Thursday, December 23, 2010

Mito desmontado

Como o elefante de Drummond, recomeço todas as manhãs, inda mais se estas são anunciadas pela gritaria das cigarras.
Mas logo sou apunhalado e os golpes retecem a angústia da noite anterior. Existe um provérbio em inglês -- "Sticks and stones can break my bones / But words can do me no harm" -- que, em termos de idiotice, é prato cheio, transbordante. Words can break our bones, they often do, words can and do break our heart and soul.

Saturday, December 11, 2010

Fragmentos


O Leitor, muito bom filme de Stephen Daldry (do belíssimo As Horas) empurou-me para a estante, em busca de livro comprado há anos porém jamais lido: Fragmentos - Memórias de uma Infância, de Binjamin Wilkomirski. Encontro-o, e a data no canhoto da livraria da PUC não me deixa mentir: Fragmentos foi adquirido em 13/03/00 e só lido agora, dez anos depois.

O que me fez lê-lo foi, naturalmente, a blockowa. Nisto, O Leitor tem o mesmo mérito de Fale com Ela: humaniza um personagem que, sem aquela caracterização anterior, seria apenas repositório de ódio e desprezo. Em Fale com Ela, o enfermeiro teve relações com uma paciente sua, em coma (estuprou-a?). Aqui, a ex-guarda de um campo de concentração participou de uma daquelas marchas insanas com os prisoneiros, já lá para o fim da guerra, quando os nazistas a sabiam perdida, e ainda deixou que os prisioneiros sob a sua guarda morressem presos em uma igreja em chamas. São crimes terríveis, e não digo que eles sejam relativizados ou amenizados. O que se passa é que os agentes (o enfermeiro, a ex-guarda) ganham outras dimensões. Personagem muy redondos, para dizer o mínimo.

O livro de Wilkomirski é de difícil leitura, dada a sequencia de atrocidades. Sei que foi este um dos motivos do lapso de dez anos: eu o temia.

Tia Júlia e o Escrevinhador

Com um segundo semestre especialmente carregado de trabalhos, muitos inéditos até então, a leitura de Tia Júlia e o Escrevinhador, romance de Mario Vargas Llosa, foi relegada para o fim do dia (a leitura das pálpebras cansadas) e, por fim, abandonada.

É difícil retornar a um romance depois de alguns meses. A tentação de abandoná-lo de vez (um dos direitos do leitor, não é, Pennac?) e começar um outro é grande.

Mas insisti. Voltei à Tia Júlia, ao Varguitas, ao Pedro Camacho, e não me arrependo em nada.

Houve época, recente, em que muito se alardeou o fim da literatura, bem como o fim da história, o fim da pintura o fim disso e daquilo. Atitude, no mínimo, de uma soberba ridícula.

Com o personagem Pedro Camacho, e suas narrativas entremeadas à linha narrativa 'principal', Llosa mostra que a capacidade do homem de criar, e contar, e organizar suas experiências por meio da narrativa, é infinita. Verdade que o personagem seca, endoidece, tem fim humilhante, o que permite diversas leituras simbólicas, algumas mesmo óbvias, mas o que me ficou deste doidivanas fascinante foi isso: jorro incessante, contar sem fim, mar de histórias.

Ao fazer isso, Vargas, naturalmente, revela-se sobremaneira moderno, pós, e nada ingênuo. E ao imiscuir, descompromissadamente, vida e obra, também.

Friday, December 03, 2010

Miguilim

Jõe Guimarró, aka João Guimarães Rosa, estourou a vista de tanto ler. Ainda criança. Imaginem ler tudo que te cai nas mãos sob aquelas luzinhas débeis de Cordisburgo de 1910's. Daí, e eu que detesto leituras biográficas, o Miguilim. Não apenas, mas também.

Eu estourei o tímpano, mas precisamente o direito. Pela sensação (indescritível), achei que fosse água da piscina, das minhas aulas de natação. Depois lembrei que não fazia aulas de natação, nem de piscina. Deve ter sido só a membrana que, pelo que lembro de minhas aulas de fonologia, logo se reconstitui.

O assombroso, o verdadeiramente estupefaciente, é que, ao mesmo tempo, o fone direito do meu iPod também parou de funcionar. Já entrei em contato com a assistência técnica e, em que pesem burocracias, um novo fone de ouvido estará em minhas mãos em uma semana.
Um novo tímpano? Procurei na Amazon, na Saraiva, nas Americanas, na FNAC. Neca. Quem souber, avise, para o ouvido esquerdo ou por gestos.

PS: Sim, este tímpano se foi por muito boas causas...

