Friday, February 27, 2015

Crônicas Romenas IV ::: Transilvânia, além da Silva



Infelizmente meu conhecimento etimológico é hiperpequeno, bem como meu conhecimento dos radicais e prefixos gregos e latinos, igualmente macrominúsculo. Mas não tem como não saber que trans significa além de, não temos aí transcendental? Também sei muito bem que silva significa selva, pô é muito fácil. Assim, temos já a inexplicável Transilvânia parcialmente explicada ::: trans-silvania são aquelas terras localizadas além das 'selvas', isto é, das montanhas, no caso aqui os Cárpatos. O que já causa em si um frisson.

A caminho dessa região, em ônibus desde Buacareste, tivemos única parada. Lá havia a cerveja Silva, que tomei como quem cumpre promessas. Na hora de pedir o copo, para além de fazer a cara de cachorro triste e oferecer dez lei, inventei que o nome do meu pai era Silva. Bem, cá está o copinho no Grajaú.



Wednesday, February 25, 2015

Crônicas Turcas VI ::: Efes, Pilsen Turca



O caminho para o Museu da Inocência / Masumiyet Müzesi (aqui) nos faz passar por um labirinto de antiquários em Çukurcuma. Num destes, inocentemente (sorry) pedi por copos de cerveja antigos, para logo ser lembrado que a Turquia é país muçulmano, de modo que essas coisas de cerveja são relativamente recentes. É verdade. Embora o país seja oficialmente laico (Alá seja louvado), e longe de ser um Irã ou Omã, pedir por copos de cerveja turca dos anos 50 ou 60 é masumiyet demais.

Mas justo por ser laica e não ser Omã e por receber enorme quantidade de visitantes sedentos, a Turquia tem uma cena cervejeira nada desprezível. Das poucas artesanais falarei em breve. Das macros, impera a Efes, nome que vem de Éfeso, cidade onde São João escreveu seu Evangelho e que cita no Livro das Revelações, cidade onde havia uma das sete maravilhas do mundo antigo. Não parece pouco.

Da cerveja? Uma pilsen ordinária, sim, mas não serve apenas para matar a sede. Acompanha bem seu prato de mezes, faz bela figura sobre toalhas coloridas e, claro, bastante superior às pilsens ordinaríssimas daqui.







Monday, February 23, 2015

Daniel Varoujan, Poeta Armênio



Para lembrar o centenário do genocídio armênio (de que falei aqui), traduzi um poema de um significativo poeta do país, não por coincidência barbaramente assassinado em 1915 pelos turcos. Tive que traduzir do inglês, de vez que, infelizmente, meu armênio do Ensino Fundamental anda um pouco enferrujado. Há muitos, mas muitos anos não traduzia nada. Inspiraram-me a efeméride e, mais, o fato de Camila ter recém lindamente traduzido The Book of Thel, do Blake.

O poema de Daniel Varoujan (1884-1915) tem seu quê de sentimental, é verdade, mas não deixa de irradiar um sentimento verdadeiro, mormente se minimamente lembrarmos da condição dos armênios sob o jugo turco ("They burst the door, they swept the larders bare").




THE LONGING LETTER
Daniel Varoujan

MY mother writes: “My son on pilgrimage,
How long beneath a strange moon will you roam?
How long a time must pass ere your poor head
To my warm bosom I may press, at home?

“Oh, long enough upon strange stairs have trod
Your feet, which in my palms I warmed one day—
Your heart, in which my breasts were emptied once,
Far from my empty heart has pined away!

“My arms are weary at the spinning wheel;
I weave my shroud, too, with my hair of snow.
Ah, would mine eyes could see you once again,
Then close forever, with my heart below!

“Always I sit in sadness at my door,
And tidings ask from every crane that flies.
That willow slip you planted long ago
Has grown till over me its shadow lies.

“I wait in vain for your return at eve.
All the brave fellows of the village pass,
The laborer goes by, the herdsman bold—
I with the moon am left alone, alas!

“ My ruined house is left without a head.
Sometimes for death, and always for the cheer
Of my own hearth I yearn. A tortoise I,
Whose entrails to its broken shell adhere!

“Oh, come, my son, your ancient home restore!
They burst the door, they swept the larders bare.
Now all the swallows of the spring come in
Through shattered windows, open to the air.

“ Of all the goodly flocks of long ago
One brave ram only in our stable stands.
His mother once—remember, little son—
While yet a lamb, ate oats out of your hands.

“Rice, bran and clover fine I give him now,
To nourish his rich dmak, of noble size;
I comb his soft wool with a wooden comb;
He is a dear and precious sacrifice.

“When you come back, his head with roses wreathed,
He shall be sacrificed to feast you, sweet;
And in his blood, my well-beloved son,
I then will wash my pilgrim’s weary feet.”
 




A CARTA SAUDOSA
Daniel Varoujan

A MÃE escreve:  “Filho peregrino,
Por quanto tempo sob estranha lua
Andarás?  E por quanto tempo espero
Para aquecer no peito a cabeça tua?

“Ah, teus pés, quantas escadas estranhas
Não pisaram? Pés que aqueci no frio.
E teu coração, que já saciei,
Sofre e vaga longe do meu, vazio.

“Na roca estão exaustos os meus braços
Onde já velha a mortalha teço.
Ah, pudessem meus olhos ver-te ainda
E para sempre cerrar-se, o que peço.

“Sempre sento-me triste à minha porta
Onde notícias peço aos grous passantes
O teu salgueiro, que plantaste há muito,
Me cobre com as sombras verdejantes.

“Em vão espero o teu retorno à noite.
Passam homens da vila, sempre assim.
Ali o camponês, lá o pastor
Eu fico só com a lua, ai de mim!

