Tuesday, April 30, 2013

Adentremos maio




pois adentremos maio juntos ::: justo
como esses primitivos que carregam
por toda a parte o maxilar dos mortos
maio nos colha assim febris e absortos
os dois corpos vadios que se regam
a cultivar mais sedes :: fique o susto
de maio em nossas peles as carícias
de fogo os maçaricos espalhados
pelo quarto em que amamos e reamamos 
neste outono, estação que abriga crises
que nos mata, saciados e felizes ::
maio penetra e nele penetramos
atordoados como bichos caçados
que lambem suas feridas suas relíquias




Monday, April 29, 2013

Antes de seres carne tua presença



eu jamais pensei que tanto coubesse
numa voz se é que posso chamar voz
ao mistério que a vida me emprestou
eu me repito eu sei eu me repito
os versos se sucedem nos sonetos
e sem que eu chegue à conclusão alguma
:::: interregno ::::
assim me acordas :: com sussurros brandos
assim me chamas :: toda em si bemol
assim tu gozas :: em balbucios álacres
assim falas falas ao telefone
como os sinos das capelinhas brancas
e antes de seres carne tua presença
em mim foi e é sempre a tua voz

Sunday, April 28, 2013

Risotto de Polvo




Outro dia Dani e eu pusemo-nos a examinar minha pequena coleção de livros de risoto. Paixão. A coleção e o objeto desta. Porém, logo descobrimos falta grave: em todos os belos livros não havia um único risoto de polvo. Um único!

Melhor do que gastar precioso tempo escrevendo e-mails para autores e editoras foi descer ao mercado, comprar polvo, arroz carnaroli e, de quebra, piranha para o caldo.

Risoto é meu prato perferido, de fazer e de comer. Mas assistir à desenvoltura da mana com as panelas é algo fora do normal. Nada de socar o bicho, nada de panela de pressão. Uma boa fervura em mãos carinhosas deixa o bicho mais macio que bife kobe.

Na hora H, a dúvida: risoto de ou com polvo? Risoto de! Então é jogar o octopus na panela, sem parar de mexer, sem parar de verter caldo de piranha, sem parar de bebericar o Dalmore, para o esplêndido resultado final.

Não é que tenha ficado bom. É ter a certeza de que o polvo nasceu para o risoto. E vice-versa.

E comemos ao som de "Octopus's Garden".



VOO G3 - 1034 ::: CGH-SDU



Teve certeza que ela queria dar pra ele
porque perguntou sorrindo olhando em seus olhos
O que o Sr. deseja?
Ela pergunta pra todos, vô.
Escolhe entre Pepsi, suco de laranja ou de manga.
Ah vocês garotos geração facebook
não pegam nada mesmo.

Plural de Guarda-Sol

Postei foto despretensiosa no facebook que retratava um belo dum guarda-sol em Corumbá de Goiás. Como a foto gerou alguma ressonância, achei justo postar todas as demais fotos da série. Reparai como o objeto, nunca utilizado para este fim no Rio de Janeiro, a não ser que tenha bebê na jogada, é de uso frequente em Goiás.

No meio joguei um registro feito no Sri Lanka.

Quem adivinhar qual a foto cingalesa ganha Juquinha de coco.






Wednesday, April 24, 2013

Corumbá de Goiás - Cidade de Bernardo Élis





Para fechar o pequeno ciclo de Corumbá, cidade goiana que me rendeu esteeste post, falta destacar que aqui nasceu o Bernardo Élis, escritor regionalista que foi o primeiro goiano a entrar para a Academia. Prefiro lembrar que ele foi o primeiro goiano a escrever este delicioso livro que é o Veranico de Janeiro, em que as formas ainda duras de um Ermos e Gerais encontram amadurecimento no que resulta em leitura prazerosa mas exigente.