Sunday, November 28, 2010

Você também?

Li em algum lugar que o U2 fará show no Brasil ano que vem, e, ao contrário do Macca que desta vez nos esqueceu (***sigh***), eles viriam ao Rio.

Nunca fui grande fã. Lembro de quando montei o schedule do meu curso Literary Rock e o mostrei a uma colega, grande fã da banda irlandesa. Ela o examinou e devolveu-me de olhos baixos, em muxoxos: "Esse não gosta de U2 mesmo...". É que não havia uma única menção à banda.

Quando estive em Dublin, aquela capital em que gaivotas grasnam downtown, vi em diversas livrarias um livrão portentoso sobre a banda, papel couché, repleto de fotos coloridas, a preço de banana. Nem. Deixei lá.

Do U2 lembro-me de certa noite no Circo Voador em que lá estava com minha tribo metaleira. Isso antes do primeiro Rock in Rio, antes de esta cidade descobrir o que são metaleiros. Enquanto aguárdavamos o show (Stress? Dorsal?), passaram vídeos no U2 no telão. Meus amigos, meu irmão em primeiro lugar, odiaram, babaram bílis, mandaram o pobre do Bono enfiar aquela bandeira branca no fiofó. Mas eu gostei do que vi.

E eu estava em Chicago em 1987, ano do Joshua Tree. Um desbunde. Só se falava nisso. E é mesmo um disco clássico.

Mas se o U2 der por estas bandas, irei vê-los é por outro motivo. Temos vários CDs da série "Babies Love": Beatles, Carpenters, Pink Floyd (que Dante e eu ouvimos toda noite toda a noite), Police, Phil Collins. Mas é no do U2 que recai nossa predileção e o qual usamos, toda tardinha, para niná-lo. Nele não apenas reconheci músicas várias, como as óbvias "Sunday Bloody Sunday" e "New Years Day", de que nem gosto tanto, e "One" (linda), como aprendi músicas que desconhecia, como "40", "Bad" e "Van Diemen's Land": todas lindas tocantes, que fazem deste momento um instante de ternura indescritível.

Por isso gostaria de ir ao show.

E quem sabe até incluí-los no meu próximo Literary Rock? =)

Friday, November 26, 2010

Acordar angustiado no domingo

por ter ficado até 00:30 de sábado assistindo a A Fita Branca, de Michael Haneke.

E eu, que tanto amo trilhas-sonoras (estão aí Wim Mertens, Philip Glass, Gabriel Yared, Zbigniew Preisner e, claro, Michael Nyman para prová-lo), fico embasbacado com filme em que trilha não há. Herança de Dogma? Caminhos similares ao do malaio Tsai Ming-liang? Porque música há, mas apenas incidental. Temos as notas que emergem desafinadas do harmônio tocado pelo professor primário. Temos a dança dos campônios na Festa da Colheita, temos Bach na missa. Mas este é filme de silêncios.

De Haneke eu já assistira ao igualmente perturbador A Professora de Piano. Para quem sentir cócegas de interesse: cuidado. Haneke gosta de explorar não apenas nossas comezinhas hipocrisias, mas também a sordidez que se lhe pode acompanhar.

Não é um filme didático (como é, por exemplo, O Menino do Pijama Listrado). Dizer que ele explora as origens do nazismo é dizer pouco. Mas é impossível deixar de fazer as contas. Afinal, são aquelas crianças, perturbadoras e perturbadas, torturadoras e torturadas, de 10, 11, 12 anos -- são aquelas crianças que estarão no ápice de suas forças físicas para ingressar as fileiras das SS, possivelmente já como oficiais.

Impossível também não lembrar do filme mais terrível de Pasolini, cujo nome não digo. Afinal, há uma representação quase esquemática das classes sociais e o que estas representam: o barão dono de terras (nobreza / burguesia afluente); o médico (profissional liberal / ciência); o pastor protestante (o velho cristianismo, sempre mancomunado com o poder). Três homens hediondos, em especial o segundo. Como sabem manter tudo sob a capa grossa das aparências, seguem. Nem sempre felizes (cai-se do cavalo logo no início, quebra-se uma clavícula), mas sempre no poder.

Saturday, November 20, 2010

POLEIRO DO GALETO



Na sexta almoço no Poleiro do Galeto, no CADEG, em Benfica. Já estivera empoleirado por aqui, coisa de uns seis anos, quando ficamos eu, Bia, Alexandre e Afonso por horas tentando chegar a uma conclusão (e definição) do que seria um concunhado. Se chegamos a alguma conclusão, pouco lembro, que esses assuntos são muitos dificultosos.

