Tuesday, February 21, 2017

Carta Marítima :: Soneto




Este foi o primeiro disco do Egberto que comprei, em 1985, vinil ainda. O Brasil vivia momento de euforia, tão tão diferente de agora. "Carta Marítima" fecha o lado A e sempre foi das minhas preferidas. Não do disco, da vida.

O que fiz agora foi inventar-lhe letra. Não que ela necessitasse.




esta carta marítima já sabe
que encontrará tuas mãos ao som da cítara
e estes acordes lancinantes sabem
à maresia e àquilo que é raiz
de nuvens : certa liquidez e dor.
Aqui o velho Atlas perde o nome
e friagem ao misturar-se ao velho Índico
que também seu nome perde, pois como
nomear esta água e esta luz
que nome Caravaggio lhes daria?
O claro chiaroscuro fantasia
arte e gozo de inenarrável rito
a carta é finda : e que horas são?
o relógio de sol marca infinito





Sunday, February 19, 2017

Crônicas Sul-Africanas XII :: Bo-Kaap



Estávamos na África, na África do Sul, mas às 4 da manhã, como na Turquia e em Marrocos, eu era acordado pelo muezim, porque estávamos em Bo-Kaap.

Não são poucas as mesquitas desse histórico bairro muçulmano, algumas do século XVIII. São casas muito coloridas, ruas de paralelepípedo, um céu muito azul, pedaços de chuva. 

Passaram asfalto em algumas ruas, rolou a inevitável gentrificação. Mas sempre se pode entrar nas mercearias para comprar água de rosas, pasta de tamarindo, masala, chicken tikka masala. Modo de trazer Bo-Kaap pro Grajaú.


























Friday, February 17, 2017

Crônicas Sul-Africanas XI : Molduras de Cape Town



A história começou em 2014, justo com a primeira que encontramos, a amarela do Waterfront que emoldura a Table Mountain. Lá em cima da mesa há outras, que infelizmente não vimos, mas isso porque quando estávamos lá, fomos subitamente envolvidos por um mar de nuvens (o famoso tablecloth, pano de mesa) e a temperatura baixou coisa de 30 graus. As lá de cima também seriam amarelas.

Encontramos uma azul em Robben Island e ainda uma branca na vinícola Haute Cabrière, giratória. Parece que o que de início era algo municipal foi imitado pela iniciativa privada. 

Vale a pena voltar e fazer a série completa.









Thursday, February 16, 2017

Crônicas Sul-Africanas X :: Reescrevendo a História :: Cecil Rhodes



Fiquei muito, muito, muito chocado ao ver monumental estátua de Cecil Rhodes nos lindos Company's Gardens, ali no coração da Cidade do Cabo. Não vou escrever sobre o sujeito, cuja única qualidade foi a de não ter tido vida muito longa. Racista, um dos arquitetos (indireto que seja), do apartheid. Imperialista ao extremo : a famosa "Anexaria os planetas se pudesse".

Já nos anos 50, alunos africâners protestaram contra estátuas dele espalhados em campi, mas estes não merecem crédito algum, eram africâners protestando contra um inglês. Guerra dos Bôeres revisited.

Já o movimento abaixo, documentado na belíssima foto, é recente e registra a retirada de uma das estátuas de Cecil da África do Sul.

Ainda agora aqui no Rio mudaram o nome oficial do Engenhão. Cai o João Havelange, corrupto queridinho da corruptíssima FIFA, entra Nilton Santos. Apoio. Ainda que preferisse João Saldanha.

Quando se decidirem por retirar também a do Company's Gardens, me chama que eu vou.


Wednesday, February 15, 2017

See me, feel me, touch me



Talvez por essa tendência de repudiar o óbvio, a que Camila chama, gentil e eufemisticamente de lado D, sempre resisti a esboçar conexão, frágil fosse, entre Dante e Tommy.

Hoje vejo que não há como não vê-las. Guardadas, claro, muitíssimas diferenças, a começar por aquela óbvia (er), mas que muitos confundem, entre a obra de arte e isto aqui a que chamamos realidade.

Esta "Go to the Mirror!", por exemplo, uma das canções-chave da ópera. O médico dizendo, tão medicamente, "He seems to be completely unreceptive" é tão perfeito, menos pelo conteúdo que pela forma: um médico e seu jargão médico. Em anos de contato com inglês, nunca vi essa palavra, unreceptive, senão aqui.

Pete com seu See me, feel me / Touch me, heal me reflete bem a realidade do autismo. Exceto, claro, pelo "heal me", mas isso mais que desculpável em 1969.

