Friday, January 29, 2016

A mãe do Dante



Meu Dante se chama Dante por causa do Dante, claro, e por isso não canso de voltar à obra e à vida do rebelde poeta florentino.

Assim descubro cousas notáveis sobre a mãe do Dante. Seu nome era Beatrice Bella, provavelmente um membro da família Abati. Quando Dante era ainda muito pequeno, andava pelos quatro anos, ela e seu marido Alaghiero di Bellincione separaram-se, não sei bem o motivo, sabe-se que ele era guelfo, talvez fosse ela guibelina. 

Ao contrário do que era voga na época, a segunda metade do século XIII, o pequeno Dante ficou com o pai, para grande alegria deste que muito o amava. Lembremos que o guelfinho apresentava comportamento bastante diferente de seus coetâneos: custou para interagir com o mundo à sua volta, demorou para andar, apresentava limitações motoras, não falava, tinha grandes crises de ansiedade. Tais dificuldades, no entanto, não pareciam sensibilizar muito Beatrice, que faltava às visitações estipuladas pelo Judiciário de Florença e depositava o valor da pensão errado. Beatrice Bella chegou mesmo a pleitear horário especial em seu trabalho (lecionava toscano em um guilda de artífices) por conta do filho, embora, lembremos, ela não ficasse com ele senão pouquíssimos dias ao mês.

Alaghiero contraiu bodas pela segunda vez, desta feita com Lapa Chiarissimo Cialuffi. Bella, há grande divergência nas fontes aqui, parece que enrabichou-se com um segrel de Ravena.

Beatrice de tudo fazia para ficar cada vez menos com o pequeno Dante. Na sociedade, entretanto, posava de dama virtuosíssima, tanto que, nas poucas vezes em que ficava com o pequeno, fazia questão de ter seu retrato pintado junto a ele, para que assim pudesse exibi-lo pendurado ao pescoço.

Vejam que falta fazia o Facebook.

Thursday, January 28, 2016

Bodas de Trigo.com.blog



Quando Camila e eu completamos nossas bodas de trigo (aqui), o desejado seria comemorá-las com a presença, pequena que fosse, do cereal. Pensamos em descer para padaria e pedir média quentinha com pão e manteiga ou esconder-nos em um vasto trigal ou, claro, brindar com a Marechal, a deliciosa witbier, ou a Araxá, a Weiss, ambas da Cervejaria Grajaú.

Como diria o Bandeira : está certo, está tudo muito certo.

Mas o negócio é que, como nos conhecemos graças a este bloguinho (Camila pesquisava sobre a Turid e encontrou postagem que eu fizera três anos antes), houvemos por bem comemorar mesmo com o blog, estupendo vinho alentejano do Tiago Cabaço, que gosta de usar varietais clássicas purtuguesas, como a Touriga Nacional, junto a Cabernet e Syrah.

Os tradicionalistas, terroiristas, tiram as calças pela cabeça. Enquanto isso, bebamos. Lembrando que foi com misturas assim que nasceram os supertoscanos.

Acho que o vinho não acompanhou meu risotto de shitake com pera. O risotto é que acompanhou o vinho.

E viva o Blog!

PS: Cabaço produz também um .com


O Livro de Perguntas-Limeriques

Isidro Ferrer


Mencionei recente o Livro de Perguntas do Neruda neste post aqui. Poi zé. Este livro lindo, cuja primeira edição, póstuma, se deu na Argentina em 1974, já que aos gorilas assassinos chilenos não interessavam as perguntas do Pablo, teve já suas respostas.

Uma delas consistiu em concurso entre crianças chilenas :: aquela que desse a melhor resposta ganhava uma visita à Sebastiana (aqui), casa do Neruda em Valparaíso. Outra resposta veio do poeta potiguar Diógenes da Cunha Lima, que escreveu todo um Livro das Respostas. Em outra ainda, Isidro Ferrer fez belas colagens, em que mistura o poeta palavras fantasia.

Eu gostei dessas ideias todas, ainda que, ao menos no caso dos chicos, ache mais interessante que elas formulem novas perguntas em vez de tentar respondê-las.

Pensei outra coisa: no caso das perguntas formuladas em um verso apenas (e que são a minoria no livro), usá-las como mote para um limerique. Em outras palavras, escrever um limerique usando a pergunta como primeiro verso.

As perguntas do Livro de Neruda são todas em octossílabos, que julguei necessário manter. Os versos interiores, necessariamente mais curtos, são redondilhas menores, o que para mim é grande dificuldade.

O metro desses limerique, portanto, são diferentes dos Limeriques para o Dante (decassílabos e redondilhas maiores). O esquema de rimas, claro, é que não pode ser alterado jamais, sob pena de grande consternação celestial. Estas devem ser AABBA.