Chego cedo, o purtuguês me encara sério, muito sério, pensando cético enquando mastiga palitos: "Esse puto não é daqui... Que será que esse galego queire?"... Esta minha condição: se vou ao Antiquarius, I don't belong; se vou ao Poleiro, idem... Nem esquento mais, em vez disso: peço cerveja. É cedo, só tem eu sentado. O dono tabém bebe com um colega. Nisto entra o Caldeira, padrasto do meu cunhado e, para estupefação do purtuguesão, saudamo-nos, abraçamo-nos cordiais.

O Poleiro do Galeto é pé-sujo mesmo, de moscas, cheiro de mijo de gato e donos encarantes, e assim o quero eternizado, intacto, suspenso no ar. Tenho medos de que aconteça com o CADEG o que aconteceu com o Mercado Municipal de São Paulo e, em menor intensidade, com o Mercado São Pedro (ver primeiro post do ano). Tenho medo de que o aburguesem, o higienizem em excesso. Quero sentar aqui e ver defronte a loja de ovos Gema Dourada, toda ela azulejos azuis (imenso banheirão), com folhinhas de santos e de festas purtuguesas. Já instalaram aqui o Barsa, restaurante de chef, mas espero que pare por aí.

Voltando ao Poleiro: meu sobrinho chega e pedimos o almoço. Aqui é assim: todo dia tem bacalhau e mais o prato do dia. O de sexta, eu já sabia, que saloio não sou, é o cabrito. Custa 27 reais, serve bem duas pessoas e vem molhando a farofa, o arroz e as batatas. Não é como o do Nova Capela, filé. O daqui vem cheio d'ossos, na vinha d'alhos. Aliás, já que comecei a comparação, continuo: pagará a pena voltar ao Capela, pagar 65 reais por um cabrito seco em porção que hoje mal dá para um?

Ao sairmos, o Poleiro está cheio, ocupam várias mesas pelos corredores. Meu sobrinho me fala que agora tem loja vendendo cervejas especiais por lá. Tão vendo?, é o sinal da "sofisticação". Mas eu lá vou, claro, e me refestelo com Flying Dogs, Colorados e Wäls. Mas isto já será assunto para outro post.

Tuesday, November 16, 2010

Palhaço (ao vivo)

Em post muito antigo, de 21 de janeiro de 2009, Dantuca mal completara um mês, escrevi sobre um sonho realizado: niná-lo ao som da linda "Palhaço", do Egberto.

E não é que domingo passado tivemos "Palhaço" tocada ao vivo em nossa sala? Visita de músico é assim mesmo. Você pede canja, fazem muxoxo, alegam calos, cansaços, contratos seriíssimos. Você não pede nada, e o presente vem: todo surpresas...
De qualquer modo, credite-se a penumbra a dois fatores: minha atual alergia a flash e, sim, eles (plural porque além da gaita tem um sujeito no sofá tocando caxixi) têm um contrato atual com a Polygram, que não os cedeu gentilmente!

video

Sunday, November 07, 2010

Coleções

Enquanto lá fora o sol está sai não sai, decido inaugurar um novo tag por aqui: coleções! Não vai faltar assunto!

E pra começo despretensioso de conversa, alguns exemplares de parte da minha coleção de CDs de rock progressivo canadense da primeira metade dos anos 70.


Para quem achou...







...que houve exagero, poetagem, no post Minha Vida Inteira seguem duas fotos jornalísticas, referenciais, comprobatórias da ubiquidade da presença do Dante nesta casa e neste coração, que também é casa.




A primeira foi tirada na mesa da sala, estava corrigindo provas. A segunda... é do escritório, não é do quarto dele, não.

Saturday, November 06, 2010

Corta o cabelo dele, corta o cabelo dele!




Na véspera cortei a franja, enquanto ele bebia sua agüinha de coco. Eu, que nas palavras da Bia, nunca cortara nem cabelo de boneca (Como ela sabe disso?). Mas quando chega a madrinha (uma das), aí, meus caros, é que a tesourinha trabalha infrene. E nosso ripinho rebelde transforma-se num iãpizinho comportado. Ou quase isso.
Tudo, claro, enquanto o poverino é distraído com a mamadeira... Covardia...

Sunday, October 31, 2010

Minha vida inteira

Mas a poesia deste momento
inunda minha vida inteira.
Drummond
Antes de o Dante nascer
Ana e eu tudo sabíamos de crianças e sua criação.
E assim andávamos pela praia impositivos:
"Lugar de criança é no quarto dela!", "Criança tem que conhecer os seus limites!"