Passei tarde agradável com ele em Goiânia em julho de 1992. Levei-lhe minhas primeiras edições para autografar, para seu espanto, e em troca ele me presenteou com os 5 volumes das Obras Completas, perguntando-me se eu iria mesmo ler aquela merdalhada toda.

Afiancei-lhe que sim.

Não menti.

A casa do Bernardo Élis encontra-se hoje em péssimo estado de coservação. Como o apê de Rosa, nem uma plaquinha.

A menos de dez passos, a sede da Câmara dos Vereadores, estalando de nova.

Para isso pagamos impostos.

Tuesday, April 23, 2013

Aqui Morou João (Guimarães Rosa)





Neste pequeno prédio da Rua Francisco Otaviano, no Arpoador, morou João Guimarães Rosa. Não quero tingir este texto de fel, mas não tem como não lembrar: Michael Jackson subiu o Dona Marta para gravar clipe e ganhou estátua. Um dos maiores escritores da língua portuguesa de todos os tempos morou aqui por cerca de 15 anos e não há sequer plaquinha a lembrar isso.

Talvez Guima tenha preferido assim. Guima universal e mineiro. Até onde sei, não dava muita bola para a praia. Mas é preciso lembrar que, se Copacabana era já nos anos 50 uma praia badalada, Ipanema era uma lonjura, um ermo, quase que uma das fronteiras da cidade. Só isso talvez explique ele ter preferido morar por aqui, mesmo sabendo (provavelmente) que na cidade havia um bairro de nome Encantado (onde morou Cruz e Souza). Isso e o fato de seu escritório, no apartamento que ocupava todo o quinto andar, dar para a pequena Praia do Diabo. O diabo na rua, no meio do rodamoinho, o diabo na praia, o diabo na consciência do personagem-maior, o Riobaldo, que com ele se engalfinhou até sair purificado para amar Diadorim. Meu bem, estivesse dia claro, e eu pudesse espiar a cor de seus olhos...

Pois foi nesse pequeno prédio, dos anos 20, a primeira construção da rua depois do Forte de Copacabana, que nasceram personagens mais reais que muita gente por aí. O Riobaldo, a Diadorim, o Zé Bebelo, o Hermógenes, o Dito, o Miguilim, a Chica, a Drelina, a Vovó Izidra, o Manuelzão, o Grivo.

Foi aqui que Guima recebeu a plêiade de seus ilustres tradutores, como  o alemão Curt Meyer-Clason e o italiano Edoardo Bizzarri, com quem trocou cartas antológicas (que destaquei aqui). Aqui Guima vivia com seus gatos persas.

E foi aqui que Rosa se encantou, em novembro de 1967, apenas 3 dias depois de sua tão adiada posse na Academia. (ABL não serve pra nada mesmo ::: Rosa adiava porque sabia; os acadêmicos, da instituição que mais tarde abrigaria nomes como Pitanguy, Roberto Marinho e Paulo Coelho, insistiam).

Mas a história do apartamento não termina aqui. No ano seguinte viria o famigerado AI-5. Os gorilas babavam bílis atrás do Geraldo Vandré. A viúva de Rosa, Aracy, aqui o escondeu. Por dois meses.

Tudo isso e nem uma plaquinha.



Defronte ao prédio há frondosa amendoeira. Pelo tamanho Rosa deve ter lavado seus olhos míopes miguilins nela. A vontade que dá é, com um estilete, gravar em seu tronco rol de reis:

Sargon
Assarhaddon
Assurbanipal
Teglattphalasar, Salmanassar
João Guimarães Rosa
Nabonid, Riobaldo, Nabopalassar, Nabucodonosor
Diadorim
Belsazar
Sanekherib
Miguilim.

E era para mim um poema esse rol de reis leoninos, agora despojados da vontade sanhuda e só representados na poesia. Não pelas cilindros de ouro e pedra, não pelos bronzes oficiais das prefeituras, postos sobre as reais comas riçadas. Só, só por causa dos nomes.


