Saturday, December 10, 2016

Mate os Velhos Vagabundos Remunerados


 Em 1729, Swift, aquele do Gulliver, escreveu "A Modest Proposal", cujo título completo em todo seu esplendor barroquista é A Modest Proposal: For Preventing the Children of Poor People in Ireland from Being a Burden to Their Parents or Country, and for Making Them Beneficial to the Publick, que em bom português, aproveitando tradução já feita, fica Uma Proposta Modesta : Para impedir que os filhos dos pobres da Irlanda sejam um fardo para os seus progenitores ou para o país, e para torná-los proveitosos ao interesse público.

A proposta é, de fato, simples: irlandeses pobres e famintos deveriam vender seus filhos para que os ricos os comessem.

Vários coelhos com uma caixa d'água só: os pobres ficariam livres dos pirralhos, fonte de gastos, e ainda ganhariam caraminguás para comprar nabos. Os ricos continuariam ricos. E um pouco mais gordos.

Duzentos e quarenta e nove anos depois os Dead Kennedys sintetizam Swift em três palavras na canção "Kill the poor". Punks, bem o sabemos, nunca foram de muita barroquice.

E agora, passados trinta e oito anos do lançamento da canção e duzentos e oitenta e sete da proposta, nosso governo golpista e covarde, sem a inteligência de um Jello Biafra ou Swift, e seguramente sem a menor abertura para diálogos, sintetiza tudo com a reforma da previdência. Não causa espécie que seu mentor atenda por Marcelo Caetano, nome de ditador, sem tirar nem pôr.


Friday, December 09, 2016

Dois Painéis Azulejares Tijucanos



Esta descoberta tem alguns meses, não esqueço que foi precisamente no dia da final do futebol olímpico Brasil X Alemanha, que acabamos levando nos pênaltis, mas não pagou os 7 X1, claro, nem era o caso.

Dois painéis não assinados na entrada em um prédio tijucano. Fantásticos. As cores (a lembrar algo deste paulistano aqui), o tema (aqui e aqui), o desenho bonito.




A Vida numa Goa ::: 10 Anos I


Este mês A Vida numa Goa completa 10 anos. É só um blog, coisa para a qual quase ninguém liga mais, mas para mim tem um significado grande, acalentador, estimulante. Gosto dessas datas assim e muitas das postagens aqui provam-no.

Esta postagem agora será só uma das postagens a respeito da efeméride. Porque há o que comemorar, sim (Rixa, Karla, Ivo, Sheila, o tombamento do Nilton Bravo e, acima de tudo, Camila). Cheguei a planejar coisas como comemorar bombando o blog, de modo que mês passado mesmo cheguei à marca de 35 postagens, que é coisa pra cacete, e as visualizações só aumentam recentemente : mais de 300 ao dia, às vezes bem mais, virou rotina e isso me deixa feliz.

Então planejei coisas, bobices, e dezembro seria mês especial, mas confesso que os acontecimentos recentes têm me deixado tão pra baixo que perdi um pouco o estímulo. Não é o avião da Chapecoense cair, essa tragédia tristíssima. Isso é triste e pode render postagens homenagens lindas, como tanto li por aí. 

Mas o crescimento exponencial da direita, a intolerância tão ao nosso lado, as reformas pusilânimes, nojentas desse governo filho-da-puta incensado por essa mídia lambe-botas... confesso: isso desinspirou bagaray. Não há tag cask strength que dê vazão.

PS :: Hoje ainda desmontando a casa que um dia tive no Ingá encontrei a foto acima. Bruno Pedra. Marcela Tavares aka Seacela, Erick Dau, três queridos imensos do CAp. Que ano? 2002?

Aí desbloqueei um pedaço, enfrentei o branco da tela e saiu isto.