Hoje, ante Dante,
o escritório é repleto de brinquedos, bola gigante, livrinhos
meus livros roçam ombros com Tashas, Tyrones e trenzinhos
minha sala é estacionamento de carrinhos.

E a poesia deste momento
inunda a minha vida inteira.

Wednesday, October 27, 2010

Um Menino Vestido de Sol

Embora já tenha feito duas exposições -- "Por Dentro e Por Fora Menino", na PUC, em 1994, e "Passagen para Goa", na Galeria do Espaço Cultural do Ingá, em 2007 --, sou um fotógrafo amador, e bota amador nisso. Assim, quando me pedem dicas técnicas no metier, só tenho uma para dar: Flash? evite. Sempre. A menos que você tenha que retratar aquele gato preto no quarto escuro (que nem está lá), evite.

Daí esta pequena série. A luz vem de fora e a luz vem de dentro.

Quanta luz.





Sunday, October 24, 2010

Prazer a 59,3%



Termino neste momento minha garrafa de Caol Ila Cask Strength, com 59,3% de graduação alcoolica. É pena, pois este whisky de Islay, comprado no freeshop de Copenhague, vai deixar saudadades.

Se em poema publicado aqui no bloguinho, descrevi whisky como o pôr-do-sol no copo, este aqui foge inteiramente a isso, de vez que sua apresentação é pálida, côr de palha.

Se no primeiro post deste ano degustei um outro cask strenght, o Aberlour Abduna'h, este aqui também foge a isso, de vez que, a despeito de seu altíssimo teor, queima menos.

Mas estão aqui a turfa, a fumaça, o sal de Islay. E um frescor inacreditável.

Cask strenght é denominação dada ao whisky tirado "direto do barril", sem que água alguma tenha sido adicionada a ele. Esta adição de água, neste estágio, não representa um batismo, uma falsificação, muito pelo contrário, tanto que a praxe é adição de água, de modo a trazer sabores e aromaa à tona e a baixar o teor alcoolico para mais ou menos 40%, que é a média do whisky. Em alguns casos, no entanto, com o intuito de oferecer um produto diferente, as destilarias vão a alguns barris jovens (menos de 12 anos) e engarrafam direto. Daí o maior teor alcoolico e, por extensão, a grande variedade de sabores possível, pois um barril nunca será exatamente igual ao outro, ainda mais se estamos a falar de single malts Islay.

Tuesday, October 12, 2010

Um Pisco para Llosa


Antes da Internet, era comum eu ficar ansioso na manhã seguinte a um jogo do Vasco para chegar na banca e descobrir o placar final. Pois foi com alegria semelhante (que, err, os resultados dos jogos nem sempre traziam), que descobri nas manchetes que o Nobel de Literatura fora dado ao Mario Vargas Llosa, peruano de Arequipa. Não que seja necessária a chancela de um prêmio para ratificar nossos gostos, mas um prêmio como este, já ganho por tanta gente boa (ao contrário do desprezível Oscar), é, perdoai o clichê, o reconhecimento de uma obra genial, abundante, consistente.

Eu e meu pai, ledores e reledores de Llosa, quedamo-nos contentíssimos. Para comemorar, fiz aqui em casa um pisco sour (lembrem-se de que o pisco é a bebida típica peruana), que tomamos em homenagem não apenas ao Mario Vargas Llosa, mas também (e principalmente?) à Tia Júlia e ao Varguitas, ao Poeta, ao Escravo, ao Jaguar, ao serrano Cava, ao metódico Rigoberto, ao diabólico Fonchito e à seduzida madrasta, ao Ricardo e à Lily, a menina má, e ao Pedro Camacho.

Personagens mais vivos que muitos dos zumbis com que cruzo diariamente.

PISCO SOUR:

Ingredientes:
200 ml de pisco
200 ml de suco de limão
200 ml de açúcar
Clara de 1 ovo
Bastante gelo

O modo de fazer é que é dificílimo:
Bate tudo no liquidificador.
Beba.

10 do 10 de 2010




De maneira que, quando o detetive me perguntar onde eu me encontrava às 10 horas do dia 10 do 10 de 2010, direi: "Esta é fácil, Sherlock, no show do Rush!".

