Tuesday, February 21, 2012

Rock Progressivo e Moda



Com os discos da fase áurea do Genesis, Peter Gabriel imprimiu com ferrete sua marca no rock progressivo. Inexorável e atemporalmente. Incontáveis influências confessas: Marillion, Citizen Cain, Kyrie Eleison, The Watch, para ficarmos com algumas.



Não precisava ele, portanto, fazer mais nada, entronizado no panteón como já está. Mas ao declarar que o rock progressivo é o estilo mais fora de moda no cenário da música atual, continua ele, hummm, como dizer, prestando-nos grandes serviços.



Porque moda, afinal, é para quem precisa. Ou, como quer Oscar: "Fashion is something so ugly we have to change it every six months."

Monday, February 20, 2012

OFF-Carnaval: Marquês de Sapucaí



Nestes dias em que a Marquês de Sapucaí é a rua mais famosa da cidade, do país e do planeta, publico foto de um trecho dela bem pouco conhecido. Aliás, nada.

Trata-se de uma vila construída no final do século XIX. São 16 casinhas cujas fachadas têm tijolo maciço aparente.

Bem tombado, mas isso hoje já não quer dizer muito, vide o Maracanã e a fábrica da Brahma.Este desconhecido trecho da Marquês de Sapucaí (sim, é a mesma rua dos desfiles, da televisão!) situa-se no sopé do Morro do Pinto. O passeio por aqui não é assim tão tranquilo, de vez que a galera do crack do Morro da Providência desceu depois da UPP e agora fuma por aqui.

Convém, portanto, ter cautela, não tirar fotos (como fiz), nem explorar (como fiz). Mas para os intrépidos, já fora da rua, existem outras belas construções e o Bar do Carlinhos.

Um Rio Comprido

Para que os araribóias pudéssemos chegar mais ligeiro à Zona Sul e para que os moradores da Zona Sul pudessem atingir o Maracanã (quando havia este) antes do apito inicial, um preço haveria de ser pago e aqui a monta foi alta, não tanto pelo Rebouças, mas pelo horroroso Elevado Paulo de Frontin, que desfigurou o Rio Comprido de modo cruel.

Como a Glória, como a Praça da Bandeira, o Rio Comprido é hoje espaço de passagem, e passagem pelo alto. Mas mesmo esta passagem permite a visão de duas jóias: a igreja de São Pedro (cuja porta pertencia à igreja de São Pedro dos Clérigos, destruída aquando da construção da Presidente Vargas) e a Casa do Bispo, ambas oferecidas do lado direito de quem vai para a Zona Sul.

Por jóias que sejam, limitar o Rio Comprido a elas é miopia. Há que se descer e flanar. Afinal, bairro que tem estas duas jóias, que tem o nome que tem, que tem uma rua chamada Estrêla (com chapèuzinho), bairro por onde tantou andou Pedro Nava, sendo mesmo o título do último capítulo de Baú de Ossos, merece mais que uma passagem.

A minha flanação não teve a pretensão de fazer todo o bairro, mesmo porque desejo voltar, de modo que não andei pelas ruas porventura mais importantes, como a do Bispo, a Barão de Itapagipe, a Aristides Lobo, Paulo de Frontin, a Praça. Começando por um botequim que há anos chamava minha atenção do alto, sempre do alto (e, que infelizmente, dadas infelizes reformas, nada tem de relevante, mas o do lado...), comecei pela Santa Alexandrina e me perdi, que conhecer um rio comprido será sempre perder-se nele, conhecendo recentos talvez desconhecidos dos próprios riocompridenses.

Encontrei fachadas esquecidas, azulejarias em frisos, fachadas e pisos, porôes altos, cantarias, botequim-armazém e a Estrêla. Lembrando Nava, sempre ele, um Rio que não há mais, esquecido pelas picaretas.


PS: Não foi esta a minha estreia no Rio Comprido, bairro onde tive amigos, como a Nélida Capela e o André Murray, e mais que isso.

PS2: Por mostrengo que seja o elevado, tenho dúvidas se seria bom pô-lo abaixo, como quer agora o alcaide com a Perimetral. Facilitar o tráfego Sul-Norte da cidade parece-me ideia inatacável e da qual, aliás, me beneficio há anos. Só que teve seu preço, como tudo.












Saturday, February 18, 2012

Letreiros Antigos da Saens Peña










Isso já rendeu livro, que tentarei localizar na Estante Virtual. Não me engano, o fotógrafo centrou-se no Largo do Machado, Flamengo, por ali.

Por acaso, cliquei esses. São espécimes em extinção, sem Greenpeace ou WWF ou IPHAN que os valha...

Esse tipo de letreiro (qual o nome??) tinha a grande desvantagem da vulnerabilidade: uma pedrada e ptof! Estes estão incólumes; Afinal, quem teria algo contra a Rosinha da Tijuca ou o Chaveiro Popeye?

