Thursday, April 18, 2019

Aquarela da Fátima Vollu


Foto feita na Rua Gurupi, rua pequena onde tantas vezes passo, quase incontornável entre a casa e a escola do Dante. Uma casa em ruínas que parece ser hoje local de ocupação. Casa que desde sempre (e meu sempre aqui significa anos 70) me chamou a atenção por ostentar em seu frontispício pequena placa com a inscrição VERITAS.

Veritas em ruínas, tão a cara destes dias.

Vi a foto "pronta", mas passei por ela. Tomei coragem, voltei e fiz, um click apenas.

Prestou um pouco, postei no insta.

Aí veio a Fátima Vollu e dela fez, sem que eu soubesse, uma aquarela.

Fosse música, seria daqueles casos em que o cover supera o 'original': Janis cantando 'Me and Bobby McGee'.





Monday, April 15, 2019

Praça Gregório Bezerra, Grajaú


Nem parece praça, antes um larguinho que só não chamo de mixuruca porque nele residem duas beldades lindas: uma figueira e um ipê-branco que só se faz notar três dias ao ano (aqui).

Dois prédios pequenos, uma casa, um restaurante, o ponto final do 435: tudo que abarca a Praça Malvino Reis, que, aliás, ficava em Copacabana e veio parar no Grajaú (rebaixada?! ou por maiores afinidades ideológicas?).

Pois este pouco (casa, restaurante, prédios, figueira, ipê) é até excessivo para homenagear esse capitão que, enquanto secretário de Segurança e chefe de polícia do governo de Pernambuco, durante repressão a uma greve dos funcionários da Rede Ferroviária do Nordeste, chegou a ordenar que a locomotiva passasse por cima dos grevistas deitados sobre os trilhos. Uma ordem tão brutal que foi desobedecida pelos seus próprios soldados.

Isso está nas Memórias (1979), de Gregório Bezerra, que também lembra ter sido torturado por esse milico infame nessa mesma época.

Então é isso. Eu, que coleciono ruas de nomes bonitos e divertidos (aqui e aqui), moro num logradouro que homenageia um torturador. Pode até "fazer algum sentido" para o Grajaú, este bairro bonito de cigarras, tamarindeiras e fascistas. Pode até "fazer algum sentido" para os tempos hodiernos.

Para nós não faz sentido nenhum. Então ontem mudamos.

Ficou meio mambembe, reconheço, mas foi feito com amor. E resistência.

PS: Eu já pensava em trocar o nome da praça. Quem sugeriu a troca pelo do Gregório foi o amigo João Leite.





Bônus: "Século de Ferro e Flor", punk da Subversivos em homenagem a Gregório::



Sunday, April 14, 2019

As Camisas de Futebol com a Lista Transversal


Novas aquisições para uma das coleções mais importantes que tenho: a de camisas de futebol com faixa transversal, que pode começar da direita ou da esquerda: a do Puebla, México, e, enfim, a do Galícia Esporte Clube, da cidade de Salvador.

Primeiro tricampeão do futebol baiano, o glorioso Galícia levantou o caneco pela última vez no ano em que nasci, ano do Álbum Branco, só coisas boas. Junto ao time do Jorge Amado, o Ypiranga, dá ao amante de futebol a chance de fugir das dicotomias limitadoras, no caso, o Ba-Vi.

Eu tinha já camisa do Galícia, presente de baiana amiga, mas eu precisava dessa com a faixa transversal.

Foi ganhá-la e, criança, vesti-la em seguida para o primeiro dia do Comida du Buteco 2019. Coincidência (ou não, porque eu justo falara nele), encontro na saída o Luiz Antônio Simas, autor do delicioso Ode a Mauro Shampoo e Outras Histórias da Várzea. Simas logo reconhece a camisa, porventura o único habitante do Rio ("nesta cidade do Rio / de dois milhões de habitantes") que reconheceria de pronto a camisa do Galícia assim num boteco na Praça Mauá.

Ainda digo a ele: "Pois é, Simas, agora temos que conseguir a do Ypiranga, time do Jorge Amado", ao que ele rebate: "Tenho três".

Eu e minha boca grande.



Dona Tatá, Milho Verde-MG


O endereço de Dona Tatá: entre a Nossa Senhora do Rosário e a dos Prazeres, numa das bem poucas ruas que formam Milho Verde. Se você botar assim na caixa com goiabada cascão: Dona Tatá / Entre a Rosário e Prazeres / Milho Verde-MG, chega, o carteiro acha.

