Sunday, October 15, 2017

THIS WAS the best show



Outra joia da coroa para a coleção: o This Was autografado. Lembro-me de ter conseguido este vinil numa tarde gelada de domingo em Chicago, 1987. Eu estava lendo Rimbaud (em inglês, plé), interrompi a leitura e, quase em mangas de camisa, andei até a loja de discos da quadra e comprei. Eu senti que fazia algo muito cool, mas o disco não 'bateu', nem na época nem jamais. Mas um disco que tem "Song for Jeffrey" paga o risco de se pegar gripe em tarde fria.

Camila conseguiu-o no show da terça passada em São Paulo, o melhor dos seis shows do Jethro a que ela já foi.

Na verdade, segundo ela o melhor show da sua vida.

(Menina nova, nunca viu o Van der Graaf  😝 )





Com Toni Iommi (ver aqui)

Tangerine Dream ::: o Documentário (parte I)



Sofri bullying por amar o Tangerine Dream, que uns imbecis radicais do Clube Metálico (que eu co-fundara!) chamavam de Tangerine Drama só para me atazanar. Eu engolia a raiva e pedia que os mestres Maitreya e Kut Humi os iluminassem. Minhas preces não davam muito certo: a galera cada vez mais radical já desprezava Accept e Manowar e mergulhava em busca de um death ou black metal, que nem existiam ainda como estilos. Isso em 1984.

Cheguei ao Tangerine Dream por meio do Renato (aqui), que, em 1982, tinha o relativamente recém-lançado Force Majeure, comprado na Modern Sound. Ele botava a última faixa pra tocar, apagava as luzes e dizia "Agora vamos ouvir o arremesso das pedras metamórficas". Éramos uns três ou quatro, no quarto pequeno. Viajávamos assim, sem qualquer necessidade de substâncias. Em meio às pedras metamórficas, a tosse da sua avó.

O Renato tinha uns amigos especialistas em Tangerine Dream. Eu, confuso, dava um braço para ser um. Quando levei umas TDKs a um deles, ele me gravou o Phaedra (escrevi aqui), o White Eagle e o Tangram. Este último tinha no lado B o Ommadawn, do Mike Oldfield. Depois vieram Strastosfear, Cyclone, Exit, Poland, Ricochet e outros. Toda a fase áurea.

Durante muitos anos foram a trilha-sonora dos meus dias e não falo apenas da meditação num quarto escuro em busca de uma iluminação que espero distraído até hoje.

Chato que quando se fale hoje em 'música eletrônica' se pense imediatamente num bate-estaca horroroso e formulaico, destituído de inventividade. Porque música eletrônica já foi música de aventura e o Tangerine Dream, o grande precursor, prova-o.

E ontem assisti ao documentário sobre a lendária banda. A postagem pp dita a respeito vem em breve.

Saturday, October 14, 2017

Dante, Imbiriba e eu



Conheci Andrea Aires Imbiriba como se deve conhecer os artistas: através do seu trabalho. Era canicula de fevereiro e, depois da feijoadinha básica do Mineiro, fomos atrás dos mosaicos dos bondinhos. Encantado com a obra e com a iniciativa, não só escrevi esta postagem aqui como entrei em contato com ela. A ideia inicial era apenas dividir a postagem, mas depois fui tomado pelo bichinho do 'que que os bondes têm que eu não tenho, também eu quero um mosaico meu com o Dante', bichinho persistente que me levou a fazer-lhe a proposta. Para grande alegria, ela topou, embora já estivesse às voltas com a segunda parte do tal do projeto dos bondinhos. Não foram poucas trocas de fotos e ideias. E dúvidas e elogios e ansiedades, dos dois lados. O mais bonito é que ela se envolveu com o Dante.

Pampi e eu subimos Santa hoje para pegar a nossa joia. Já nos parecia bonito por fotos, ao vivo só 'piorou'. E pensarmos que este é apenas sua quarta obra de mosaico de rosto, depois de um Gaudí em azulejos e de uma Carmen Miranda e um autorretrato à lá Frida em pastilhas.