Mas para que tanto blablablá. Limerique é coisa leve. Seguem os primeiros.


Quantas igrejas tem o ceú?
Perguntei ao Seu Manuel
Ele mora lá
Mas não vai contar
Quantas igrejas tem o céu.

Quantas perguntas tem um gato?
Indaguei à Isolda no ato
Que para mim olhou
E fundo suspirou:
Aff Maria, que cara chato!...

Todos os setes são iguais?
Perguntou-me o velho rapaz
Quem isso sabia
Acho que era a Lia
Mas agora não sabe mais.

Quem nunca viu o aloé?
Queria saber Primo Zé
Olha, meu amigo,
Se fosse comigo
Eu ia tocar oboé.

Quantas abelhas tem o dia?
Perguntou-me Dona Maria
Como é abelhuda
Magra e pescoçuda
A curiosa Dona Maria.


"Aff Maria!...."

Tuesday, January 26, 2016

Haikai Húngaro







Em Cuzco
Puskas
toma pisco


Sunday, January 24, 2016

Concerto para Dois Pianos de Prokofiev



O pequeno repertório de concertos para dois pianos e orquestra (Mozart, Mendelssohn, Poulenc, Vaughan Williams, Stravinski, Bartók) ganhará em breve a companhia ilustre de Prokofiev, no que para mim já é, para o bem ou para o mal, um dos acontecimentos da música erudita do ano. 

Trata-se de um novo concerto para piano de Prokofiev, no caso o sexto, e para dois pianos e orquestra de cordas apenas. Lo que pasa es que Prokofiev morreu há pouco mais de 60 anos.

Bem, o mestre russo deixara uns esboços da obra, que agora foi "completada" por um professor canadense e por seu neto, Gabriel Prokofiev, aquele que já escreveu concerto para DJ e orquestra.

O caso que me vem à mente é, claro, a décima de Mahler. Tenho mixed feelings. E estou curioso.  A estreia mundial será dia 27 de fevereiro.

(Alguém irá compor os movimentos finais da Inacabada do Schubert?)

Segue o primeiro movimento do lindo concerto para dois pianos do Vaughan Williams. E o concerto para DJ do Gabriel Prokofiev.




Saturday, January 23, 2016

Azulejaria Popular ::: Os Paineis de Santos dos Irmãos Igrejas


Méier


Na primeira postagem que fiz acerca da azulejaria popular dos Irmãos Igrejas (aqui), lembrei que Manoel e António não tinham por hábito assinar os pequenos paineis compostos por quatro azulejos, quase sempre dispostos como losangos, então implantados na platibanda da casa.

Arrisco duas explicações: a pequena dimensão da obra e o fato de talvez eles não enxergarem ali algo realmente artístico, autoral. Com efeito, a produção era grande: em depoimento de 1990 calculavam já terem executado para mais de 30 mil dessas peças desde a chegada ao Brasil, o que dá, roughly, média de quase duas peças (duas peças de quatro azulejos!) por dia!

Não é pouco.

Dia desses, no entanto, encontrei linda Nossa Senhora Aparecida (em pessoa) no Méier em um painel onde meus olhos míopes juram ver a assinatura de um Felix Igrejas. Ressalte-se que o painel é composto por nove peças.

Parece então que só assinavam paineis de santos quando estes eram maiores que os quatro habituais (caso da Aparecida do Méier e do São Jorge de Campo Grande), mas isso está longe de ser regra, haja vista o São Sebastião, a Nossa Senhora da Penha, a de Fátima, o São Jerônimo, dentre outros, exemplificados aqui. Mas como, então, posso afirmar que esses paineis são de autoria dos Igrejas, mais provavelmente do António? Simples: pela sua característica moldura fitomórfica alaranjada.

A moldura, portanto, fazendo as vezes de assinatura. Hipótese interessante.

Honório Gurgel

Penha



Penha

Olaria

Olaria

Ramos


Campo Grande (assinado) Foto de Flavio Paschoal

Brás de Pina (assinado)



A característica moldura em painel secular de Ramos

Soneto de Fios sobre Volpi



Um pouco (só um pouco) na cola daqueles do Avelino de Araújo (sobre quem escrevi aqui), segue meu Soneto de Fios sobre Fundo Volpi.

Reconheço os tercetos mais claros que os quartetos.

O Lar da Felicidade fica no Santo Cristo, aos pés do Morro do Pinto (here)

Friday, January 22, 2016

Casinhas do Subúrbio

Madureira


Claro que gosto de me deparar com aquele sobrado senhorial com alpendre e azulejos. Mas aqui apenas casinhas. Nem porão alto entra. Estilo missões entrou. Mas as que melhor ilustram o verso do cummings são as azuis de Madureira e Penha.


