Saturday, March 25, 2017

Crônicas Sul-Africanas XIV :: Long Street



Para mim, uma ótima livraria e uma cervejaria excepcional são já certeza de que a rua pede visitas, plural por favor. Não bastasse a Clarke, onde comprei livrinhos infantis em zulu, sotho e xhosa (ver aqui), com direito a uma primeira aula de xhosa, e Camila um Burns completo, é lá que fica a Beerhouse, com seu slogan de 99 cervejas artesanais. Se calhar, tem mais. Só de torneirinhas são 25.

Pois é, não bastassem esses dois paraísos, portos seguros que tão bem se completam (nada como uma artesanal de Woodstock para folhear livros recém-comprados), uma igreja desde sempre frequentada por negros, um punhado de bem conservadas edificações em estilo vitoriano, que hoje abrigam ora uma loja de souvenir ora o icônico restaurante Mama Africa, onde se pode provar o bobotie. Provei, traindo duas décadas longe da carne bovina.

Quando o sol se põe o perfil amigável da rua muda como que dramaticamente. Traficantes circulam livremente e, pior, podem ser bem insistentes.



















Friday, March 24, 2017

Nossos Meninos Vadios :: Filhos Autistas, Pais Esquisitos




Assim como o incomparável Longe da Árvore (aqui), também foi meu pai quem cantou a pedra desta outra obra sobre autismo. Mais do que cantar a pedra, o pai recorta a matéria e me entrega, desta vez em mãos, pois eu estava em Brasília para ajudar-lhe com o desmanche de sua grande biblioteca (*sigh).

Sempre que estou longe do Dante, incluindo quando ele está com a mãe (o que felizmente só ocorre uma vez a cada quinze dias), evito pensar nele. Evito pensar nele para não chorar. Chorar por quê? Não sei direito, sei que é saudade.Como eu ficaria em Brasília três luas, pus o recorte de lado e só fui lê-lo devidamente aboletado na poltrona do avião de volta.

A resenha da Folha trazia longo trecho do livro, que me perturbou profundamente e ao chegar em casa, depois de passear com o Dante, comprei o livro. Chegou rápido e li praticamente em duas sentadas.

Já escrevi por aqui sobre o hábito de sublinhar passagens (herdado do avô do Dante). Pois. O livro de Luiz Fernando Vianna, Meu Menino Vadio -- Histórias de um Garoto Autista e seu Pai Estranho, ficou tão sublinhado e marcado com setas e colchetes e anotações laterais como pontos de exclamação e interrogação, que talvez o que acabe chamando mais atenção sejam as partes não marcadas... Enfim, modo de dizer que fiquei muito impactado, estatelado talvez seja mais apropriado, com tanta identificação. Por óbvio, podem pensar: é um pai com um filho autista (ia escrever 'com autismo', Luiz prefere 'autista' e explica muito bem sua escolha. Ainda que eu vá continuar usando 'com autismo', ao menos nesta postagem, sigo-o), mas claro que não é só isso. É um pai estranho, que se reconhece um pouco autista também. Identificação total. E que viveu episódio cinematográfico quando a mãe de seu filho Henrique literalmente fugiu com ele para a Austrália sem lhe dar satisfações. A mãe do Dante não fez isso. E nem faria porque não quer ficar com ele. Mas já fez semelhantes ações de absoluto egoísmo e irresponsabilidade.

Quando chega a parte em que descubro que Luiz Fernando Vianna e Henrique moram também no Grajaú, bem, aí já nem sei o que pensar.

Ao terminar o livro, bem escrito e maravilhosamente sincero e corajoso, para além de informativo, procuro pelo autor. Encontro fácil. O mundo é um ovo, o Grajaú é um ovo de codorna. Num domingo de manhã sentamos rapidamente no Bar do Mariano e falamos como se nos conhecêssemos há anos e estivéssemos apenas retomando uma conversa deixada suspensa quando o ônibus chegou.

"Criar alguém que tem sérias dificuldades para se adaptar à vida social significa estar em permanente pêndulo: ora querendo confrontar a sociedade que aceita mal seu filho e, por tabela, renega você, ora desejando, até por necessidade de sobrevivência, ser aceito pelos mesmos que não acolhem bem a pessoa que você mais ama."

"O autismo de Henrique me deu uma ferramenta de socialização: deu um assunto e uma persona sob os quais posso ocultar a timidez e a mediocridade."

 

Thursday, March 23, 2017

Quem vem aí 2 ::: THE WHO no CAp-UFRJ



Dando continuidade ao projeto que, ainda desconfiado, celebra o anúncio da vinda do The Who ao Brasil, primeira vez em cinquenta anos. 

A parte 1 está aqui e fez um sucesso no blog para além do esperado. Nesta parte 2, toda realizada no CAp-UFRJ, procurei reproduzir, em algumas fotos, a própria capa do disco. Tudo de improviso, sem grandes produções. Se isso fica um pouco difícil no By Numbers (rarará), teve um resultado bem feliz no The Kids are Alright e no Quadrophenia. Perdoem a aparente imodéstia, nem estou me elogiando, mas sim as meninas.