O trecho "What is happening in his head? I wish I knew" também assino embaixo.

((PS: Existe uma parte da música muito porrada, muito verdadeira também, que acabou de fora:

I've kicked him, licked him, rubbed him, hit him, loved him / Everything in vain to let him know / I'm here my son, your dad, I wait for your sign / And in my heart frustration overflows ))
 


Tuesday, February 14, 2017

Crônicas Sul-Africanas IX ::: Tamlin Blake



Quando Camila e eu fizemos a lista dos highlights da viagem da África do Sul (nossa tradição centenária), eu empaquei fundo na categoria museu. Claro que haveria de ser o District Six (aqui). Mas como não escolher a National Gallery, onde figurava a excepcional exposição Women's Work? Como deixar em segundo lugar um museu que nos fisgava já desde o exterior, com o maravilho caveirão de miçangas (aqui)? 

Trapaceei, claro: escolhi ambos.

Inda mais porque nesta Women's Work conhecemos também o trabalho da artista local Tamlin Blake, nascida em 1974.

Blake faz uns bordados a partir de jornais velhos, que ela corta, fia, torce e tinge. Qualquer coisa de mesmerizing.








Monday, February 13, 2017

Mas trancado em casa ele não fica

Milkshake na Sorveteria Grajaú
Uma foto pode falar por mil palavras. Mas às vezes são necessárias mil palavras para explicá-la. Ou 113.

"É desgastante sair com seu filho para um passeio e se sentir alvo de olhares, nem todos generosos.
(...)
"Dentre as poucas coisas de que posso me orgulhar está nunca ter escondido Henrique. Sempre o levei a shoppings, restaurantes, praias e piscinas. Os interesses dele foram ficando mais restritos e os comportamentos, desagradáveis (as bolinações, os gritos, as autoagressões), mas trancado em casa ele não fica.
(...)
O Estado não ajuda, a ignorância e as caretas alheias não ajudam, porém temos forçado as portas. Ainda não colhemos todos os frutos, mas pode ser que as gerações futuras encontrem um cenário mais propício à inclusão na sociedade e à aceitação das particularidades das pessoas com autismo." 

Meu Menino Vadio,
de Luiz Fernando Vianna
(trechos do capítulo 'Estamos aí')

Cry Freedom



Do filme assistido há uns quinze anos ficaram três cenas, nítidas : a galera tomando cerveja depois do jogo de rúgbi (em minha lembrança era futebol), arremessando alegres as garrafas uns aos outros; a brutalidade das crianças queimadas por ácido nas camisas ganhas de presente; a brutalidade do policial atirando, do carro, na criança que foge apavorada pelos campos.

As três cenas só cresceram agora que revi Cry Freedom (1987), de Richard Attenborough, o mesmo de Gandhi e a elas adicionarei indelével à memória : a solidão da doméstica Evalina e do cachorro Charlie ao serem deixados para trás.

O filme é muito bonito, embora tenha seus pecadilhos hollywoodianos: a trilha por vezes grandiloquente, a maldita mania de inserir piadinhas inverossímeis só para agradar ao americano médio do subúrbio, desnecessários momentos de thriller, com desnecessárias corridas de carros em alta velocidade. Por fim, os quarenta minutos finais poderiam ser enxugados para uns quinze, de modo que a história de Steve Biko não ficasse tão em segundo plano. (Camila chegou a dizer: em filme que é para ser de herói negro, no fim é mais herói o branco.)

Já a canção homônima deste genial sul-africano que recém completou cinquenta anos é perfeita do início ao fim, linda,deste Crash (1996), obra-prima de fio a pavio.




Sunday, February 12, 2017

Chove sobre as Margens do Rio Tâmega :: Quadrophenia



Chove muito em Quadrophenia, há muita água em Quadrophenia, literalmente da primeira ("I am the sea") à última música ("Love, Reign O'er Me", em que o verbo 'reign' soa também como 'rain'), e no miolo temos ainda "Sea and Sand" e "Drowned". No final, Jimmy, em Brighton, está no mar. Sob a chuva.

Era necessário captar esses sons, inexistentes tanto no "The Kitchen" quanto no "Eel Pie".

Para isso, saídas de campo ao lado do pai. Escusado dizer quão bem-sucedidas foram. Não por acaso um dos agradecimentos de Pete é "also for rain, sea and much summer thunder".

Essas fotos de Pete e seu pai Cliff prontos para captar rain, sea and thunder às margens do Rio Tâmega em janeiro de 1973.