Uma das dívidas que eu tinha para comigo, sabem? O Rush esteve aqui em 2002 e eu desdenhei. Passei de carro na frente do Maracanã e desdenhei. Depois foi o arrependimento. O show foi tão bom que decidiram transformá-lo em DVD. Pela primeira vez, palavras de Geddy Lee, o público cantou junto a música "YYZ". Detalhe: uma música instrumental. Cantar uma música instrumental! Se Joe Cocker inventou o air guitar, os cariocas inventamos letra onde só havia sons. Não é pra ser ufanista, mas tem que ser. E me incluo na silepse de pura carona: como assim "os cariocas inventamos", se eu não estava lá? Arrependimento que, para ser dos bons, é secreto, calado, recalcado, sumo que se espreme para se armar em coágulo.

Mas, bons meninos que são, o Rush volta ao Rio, oito anos depois. E, tickets for fun à parte, essa nojeira e roubalheira de venda de ingressos, consigo ir em cima da hora, comprando ingressos na surdina, na escuridão da Praça da Bandeira, e vou com o amigo velho Renato, que estivera no show de 2002.

Três horas de show. Espíritos flutuaram alto pelo céu plúmbeo e baixo da Apoteose.

O show abriu com "The Spirit of the Radio", coincidentemente a primeira música do Rush que ouvi na vida. Era segundo semestre de 1981, estava eu na sétima série. Meu irmão e eu juntamos umas sacolas de discos de novela e discoteca e fomos para as lojas de disco do centro tentar trocar. Conseguimos! Na base de 15 por um. Deixamos lá 45 elepês e saímos leves com outros 3, um do mano, o outro escolha em comum e o terceiro escolha minha, o Permanent Waves do Rush. Não que eu já conhecesse banda, conheci ali na hora, na loja, atraído pela capa em P&B em que o vento levanta o vestido de uma bela moça e um rapaz acena ao fundo. Tudo muito "arty", talvez arty demais para um fedelho de 13 anos. Mas foi isso e aquele som "moderno", que me pegou pelo laço e fez do Rush, pelos próximos dois anos, uma de minhas bandas favoritas. (Motivo de rusgas com o André, que, talvez fiel ao fato de não ter escolhido este disco na troca-troca, sempre sacaneou a voz do Geddy Lee, para minha raiva.)

Não sou um grande entendido em Rush. Parei no Moving Pictures. Lembro-me que mesmo em 83, 84, eu já estava chateado com os rumos que o trio canadense tomava. Hoje vejo que eles sempre buscaram ser fiéis a si mesmos, o que talvez explique essa invejável longevidade (MPB 4 que se cuide).

Mas nesta noite do 10 do 10 de 2010 o que valeu é que estavam lá "The Spirit of the Radio", "Freewill", "Tom Sawyer", "Red Barchetta", "Working Man", "La Villa Strangiato", "Closer to the Heart".

E, claro, "YYZ".

Que cantei a plenos pulmões.

Saturday, October 09, 2010

Botequim Colarinho / Botto Bier

Aquela história de sempre: entrar no boteco e gritar: 'Dá um chope!' Mas quando a casa é de qualidade, quando o espaço antena-se com as tendências atuais, quando, enfim, o boteco se chama "Colarinho" e está ali pertinho da área cinéfila de Botafogo (mais precisamente, na nova rua Nelson Mandela), 'dá um chope!' é dizer pouco ou nada, já que a casa tem cinco ou seis chopes diferentes.

Sentiram? Está na moda abrir botequim com ampla carta de cervejas ou ou velhos ampliarem as suas, mas a cerveja draft, a caña, o pão líquido mesmo, é difícil encontrar em variedade. Pois aqui tem. Para além do Inbev de praxe (Brahma), tem o Red da Baden Baden, a Rauch da Bamberg e... o Bottobier, o München Hell do Botto, o meu querido mestre cervejeiro Leonardo Botto. Percebam: ele faz cerveja em casa, e o chope dele está disponível neste novo botequim. Quando o papo é cerveja, é ou não é uma fase muy alvissareira esta que vivemos nesta muy leal cidade?

Helles é um tipo de cerveja pilsen (lager, portanto), com mais malte e, às vezes, menos lúpulo. O chope do Botto é sensacional! Poder tomar uma rauchbier de torneirinha sem estar na Alemanha (Bamberg) é também do outro mundo.

Saturday, October 02, 2010

Bier Über Alles ou As Coisas Boas da Vida

Este texto, senhores, é meramente ilustrativo.
Esta foto, meus caros, é puramente textual.
Este post, prezados, é tão-somente pra sorrir.

Wednesday, September 29, 2010

Extra, extra!



Exposição do Dante, curtíssima temporada, garanta já o seu ingresso.


O Fernando, a Cora e a Nina já tiveram seus desenhos lindos upados aqui no blog. Procurem, os interessados, que acham. Desta feita juntei o talento dos três para ilustrar meus poemas inspirados pelo Dantuca. A exposição é na SACC - Semana de Arte, Ciência e Cultura do CAp. Conforme escrevi no texto de apresentação: curtam os desenhos, relevem os poemas.

