!".

Não creio que haja um outro (normal) escondido por detrás do Dante que vejo. Se há, não é, obviamente, o Dante. E este aqui, tetrarca, eu não troco por nada.

PS: Serei então um defensor da neurodiversidade? Sim. Mas a questão é difícil e não se esgota nas linhas rabiscadas acima.