Mas talvez seja tolo presenteá-la com goiabada cascão, que ela encontra por lá, então talvez seja melhor azeite de dendê. Ou uns tamarindos daqui do Grajaú, catados depois de ventania.

Em seu pequeno repertório lexical, em que nomeia apenas as suas coisas importantes -- como 'rua', 'não' e 'chocolate' (tssss) --, Dante só chama Pampi de Tatá. Tatá, oxítona, que se ele diz táta já está dizendo batata.

Pois. Não foi um encontro bom ali em Milho Verde?

E Tatá podia ficar sendo Rosalina, Lina, mas sem perder o nome:


"Velhinha, os cabelos alvos. Mas, mesmo reparando, era uma velhice contravinda em gentil e singular -- com um calor de dentro, a voz que pegava, o aceso rideiro dos olhos, o apanho do corpo, a vontade medida de movimentos, -- que a gente a queria imaginar quando moça, seu vivido. Velhinha como-uma-flor. O rastro de alguma beleza que ainda se podia vislumbrar. Como de entre as folhas de um livro-de-reza um amor-perfeito cai, e precisa de se pôr outra vez no mesmo lugar, sim sem perfume, sem veludo, desbotado, uma passa de flor. Disse: -- "Meu Mocinho..." Mas dizia depressa, branda e enérgica, que nem que "meu-mocinho" um nome fosse, e que ele mesmo fosse dela, por bem que tantos cuidados não o prendiam nem vexavam. Ela olhava reto. O que falava -- a gente fazia. Mandava sem querer. Lélio se sentou no banquinho baixo. Ela disse que ele ia ficar para almoçar. E ali reinava um sossego." 

(...)

"E dona Rosalina, que nunca mudava, tinha como que naqueles olhos, diversos de todos, um exato de coisas que ele precisaria de um existir sem fim para aprender, mas que cabiam também no momento de um só olhar de bem-querer."


'A Estória de Lélio e Lina' 
Guimarães Rosa












Wednesday, April 10, 2019

Quando Rosa é doce



Quando Rosa pega pra ser doce e terno, não tem pra ninguém. Às vezes acho ele escrevia meio bêbo, no sentido baudelairiano ao menos, de que é preciso sempre estar.

-- "O burití é a palmeira de Deus!" -- ela disse, disse. Lélio se lembrava dos gestos de sua mãe, e, como êsses vaqueiros do Alto Urucúia, relatava coisas ao cavalo. Mais se contentava, sem pensamento, perto de tudo. Ela estava com um plastro branco na ponta de um dedo, machucado em qualquer parte. Seu nome era que lindo por lindo, qual retinia. No que não havia risco de ninguém ver, pois já estavam de saída, êle o escreveu, porção de vêzes, nas costas das fôlhas das piteiras. Mas ao cavalinho pampa os nomes que dela disse foram outros: Minha-Menina, a Môcinhazinha, Sinhá-Linda...

"A Estória de Lélio e Lina"

 

Tuesday, April 09, 2019

De Patrimônio Histórico e Conservadorismo

Palmeira-BA

Queijo do Serro

1986 tinha tudo para ser um grande ano: eu terminara o Ensino Médio feliz, iria iniciar os estudos de Psicologia na UERJ e já com a viagem de intercâmbio para Chicago marcada no meio do ano.

Antes disso, em janeiro, teve Ouro Preto. Uma epifania. Todas as questões de patrimônio histórico, cidades históricas, arquitetura e preservação entraram na minha alma com força para duas, três, quatro vidas. Antes mesmo que as férias terminassem, eu já quase esgotara o périplo das cidades históricas mineiras mais conhecidas. O Caraça ficou para a Páscoa.

Desde então, pois, é dos meus interesses maiores, em leituras, fotografias e, claro, viagens. Como outros de meus interesses maiores (rock progressivo, single malts, poesia), não partilhado por muitos.

Com a chegada das redes sociais, fui, como todos, procurar a galera com interesses semelhantes.

A turma interessada em questões de patrimônio histórico é particularmente desagradável (há exceções). Camila tem uma teoria, tão simples quanto válida: 'Mas é claro, estão interessados em preservação, em conservação, você acha que isso iria se limitar às igrejas barrocas?'