Saturday, September 18, 2010

COMPRAR PEANHA



Sabem aquela história, né? Na falta de roupa nova, passei o ferro na velha. Pois. Segue este texto antiguinho, de quando eu buscava peanhas para o meu Shiva.

COMPRAR PEANHA

Não consigo imaginar um deus que não saiba dançar.
Nietzsche

Viver é duro, navegar sempre será preciso, tamindige mondage (nambiquara: fazer amor é bom), mas comprar peanha, comprar peanha não fica muito atrás, não. Primeiro, julgaram-me fanho. Um fanho querendo uma peanha. Se eu tivesse ganho uma peanha, não precisava ter ido atrás de uma, mas imagina: Fanho ganha peanha, em que palatais líquidas umedecem o papel.

Outros pensaram ser piranha o que eu queria. Piranha? – indagavam levemente temerosos da palavra e seus dentes. Não, eu repetia: peanha. Apenas uma senhora, de uma das duas únicas garage sales de nossa cidade, atendeu às minhas súplicas.

– Tenho três – disse naquele tom inequívoco de quem entende do riscado e de peanhas.
Não gostei de nenhuma das três e de lá saí de mãos vazias. Dirão que sou muito exigente quando o assunto é peanha, mas convenhamos que uma peanha não se compra assim a primeira que aparece. Amanhã recomeço. Hoje é voltar para casa, encarar Shiva e confessar-lhe meu fracasso. Esta noite sua dança ainda queimará o universo em minha estante.

Sunday, August 29, 2010

Feliz Dia dos Pães!







Eia, com atraso indesculpável seguem fotos do meu segundo Dia dos Pais enquanto pai e quadragésimo-segundo enquanto filho.

Fui ao Mercado de Peixe, sentei-me só no Bar Temporal que começava mui timidamente a receber gente e tomei cerveja.

Antes Tutuca me dera presentinhos, coisinhas simples como copos de whisky turcos.

Quando ia ligar pro pai...ele ligou! Isso deve querer dizer alguma coisa.

Dani veio, qual ano passado, e fez nachos de entrada.

O pièce-de-resistance foi camarao ao curry, refogado no alho com gengibre em pó. O molho levou pimenta calabresa, chilly, folhas de coentro...
O arroz é que era muito básico, com sementes de coentro, louro e um pouco de açafrão.

Todo dia é dia dos pais. Mas todo domingo (ou um sim outro não) ele podia ser assim celebrado.

Thursday, August 26, 2010

Eyes wide open (até onde permite a conjuntivite)

Tenho a mão direita quebrada, conjuntivite nos dois olhos e dor de cabeça, do que acredito ser (inédita até então) sinusite, já que o nariz dói se o aperto, como se nele crescessem espinhas. Ou espinhos. Tá, de acordo que dá pra viver sem apertar o nariz, mas o desconforto é o mesmo.
Agosto é uma lagarta lenta a caminhar no pixe quente, deixando atrás de si seu visgo.
Estou no 996, que agora é 751 (mas isso foi antes de agosto), voltando de reunião enfadonha em que muito se fala, pouco se ouve e turnos de fala são disputados.
De súbito saímos do túnel. Saúdo minhas figueiras ancestrais do Catumbi e logo estamos rasgando o Morro da Providência, atravessando casas e seus homens e mulheres.
Escondo-me atrás de lentes escuríssimas, de meu iPod e de minha tipóia. E como toca em meus ouvidos um solo de guitarra maravilhoso e infinito, e como na fachada das casas velhas há santos em losangos de azulejos, e como um sol velho e gordo agoniza por detrás do morro (o crepúsculo é sua carta de suicida), sinto-me vivo, muito vivo.
E feliz.

Sunday, August 15, 2010

It pours

Quebrei a mão, o que, dentre outras efemérides agostinas, torna a atualização do bloguinho pouco mais difícil.

Fato é que when it rains, it pours. May not be my favourite proverb, but it's so unfortunately very true.

Friday, August 06, 2010

Pastoria



Ao entrar no táxi e dar o comando, o taxista, entre assustado e desconfiado, replica: "Mas eu nem espirrei...". Explico: "Não, moço, quero ir para Saúde, aquele bairro perto da Gamboa, na Zona Portuária".