Monday, December 05, 2016

Alto da Vista Boa



Já vale pela floresta, claro. De quebra tem dos museus mais lindos da cidade, paraíso de azulejófilos,  e colégio com o maior acervo de Nilton Bravo (aqui e aqui). Ao contrário do que se poderia pensar, bastante patrimônio histórico, com um quê de olvido e mistério. Uma coleção fabulosa de construções no estilo Missões. Umbanda e macacos.






















Sunday, December 04, 2016

Como se escreve moinho d'água


Desenho da Isabella Mathias

À Lu Coutinho

queria morar perto de um moinho d'água
a que pudéssemos ir de mãos dadas Dante e eu ao fim da tarde
eu ele o moinho
d'água
o fim
da tarde

o murmúrio da água quase abafando a gritaria das cigarras
quase abafando
a gritaria do peito

voltaríamos atrasados para casa
unicamente guiados pela estrela da tarde

antes de dormir pensamos
como se escreve moinho d'água
em números romanos?




Thursday, December 01, 2016

Black Sabbath :: The End



Bem, eu mesmo não seria louco a ponto de permitir que o setlist dessa tour The End, do Black Sabbath, fosse feito por mim. Porque aí certamente entrariam "It's alright", forçando a vinda do Bill, "Swinging the Chain", mesmo problema, "All Moving Parts (Stand Still)", "Sabbra Cadabbra", "A National Acrobat", "Killing Yourself to Live", "Megalomania" e todo o Never Say Die!. Quer saber? Nem vejo loucura nenhuma aí, mas reconheço que um e outro veriam.

Mas daí a fechar um setlist de apenas 13 músicas (bis incluído) com 11 (!) dos três primeiros discos beira o inaceitável. Uma única música do Vol. 4! e nada absolutamente nada do Sabbath Bloody Sabbath, Sabotage e Never Say Die!. Chega a ser miraculoso que, ao menos, "Dirty Women" esteja lá! Na boa, se é para levar em conta rockers, músicas de explosão, "Symptom of the Universe" não poderia entrar com sobras?! A homônima "Never Say Die"?!, as fodásticas do Vol. 4, incluindo "Supernaut", um tubarão cego e furioso e que, na opinião de Frank Zappa, tem o maio riff de todos os tempos?!

Pra que tanta música do primeiro disco? A própria "Black Sabbath" já deu, "Behind the Wall of Sleep" é uma bobagem e só serve mesmo como introdução a "N.I.B.", tampouco grande coisa. *Sigh...

Tenho algumas explicações, mas agora é só desabafar.

E amanhã à noite estarei feliz da vida, berrando a plenos pulmões. Mesmo em "Behind the Wall of Sleep" e "N.I.B.".

Claro.



Wednesday, November 30, 2016

Fahrenheit 451 :: Tornando-se Book People




The good people?
The book! The book people!

 Há alguns anos assisto com meus alunos ao Fahrenheit 451, do Truffaut, conforme postei aqui. Este post, aliás, fala que ao final dos trabalhos eles se tornam book people. Fazemos assim: primeiro espalho pelas paredes da sala o início de romances clássicos em língua inglesa, se bem que entram também A Metamorfose, do Kafka, A morte de Ivan Ilitch, do Tolstói, A Desobediência Civil, do Thoreau, e "Annabel Lee", do Poe e "Song of Myself", do Whitman. Dentre outras coisas. Ou seja, não entra só prosa de ficção e o texto não precisa ter sido escrito originalmente em inglês. A tarefa deles é identificar cada texto, sendo que, para facilitar um pouco, forneço a lista com os nomes de autores e obras pendurados nas paredes.

Feita a correção, cada um escolhe o livro que vai se tornar, abandonando para sempre, portanto, a sua antiga identidade de Mariana, Lucas, Julia, Augusto. Eles têm um tempo para memorizar o texto e, então, apresentam-se uns aos outros: "It's nice to meet you, I'm The Great Gatsby, by Francis Scott Fitzgerald", "Oh, really? I'm A Christmas Carol, by Dickens", e eles então recitam-se uns aos outros. E assim fazendo, transmitem o precioso, como quem passa água de mão em mão em concha,

Porque, como no filme disse a sensível Clarisse ao Montag, em breve esta idade das trevas, de PECs e escola sem partido, irá terminar e livros serão impressos novamente. E a literatura, a liberdade, a beleza poderão novamente vir à luz sem medo.









