Wednesday, February 26, 2020

A Justa Fama de Famagusta



Bem, sou um homem que jamais vestiria camisa do Vasco com propaganda da Havan, mas aqui traí meus idealismos e, sim, fomos a Famagusta (ver aqui), porventura a cidade mais interessante da parte ocupada e destaque da viagem.

Contribuiu para a traição o fato de o Chipre não estar correspondendo às nossas expectativas bem como o fato de não termos conseguido visitar lugares por que ansiávamos, como as montanhas Troodos.

Então, vamos a Famagusta. Embora estivéssemos na pouco interessante Larnaka, teríamos que passar por Nicósia, porque ali haveria um posto fronteiriço que poderíamos atravessar a pé. E assim foi: de Larnaca a Nicósia e de lá atravessamos a fronteira. 

Me recuso a dizer que é um outro país, que aí seria trair demais, mas de fato tudo muda, é impressionante. Não apenas detalhezinhos mínimos como língua, arquitetura, religião, culinária (a doçaria!), tipos humanos, mas de súbito suco de romã por toda a parte e, pior, sai de cena a KEO para dar lugar à onipresente EFES, pilsen turca maravilhosa sobre a qual já escrevi aqui. E nada de letreiros russos, nada de arranha-céus, nada de centros antigos transformados em espaços insípidos. Estamos num lugar muito interessante e que, de quebra, tem ainda a portentosa ex-catedral de São Nicolas, onde os reis de Jerusalém eram coroados, e ainda o castelo de Otelo. Otelo, o mouro de Veneza, o próprio.

Não é pouco

















Monday, February 24, 2020

Crônicas Cipriotas II :: Dum spiro spero


Não, não queria conhecer Famagusta, eu não queria conhecer qualquer parte do Chipre ocupada pelos turcos, que invadiram o país em 1974, tocaram o terror e se autoproclamaram país independente --  República Turca do Norte do Chipre -- tão sólido que reconhecido por apenas dois países: eles próprios e, adivinhem, a Turquia.

Não queria conhecer, achando, e ainda acho, que uma visita poderia ser lida como prestigiar, negativa aliás que minha dileta amiga Claudia defenderia. Ela não visitaria, por exemplo, a Índia, dados os inúmeros casos de violência contra a mulher. Respeito muito sua posição, mas no caso da Índia é possível visitar à contrapelo, uma visita crítica, que não caia no chavão dos incensos e flores. Visitar mesmo para denunciar, que foi o que fizemos um pouco aqui, quando visitamos, em Agra, o café das mulheres vítimas de ataques de ácido.

Mas ao norte do Chipre não queria ir, ainda mais depois de conversar com duas interessantíssimas, maravilhosíssimas senhoras no Museu Etnográfico de Paphos, que a princípio me pareceu caro e desorganizado, armadilha para turistas e que, ao fim, revelou-se muito especial pela presença das duas senhoras, mãe e filha, a mãe viúva do arqueólogo responsável pelo trabalho em Kato Paphos. Um lugar especial, sem deixar de ser caro e desorganizado.

Ousando conversar sobre o espinhoso e doloroso tópico da invasão turca, da filha do falecido arqueólogo ouvi cristalino o adágio latino Dum spiro spero, que significa 'Enquanto estou vivo, tenho esperança', o latim sempre mais conciso que bula de remédio, a beleza do verbo 'esperar' como ter esperança, hope, não wait.

E Famagusta? Ah, falo depois que a postagem ficou longa



Friday, February 21, 2020

A Segunda Igreja Mais Antiga de Minas



Esqueçam Ouro Preto, Mariana, São João d'El Rey, Tiradentes, Sabará : as igrejas mais antigas das Minas Gerais estão no imenso norte do estado: a grande matriarca em Manga, às margens do Velho Chico, sobre a qual escrevi aqui, e a segunda mais vetusta em Brejo do Amparo, distrito de Januária, também colada ao São Francisco. De 1688, ficou pronta quando a sua irmã de Manga debutava

Com sinalização inexistente, não é fácil chegar lá, no distrito do distrito do distrito: do centro de Januária chega-se a Brejo do Amparo, tantos alambiques, e de lá a Ilha. Aí nos perdemos, é inevitável, até que um sinal do céu oriente o Google Maps. E lá está ela, toda branca de sol, seu grande átrio revelando inequívocos cuidados defensivos.

Como recebeu restauro recente (bem, eu gostava daquele negrume lembrando as velhíssimas igrejas de Olinda e de Goa), lá está ela, toda branca de sol. 'Brancuras do Rosário dos Homens Pretos', como notou meu amigo Helion, ao que redargui: parece coisa do Cruz e Sousa, Ó Formas alvas, brancas, Formas claras

Uma visita inesquecível








Thursday, February 20, 2020

Stratford-upon-Avon :: Mosaicos



Claro que a Stratford-upon-Avon se vai por causa do Shakespeare: a casa, na verdade as casas, a Royal Shakespeare Company e suas montagens maravilhosas.

Bem, no caso de você ser fã de Nick Drake, pode-se usar Stratford, também, como ponto de apoio para conhecer Tanworth-in-Arden (aqui). Mas claro que só depois de ticar o obrigatório do Bardo e descer alguns pints no Garrick Inn, de preferência com tortas de carneiro

Ninguém irá a Stratford por causa de uns mosaiquinhos no chão perto da estação de trem. Mas não é que são uma graça?