Queria crer que sim (bem, e que não se limitasse apenas às igrejas oitocentistas, claro), mas a realidade é que o interesse maior é mesmo "o meu Brasil de volta", havendo até um grupo de monarquistas doentio e outros, que sem serem particularmente apegados às barbas do Pedrão, defendem abertamente ideias fascistas e fascistoides, votam em um partidário da tortura e atacam direitos humanos.

A ironia é que esses imbecis desconhecem que não será com jair bolsonaro, não será com esse ministério de idiotas que teremos avanço na área do patrimônio histórico. Ou alguém acha que um desgoverno desses, corrupto, ignorante e despreparado, entende das questões de preservação? Que esse desgoverno que criminaliza pesquisa e conhecimento não achará preferível entregar o patrimônio em troca de vultosas propinas? E o patrimônio imaterial? Esses asnos estarão interessados na capoeira, no amolador de faca, no queijo do serro, no empadão goiano, no grafismo dos wajapis, no samba de roda do Recôncavo?


Autismo em Dia de Chuva ou História Universal dos Chapéus


Muita chuva, sem escola, sem babá, sem pracinha, sem piscina, sem passeio.

Mas chapéus


















Monday, April 08, 2019

Clarice e os 80 tiros em Guadalupe




Em 1964 (!) foi publicado pela Editora do Autor (aqui) A Legião Estrangeira, de Clarice Lispector, seu sétimo lançamento. A primeira parte traz os contos (e alguns eternos estão lá), enquanto a segunda intitula-se "Fundo de Gaveta", sugestão do Otto Lara Resende (aqui).

Tudo aqui vale muitíssimo a pena. E no fundo do fundo da gaveta, os textos se seguem uns aos outros na mesma página, está lá o Mineirinho, o bandido assassinado com treze tiros.

Quando bastava um só.

O texto é um soco no estômago. E o que diria Clarice dos 80 tiros?



"Esta é a lei. Mas há alguma coisa que, se me faz ouvir o primeiro e o segundo tiro com um alívio de segurança, no terceiro me deixa alerta, no quarto desassossegada, o quinto e o sexto me cobrem de vergonha, o sétimo e o oitavo eu ouço com o coração batendo de horror, no nono e no décimo minha boca está trêmula, no décimo-pimeiro digo em espanto o nome de Deus, no décimo-segundo chamo meu irmão. O décimo-terceiro tiro me assassina -- porque eu sou o outro. Porque eu quero ser o outro.

'Essa justiça que vela meu sono, eu a repudio, humilhada por precisar dela. Enquanto isso durmo e falsamente me salvo. Nós, os sonsos essenciais."

Saturday, April 06, 2019

LULA LIVRE :: VIGÍLIA EM CURITIBA



Guardei para hoje a postagem sobre nossa visita à Vigília Lula Livre, em Curitiba: um ano de sua prisão tão absurda quanto injusta.

Chegamos na cidade na noite de quinta e eu já queria ir lá, mas a noite e a chuva desanimavam. Na sexta, o passeio de trem para Morretes toma quase o dia todo, embora eu também tivesse querido na volta. Com chuva e vento. Acabou que a manhã de sábado (o passeio à colônia anarquista em Palmeira se revelando impossível) mostrou-se o melhor dia: o céu melhor azul como fundo para araucárias, tantas.

O motorista de táxi incrédulo e arregalado: 'É aqui que vocês vão ficar?'. Sim, moço, é aqui, junto desse povo que acampa e que visita e que foi marginalizado e feito marginal por uma mídia corrupta e vendida. A energia boa, a cordialidade imensa, um carinho grande apesar das indignações. A luta.

Duas caravanas chegaram. E havia grupo de cegos. E canções e palavras de ordem. O bom-dia entoado treze vezes, depois mais música enquanto o mate ferve e (parece) o grupo mais die-hard, os de fato acampados, a tudo observam.

A gente fica meio criança, tocado pela energia, mas sem esquecer o absurdo, a injustiça da situação, que está ali na figura nefasta do prédio da Polícia Federal.

Não somos contra polícia, claro, ainda infelizmente necessária. Mas polícia não é pra isso: pra comer na mão da elite e sentar a porrada nos que a incomodam. A polícia no Brasil não foi outra coisa nos últimos séculos. De mãos dadas com um Judiciário viciado, corrupto, egoísta.