Tuesday, February 14, 2012

Magritte




Magritte é célebre por suas pinturas surrealistas, mas em meu Magritte preferido não há homens alados nem excesso de guarda-chuvas e talvez, até, um cachimbo seja mesmo um cachimbo.

Simplesmente amo estes dois quadros. Enxergar surrealismo aqui é forçar a barra, afirmar que é uma cena noturna sob um céu diurno é desconhecer crepúsculos.

Abaixo, minha "leitura" deles, em foto tirada na minha aldeia Grajaú.


Sunday, January 29, 2012

Uma Aquarela para o Dante


Juntando-se aos desenhos e bico-de-pena de Nina, Cora e Fernando, agora uma aquarela do Dante. Se naqueles ele era ainda um neném (o mais belo do planeta), nesta ele é já um mocinho (de todos o mais guapo). Embora não seja ainda a versão final, gostei já um bocado e daí publico.

A obra é de Edneser L. M., rebelde artista galês autodidata, que jamais terminou os estudos por se recusar a preencher documentos em inglês. Edneser só escreve e fala galês.

Quando ele vem ao Rio, bebemos cerveja no Brother's Bar e no Costa. Ed me diz que, neste quesito, ele deixa Dylan Thomas no chinelo. Não digo nem que não nem que sim, porque sempre apago antes.

Abaixo um pequeno trecho de sua bio blurb:

Gweithio mewn olew a dyfrlliw, Edneser L. M. wedi ennill clod rhyngwladol fel arlunydd tirluniau ac mae ei enw da fel arlunydd portreadau hefyd yn sylweddol. Mae ei gwaith yn cael ei ddewis Bar do Costa yn rheolaidd ar gyfer y Gymdeithas Frenhinol Arlunwyr Portread Arddangosfa Flynyddol. Roedd Marista São José yn chwaraewr o'r radd flaenaf yn Vila Isabel rhagorol rygbi yn ei ieuenctid, felly ei bortreadau o chwaraeon Cymreig cyfoes, mae llawer bellach yn hongian mewn sefydliadau Brother's Bar mawr, yn dod o'r galon.

Saturday, January 28, 2012

Você Jura?



As far as single malt goes, costuma-se dividir a produção escocesa em Speyside, Highlands, Lowlands, Campbeltown e Islands. Islay é um caso especial desta última categoria, pela quantidade de produção e pelas suas características especiais. Minha preferência recai sobre as Ilhas e, não por acaso, sobre Islay, ou seja, já não posso imaginar o paraíso sem turva e fumaça. Já escrevi sobre o Laphroaig e o Caol Illa neste bloguinho.

Mas também adoro o restante das Ilhas: Scapa e Highland Park (ambos de Orkney) e, claro, o poderoso Talisker (da ilha de Skye). Faltava provar o Tobermory (de Mull), o Arran (da ilha homônima) e o Jura (idem). Até que.

O dia vinha sendo cansativo quando, quase que mecanicamente, vou checar se chegou alguma cerveja nova no Pão de Açúcar. Até tinha, mas a surpresa maior estava reservada para a seção de whisky, que aliás nunca checo porque é a sensaboria dos blendados de sempre. Mas desta vez lá estavam dois single malts: o Dalmore e o Jura. Caí pra trás. Então é assim? Dois maltes sequer encontrados no freeshop agora ao alcance de uma descidinha de casa? Isso deve ser mesmo sinal de que algo acontece em nossa economia. For the good or for the bad.

O Jura, claro, não decepciona. A expressão disponível era o 10 Year Old Origin, não turfado, mas ainda assim Ilhas, a lembrar o Highland Park, com um aftertaste delicado e notas de mel. O que pode ser um perigo.

Friday, January 27, 2012

Subi o Morro de São Roque

Há quase que exatamente um ano depois, diferença de um diazinho, de subir o Morro do Pinto, subo o Morro de São Roque. Um levou ao outro, bien sûr. Quando estava no Bar do Carlinhos, no alto do Pinto (epa), o dono me diz: "Igual a este aqui, só o Morro de São Roque...". Ando até o Reservatório do Morro, obra de 1874 a poucos passos do bar, não entro com medo do Aedes e na volta pergunto qual era mesmo o nome do outro morro. E ele reforça: de São Roque.

As informações na internet são escassas, o bom livrinho da coleção Cantos do Rio sobre São Cristóvão também é silente, mas descubro onde é o morro e passo a cortejá-lo, de longe, no ônibus a caminho do Rio.

Até que ontem subi. E o que encontro? Um punhado de casas da primeira década do século passado, um botequim-mercearia muito antigo, um chalé de madeira (!), como aqueles do Caju, a igreja modernosa feiosa mas que pretendo visitar, um Gabbeh posto a secar, uma rua chamada Frolick, muita tranquilidade. Na descida, já às margens da Barreira do Vasco, conheço um senhor de 95 anos, também ele dono de botequim, chamado... Seu Roque.