Obra mui recente, com certeza daqui a alguns anos estarão já nos guias, depois, claro, dos Shakespeares e Nicks.

Bem, eu os incluiria já.







Wednesday, February 19, 2020

QUADROPHENIA em BRIGHTON


Dizer Quadrophenia é dizer a ópera-rock do The Who, álbum duplo lançado em 1973, e dizer também o filme homônimo de 1979, de Franc Roddam, ambos nascidos clássicos e cults.

São muitas as postagens neste blog sobre o Quadrophenia, mas esta fala exatamente de que foi o primeiro Who que comprei: a trilha, achando que era a ópera.

Quem escuta há 40 anos, sempre com renovados pânicos e lágrimas, tinha que visitar Brighton um dia. Explico.

A galera mod do Jimmy era de Londres, sendo Carnaby Street o coração pulsante do movimento Mod. Mas eis que vão a Brighton num fim-de-semana para célebre encontro que incluiria muita lambreta, muitas bolinhas (uppers and downers, de que os Beatles no início também eram fãs), muito rock e r&b, muito sexo e, claro, muita porradaria com os rockers.

Foi em Brighton que Jimmy encontrou sua identidade como Mod, quando tudo que ele precisava era belonging: "I don't want to be the same as everyone else. That's why I'm a mod, see?"  É em Brighton que Jimmy enfim consegue ficar com a Steph, com quem tem uma bunnyfuck num beco hoje imortalizado como QUADROPHENIA ALLEY. Ele não tinha nome antes do filme.

É em Brighton que ele conhece o Ace, o mod mais fodão, representado no filme pelo Sting. Mas é ali também que ele é detido pela polícia para depois, de volta a Londres, perder emprego, casa, namorada, lambreta, em ordem de importância. E nesse estado de completo desamparo retorna a Brighton, em busca de... bem, todos sabemos mais ou menos

Mas tolo ele não é. Tanto que entra rodopiando no beco e ao fim dele, com o choque de realidade, cospe FUCK IT! FUCK IT!

Mais choque de realidade ao descobrir que o poderoso Ace não passava de um bellboy no Grand Hotel, correndo para lá e para cá de cabeça baixa para servir, submisso, à classe alta londrina. Então era depredar o hotel no fim-de-semana para depois voltar a ele como empregado ("I work in hotel, all gilt and flash / Remember the place where the doors were smashed?")

Então é ainda em Brighton que ele rouba a lambreta do Ace para percorrer Beachy Head e, enfim, se arremessar do penhasco. Bem, é ambíguo se ele voa junto à lambreta. De qualquer modo, se ele morre ou não é o de menos, o certo que morre ali o Jimmy mod.

Eu tinha então que conhecer Brighton: ver a praia de seixos, o pier, o hotel, as ruas onde mods, rockers e policiais travaram encarniçada luta.

Misturei aqui fatos do filme e do disco, que têm equivalências e diferenças. A equivalência maior é que Brighton ocupa posição central nesta que é a ópera-rock de mais refinada fatura em toda a história do rock e, por que não dizê-lo, em toda a história da música ocidental.





 




Saturday, February 15, 2020

All my trials :: Nick Drake


Reconheço estar muito sob a influência e magia e repetidas audições de Nick Drake, mas ó, tentando me isentar disso e praticar voto realmente imparcial: não será a versão demo tape de 'All My Trials' do Nick com sua irmã Gabrielle Drake a mais bonita? Atingindo o que a música tem de mais íntimo: a tristeza da mãe que tanto sofreu,vai morrer e se despede dos filhos

Como isso é triste

O legal é que em todas as versões eles escolhem de onde começar, isso modernidade

As versões da Joan Baez, do Paul, do Peter, Paul & Mary


Hush little baby, don't you cry,
You know your mother was born to die
All my trials, Lord, soon be over
Too late my brothers, too late
But never mind
All my trials, Lord soon be over
 
 







Tuesday, February 11, 2020

Ainda Nick Drake e além :: Tanworth-in-Arden


A visita ao túmulo do Nick Drake não foi apenas um dos highlights da viagem, foi um dos cimos da vida, tudo acontecendo tão certo, as coisas se sucedendo de mãos dadas: o trem, a colina, o cemitério, de que já falei aqui

E depois veio ainda mais passeio pelo cemitério lindo, sepulturas tão antigas, a igreja de Santa Maria Madalena, gótica com seus vitrais. A cidade é inha, é vila, quase que uma rua apenas, então vamos ver Far Leys House, a casa onde Nick morou por toda sua vida com a família, tirando o tempo que esteve em Cambridge. Está hoje vazia. Há placa lembrando o eterno morador da voz de anjo.

Conversamos com algumas pessoas, gentis, e que, claro, conheceram os Drake. Vamos ao adorável pub The Bell comer lasanha e queijo feta, beber uma local, Chardonnay, ganhar copo. O pub paga tributo ao Nick, mas felizmente não 'vive disso'. Tanto que homenageia também o antigo proprietário, boxeador peso médio aposentado depois de 200 lutas. Sem perder nenhuma.

Guimarães Rosa escreveu em 'Os Cimos', trecho antológico já citado aqui. Olha, Guima, tampouco estávamos arrumados para tanto, mas como que fomos nos organizando nos momentos, com nossas mãos, e aproveitamos imenso. Tanto que teve ainda o pôr-do-sol no trem