Friday, April 12, 2013

Bares de Sampa IV - Botequim do Hugo

Um botequim que fecha nos finais de semana e que nos dias de semana só abre às 16. Para fechar às 22. E olha que falamos de Sâo Paulo, e olha que falamos de Itaim Bibi.

O avesso do avesso do avesso. Os espigões nos deprezam lá de cima, o Botequim do Hugo (r)existe numa casinha amarela da década de 20.

Não tem chopp, não tem petisco sofisticado. Tem Serrramalte, tem a simpatia dos donos, tem balcão de mármore, tem azulejos brancos, tem prateleiras velhas de madeira que outrora armazenaram alimentos do Empório Cabral e hoje guardam objetos e bugigangas improváveis.

Tem azeitona preta gorda gorda que dá pra comer de garfo e faca. Tem cartão de visita todo ele artesania assim como quisera eu as edições da Laphroaig. Aliás, o próximo lançamento da Laph poderia ser lá, hein? De preferência numa segunda, até 10 da noite.






O Hugo é neto do Marcelino Cabral lá do Empório de 1927


Thursday, April 11, 2013

Descansa a tua voz em minhas mãos


Brasília :: abril de 2013

descansa a tua voz sobre o meu peito
o mistério que a vida me emprestou
há seis meses quando eu a descobri
enfim ouço-te a voz substância de
mel e aveia e andorinhas no céu da boca
se as palavras hoje se vestem em
decassílabos a perplexidade
é maior ::: continuo sem saber
e já não há metáforas que acudam
descansa a tua voz em minhas mãos
ver se me saio com alguma coisa
enquanto a guardo aqui nestas pequenas
mãos que agora sonham pois que tocadas
por mel aveia céu lá sei o quê

Corumbá de Goiás - Cildade Literária


Ora, não é nada mal flanar por uma cidade derramada colina abaixo que tem, de quebra, poemas e trechos de contos e romances pelas paredes.

Faz sentido se lembrarmos que esta é a cidade natal do Bernardo Élis e que aqui, em 1896, um major fundou uma Sociedade Bibliotecária de Leitura.

Em visita ao Pouso da Penha, perguntaram-me a profissão. Respondi, só de brincadeira: "Poeta", ao que a dona redarguiu feliz: "Sério?! Nesta casa somos todos poetas."

Pareceu-me uma boa pousada.


Sombra dos Reis Barbudos, de J.J. Veiga

O Tronco, de Bernardo Élis


Casa onde nasceu Bernardo Élis
Casa onde morou J.J. Veiga
Piso da casa

Pouso da Penha


Todos poetas

Corumbá de Goiás - Cidade Histórica

Quando comprei o pequeno livro Patrimônio Histório de Goiás, de Ana Maria Borges e Luiz Palacin, em fevereiro de 1988, percebi que cidades históricas não se limitavam às mineiras ou às do Nordeste, como amiúde se pensa. Goiás não fora ainda mutilado para dar surgimento ao Tocantins, de maneira que as cidades históricas iam desde Catalão ao sul (distante 320 km de Goiânia) até Tocantinópolis (ou Boa Vista, distante a bagatela de 1324 km da capital).

Nos anos seguintes, e aproveitando a localização estratégica do pai recente em Brasília, fiz as duas principais -- Goiás Velho e Pirenópolis (duas vezes cada) --  e outras bastante improváveis, creio que mesmo para um historiador goiano, como Flores de Goiás e Cavalcante.

Não sei por que desprezei à época Corumbá de Goiás, justamente a segunda mais próxima de Brasília depois de Luziânia. Ou deve ter sido por isso.

Disposta ao longo de uma colina, no alto da qual se situa a Igreja de Nossa Senhora da Penha de França, a cidade possui um conjunto histórico digno de atenção.







Empadão Goiano



Creio ser este um dos carros-chefe da culinária goiana, junto, naturalmente, com o indefectível arroz-de-pequi que desta vez procurei de alto a baixo sem sucesso. Fora da época, e ninguém cuidou de fazer uma conserva para os viajantes extemporâneos.