Thursday, October 12, 2017

Monsieur HIRE ~ Michael Nyman



A morte de Patrice Leconte me fez seguir para o colégio na manhã seguinte ouvindo a trilha de O Marido da Cabeleireira (aqui). Pulei as (ótimas) músicas árabes para me concentrar no Michael Nyman. Batata. Chorei a água de uns três cocos. A senhora ao meu lado, que só depois descobri ser baiana da G.R.E.S. Vila Isabel, pediu preocupada que o motorista parasse. Ele perguntou se eu queria ficar no Hospital da Lagoa, respondi que não precisava mas depois lembrei que saltaria ali mesmo.

Existe um outro filme de Patrice Leconte com música de Michael: Monsieur Hire, de 1989. Desgraçadamente, jamais foi lançada. Só fui ouvir as músicas "Skating" e "Peeking", fora do filme que por força assisti, na coletânea Michael Nyman: Film Music 1980-2001.

O filme é ótimo.



Tuesday, October 10, 2017

Painel Azulejar em Bonsucesso



Um achado, uma beleza, este painel azulejar em Bonsucesso em que Santo Antônio confabula com um anjinho. Talvez seja Olaria, não sei, é rua onde na quinta tem feira pequena e no fim dá para uma favela.

Não traz assinatura, o que já praticamente afasta a hipótese de ser um Igrejas. Até onde sei, os irmãos assinavam tudo, com exceção daqueles clássicos pequenos painéis de santos formados por quatro azulejos. É possível que nestes casos, dada a grande produção e quase repetição de padrões, eles não considerassem arte.

O diferencial aqui, por óbvio, fica por conta do formato. Dir-se-ia asa dum anjo, um pouco como aquela do Museu do Ingá. E tudo muito, muito bem ornado na parede de pedras. Anos 50, 60? Deve ter sido bom sentar-se aqui de chinelas para ler o jornal, enquanto o marido, parceiro amado, passava um café.




O Palácio do Ingá

Monday, October 09, 2017

Dante, Autismo, Amárico



O Grajaú tem coisas boas, boas como entrar no ar condicionado num dia de verão. A rotina da pracinha com o Dante gera inevitáveis encontros rotineiros e, justiça seja, a grande maioria com pessoas gentis e sensíveis ao seu autismo. Se há uma daquelas mães argentinas, uma daquelas que vibraram nas redes sociais com a exclusão do menino autista da turma de seus filhos? Decerto. Mas minoria mesmo. A grande maioria, repito, gentil e sensível, querendo até tirar o filho do balanço para dar lugar ao Dante, apesar dos meus protestos ('Não não, obrigado, ele tem que aprender a esperar').

Mas não esperava que o pai da Alice, linda Alice, fosse reconhecer o amárico na camisa do Dante, fazendo questão de escrever as letras para pesquisar o que dizem. (E eu, vergonha, sabia e esqueci).

Chegando em casa, pesquisei. É difícil demais. Pode ser que signifique 'fofinho' ou 'olho fofinho' ou, simplesmente, 'amárico'. Na dúvida, fico com as três.

Sobre nossos livrinhos em amárico, aqui.




O ipê-branco começou



A companheira está em São Paulo, a irmã em Brasília, a babá doente. Ninguém hoje para ajudar um pouco com o Dante.

Mas meu ipê-branco começou a florir. E meu ipê-branco começou a florir.

Eu achava que ele estava atrasado, mais tímido que de costume, mas não, se a postagem do ano passado foi no final do mês (aqui).

Terceiro movimento, como quis Rubem Alves, terceiro movimento depois do ipê-rosa e do amarelo, terceiro movimento da quarta de Mahler, a única em sol maior.


Saturday, October 07, 2017

CERVEJA DANTE ~ BIRRA ALTISTA



Enfim pronta a minha Cerveja Dante ~ Birra Altista. Trata-se de uma altbier, uma ale alemã, estilo raro (só podia) e pouco divulgado entre nós. Claro que pude então dar asas à minha Witzelsucht: alt virou altista, porque ela leva o nome do Dante. Mas no rótulo quem aparece é o poeta florentino, porque eu não podia dar esse mole. Birra faz alusão à cerveja (em italiano, por supuesto) e, claro, à birra dos portadores de autismo (não é para levar a ferro e fogo, por favor). E é uma cerveja... especial, pegaram? Para terminar: (a)brasse essa ideia, com dois s mesmo, para fazer uma referência à brassagem.