“Minha casa em ruínas não tem dono
Às vezes pela morte anseio, e faço
Sempre alegres votos ao lar. Qual cágado
Prendo as entranhas ao casco em pedaços.

“Vem, meu filho, retorna ao lar antigo!
Já destruíram a despensa e a porta
Andorinhas da primavera agora
A casa adentram por janelas mortas.

“Dos nossos bons rebanhos do passado
Um único carneiro inda passeia.
Certa vez sua mãe (lembras-te, filho?)
Em tuas mãos alimentou-se de aveia.

“Agora dou-lhe arroz, farelos, trevos
Para nutrir o seu nobre tamanho.
Sua lã macia penteio com madeira
Nosso querido e precioso anho.
 
“Quando voltares, grinalda à cabeça,
Sacrificá-lo para ti irei
E com seu sangue, exausto filho amado,
Os teus pés peregrinos lavarei.”
 

Sunday, February 22, 2015

Instagrajaú 5 nos 101 Anos do Bairro


Bem, já saímos do centenário do Grajaú mas não é isso que me impedirá de continuar as séries. Muito pelo contrário! Comemorar 101 anos é muito mais importante...











Os Iglus de Guadalupe



Resistem na Rua Calama, os iglus de Guadalupe. Projeto do governo de habitação popular do pós-guerra, fim dos 40, início dos 50, falharam redondamente (opa) por serem absurdamente quentes. Cito a Wikipédia:

"Para obter o formato de casa, inflava-se um balão de lona plástica, portas e janelas eram demarcadas com formas de madeira e tudo isso era revestido por uma tela metálica e recoberto por cimento. Havia do "balão pequeno", de quarto e sala, ao "balão grande", de três quartos."

Como as casas têm as paredes abauladas, imaginem as dificuldades para a acomodação dos móveis. Por isso e pelo calor e pelas rachaduras surgidas, os moradores foram fazendo o que bem entendiam com eles. Como se vê nas fotos, alguns ainda são habitados e não estão lá com conservação muito boa. A outros agregou-se puxadinho, que acabou por ser muito maior que a própria casa inicial. É o que se vê no iglu verde abaixo, em ótimo estado, parecendo pertencer a família mais abastada. Conversei com senhora que os chama de balões, que rogou que eu não fotografasse o seu, por vergonha do atual estado. Conversei com primeiro-tenente que me confessou que irá pôr o seu abaixo tão logo sua mãe faleça.

Assim resistem os ilgus de Guadalupe, nesta cidade de temperaturas pouco afins a iglus. Contei dezesseis. Pelo que representam, no entanto, merecem imediato tombamento.




















Friday, February 20, 2015

Crônicas Turcas V ::: Vinhos



No queijos e vinhos do quarto do hotel desarrolhamos um Boğazkere comprado em mercadinho de Sultanahmet a preço de mercadinho. O nome, como todos o sabemos, literalmente significa queima-garganta, mas nem. Acompanhou muito bem nosso queijo de cabra, nosso pão.

Eestudos de ampelografia estimam as varietais turcas nativas entre 600 e 1200, algo verdadeiramente assombroso. Dessas, não chegam a 60 as uvas utilizadas atualmente para o fabrico de vinhos. O que ainda é assombroso. Quem aí, não sendo um grande especialista, consegue nomear assim 60 varietais do mundo inteiro? De modo que defendo o que defendi na Bulgária (aqui) e defenderei na Romênia : pedir em Istambul um cabernet ou um riesling seria como ir a uma loja de CDs em Istambul para comprar o último da Madonna ou procurar na cidade um Mc Donalds (que infelizmente há) para um Big Mac.

Se bem que. Para os de fato especialistas, e não apenas românticos como eu, provar o que é um cabernet turco pode ter lá o seu interesse. Ou existe terroir ou não. By the way, ouvi do dono / gerente / garçom do The Old Ottoman que o melhor Shiraz do mundo é feito na Anatólia. Conferi e vi que ele não blefava. De qualquer modo, preferi ater-me às varietais que obviamente só beberia por lá e assim fomos de Boğazkere, Öküzgözü, Çal Karasi, maravilhosas companhias para a tábua de mezes.



Freeshop. Reparar a mesmice

Wednesday, February 18, 2015

Epitáfio



as ruas respiravam escarlate
enquanto a agulha arranhava os sulcos
da noite, a face oblíqua do relógio
reverberava onze e cinquenta e cinco
haverá única palavra em meu
epitáfio, decido, e esta será
tumulto
ajeito
o meu destino à tardia voz
do lago e bêbado adentro o amanhã
(onde irei chorar?) em que mal distingo
hoje e ontens em meus ouvidos e
em minha pele pasce o mellotron
rei louco e roto faz-se de truão



Crônicas Turcas IV :: Elas estão por toda a parte ::: Mesquitas II



Dando continuidade a esta postagem aqui, mais fotos das onipresentes mesquitas de Istambul. Da pequenina mesquita de madeira em Üsküdar à colossal Süleymaniye. Vale ressaltar que com exceção da Hagia Sophia, anteriormente igreja cristã e por muitos séculos a maior do mundo, são todas espaços vivos de fé. Visitantes são sempre bem-vindos, exceto, claro, nas horas dos cultos, quando ingresso e fotos são proibidos. Epa, então como explicar...? SShhhh.

Semsi Pasa :: Üsküdar

Mesquita de madeira em Üsküdar

Eyüp Sultan (e as 4 a seguir)





Avistada do Bósforo

Antiga mesquita dos eunucos no harém de Topkapi

Süleymaniye (e as seguintes)