Lembro-me de que na primeira vez que o provei, na própria cidade de Goiás Velho, onde ele teria nascido, escrevi, à maneira da "Lanterna Mágica", do Drummond:

EMPADÃO GOIANO

Ploft!

(É pra comer de colher?)

***********************************

Este de agora, de Corumbá de Goiás, não me fez tanto ploft, sequer pensei em colher, mas a grande empada, recheada de ovos cozidos, pedaços de gariroba, peças de frango e pão, se acompanhada de uma gelada e regada pela pimenta local, nossa, põe a gente comovido como o diabo.


Wednesday, April 10, 2013

In the morning he felt the bodkin stuck in


Luziânia-GO :: abril de 2013



in the morning he felt the bodkin stuck in
he went outside as usual
staggered a little in the beginning
but eventually pulled himself together
he didn't bleed copiously
steadily he bled
his viscous blood dripped as he walked
noone noticed
except a little girl
when he had to wait for a green light
and a puddle was formed
and a dog came to lick

the morning became a day which
became a couplet which became
a week which became a month wh
ich a year and years
the cycles keep turning
if we notice or not
if we are alive or not

he married had a son
never did the bleeding stop

the one night it
was a Sunday night he alone in the kitchen
felt the bodkin loose
and then carefully set it back to its proper place

Is it because I am ugly?



Estivesse Luna de bom humor diria algo como que a rotatividade das empregadas e babás em sua casa era maior que a de um motel, mas dificilmente o bom humor acompanhava pensamentos desse tipo. Luna precisava de alguém que a ajudasse com Adélia. Uma empregada faz-tudo que também pudesse eventualmente ajudar com a menina ou uma babá que eventualmente pudesse dar uma varrida na casa.

Iam e vinham. A grande maioria sequer fechava os três meses da lei e dos direitos. Houve quem ficasse um mês, uma semana apenas, um dia. Houve (e mais de uma) quem fosse entrevistada, acertasse tudo e depois não aparecesse no dia seguinte. E desligasse, claro, o celular.

A princípio Luna não entendia. Depois entendeu mas quando dizia todos retrucavam que não. Ninguém parava naquele trabalho por causa da Adélia.

Como Luna estivesse à época lendo muito Mark Strand e um poema em especial fosse de sua predileção -- "My life by somebody else" --, ela rascunhou algo sob o seu efeito. A influência, parece-me, se dá menos pela temática que pelo tom, esse tom patético quando diz: "Is it because I am ugly?".

O poema de Luna é este aqui:

So why don't you ladies stay?
is it because he's ugly?
(i've been told he's not)
is it then
because he bangs his head against the wall?
is it because
at 4
he still wears diapers where he pisses and shits?
is it?
is it because he mumbles and grumbles
and moans and groans
when he should already be spinning yarns of his own?
Is it because he sometimes facetioustly threatens us with his lifted arm?
wait
you could've stayed a bit longer
maybe you'd get to see the satellites hidden in his locks
maybe you'd get to hear his unexpected burst of laughter
maybe you'd get to smell a smell that lingers from baby days
maybe you'd get to feel the miracle of his skin
and maybe you'd get to voice the hiss of cicadas as the bearded man does
to his inextinguishable delight
you seem to be in a hurry
and after all I shouldn't blame you
I shouldn't curse you as you turn on your heels
his kin haven't been differently, have they?
so why would you
what obligations do you

Tuesday, April 09, 2013

Dante ganhou autógrafo do Ian




Dante ganhou autógrafo do Ian Anderson na nossa edição remasterizada do Stand Up, o clássico segundo álbum do Jethro Tull.