Para este projeto contei com a ajuda de alunxs queridxs, inspetores, funcionários, trabalhadores, colegas. Obrigado.













Wednesday, March 22, 2017

The Who ::: Face Dances



O The Who aproveitou diretamente o ótimo ainda que bizarro nome em dois trabalhos: Who's next e Who are you (The Who Sell Out e The Who by Numbers são um pouco diferente) : ambos perguntas porém sem o ponto de interrogação, de modo a melhor criar estranheza.

Who's Next, marco da discografia, vinha após período de exaustão com o Tommy. Por melhor que tenha sido, por mais que os tenha conduzido ao estrelato, por mais que tenha, enfim, tirado a banda do vermelho, depois de tantos palcos e instrumentos destruídos, era hora de olhar para frente e seguir: Who's next?, com a ótima ambiguidade: este é o próximo do The Who, pelo qual tanto se perguntou.

O título, no entanto, caberia também muito bem, talvez ainda melhor, no disco que se seguiu à morte de Keith Moon. A banda que tanto brigava entre si, inclusive fisicamente, fechou 15 anos juntos sem uma única mudança no line-up. Agora era inevitável. Era substituir o insubstituível ou pendurar a guitarra.

O disco, que não se chamou Who's Next 2, é o Face Dances (1981), título também apropriado e otimamente ilustrado na ótima capa: cumpria dar um sacode, cortar os cachos do Roger e adentrar os anos 80. Isso para uma banda nascida nos 60 e que atravessara espetacularmente os 70. Para a maioria da crítica e fãs, um disco fraco. Digo que fica, no mínimo, ao lado do By Numbers e acima do Who Are You.

A joia da coroa aqui é "You better you bet", nascida clássica, mas a que melhor ilustra a tese de que eles entravam de cabeça nos anos 80 (péssimo para o progressivo, mas cheio de coisas maravilhosas) é "Did you steal my money?". Para quem ouvir : se isso não parece The Police, em especial "King of Pain". (Er, só que a música do Police só viria à luz dois anos depois. Ou seja, a banda que tanto influenciara, das poucas respeitadas pelos punks, já adentrava os 80 criando outras infindas influências...)

PS: Eduardo Pereira, fera que tem inclusive uma banda cover do Police, a Badcops, lembrou de "Spirits in the Material World". Não duvido.




Tuesday, March 21, 2017

Na Paraty chuvosa, com Bishop



Na Paraty que chove Pampi pula
as poças o tempo os dias
E como carrego Bishop ora busco
símiles dignas da poeta
direi que o telhado é como o dorso de larga lagosta
as pedras da rua, a espinha de uma baleia
e teus seios pequenos, peitos de rolinhas assustadas
caídas no céu depois de se chocar
contra o azul
Pampi pula telhados e pedras
rolinhas
cai em mim como cai a chuva
por toda parte a tarde chove
em mim

Nossa Moqueca Caiçara



O melhor jeito de trazer lugares queridos para casa sempre foi com livros. E fotos, claro, muitas fotos. Haverá outros, mas um relativamente recente que incorporamos foi a culinária: trazer temperos, aprender um prato, uma técnica, incorporar à vida. Foi assim com o merkén chileno (aqui) e tantos outros já.

Voltar de Paraty tendo visitado os restaurantes Quintal Verde e a instituição Banana da Terra, onde voltei passados quinze anos, inspirou-nos de tal modo que já no dia seguinte à chegada estávamos fazendo nossa moqueca caiçara, com palmito pupunha (nada de conserva), leite de coco caseiro (nada de garrafinha) e banana da terra (nada de prata ou nanica). Parece ostentação? É rápido e barato. E qualquer coisa próximo ao nirvana.

Como estava tudo muito terra, contrabalançamos com uma estupenda  Interstellar, da Hocus Pocus, uma American IPA absurdamente lupulada, uma bomba de aromas de manga e maracujá. O vizinho do 402 subiu para perguntar sobre o cheiro e tivemos que acender incensos.

Trilha-sonora: "Interstellar Overdrive", Pink Floyd. 







Monday, March 20, 2017

Quem vem aí? :: THE WHO no Grajaú



Confesso estar ainda incrédulo, mineiro de coração que sou, mas se garantiram mesmo o The Who no Brasil, o negócio é aproveitar um pouco a felicidade e expectativa.

O projeto aqui é fazer pequenas intervenções com os discos. O nome faz trocadilho inevitável "Quem vem aí?". Não critiquem, os próprios fizeram isso, e mui apropriadamente, em dois trabalhos.

O rapaz que segura o Sell Out (olha o privilégio que lhe concedi!, ter em mãos a edição original desta maravilha), quando lhe foi explicado que eu fazia isso por ser a primeira vez que o The Who vinha ao Brasil, pois então, esse rapaz perguntou "E você vai mostrar pra ele?". Rararará, nem debocho. Não cansaram de perguntar ao Roger e ao David quem era o Pink Floyd?