Seguia eu para um restaurante, que chegou para abalar o lugar (de honra) que o Nova Capela ocupa em meu coração. "Chegou" é bem modo de dizer, já que o Restaurante e Café Pastoria, mais conhecido como 28, está ali na Barão de São Félix, na Saúde (ou Gamboa?) há mais de 70 anos.

Mas só fui conhecê-lo agora, e lá levei o pai para almoçarmos.

Se o Nova Capela é um jóia, o 28 é uma jóia não-lapidada, de durezas a arestas que podem mesmo assustar. A começar pela localização, atrás da Central. Cheguei nele passando pela Rodoviária e o que se vê no caminho deixa Nova Déli no chinelo. A rua mesmo em que ele se situa é também bastante degradada, embora em meio a esse cenário de eyesores divisem-se alguns prédios, casas e detalhes arquitetônicos sensacionais.

O restaurante em si também não é de badalações. Seu charme reside no despojamento absoluto: velhos suportes para pendurar paletós (e o chapéu do Seu Inacinho), e o cardápio com os itens datilografados, em que figuram as estrelas cabrito, leitão, polvo.

Fui de polvo, meu pai caiu no leitão crocante com batatas coradas. Os pratos não dão para dois, o que pode ser uma vantagem: indo-se em dois, tem-se a chance de provar dois pratos. Em três, três, e por aí...

Os donos são dois purtugueses de Vila Real, Amândio e Jacinto, que aqui chegaram há 50 anos. Nunca voltaram a Portugal, mas dizem que ainda retornarão, de visita, o que sabemos não ser verdade.

Jacinto guerreou em Angola. Deve ser bom (interessante talvez seja palavra mais apropriada) sentar com ele depois do expediente e, em meio a cervejas e bagaceiras, ouvir-lhe histórias...

E então minh'alma servirá de abrigo



Não é que este bloguinho metido e despretensioso chegou ao tricentésimo post?

Impossível não lembrar de Mário.

"Eu sou trezentos, sou trezentos e cinqüenta,
As sensações renascem de si mesmas sem repouso,
Ôh espelhos, ôh! Pirineus! ôh caiçaras!
Si um deus morrer, irei ao Piauí buscar outro!

Abraço no meu leito as melhores palavras,
E os suspiros que dou são violinos alheios;
Eu piso a terra como quem descobre a furto
Nas esquinas, nos táxis, nas camarinhas seus próprios beijos!

Eu sou trezentos, sou trezentos e cinqüenta,
Mas um dia afinal toparei comigo...
Tenhamos paciência, andorinhas curtas,
Só o esquecimento é que condensa,
E então minha alma servirá de abrigo."

Que faço agora? Rumo aos próximos trezentos? Com metas tipo um post por dia? Corro atrás de um patrocínio? Boto anúncios no orkut? Vou ao Piauí buscar um deus?

Sunday, August 01, 2010

Faltou um licorzinho

Durante a degustação do Café Jacu, gostoso pra chuchu, assaltou-me voraz vontade de tomar uma grappa. Isso, gosto imenso de licor ou destilados com café, sobretudo se o café é bom pra cacete (epa). Não tinha grappa, de modo que fiquei na mão (opa).

Depois ocorreu-me: na verdade, para acompanhar um café desses, café, repito, feito a partir dos grãos de café encontrados no cocô do Jacu, bom mesmo seria... um Licor de Merda!

Tomei-o uma única vez, há muitos muitos anos na casa do então amigo João Ernesto, assim chamado em homenagem, velada, ao Che.

O que achei? Ora, uma merda! Repeti a dose!

Para os que estranham: o Jacu é café brasileiro, com muito orgulho (ou não). O Licor de Merda é purtuguês, de Castanhede.

Não estranhem, ora pois. Afinal, da culinária lusa saem pratos como a punheta de bacalhau (fácil de fazer, é muito querida pelos solitários), a sopa de grelos (da Beira), as caralhotas ou cacetes e, por fim, o Arroz de Pica no Chão (da dieta dos velhos, ainda que à sua revelia).

Parece sacanagem. E não é.

Vai tomar Jacu! ou Dois cafezes.

Esqueci de falar: depois do soberbo javali, pai e eu fomos à Saraiva Megastore comprar livros.

Qual não foi a minha surpresa ao descobrir que no Café da loja, o Baroni, servem o Café Jacu. Para quem desconhece, o Jacu Coffee é o café mais especial deste país, extraído que é do cocô desta ave chamada Jacu.

Seus produtores inspiraram-se no café mais caro do mundo, o Lopi Luwak, da Indonésia, produzido a partir dos grãos encontrados no cocô do civeta, um gato selvagem. Como quem não tem gato, caça com pato, a galera do Espírito Santo faz algo análogo com o Jacu, que de praga converteu-se em solução. Uma solução ecológica, lucrativa, inteligente, uma merda. O quilo custa cerca de 240 reais.