Não foi ainda cerveja que eu fiz, porém obra do Diogo Cavalheiros, de quem já falei aqui. Outras edições virão em breve e, espero, com os meus pitacos.

Está muito boa. Linda cor, suave na boca, amargor correto, carbonatação generosa. Ornou muito bem com nossos anéis de lula e arroz de brócolis.






Friday, October 06, 2017

Maybe I'm Amazed



Maybe I'm amazed at the way you love me all the time
Maybe I'm afraid of the way I love you
Maybe I'm amazed at the the way you pulled me out of time
And hung me on a line
Maybe I'm amazed at the way I really need you
Maybe I'm a man and maybe I'm a lonely man
Who's in the middle of something
That he doesn't really understand
Maybe I'm a man and maybe you're the only woman
Who could ever help me
Baby won't you help me understand
Maybe I'm a man and maybe I'm a lonely man
Who's in the middle of something
That he doesn't really understand
Maybe I'm a man and maybe you're the only woman
Who could ever help me
Baby won't you help me understand
Maybe I'm amazed at the way you're with me all the time
Maybe I'm afraid of the way I leave you
Maybe I'm amazed at the way you help me sing my song
Right me when I'm wrong
Maybe I'm amazed at the way I really need you











A casa continua bagunçada



Morei num apartamento Casa Claudia por uns 15 anos: quadros, paredes, sofás, cama, revisteiros etc. A qualquer momento podia entrar o Papa e a casa meticulosamente arrumada. E bonita, eu gostava assim.

Depois chegou o Dante e bagunçou tudo. Escrevi este poema aqui quando elezinho nem dois anos tinha.

Passaram-se anos. A casa continua bagunçada. Irritado, hoje de manhã Dante jogava longe o uniforme da escola, eu tentando vesti-lo. Não raro um item desses só é encontrado meses depois. Também Camila deixa às vezes uma coisa aqui outra ali. Suspiro.

Isso me lembra visita que Borges fez à casa recém-comprada de Jean-Claude Carrière em 76 ou 77.  Para se desculpar da desordem, e repetindo chavão, Carrière veio com o 'Não repara a bagunça', uma bobagem se pensarmos que Borges já estava praticamente cego e que Borges era Borges, que apenas redarguiu: 'Eu compreendo. É um rascunho.'

É mais ou menos isso, mas não é. Porque não é rascunho. Está pronta já, querendo pode entrar o Chico.

Wednesday, October 04, 2017

Crônicas Siamesas XI: Vai um sabonetinho fálico, madame?



Os palad khiks já foram mais populares na Tailândia, os homens usando-os sob as roupas mais como uma forma de fechar o corpo do que propriamente para atrair o sexo oposto, embora também servissem para isso. Segundo li em livro maravilhoso que folheei na escola de culinária (cujo nome desgraçadamente não guardei), a garotada de hoje já não liga tanto e a razão é exatamente esta: acham de mau gosto, obsceno etc. Pena. Há coisa de dois anos duas lojas que vendiam sabonetes coloridos com formas fálicas em Pattaya foram denunciadas por estarem vendendo obscenidades. Pena grande. E o mundo ficando mais homogêneo e francamente idiota.

Bem, em nossa visita ao reino de Sião em julho de 2017 encontramos palad khiks a rodo. E os sabonetes também, ali no Chatuchak, linda manhã de sábado, à vista de todos.

Kim Kataguiris e mbl tailandeses que se fuedam.




Monday, October 02, 2017

Um Relógio de Sol para a Camila



Dei à Camila um relógio de sol. Li certa vez num almanaque que aqueles que presenteavam a amada com relógio de sol faziam-no acompanhar de um poema. Então escrevi um soneto.