"i am a little church (no great cathedral)"



Bonsucesso

Cascadura

Cascadura

Encantado

Engenho de Dentro


Lins

Méier

Penha

Pilares

Quintino

Santa Cruz

Vila da Penha
Irajá

Monday, January 18, 2016

Crônicas Chilenas VII ::: Camarões Mimados à Mapuche



Domingo chuvoso pede programa de índio, e daí resolvemos abrir o tempero trazido do Chile. Já havíamos provado camarões com merkén no nosso restaurante dileto em Valparaíso, o Fauna, o que muito contribuiu para a aquisição dessa pimenta defumada de origem indígena.

Nossa receita nada mais foi senão uma variação de torradas de camarão com creme de leite. O mimado vem por conta de eu achar conveniente usar aqui o pão de forma sem casca, todo ele branquinho, digno das melhores crianças mimadas que assim o recebem das avós ou babás.

O que cria aqui dialética interessante, de vez que o merken é legado dos índios mapuches, que combateram ferozmente os invasores espanhóis, tendo mesmo em uma ocasião, talvez por falta de crustáceos, devorado um de seus líderes, Pedro de Valdívia. Talvez devêssemos mesmo chamar o antipasto de Camarões Mimados à Valdívia.

Sunday, January 17, 2016

Cuántas abejas tiene el día?




A camisa do Dante (meu poeta preferido) pergunta :: "Quantas abelhas tem o dia?", octossílabo que se traduz sem dificuldades do livro póstumo do Neruda,  homem pouco chegado ao metro, mas aqui atendo-se às oito sílabas por todas as 74 estrofes do delicioso livro.

As abelhas voam em quatro perguntas:

"A quien persiguen las abejas?"

"Cuántas abejas tiene el dia?"  

 "Si las moscas fabrican miel

Odenderán a las abejas?"

"Qué letras conoce la abeja
Para saber su itinerario?"

Deixo aqui duas :

Que perguntas pergunta Pablo
quando prova do mel da amada?

e ainda

Que perguntas pergunta Dante
no balanço ao lado de Lara?


 

Saturday, January 16, 2016

Crónicas Chilenas VI : Valparaíso Progressiva



Não sei de todos os meandros da história. Sei que quando a cidade de Valparaíso pleiteou ingresso na lista de Patrimônios da Humanidade da Unesco, encomendou ao grupo de rock progressivo chileno Tryo uma suíte. Gosto imenso de ideias assim, como quando, similarmente, os geniais galegos do Milladoiro compuseram a trilha-sonora para a exposição Galicia Fulget e o Michael Nyman compôs uma trilha-sonora para o livro The Commissar Vanishes.

Por que quem disse que trilha-sonora só pode ser para filme ou peça de teatro?

No caso em questão, deu certo: o centro histórico de Valpo integra a lista da Unesco desde 2003.

A suíte Valparaíso Psicodélico, que abre o álbum Patrimonio de 1999, divide-se em quatro partes que totalizam quase 15 minutos. Não creio haver muito psicodélico aqui. Pelo contrário, até. A banda, que tem uma pegada crimsoniana muito forte, atinge aqui píncaros de lirismo, sobretudo graças à incorporação de um violoncelo tocado pelo baixista.

Tive o privilégio de assistir à peça ao vivo no Rio Art Rock Festival de 2001, um showzaço com momentos acústicos (a suíte em questão) seguidos por uma sonzeira do cacete que às vezes nos fazia duvidar que só havia três pessoas no palco. O show da noite. Só não posso dizer que foi o show do festival porque na noite seguinte teve um outro trio -- o Le Orme.






Friday, January 15, 2016

Vejam que pedante






vejam que pedante :
o pé
do Dante



Mais de uma vez, em casa, tentei foto dos pés do Dante para ilustrar este haikai. Pensava em desenhar um rostinho feliz (talvez melhor um rostinho de narizinho empinado, como o de um professor universitário) na sola de um dos seus pés chatos.

Não consegui.

A foto é da Andréa, a simpática mãe da minha nora, a Lara, a quem Dante visitou ontem e que já apareceu neste blog aqui e aqui.

Thursday, January 14, 2016

Crónicas Chilenas V ::: Valparaíso dos grafites



Eles estão por toda a parte. Poéticos, críticos, políticos, sensuais, jocosos, autorreferentes, oníricos. No caminho da Sebastiana e fora dele. Na descida que desemboca na cervejaria Altamira e longe, bem longe desta. Impossível pensar Valparaíso sem seus cerros, impossível lembrar da cidade sem seus ascensores, inimaginável imaginá-la sem seus grafites, que lhe tatuam a pele como os para sempre extintos selk'nam.