Monday, May 22, 2017

Crônicas Sergipanas VII ::: Grande Painel Azulejar de Jenner Augusto



A inspirada e inspiradora obra Azulejaria Contemporânea no Brasil, de Frederico Morais, divide-se em dois volumes, o primeiro tratando dos artistas e o segundo dos locais, da integração dos azulejos com a arquitetura e dos naïf (por isso citei-o já aqui, por ocasião das minhas postagens sobre os Irmãos Igejas e sobre Celino).

Embora haja muitas páginas dedicadas ao Nordeste, não há nenhuma menção ao sergipano  Jenner Augusto ou ao seu lindo painel de 1957, típico da estética modernista / regionalista  localizado no coração de Aracaju, pertinho do Cacique Chá (aqui)

Retratando elementos da economia sergipana e no indefectível azul cobalto, o painel de 1.148 peças tem peculiar forma abaulada, ao acompanhar a esquina da parede do prédio em que está assentado.

As peças foram queimadas na cerâmica de Udo Knoff, alemão quase tão baiano quanto Pierre Verger.

A influência de Portinari é clara e benfazeja. Aliás, lembrei agora, o interior da Pampulha tem também azulejos em superfície abaulada.

Para concluir: um gaiato arrumou jeito de deixar sua mão ali, em meio aos cajus, canas e peixes. Um gaiato pós-moderno derribando a velha noção de arte de não toque! não ultrapasse!, é isso?








Saturday, May 20, 2017

Cerveja FORA TEMER ( e muito mais )



O dever cívico pedia uma FORA TEMER gelada e aqui dois esclarecimentos. Existe uma cervejaria de nome Leopoldina, cuja IPA provei em Beagá semana passada, mas ao contrário do que possa parecer -- o nome e o local onde a tomei --, não é da cidade mineira de Augusto dos Anjos, mas de Porto Alegre. O segundo esclarecimento é que há uma FORA TEMER de um assentamento no Paraná, mas eu queria a FORA TEMER da cervejaria Leopoldina do subúrbio carioca de Riachuelo e para lá fui de mala, cuia e sedes.

Chegando lá, descobri que se tratava não de uma, mas de duas cervejarias ao mesmo tempo: o Diogo toca a Leopoldina e a sua mulher Leinimar, a Cerveja da Mulher Guerreira, Artesanal e Feminista. Diogo, para 'piorar' estava brassando na hora em que cheguei.

A dois passos do paraíso, como há muitos anos cantou meu xará.

Bebi da FORA TEMER que, em que pese a carbonatação excessiva, revelou-se, dadas as circunstâncias, a melhor alternativa do Brasil.

Depois provei a Maria Fumaça, uma rauchbier muito equilibrada. Diogo quer vê-la sendo bebida em churrascos, ou seja, uma rauch sem extremismos. Acertou.

E depois bebi uma alt, a grande surpresa da manhã (opa! começo da tarde). Porque a cerveja que farei para o Dante será uma alt, cerveja 'altista', com o algum incômodo que isso possa gerar. Eu nunquinha que tinha provado uma alt artesanal brasuca e ver que é possível, e tão pertinho de mim e do Dante (menos de 10 reais o Uber) me deixou comovido como o diabo.

Ah, e no meio disso tudo, literalmente no meio, no meio da Leinimar e do Digo, da Leopoldina e da Mulher Guerreira, passeando no meio das minhas pernas, tinha o Francisco, o piá mais lindo tomando o pote de sorvete e fazendo fotos comigo.




















Andei refletindo :: Ouro-Pretanas VIII



Porque é hora de reflexão






Friday, May 19, 2017

Simpatia pelo Demônio e São Cristóvão



Publicado no ano passado, o mais recente romance de Bernardo Carvalho se chama Simpatia pelo Demônio, mas há nota introdutória esclarecendo que "embora o título deste romance faça menção explícita à canção dos Rolling Stones, aqui o sentido é outro". Aqui, sympathy não é falso cognato : "a simpatia pelo demônio é simpatia mesmo".

São 236 páginas muito perturbadoras. A menção explícita ao demônio surge lá bem no final. Ou talvez um pouco antes, quando é descrito ritual dos índios ximpicós. Lá para o final também aparecem menções à capa, igualmente perturbadora ao reproduzir fragmento do quadro São Cristóvão, de Bosch, que o personagem Rato viu pela primeira vez no museu Boijmans, em Roterdam. Uma "situação grotesca e inexplicável", ao retratar, em sua extremidade esquerda, o que parece ser um índio (brasileiro?) enforcando um urso em uma árvore morta.