Dizem que Josué, guerreiro intrépido
sucessor de Moisés, filho de Num
parou no céu o sol para matar
a todos inimigos de seu credo
bem outra coisa peço ao te dar
este velho relógio de sol, bronze
patinado pelos dias
Deixa o sol andar lamber os corpos
vagabundos em rede grande branca
com varandas de labirinto deixa
a areia escorrer e que venham cãs
rugas e manias
just as long as you grow old along with me
the best my dear true love is yet to be



PS:: Da série 'explicar estraga' (estraga?) : o soneto toma como mote o dístico "Grow old along with me / The best is yet to be", de resto o dístico mais frequente em relógios de sol mundo afora. Há também intertextualidade com o Josué da Bíblia, que parou o sol no céu, sendo que aqui peço o contrário. Por fim, o trecho em itálico foi tirado de um conto do Guimarães Rosa, um dos mais bonitos e o menos estudado. O conto? "Cara de Bronze". É que o relógio é de bronze, plé. Mas não foi só por isso: é que o Cara de Bronze pedira ao vaqueiro Grivo que corresse os gerais em busca de poesia.

Tem outro lance: escrito em óbvios decassílabos, tem lá uns dois versos que quebram a estrutura. Como que a dizer que escandir as sílabas de um verso é meio que contar o tempo. E o tempo nunca será linear. Principalmente se passado com namorada, em rede branca de varandas de labirinto.



Sunday, October 01, 2017

A Hora e a Vez e a Volta do Rock Progressivo Italiano no Brasil



The Who veio e foi embora e tive a experiência inesquecível de assistir aos shows em São Paulo e no Rock in Rio. Valeu cada minuto de expectativa. Valeram as madrugadas insones que passei na semana dos shows, acordando às 4 sem pegar no sono de novo com "Naked Eye" na cabeça.

No primeiro dia do primeiro mês de dois dígitos, lembrar que ainda temos pela frente Paul McCartney, Magma e Locanda della Fate.

Locanda della Fate

Já escrevi sobre esta banda tão tão amada quando Dante completou um ano (aqui). Escrevi quando pensava em rock progressivo para crianças (aqui). Escrevi mesmo um soneto todo ele referente ao disco do Locanda e ao Dante (aqui). Soneto que enviei ao vocalista Leonardo Sasso, que leu e respondeu.

E ano que vem ainda teremos o retorno do Premiata Forneria Marconi. Falando em padaria, não é um isso um sonho? ( plé )







Saturday, September 30, 2017

Azulejos :: Cerâmica Brasileira / Irmãos Silva

Benfica


Meu colega de blog e de amor ao Rio Ivo Korytowski, editor do ótimo Literatura e Rio de Janeiro, publicou recentemente no facebook postagem sobre azulejos de Vista Alegre. Dos seis ou sete painéis, dois eram assinados, sendo que um deles era dos Irmãos Silva, que trabalhavam para / em uma Cerâmica Brasileira, localizada na Rua Buenos Aires, 85.

Mexendo nos meus álbuns por aqui, descobri ter três registros dos Silva.

O de Benfica vem assinado apenas Silva, mas por ora está valendo. O do Estácio foi dureza fotografar, tantos olhares desconfiados atrás de mim. Os de Paquetá são especiais: quatro pequenos painéis quadrados, quatro azulejos cada, emoldurando a porta. Em que pese contumaz preferência por paisagens alpinas e orientalistas, temos aqui o Dedo de Deus.

Estácio

Paquetá








Crônicas Siamesas X : Massagem por (ex-) presidiárias



Ir à Tailândia e não fazer massagem pelo menos uma única vez é como ir a Santiago de Compostela e não entrar na catedral ou ir a Roma e não ver o Chico ou, pior, ir a Milho Verde e não se abandonar por horas em frente da Nossa Senhora dos Prazeres fazendo absolutamente nada.

Inescapável, a massagem está por toda a parte.

Mais ainda em Chiag Mai, onde é feita por presidiárias. A procura é grande e não aceitam reservas: é chegar e esperar, quiçá por horas. Como a casa é, de certo modo, uma 'extensão' do presídio, é comum esbarrar com policiais armados, mas isso não parece inibir a galera.

Como não conseguimos massagem ali, andamos nossos cem metros para um outro centro, onde a massagem é feita por ex-presidiárias. Hora marcada, dá para visitar templos e tribos e depois entregar o corpo àquelas mãos experientes. Assim como a ayurvédica, a coisa aqui não é pra relaxar, não. Ou não para relaxar. Houve momentos em que, suando frio, fiquei me perguntando o que teria levado a minha massagista à prisão (teria estrangulado o marido?). De um a dez, nota dez.