Tuesday, November 29, 2016

Vasco 2 x 1 Ceará



gorilas bêbados abraçaram-se duas vezes
recolheram os braços outra tanta
e o caboclo eufórico na subida da rampa
vaticinara tudo

E sem o Jethro Tull tampouco existiria o Sabbath



Toni Iommi empolgou big time ante a perspectiva de tocar no Jethro Tull, uma banda de verdade, em vez de um baterista incipiente pouco chegado a banhos, um baixista hippie amalucado também incipiente e um piá doido de pedra. A ponto de esses outros três serem os primeiros a dizer que ele tinha mais é que ir mesmo.

Bem, tocar e conviver com Ian foi um choque de realidade para Toni. 'Amanhã ensaio às 9 da manhã, sem atraso!' já foi esquisito. Terminado o primeiro ensaio, precisamente ao meio-dia para o almoço, foi ele se sentar à mesa com Ian e ouvir os demais membros da banda "Psiiiiu, não se senta à mesa do Ian!". Foi demais. No sentido ruim da palavra.

Toni disse que estava caindo fora, ao que o chefão do Jethro apenas pediu-lhe que participasse do projeto "Rock and Roll Circus', dos Stones, compromisso já agendado e tal. Ele então foi. Vê-lo no palco de chapéu completamente sem jeito fingindo que está tocando a ótima "Song for Jeffrey" (é tudo playback) é de dar dó. Mas é demais, em todos os sentidos da palavra.

Terminada a brevíssima experiência em Londres, ele pode voltar para seus amigos em Birmingham, com quem reorganizou a banda, que ainda se chamava Earth.

Hora de voltar aos ensaios. E Toni é enfático: "Amanhã de manhã às nove. Sem atraso."



PS: O projeto dos Stones, que incluía Eric Clapton, John Lennon e The Who, gravado em 1968, só foi lançado em 1996. Um atrasozinho de 30 anos. Coisas do Brasil. Acho que Toni Iommi mesmo nunca viu esse vídeo. Agora, claro, ele pode assisti-lo aqui no blog. =)



Sem Django Reinhardt não haveria Black Sabbath



Lembram de Sweet and Lowdown (1999) do Woody Allen? Então, Emmet Ray considerava-se o segundo maior guitarrista de todos os tempos. Porque o primeiro posto era reservado para o Django, a quem ele idolatrava.

Django Reinhardt, por sua vez, era aquele músico francês nascido na Bélgica, mas cigano antes de qualquer coisa, daqueles nascidos em caravana acampada à beira, sempre à beira, das cidades. Fez fama e algum dinheiro, mas nunca adaptou-se a uma vida profissional 'moderna', preferindo muitas vezes ignorar uma gig para ir tocar com a irmandade gitana. Aos 18 anos, devido a um incêndio, Django perdeu a mobilidade de dois dedos. Os médicos, claro, disseram que ele não poderia mais tocar guitarra ou banjo.

Todos sabemos que Toni Iommi não tem as duas falanges distais (aka falangetas?) do dedo médio e indicador, justo de sua mão direita, ele que é canhoto. Estas foram cortadas por uma máquina soldadora quando ele tinha 17 anos, justo na tarde que seria sua última de trabalho e justo quando ele iria se juntar ao The Birds and the Bees.

Foi um golpe terrível. Deprimido, a ponto de desistir de tudo, Toni recebe a visita de seu ex-chefe, o irresponsável que o colocou para trabalhar na guilhotina sem qualquer treinamento, em substituição a uma empregada que faltara. Este chefe lhe presenteia com um disco do Django, dizendo coisa como 'Ó, se esse cara aí conseguiu...'.