Faz sentido este seja o primeiro disco do Jethro do Dante, já que foi o meu primeiro, comprado em 1982. Lembro-me de que fôramos à feira hippie de Ipanema, eu, o André, o Renato, o Ronaldo naquela manhã de domingo. Comprei um cinto boliviano que o Renato já tinha. Depois fomos todos lanchar no McDonald's. Vejam quão fake eram os hippies tardios daquela época.

Não recordo se antes ou depois do Big Mac entramos em loja de discos (sim, as havia). Era manhã de domingo, mas a loja estava aberta, talvez por causa da feira, talvez porque o Stand Up esperasse por mim.

Stand Up calou fundo naquele garoto confuso que se buscava agora que o mundo se abria. Se ele tivesse uma banda (e teve, ou não), seria assim que ele queria que soasse. Lembrança: a mãe nervosa chamando-o para o colégio (ela dava carona) e ele perdido no meio do quarto ouvindo pela undécima vez as três últimas canções, "We used to know" ::: "Reasons for waiting" ::: "For a thousand mothers".

(A mãe, uma das milhares, mal sabia que o filho tinha motivos para fazê-la esperar. Sabíamos disso. E talvez estivesse ali o princípio da minha vida. Mas isso eu ainda não sabia)

Monday, April 08, 2013

Lição de Botânica

Espatodeia do Itaim Bibi - abril de 2013


Para a moça que parece ter gostado dessa história de nome de árvore


Se reconheceres um flamboyant
te amarei por toda a manhã

Se reconheceres uma amendoeira
te amarei a tarde inteira

Se reconheceres um ipê
mil beijinhos prucê

Se reconheceres uma quaresmeira
te falo um monte de besteira

Se reconheceres um jambeiro
te beijo sem pressa o corpo inteiro

Se reconheceres uma figueira
te amarei na banheira

Se reconheceres um pé de coco (essa é fácil)
te amarei feito um louco (isso é fácil)

Se reconheceres um jacarandá
a gente se ama na varanda

Se reconheceres o araçá
sorverei o teu maná

Se reconheceres a iuca
a gente esgota o kama sutra

Se reconheceres a grumixama
a gente se esgota numa cama

Se reconheceres um cipreste
a gente voa pro Nordeste

Se reconheceres um buriti
a gente voa por aqui

Se reconheceres uma cerejeira
não terei outra rima em -eira

Se reconheceres o carvalho, o assacu ou a caixeta
ssshhhh (eta!)

E se reconheceres a espatodeia
-- linda rubra infinita espatodeia --
ih aí já nem tenho ideia.




Sunday, April 07, 2013

Prometo um dia enlouquecer de vez


Brasília ::: abril de 2013



prometo um dia enlouquecer de vez
todos pensarão que foi de repente
amanhã quem sabe seja hoje véspera
abra-se todo o leque abram-se esperas
indícios de incêndios posso aprender
a dançar a catalogar besouros
que amanhã já não respondo por nada
haverá perdas decerto na viagem
como que mala esquecida na esteira
mas prometo um dia enlouquecer de vez
na esperança na esperança dos doidos
de conhecer de perto meu menino
e encontrar sob a lâmina da tua
íris o que um dia foi minha razão



com giu, cris, a menina 

O toque de cambraia dos teus lábios



Não me nines ao som do flugelhorn
tão naturalmente absurdamente doce
que tua boca ao bocal colada
seria como caldo de cana com açúcar.
Não me nines ao som do flugelhorn.

Não me nines ao som do piccolo
que já trazes na voz por herança
a algazarra da saída da escola
já trazes na voz por herança
não não me nines ao som do piccolo.

E assim fiquem de fora todas as flautas
a doce a transversa a pã.
De fora as notas que brilham
como brilha Aldebarã.

Vem, menina
com a velha tuba em que esbarrei
nesta casa velha do velho sertão de Goiás.
À embocadura gasta e enferrujada
o toque de cambraia dos teus lábios
derreta asperezas e paliçadas.
Casada à voz desta velha roufenha
nesta noite de ninhos e sussurros
a nossa voz seja uma coisa só.