Tuesday, October 25, 2022

Boi Calemba

Boi Calemba é como o potiguar chamam o folguedo que os maranhenses chamam de bumba-meu-boi e os amazonenses, de bumba-meu-boi, nomes que se popularizaram mais. O Boi Calemba de São Gonçalo do Amarante, na grande Natal, completou este ano 118 anos de existência. Cento e dezoito. Em um país como este, em que as coisas pouco duram, exceto as más, como o patriarcalismo, o machismo, o racismo

Escrevo amargo, é verdade, nesta semana tensa que precede a eleição mais importante de nossa triste História. Ou ela se redime aqui, a História, ou vai mesmo para a lata de lixo, não sei se com reciclagem possível. Estamos no Nordeste. E é duro andar pela orla de Natal e ver as varandas e os carros ostentando o nome e o semblante doentio do genocida. Mas chegar nos recantos de cultura popular e ver a presença do Lula é um alívio que basta a lógica para explicar

Mário de Andrade, em sua viagem de 1928, ouviu o Boi Calemba de São Gonçalo do Amarante. Cascudo, claro, conhecia-o bem e talvez por isso o tenha nomeado o folguedo mais representativo de todo o folclore brasileiro

O crânio do boi é o mesmo do começo do século passado. O mesmo, pois, que Mário e Cascudo alisaram com os olhos marejados...

Uma vez mais, uma pena falar de um folguedo musical e não conseguir postar vídeos, por pequenos sejam

 










 




 PS: Assistimos a um ensaio. Se por um lado não gozamos daquelas roupas lindas brilhantes como a lua, por outro gozamos de certa intimidade, só possível em momentos assim. Agradeço muito ao Kléber e ao Mestre Dedé

 

 

Sunday, October 09, 2022

Clã do Jabuti

 

Um dos trechos mais queridos do Grande Sertão será sempre o encontro mítico do menino Riobaldo com o menino Reinado ('Atravessa!'), sobre o qual já escrevi por aqui e aqui, quando conheci o de-Janeiro

Agora. Uma outra coisa, lateral, que sempre me chamou a atenção é que o Riobaldo, velho já, menciona tartarugas no rio e aquilo sempre me impressionou muito

Saiba o senhor, o de-Janeiro é de águas claras. E é rio cheio de bichos cágados. Se olhava a lado, se via um vivente desses -- em cima de pedra, quentando sol, ou nadando descoberto, exato. Foi o menino quem me mostrou.
 
Pois as há. Há tartarugas no Rio São Francisco, as lavadeiras temem as beliscadas e eu as vi tomando sol nas pedras e nadando nas verdes águas transparentes
 
Já tava bom
 
Aí hoje voltando de barco pra Pão de Açúcar e D. Amélia trazia com ela uma tartaruguinha. Ela cria tartaruguinhas desde que descobriu que seu filho tinha asma. Simpatia, e amor. Quando elas crescem, ela troca por uma pequena. Isso há 20 anos. O filho cresceu, tem 24 anos, estuda Medicina. E ela mantém a prática
 


 

Friday, October 07, 2022

Clemilton, Artista Total

 

Este é o Clemilton, da Mata da Onça, povoado alagoano às margens do São Francisco. Mata da Onça é como que distrito da Ilha do Ferro, por sua vez distrito de Pão de Açúcar, velha sertaneja alagoana, muito citada, com Piranhas, pouco acima, nas crônicas do cangaço

Este é o Clemilton. Mas fica difícil chamar Mata da Onça, com suas seis casas, duas delas quase tão velhas quanto o rio, de "distrito". Nem capela tem. É povoado. Não está no mapa, e olha que falo do mapa específico das Alagoas.

Mas voltemos ao Clemilton, artesão de mãos cheias, como outros da Ilha do Ferro. Pense num Vavan, pense num Cícero. Meu barqueiro, Caronte, acha ele devia se mudar para a Ilha, por amor de ter mais visibilidade. Meu amigo André Dantas, da Ilha, acha ele deve manter-se lá em seu tugúrio mesmo, isso lhe agrega

Concordo com o André. Clemilton decerto recebe menos visitantes. Mas os que chegam até ali sabem por que chegaram

Clemilton pinta o que vê pela frente: as paredes de sua casa, as paredes da sua cozinha, paredes e portas e janelas. Diz que seu sonho era ser artista, talvez pensando em pinturas, mas ele se especializou mesmo nas obras em madeira. Um artista. Feito, consumado, total, na acepção romântica do termo. Não deu pra roça, não deu pra moleque de feira quando pequeno. Não gosta do burburinho de Pão de Açúcar, gosta do seu canto, gosta do murmúrio do rio, e olha que o Velho Chico é muito quieto por ali. Pedi-lhe história do nego d'água, o caboclo d'água, o romãozinho, espécie de saci fluvial. Ele, sem barqueiro ser (Clemilton é só artista), contou-me.

Alumbrado pela prosa, pedi licença pra mergulhar no rio. Lembrei-me foi do Mário: "Que calmaria serena... Que mundo de águas lisas, fluidas... Que espelho claro... Uma ausência plena de inquietações, de audácias... E o sol, o sol do lado, todo de ouro branco, claro, mui claro, claríssimo, impossível da gente fitar". Interrompeu tanta calmaria o barco que trazia crianças da escola. Mergulhei e fingi ser o nego d'água, sorriram sem entender muito. Por elas soube que pouco mais acima havia outro povoado, de nome Pantaleão (!), inda menor que a Mata da Onça.

Quando voltei pra casa do Clemilton, esperavam-me piabinhas fritas

Vascaíno, pintou a fachada de sua casa assim: um art déco sertanejo psicodélico com o escudo do Vascão. Prometi-lhe levar em São Januário um dia. Ele, o moço artista total das Onças, aceitou