Tuesday, January 15, 2019

O Gim no Rock and Roll


Inspirado ainda pela visita de ontem à destilaria Amázzoni e, confesso, também pelos gins-tônicas que descem bem no verão e que como nos transportam para os jardins lindos e leves de Mr. Gatsby, pensei numa antologia da presença da bebida no rock and roll. Sem guglar, sem pesquisa alguma, lembrei logo de três músicas, das três bandas mais importantes.

São elas: "Corporal Clegg", (1968), do Pink Floyd; "Rocky Racoon" (1968), dos Beatles e "Doctor Jimmy" (1973) , do The Who.

Da primeira já falei mais extensamente aqui. Um velho casal -- ele um veterano da 2a Guerra -- encharca-se de gim, de modo a preencher o imenso vazio. É ambíguo, no entanto, se ela também bebe ou apenas o serve:

"Mrs. Clegg, you must be proud of him
Mrs. Clegg, another drop of gin".

Na pouco falada canção de Paul McCartney (mas que eu amo desde que ouvi o disco pela primeira vez, com 9 anos), quem bebe gim é o médico lá do faroeste, que chega para cuidar do Rocky que levou um balaço do Dan, que roubou sua amada, a Magill, que se chamava Lil e era conhecida por Nancy.

O verso é: "Now the doctor came in, stinking of gin", rimazinha interna sensacional, como outras na mesma música.

A cereja do bolo (ou devo dizer a casca do limão siciliano?) fica por conta do The Who, uma das últimas do épico, primus inter pares, Quadrophenia. O gim aqui não é circunstancial: para um derrotado da vida como o Jimmy, é justamente através da bebida que ele encontra um outro lado de si:


Doctor Jimmy and mister Jim
When I'm pilled you don't notice him
He only comes out when I drink my gin.
Há também, claro, a relação já desde o próprio nome: Jim / Gin. 

Camila lembrou ainda de uma outra: "Cold Gin" (1974), do Kiss, banda que normalmente dispenso. Mas a letra, despretensiosa, é interessante justamente por explicitar que tanto aqui como nas três canções acima, o gim não tinha absolutamente nada de glamuroso, nada de Gatsby, nada da artesania do Amázzoni. Pelo contrário: é a bebida barata, do riff-raff.


Cold gin time again
You know it's the only thing
That keeps us together, ow 
(...)
It's time to leave and get another quart
Around the corner at the liquor store
Haha, the cheapest stuff is all I need  

Monday, January 14, 2019

O Melhor Gim Artesanal do Mundo ~ Amázzoni



O melhor gim artesanal do mundo é brasileiro, destilado numa linda fazenda tricentenária no Estado do Rio de Janeiro. Veja você: fazem de tudo para acabar com o estado e a cidade do Rio e coisas lindas assim (r)existem, estralando no azul do vale do Paraíba, reinventado-se.

Foi ano passado que soube que uma destilaria de nome Amázzoni ganhara importante prêmio. Fiquei com uma, duas pulgas, fui pesquisar, achei. E hoje visitei. Trata-se da primeira destilaria independente de gim do Brasil, situada em fazenda -- a Cachoeira -- que, para além do café de lei, já produziu muita cachaça envelhecida.

Esta história de gim é recente, o que torna tudo mais bonito. Quando os amigos, visionários alquimistas decidiram pela fabricação desse álcool de cereais com ervas aromáticas, especiarias e os famosos botânicos, quiseram produzir coisa bem brasileira sem, contudo, jactâncias de achar que estavam a reinventar a roda. Ou seja, vamos colocar ingredientes típicos do gim: o zimbro (por óbvio), o limão, o louro, a mexerica, o coentro, mas vamos agregar os inéditos, diretos da selva, jamais explorados como princípios botânicos em um gim. E assim entraram também o cacau, a castanha-do-pará, o maxixe, o cipó-cravo e a rainha do lago (esta mais por superstição?). Ou seja: um gim artesanal brasileiro, sim, porém sem os excessos e os romantismos da cor local.

Hoje produzem uma criança de 42% de teor alcoólico. Já começam a fazer uma versão para o mercado estadunidense com 50%, que provei e aprovei.

A visita conduzida pelo João Mazza é genial. De quebra, provas e um delicioso gim tônica, com a tônica também produzida na casa. Digo, na casa-grande. Will wonders never cease?



Antigo alambique de cachaça (e as 3 seguintes)



O primeiro alambique de cobre projetado e fundido no Brasil




















Friday, January 11, 2019

O Palácio do Itamaraty ( e Guimarães Rosa )


 Não direi o 'verdadeiro' Palácio do Itamaray que mais tarde, numa revisão, eu poderia me acusar de essencialista, ufanista e bairrista. Mas o Palácio do Itamaraty, que sabe-se lá como escapou da sanha destruidora do traçado da Presidente Vargas, reabriu para visitas.

Está certo, está tudo muito certo, ver tantas coisas bonitas do tempo do Rei e dos primórdios da República. Mas o que eu queria mesmo era ver a sala onde o Guimarães Rosa trabalhava, onde revia as traduções do Corpo de Baile para francês, onde chorava ao fazê-lo, onde escrevia suas cartas e onde, é claro, tratava das sérias questões de fronteiras do Brasil.

Isso não foi possível. Ninguém ali ouviu falar de Guimarães Rosa. Mas vislumbramos, de longe, onde ele possivelmente trabalhou. Não é pouco. E de onde, cansado do bife de zinco da cozinha, saía para almoçar no Sentaí e nos árabes do Saara.

( aos visitantes: e depois, ou antes, admire o painel grafitado maravilhoso da Luna Buschinelli, o maior já feito por mulher no mundo )

















Thursday, January 10, 2019

Viva São Gonçalo Garcia


Creio ser do desconhecimento geral (sujeitos como Luiz Antonio Simas e Raul Félix de Sousa não contam) que o orago da popular Igreja de São Jorge, na Praça da República, não é, como era de se esperar, o cavaleiro da Capadócia, mas São Gonçalo. E este São Gonçalo tampouco é o São Gonçalo de Amarante, que já foi muitíssimo popular no Brasil, o santo violeiro, festeiro, Casamenteiro das Velhas (até Richard Burton se refere a ele assim), de quem assisti a uma dança há muitos, muitos anos, em Juazeiro do Norte (No tempo em que pensava que os ladrões moravam no morro atrás de casa e tinham cara de pau).

O São Gonçalo da Igreja de São Jorge é o São Gonçalo Garcia, santo indiano (!) do século XVI, martirizado no Japão (!), e aqui lembra o nosso querido goês S. Francisco Xavier, basco martirizado na China. No Brasil, um culto frustrado. No entanto, está lá ele no altar-mor, ficando o popularíssimo Jorge e seu cavalo numa capela lateral.

À esquerda da entrada há quadro retratando o seu martírio, junto a 25 outros cristãos. Quadro de 1932 cujo estado de conservação nos faz crer contemporâneo do martírio.

Tivesse eu fé, bem que gostava de ser devoto dele. Coisa assim como torcer pelo Bonsucesso.


O S. Gonçalo do Amarante na sua cidade do Jequitinhonha