Um índio enforcando um urso em uma árvore morta.

De Bosch pode-se esperar tudo.

Todos sabemos que São Cristóvão foi um gigante pagão que percorria o mundo em busca de alguém mais forte que ele. O gigante se verga quando tem que atravessar um rio com uma criança nos ombros, mal conseguindo suportar o peso. A criança era o Menino Jesus, com os pecados do mundo. O gigante malvado, claro, se converte: Christophoros é aquele que carrega Cristo. Aí o narrador relaciona uma interpretação do quadro -- o urso era uma criatura terrena, pesada e temperamental -- à situação de angústia insuportável que Rato está vivendo com seu amante mexicano, o chihuahua.

Uma porrada. Uma explicação para o próprio romance: síntese do peso com a leveza? Não sei.

Bosch

Grajaú

Um Postal para a Mãe ::: Crônicas Ouro-Pretanas VII




Um almoço no Chafariz não se faz apressadamente. Verdade que são dois grandes bairros, São Bartolomeu e mais nove distritos, muitas igrejas, muita pedra sabão, muitas ladeiras a serem vingadas e logo ao pé dali, o Toffolo, onde Drummond, a falta de jantar, comeu pão de nuvens.

Mas se for pra comer correndo, melhor agarrar um pão de queijo e uma Ouropretana e continuar subindo e descendo, que o Chafariz demanda provas, prosas, contemplações. Retrato do Alphonsus de Guimaraes ali para lembrar.

Ao fim do repasto virá garçom com postais e caneta: oferta da casa. 

Pampi e Lu dizem que escreverão para suas mães. Para não ficar atrás, endereço o meu postal para minha mãe também. Afinal, ela amava os telhados de Ouro Preto, embora nunca fosse me perdoar o tanto de molho pardo que eu acabara de beber.







Thursday, May 18, 2017

A Casa Mariana ::: Crônicas Ouro-Pretanas VI



Existem alguns mal-entendidos espalhados em sites e mesmo em livros acerca da casa que pertenceu à poeta Elizabeth Bishop em Ouro Preto, a quem ela chamou carinhosamente de Mariana, não em homenagem à linda cidade vizinha, mas em lembrança de Mariane Moore, sua amiga poeta por quem ela nutria grande admiração.

Bishop não morou por muitos anos na casa. Na verdade, morou por bem pouco tempo. Como ela comprou o imóvel em ruínas, em 1965, foram decorridos quatro anos até que a casa se tornasse minimamente habitável.

1965 mais 4 dá 1969, pois. Como sua companheira Lota se suicidou em 67, elas nunca moraram juntas lá. Como sua companheira Lota se suicidou em 67, as coisas nunca mais foram as mesmas para Elizabeth que, para além da dor da perda, tinha, a partir de então, de relacionar-se com brasileiros sem a intermediação da companheira de personalidade forte. Isso não foi nada fácil.

Bishop morou apenas um ano e meio na casa, e com uma nova companheira, muito mais jovem e também norte-americana. Um casal de mulheres estrangeiras numa pequena cidade histórica mineira. As duas não eram nada benquistas. Pequenas maldades, como destruir a campainha ou a plaquinha com o nome da casa ou arremessar para dentro de casa o lixo que elas haviam colocado para fora, não eram raras. Uma grande maldade, como arremessar uma pedra em sua jovem companheira, também rolou.

Depois deste ano e meio, Bishop mudou-se de volta para os Estados Unidos, voltando a Ouro Preto apenas nas férias. Até 1974. Desta data até sua morte, em 1979, nunca mais. Tentou vender Mariana sem sucesso.

É uma história triste. Mais ainda se lembrarmos o seu grande entusiasmo inicial presente nas cartas. A casa tinha "o telhado mais lindo da cidade", "como uma lagosta de bruços". A casa, enfim, era "a mais linda do mundo".

Sua localização, no caminho para a cidade de Mariana, é metáfora da relação de Liz para com a cidade: mais de observação do que de efetiva participação. Isso não só em Ouro Preto, mas no Brasil, nos EUA, no mundo.

Quando fomos estava fechada. Eu gostava de ao menos passear pelo jardim, ouvir o córrego que ela ouviu. Mas gostei imenso de visitá-la por fora, eu que tantas vezes por ela passei quando por ali fiquei hospedado há exatos trinta anos.