Wednesday, June 21, 2017

Às vezes meia bêbada escorrega




às vezes meia bêbada ela escorrega
isso acontece quase todo dia
quando não está meio bêbada
faz poesia

Nos 70 Anos de Egberto III ::: Lakshminarayana Shankar



Meu lado preferido do Circense sempre foi o A, de modo que não causa espécie que minhas duas músicas diletas sejam "Cego Aderaldo" e "Mágico". ("Palhaço" não entra na disputa, para justiça de todas as demais músicas do mundo.)

Há um violino mágico na fantasmagórica "Cego Aderaldo", o que muito contribui para sua tensão. Este violino, toca-o Lakshminarayana Shankar, músico indiano de raízes cingalesas de família profundamente musical, mas a que não pertence o Ravi.

Lakshminarayana Shankar é daquelas figurinhas fáceis quando o papo é "east meets west" blablablá. Já tocou com Phil Collins, Peter Gabriel, Elton John, Eric Clapton, Sting, Bruce Springsteen, Yoko Ono, Lou Reed, U2, a lista é comprida.

Mas isso tudo veio depois. Porque o Circense é de 1980, apenas um ano depois do primeiro álbum solo de Lakshminarayana, Touch me there, com produção do Frank Zappa. Mas então como o Egberto já o conhecia, a ponto de convidá-lo para a participação em uma faixa de seu disco? Será que ele estava, er..., sendo precursor? Parece que sim.

Então no próximo post eu conto uma novidade.



Tuesday, June 20, 2017

Só agora durante a chuva



só agora durante a chuva lembrei
em meio ao adágio do Shostakovich
que ouço ininterruptamente há trinta anos
ontem à noite você descobriu
meus olhos abertos no escuro
e perguntou em sílabas sussurradas
se eu não tinha sono
respondi que ouvia a chuva

teu corpo então sorri
chega (ainda) mais perto

Hoje é dia / de Varal de Poesia



Quase sempre nesta época assim, basta ver as roupas que eles usam: inverno chegando e, portanto, uma atividade outdoors, à falta de uma caverna vamos para o parquinho ler poemas pendurados num varal. Tem Poe, Longfellow, Shakespeare, Whitman: the biggies. Mas tem também Neruda, Mark Strand, Elizabeth Bishop. Outros biggies. Tem até meu soneto inglês # 2. Que leiam e apenas sintam, com corações e mentes. Não se detenham em vocabulário, mas todo mundo me pergunta o que é thee. Depois é escolher um e partilhar. E só.

E quando a aula acaba e perguntam se podem levar pra casa, aquele sentimento bom que deu certo.













Sunday, June 18, 2017

A Polonesa, Restaurante



Aquela história: talvez A Polonesa não saia de moda porque nunca realmente esteve na moda. De qualquer modo, notável que chegue aos 69 anos (epa!) numa cidade tão avessa a cozinhas étnicas, numa cidade que segue se achando mas mal tem um indiano básico.

A Polonesa continua lá. O Pavão Azul, delicioso, cresceu, talvez mais do que devesse, só falta engolir a delegacia do delegado Espinosa enquanto A Polonesa continua lá, com seu letreiro de acrílico vermelho. Le Bec Fin e tantos outros morreram.

Por dentro, perto das paredes chalpiscadas tão anos 70, tudo a mesma coisa.

A grande entendedora de curry Pampi pediu o frango ao curry e aprovou. Também eu aprovei, especialmente por não quererem eles fazer curry indiano.

Os pirogis de funghi estavam ótimos, nós que fracassáramos tanto ao tentar em casa (aqui).

Chato esse negócio de TV ligada.... Pirogis e Aécio pra cá e pra lá não combinam.

E a sobremesa é o suflê de chocolate, que a gente pede assim que senta. Ela vem pegando fogo, o que me lembrou Maiakóvski apaixonado, mandando chamar os bombeiros. Só isso, já diria Dom Pedro, paga toda a viagem.









video




Friday, June 16, 2017

Café e Bar Brasília ~ Cachambi



Conheci o Café e Bar Brasília em julho de 2011, eu nem tinha barba, depois de ter ido na finada Cervejaria Suingue Brasileiro com mãe e sobrinho. A cervejaria, que tinha cervejas maravilhosas e que tinha que lembrar no site que não estava ali para troca de casais, fechou, mas o Bar Brasília, com seu grande Nilton Bravo e azulejos rabo-de-pavão (aqui), aka rabo-de-galo, continua firme, pelo menos enquanto o ótimo casal Margarida e Ernesto estiverem vivos e com saúde, tocando-o.

O bar, aliás, já fez informalmente aquela troca de nomes que eu tanto repudio (aqui) e agora se apresenta como Bar do Ernesto e Margarida. Bar de nome Brasília tem tudo para ser de 1960, mas Ernesto jura que é de dez anos antes.

É pé-sujo clássico e formidável, sem unha feita. A combinação azulejo / Nilton Bravo o coloca num patamar difícil de ser alcançado hoje no Rio. Quando a esta combinação se soma o Vasco, ocupa um lugar no coração que nem falo.

Às sextas tem mocotó. Fui hoje atrás dele, mas não tinha. O feriado confundiu Dona Margarida que acordou achando que era sábado ou segunda. Está perdoada.

Dona Margarida tem preguiça de tombamento do Nilton Bravo que, segundo ela mesma, foi pintado pelos Bravo Pai e Bravo Filho em um só dia, que se encontraram bem no meio do quadro como se filme do Carlitos.

Essa preguiça temos que vencer ou já não haverá mais Bravo algum por estas plagas.













Os Pintores de Del Castilho



Em Del Castilho, de ambos os lados da Suburbana, há toda uma plêiade de ruas com nomes de ilustríssimos pintores. Ruas que abrigam típicas casinhas de subúrbio, com muitos santos nas platibandas mas, sobretudo, ruas de muitos condomínios simples, com prédios que não ultrapassam os quatro andares.

Em seu livro Vida de Artista, Daviran Magalhães fala que em 1990, centenário de morte de Van Gogh, ele e alguns artistas que moravam por perto organizaram uma celebração ao mestre holandês na rua que o homenageia. De onde, de quem veio a ideia dos nomes, desconheço. Até compreensível que haja uma Rua Van Gogh, outra Degas e ainda outra Rodin (ok, não é pintor), de todo espantoso e maravilhoso que haja também a Utrillo, a Roualt, a Vlaminck.

Modigliani não tem uma placa nos moldes clássicos, uma pena. Sempre Modi maudit (aqui). De qualquer modo, se um dia a placa sumir, como faziam tanto com a Abbey Road, pode ser que tenha sido eu.

Ah, uma das placas da Van Gogh tem sobra da gentil e espontânea homenagem de Daviran Magalhães.