Enfim, pode-se pedir: "Garçom, por obséquio, dois cafezes".

(Um vídeo do Globo Rural sobre este café de bosta: http://www.youtube.com/watch?v=0RiEtaS7k5s)

Friday, July 30, 2010

É nós aqui, é javali.


De 35, meu pai é antebellum, ainda que as poucas ru(s)gas e o interlace façam-no parecer bem mais jovem.

Recentemente me segredou que mingau de aveia causa-lhe azias terríves, o que não acontece se cai no mocotó, na rabada, na feijoada. Assim, estando ele de visita ao Rio, convidei-o para um javali no Nova Capela, o que de pronto anuiu.

O javali desceu soberbo, dávamos urras ao Obelix e, inda que eu não chegue à heresia do pai (que disse tê-lo preferido ao cabrito), confesso que, em minha próxima ida a esse templo da gula, meu coração irá balançar: ventrículo esquerdo pedindo pelo cabrito clássico e o direito suspirando pelo pujante javali.

Estivéssemos em 1989, quando Lula era Lula e o PT era PT, agora cantaria, como cantei: "É nós aqui, é java ali, é Lula lá". Mas tantos anos se passaram desde então, né?, uma maioridade, tantas águas rolaram. Da tríade do jingle fico hoje apenas com o nós e o javali, de preferência no Nova Capela a falar de livros e bebendo chope.

Thursday, July 29, 2010

As amendoeiras caducam



Quando escrevi por aqui, no dia 2 de junho, que as amendoeiras caducavam, sei que muitos pensaram que era poetagem minha, maluquice essa história de árvore caducar.

Mas não. Lancei mão de linguagem denotativa, científica até, botânica... Do latim caducu, isto é, que está a cair, uma árvore caducar significa simplesmente que está a perder as folhas.

Quem mora no Rio pode contemplar o espetáculo que está a caducagem das amendoeiras. As das praias de Icaraí e das Flechas estão até tímidas, muitas muito verdes até.

Mas já há as caducas! As folhas, sempre enormes, independente da idade da amendoeira, vão do verde ao ocre, ao tijolo, ao mel, à mostarda, marrom, chegam ao ouro, ao tomate seco, ao vermelho cardinal e, por fim, chegam supremas ao escarlate, reis e rainhas, e deixam-se tombar no calçadão. Passear com Dante nesta época é quase ter que se desviar destas rainhas escarlates que tombam, mas não nos desviamos, antes tentamos colhê-las.

Quem guarda com sede, a gata bebe

Muito se engana quem pensa que a ensolarada Califórnia produz apenas grandes vinhos (aliás, alguém aí me arruma uma garrafa de Screaming Eagle? Umazinha que seja preciso tomar antes de cruzar o Estige). Lá há também diversas microcervejarias e, dentre elas, a Anderson Valley Brewing Company, cujos produtos acabam de aportar no Brasil. Arrematei logo três exemplares, todas elas ales, de modo a fazer uma degustação horizontal. Mas como isso não foi possível, resolvi tomar uma de cada vez, deixando a India Pale Ale (hoje muy provavelmente my favourite beer style) para o fim.

Tanto a Amber Ale quanto a Pale Ale são extremamente aromáticas e refrescantes (mas sem essa de "leve", adjetivo tão empregue pelas macros brasileiras para confundir o consumidor), um banquete para amantes de birras lupuladas.

A India Pale Ale, bem... esta deixei na geladeira enquanto ia ao Picote tomar chope. Resultado: Bia descobriu e bebeu! =/

Fez ela muito bem, ilustrando com exatidão o antiprovérbio: "Quem guarda com fome, o gato come."

Saturday, July 24, 2010

Fico ao teu lado

Não costumo citar poemas alheios aqui. Melhor, até os cito, mas não costumo reproduzi-los na íntegra, como muitos blogs o fazem. (Tipo: meus poemas bastam, sacaram? Uhauahauahauah)

Mas este da Cecília vai na íntegra. A Cecília não é assim, de palavras simples e exatas?

Interlúdio

As palavras estão muito ditas
e o mundo muito pensado.
Fico ao teu lado.

Não me digas que há futuro
nem passado.
Deixa o presente — claro muro
sem coisas escritas.

Deixa o presente. Não fales.
Não me expliques o presente,
pois é tudo demasiado.

Em águas de eternamente,
o cometa dos meus males
afunda, desarvorado.

Fico ao teu lado.