The rest is history.





Sunday, November 27, 2016

Outro Painel de Celino :: Cascatinha Taunay



Já fiz compilação de painéis azulejares de Celino aqui e aqui. Bem, ontem encontrei um trabalho seu no tradicional azul e branco, o primeiro até agora.

Retrata a Cascatinha Taunay, o que é apropriado: o painel localiza-se no primeiro prédio da subida do Alto (ou será o último prédio antes que a subida comece?). Representação oitocentista: reparem nos negros na labuta, de costas para a cascata (não tinham tempo pra isso) e a elite branca enchapelada contemplando o sublime na natureza.

Interessante (e exagerada) a cercadura branca.





Lembro agora que, há coisa de dois anos, eu já registrara este outro interessante painel em casa bem no coração do Alto. Não dá para ver se assinado.



Nava e o Leão do Alto



Quem nunca reparou no leão branco na subida do Alto? Fez parte da minha infância, nas inúmeras subidas para a Praia da Barra, fez parte da juventude de Pedro Nava, em seus tresloucados anos de Pedro II.

Assim lemos em Chão de Ferro, ele lembrando, euforicamente, a euforia das saídas do internato:

Mudou a palavra mas não mudou o ouro do dia -- porque hoje é sábado! nem mudaram nossos corações forros e nossa alegria solta -- porque hoje é sábado! Era essa alegria que nos espalhava na rua e nos fazia reagruparruar na ruarrua. Subíamos e descíamos os degraus escadaria de cantaria, cavalgávamos a amurada de pedra, íamos voltávamos bebíamos sem sede na biquinha de bronze do nicho de granito dourado pelo tempo, montávamos o leão de mármore cuja cauda foi arrancada por um de nossa turma (ele -- o leão -- agora se encontra, rabo restaurado, na Estrada Nova da Tijuca -- é o mesmo, corríamos nos separando novamente embolando nos atropelando como revoada de pássaros, bando de terriers saltando dando cambalhotas gambadando camba gamba pulando-carniça batendo canhão-vovó.


Eu já me dava satisfeito ao reencontrar o leão. Fiquei ainda mais ao perceber-me observado por notável capela de macacos-prego. Coisas de quem tem a maior floresta urbana do mundo tão ao alcance da mão, perdoem-me o ufanismo.

PS: E não haverá nesses macacos alguma semelhança com o grupo de Nava? É voltar lá e verificar se o rabo do leão continua lá, ali onde terminam as costas.




Friday, November 25, 2016

A Serbian Book



Tenho uma aluna muito querida de nome Alice Hooper, a quem na hora da chamada chamo de Alice Cooper. Culpa da minha Witzelsucht. Seus colegas, por brilhantes e igualmente queridos, não pegam, mas anyway. (Se bem que, lembrei agora, um outro aluno, já formado, de nome Igor Foti e que também sofreu com a minha Witzelsuch, não apenas conhecia Alice Cooper como recomendou-me a música "Only women bleed").

Voltando à Alice. Acabamos de assistir e analisar Fahrenheit 451. Se fosse se tornar uma book person, ela seria Alice in the Wonderland, o que acho ótimo: numa sociedade distópica em que um vampiro golpista desse aval ao escola sem partido e congelasse investimentos na saúde e educação por 20 anos (god, nem Bradbury, nem Truffaut!), nessa sociedade distópica, ela poderia contar-me as aventuras do Chapeleiro Louco e eu, em troca, lhe falaria da Diadorim.

O que há de sérvio nisso tudo? Ela deu pra nossa coleção (minha e do Dante) lindo livrinho em sérvio. Um joia, uma joia. E ela perguntando ainda se... servia. Obrigado, moça.

Guardo-o aqui, junto ao croata (aqui), lado a lado. Esses sonhos.