Wednesday, August 24, 2016

Meu Revolver Faz 40 Anos



Desprezo numerologias (20 letras), mas aos 8 anos comprei por 88 cruzeiros na Rua Farias Brito 8 meu primeiro disco dos Beatles, aliás meu primeiro disco da vida, aliás dos Beatles.

Até esta manhã tentei sem sucesso, eu que nasci com prodigiosa memória, lembrar o que me fez querer um disco dos Beatles em 1976, aos 8 anos. Já escaneei o HD, revirei tudo na cabeça. Suponho que devo ter visto alguma coisa no Fantástico.

Meu pai, duro como ele só, deu a grana à minha mãe, que então certo fim de tarde, na volta do São José, estacionou o carro na Verdun com a exortação de que eu pedisse pro moço tocar as músicas antes para eu ver se gostava. Um de seus incômodos pedidos, como o de regatear preços nas lojas. Naturalmente não pedi o Revolver, mas um disco dos Beatles. Ele pousava a agulha no início das faixas do Lado A e eu, incomodadíssimo com tudo aquilo, meneava a cabeça mais para assustado que deslumbrado ou mesmo satisfeito. Foi como o sorvete de abacaxi do Drummond: ouvir ali sozinho no mundo dos adultos as tosses de "Taxman", as harmonias vocais e as cordas de "Eleanor Rigby", a eterna preguiça de John em "I'm only sleeping' e, o pior, a cítara de "Love you to", numa introdução que me soou infinita. Insuportavelmente infinita no começo da noite grajauense de 1976.

Foi amor à primeira vista? Ali na loja, não. Ou foi, aquele amor esquisito, perturbador e proibido, algo como deve ser amor homossexual que se sente lá pelos 10, 11 anos. O amor viria depois na audição intensiva e obsessiva que eu faria horas a fio, no manuseio incessante da capa. Aquilo não foi apenas o ingresso ao mundo adulto, mesmo porque adultos não estavam interessados em Beatles em 76. Aquilo foi o ingresso a outras paragens. Aquilo era meu.

Comprar um disco dos Beatles em 1976 fez de mim o que sou, para o bem e para o mal. Comprar um disco dos Beatles numa ditadura militar ainda forte, numa ditadura de gostos sempre implacável. O monstro avassalador da disco music ali na esquina e eu me renderia, sem jamais, jamais, renegar o amor primeiro, o amor maior, isto que me moldou.

Me pergunto como teria sido a história se o vendedor me tivesse apresentado o A Hard Day's Night. A mesma? Impossível dizê-lo. Só fui comprar outro disco dos Beatles um ano depois, em 6 de setembro de 1977, nas Lojas Americanas da Saens Peña. Esta ainda existe. A Ton & Ton da Farias Brito foi pro céu há muito, muitos anos antes da derrocada geral de todas as lojas de disco do planeta. Até recente o espaço era ocupado por um boteco (o detestável e previsível e gentrificado nome de Cantinho dos Amigos). Hoje encontra-se fechado, entre cabeleireiros e loja de umbanda, que essas não fecham nunca.


Escrevi 76 sobre a cabeça do John

Tuesday, August 23, 2016

Acaso existirão os marroquinos? Parte II ::: Com a Câmera nos Quadris



Juliana e Victor estiveram em Marrocos uma semana antes. Victor enfrentou a situação descrita nesta postagem aqui colocando a câmera à altura dos quadris. Sem flash. Isso pode gerar registros tremidos (mas não menos interessantes, e que aliás em muito me lembraram as fotos do início do século XX vistas na Casa de Fotografia em Marrakesh). Mas / E geram também esta beleza que é o menino contando seus caraminguás à luz do lampião.





Também eu usei a técnica do quadril (com trocadilho, please), como nesta aqui em Fez ::


Crônicas Marroquinas VII ::: E acaso existirão os marroquinos?

Fez


Antes da viagem, Dorling Kindersley já me advertira que eu deveria sempre pedir permissão a um marroquino antes de tirar sua foto. Os marroquinos, continuou, têm uma suspeita arraigada de qualquer tipo de imagem. Faz sentido, pensei, se lembrarmos (será possível não fazê-lo?) que o islamismo permeia o seu cotidiano e daí, da suspeita e interdição de representar a imagem de qualquer ser vivo (Deus, humanos, bichos e plantas, elenco em ordem de importância), nasceram a extraordinária caligrafia e o extraordinário zelig.

Dorling sabe que eu gosto de fotografar gente (ainda mais que bichos e plantas e Deus) e, face o meu desânimo, acrescentou que eu não estava proibido de direcionar minhas lentes para um marroquino, mas que convinha antes pedir permissão e, depois, deixar alguns dirhams em troca. Nós tendemos a ver isso como exploração, coisa de mercenário. Lévi-Strauss, quando viveu situação semelhante entre os bororos, viu orgulho, no sentido bonito da palavra.

Em Marrakesh comprovei o quanto Dorling e Lévi-Strauss estavam corretos. Era pegar o câmera ou mesmo o Nokinha para que olhos e mãos se estendessem sobre nós. Haja orgulho. Haja dirhams. Claro que se você compra o produto, que pode ser um par de sapatos ou a música de rua, o pagamento já está ali, mas muitas vezes rola incompatibilidade entre o que se dá e o que se esperava receber, o que pode gerar estresse. 

Gostei de tirar fotos assim, como as da incontornável Praça Jemaa el-Fnaa, mas mil vezes as que não se encaixam nesse ajuste de compra e venda.Tudo fica mais fácil quando o sujeito está de costas, ou trata-se de um grupo. Às vezes é preciso malícia e fingir que o registro é da companheira. E com crianças nem é preciso treta. Aliás, fora de Marrakesh tudo foi mais fácil.

(PS: Um amigo enfrentou a situação assim)

A praça



Exemplo de compra, que aqui nem foi concretizada





Em movimento


Treta


Treta

Mais 'compras'


Movimento
Mais fácil. E doce



Minhas diletas







Saturday, August 20, 2016

Os Azulejos do Retiro em Madri (Azulejos de Madri II)



Todos sabemos que painéis azulejares amiúde prestam-se a motivos sérios, isto é, sacros ou históricos. Assim, foi com surpresa e alegria que descobri na estação de metrô Retiro em Madri, de dentro do vagão ainda, não um mas três grandes painéis com motivos humorísticos. A estética é a dos quadrinhos e parece mesmo que temos diante dos olhos algo como um Onde está Wally espanhol. En verdad, como os livros de Martin Handford começaram a ser publicados em 1987, parece-me apropriado ver aqui sua influência sobre o trabalho da ceramista espanhola Esther García Ocampo. Dezenas de pessoas em um parque (Retiro é um parque, perto do Prado, usado pelos nobres para a caça) engajadas em diversas atividades. O tom bem-humorado é onipresente, bem como a cor local, na figura de uma tuna, uma andaluz, um menina de Velázquez.

De um lado dois grandes painéis de 15 X 20 azulejos. Em outro, um mais retangular com 9 x 30.

Dá vontade de perder-se em contemplação e perder o trem. Eu mesmo perdi três.