Friday, January 20, 2012

Difícil, quase Insuportável



Difícil, quase insuportável, o Anticristo do Lars von Trier. Talvez um pouco pretensioso, e indubitavelmente pesado em sua simbologia. Chamá-lo de filme de terror, no entanto, é tolo, embora uma e outra cena pueril talvez justificassem a etiqueta.

Junto a O Quarto do Filho, do Nanni Moretti, um dos episódios de Paris, te Amo (aquele com a Juliette Binoche), e o mais recente A Árvore da Vida, que sofre da mesma pretensão e do mesmo peso, comporá um painel das trenodias do cinema contemporâneo.

Wednesday, January 18, 2012

Bolinho de Vagem com Malagueta





Não é petisco de boteco dos mais tradicionais, o bolinho de vagem. Numa edição do Rio Botequim inteiramente dedicada à culinária de botequim, Guilherme Studart não o inclui. Conheço dois botecos de responsa que o servem: o Gato de Botas, em Vila Isabel, e o da Dona Maria querida, na Muda, mas este só aos sábados. Deve ter mais por aí, claro, mas não ao ponto de o bolinho rivalizar com o de bacalhau ou um caldinho de feijão. Minha vó, que tinha fama de boa cozinheira sem o ser, fazia um delicioso.

Então fui fazer os meus, pela segunda vez. Lembrando-me das celebérrimas empadas do restaurante / botequim A Lisboeta (tristemente fechado), resolvi colocar, em cada bolinho, durante a fritura, uma pimenta malagueta inteira. Já entrara pimenta ralada na hora na massa (a Fire Eaters, que adoro), mas a invenção aqui foi isso mesmo: colocar uma maldosa inteira no bolinho.

Acho que a harmonização ideal seria com uma pilsen bem gelada, porém, por amor de manter a macheza, fui de Baden Baden Red Ale, ainda por cima à la England, isto é, bem pouco gelada.

Evoé Baco.

Sunday, January 08, 2012

Toda Literatura é Auto-Ajuda



Na primeira noite sonhei que um ônibus levava minha mochila e sacola. Peguei um táxi para segui-lo mas, claro, o tàxi parava em todos os sinais enquanto o ônibus sumia de vista.

Na segunda noite sonhei com estilhaços, muitos, e, na terceira, com leões, grandes e ameaçadores. Sonhos tão clara e facilmente simbólicos que dir-se-ia talhados para o divã ou, pelo menos, para um desses manuais de interpretação que se vendem nas bancas de jornal das rodoviárias.

No quarto dia, literalmente, não era noite, peguei o volume de contos do Tennessee Williams, que chegara há uns poucos dias. Eu já sabia que o volume era organizado em ordem cronológica, de modo que fiz questão de não começar pelo início.

Abri a esmo em ¨The Angel in the Alcove¨. Ora, um conto que começa por "Suspicion is the occupational disease of landladies and long association with them has left me with an obscure sense of guilt I will probably never be free of.", ora, dizia, um conto que assim começa de maneira tão arrebatadora não irá senão deixar-me a sensação que intitula este post.

Certeza que eu já tivera, de maneira igualmente clara, ao começar The Dying Animal, do Roth,em janeiro de 2010.

Senti-me menos só e é nisso que a literatura nos ajuda: fazemos parte deste mundo, com o que ele tem de tocata de Bach e de sordidez.

Comentei isso com o Cristóvão Tezza em nosso rápido encontro, contando-lhe que seria pueril e depreciativo chamar O Filho Eterno de auto-ajuda, mas que ele tinha me ajudado pra cacete, isso tinha.

Voltando ao Tennessee, apenas conhecido por suas peças: por aí se avalie a força da literatura norte-americana, meio que tacitamente desprezada pela intelligentsia de plantão.

Friday, December 30, 2011

Uma Fase Muito Chão

Estou numa fase, digamos, muito chão. Isto é: agora que descobri a beleza dos azulejos / ladrilhos hidráulicos, vou à cata deles em antigas igrejas, botecos e lojas. Feita uma descoberta, curvo o pescoço em 90 graus, tirando fotos, esbarrando em tudo e em todos e só tornando a levantá-lo (o pescoço) quando deparo-me novamente com a claridade.

Assim foi na Igreja da Nossa Senhora do Carmo, nossa antiga Sé, quando lá estive numa quarta-feira para papar a missa de N. Senhora da Cabeça.

De lá rumei para a Igreja de N. Senhora do Rosário e S. Benedito, munido já da informação que, após o triste incêndio que a destruiu praticamente toda nos finais dos 60, só os azulejos hidráulicos da sacristia sobreviveram...

No caminho, ainda tinha a Casa Cavé, com mais deles...







Os da Igreja do Rosário:




Os da Casa Cavé: