Tuesday, November 29, 2011

Sara

Quando a mãe de Sara se soube grávida, ganhou de um amigo um poema que, se não me falho, dizia mais ou menos assim:


Sara é uma linda menina ainda mal-acordada.
Suas pétalas mais sedosas estão ainda fechadas,
dormindo de bom dormir.
Quando Sarinha acordar,
vai pedir leite na xícara de porcelana pintada,
vai querer mel aos golinhos em colherinha de prata,
duas horas vai gastar fazendo trança e castelos.
Estou fazendo um vestido,
uma tarde linda e um chapéu,
pra passear com Sarinha,
quando Sarinha acordar.

Sara acordou há muito, embora ainda adore dormir de bom dormir. Ainda bebe mel aos golinhos e faz castelos e poemas. Assim é Sara. Enquanto seus amigos ficam em dúvida entre Engenharia de Produção, Relações Internacionais e Direito, Sara não sabe se faz Português-Latim ou Português-Literatura. Quando suas amigas iam ver o Mickey, ela subia com o pai para Milho Verde para colher sempre-vivas vestindo saia godê. Ao completar dezoito, não pediu carro nem viagem nem boite, mas uma Olivetti para bater seus textos. Um dia virá o carro, mas será uma kombi que a levará ao México. Sara não dirige, vai ao lado, lendo cadernos de Eisenstein e o diário de Frida Kahlo.

Tenho inveja desse que vai ao seu lado.


O primeiro texto de Sara na Olivetti

Sunday, November 27, 2011

Miniconto visceralmente dinobuzzatiano em que o próprio título é quase maior que o conto


O menino e o sono nunca foram de intimidades, o que talvez explique as madrugadas em claro, horas a fio, para grande desconsolo do pai.

Acometido pela pneumonia, o menino, inda que febril, dormia noites inteiras.

Que saudades das noites em claro, as suas fadigas, ver o dia quebrando as barras.

Friday, November 25, 2011

My sweet George acusado de plágio






My sweet George acusado de plágio ou... Afinal, houve plágio aqui?

Um dos casos mais emblemáticos de plágio na história da música envolve nosso querido George. Poucos sabem / lembram, é provável que tenha havido um abafamento do caso, voluntário ou não, por parte dos admiradores do quiet beatle. Por exemplo, se os dois livros que tenho sobre George, um deles de quase 500 páginas, tratam do assunto, é de causar estupefação que o recém-lançado documentário de Scorsese sobre Mr. Harrison, Living in the Material World, seja silente sobre tema tão controverso, ainda mais se lembrarmos que o documentário é longo, ocupando dois DVDs.

O fato é que a canção "My Sweet Lord", presente no primeiro disco solo (triplo!) de George Harrison foi acusada de plágio por um grupo norte-americano de garotas chamado The Chiffons, hoje mais lembrado por isso do que por qualquer outra coisa (apesar do abafamento). No começo tudo foram flores: All Things Must Pass chegava ao topo das paradas e "My Sweet Lord" era a canção mais tocada. Depois, os espinhos: a acusação, a batalha judicial para que o caso fosse resolvido off-court, o que os advogados dos queixosos rejeitaram, insistindo em que o ex-beatle plagiara a canção "He's so fine".

Passados dez anos, o veredicto: o juiz anuiu que Goerge praticara SUBCONSCIOUS PLAGIARISM. Talvez a Excelência tenha ficado sem graça de afirmar que o ex-beatle plagiou e saiu-se com esta, não sei. O termo parece jocoso, eufemístico, mas, numa análise mais aprofundada, terá sua validade.

Subconsciente ou não, na superfície George teve que desembolsar quase 600 mil dólares, nota preta mesmo para um astro do rock. E mesmo para um homem mais ligado nas coisas do espírito.

Outro dia preparei um texto com algumas questões para meus alunos. Ao fim da aula, toquei, é claro, as duas canções, perguntando-lhes: "E aí, afinal, houve plágio?" A maioria ficou em cima do muro, mesmo porque era um grupo com vários beatlemaníacos. Uma aluna apenas foi categórica no sim.

E aí, houve plágio?

O que eu acho? Bem, uma história: em 1986 ou 87 estava eu em Chicago no carro com meu American dad quando começa a tocar a tal da música das Chiffons no rádio. Pulei no assento, bati a cabeça no teto do Subaru e exclamei: "Mas isso é 'My sweet Lord'!". E olha que não ouvia a música do George há anos... Por aí, avalia-se.

Saturday, November 19, 2011

Mexendo em Vespero - Русский Прогрессивный рок



Não conheço nenhuma banda russa de rock progressivo nos anos 70. Com certeza, a galera criativa de lá cortava um dobrado com regimes totalitários.

Mas a coisa mudou, e hoje temos LIITLE TRAGEDIES (porventura o mais famoso), APPLE, GOURISHANKAR e a VESPERO, originalíssima no que faz um space rock tingido de cor local (incorporar terroir, sem cair na macumba pra turista é atitude prog bagaray).

Nos anos 80 teve o Autograph.

Do primeiro citado conheço o "Return", que nunca fez muito a minha cabeça, mas confesso que tenho que dar-lhe segundas chances.

O APPLE ("Crossroads") é uma maravilha, principalmente para fãs de Spock's Beard (fase Neal), como eu.

Apesar de uma bateria eletrônica irritante aqui e ali, o "2nd Hands", trabalho do Gourishankar, é muito bom. Interessante ter saído por um selo canadense, o Unicorn.

Tem também o "Rainy Season" (o disco também se chama "Return" ::: coincidência), e aí já estamos entrando na senda da boa música eletrônica, à la Tangerine Dream.

A lamentar que poucas das bandas cantem em russo, principalmente se lembramos que o russo é a língua da alma. O Autograph o fez, o Little Tragedies ora sim, ora não.

Agora ouçam esse VESPERO e me digam se não é uma sonzeira do cacete, à la Birds and Buildings...

Добрый день

Friday, November 18, 2011

O Miguel Ângelo dos Botequins II

Neste post sobre o Nilton Bravo, fiei-me no Jaguar, que contabilizara apenas três quadros restantes do nosso Miguel Ângelo dos botequins. Sou amigo do Jaguar, mas sou mais amigo da verdade. Tem muito mais Nilton Bravo por aí!


Em passeio pelo Cachambi (que passeio!: restaurante Evandro's, Cachambeer, cerveja artesanal no Suingue Brasileiro, rua Vasco da Gama e, last but not least, um Bravo legítimo!), descobri belíssimo painel do Bravo no Café e Bar Brasília. Do Bravo não, dos Bravos... A simpaticíssima Dona Margarida, de claros olhos transmontanos, e interessada pelo meu interesse, revelou-me que o grande painel, feito num dia, foi pintado metade pelo Bravo pai e metade pelo Bravo filho.... Não tem o Bruegel the Elder e Bruegel the Younger?, então temos nosso Bravo Pai e Bravo Filho.

Na periferia do Grajaú, em frente ao antigo zoológico, descobri também um no Café e Bar Canto do Minho que, pelo estilo (vejam o flamboyant / ipê), tem grande chance de pertencer ao catálogo dos Bravo.

Suspeita semelhante nutro em relação a pintura encontrada no Flor do Bairro, localizado no bairro de Vasco da Gama.


E eis que um leitor do blog, o Rixa, descobriu um Bravo na Matacavalos, dentro de um... açougue! Faço questão de reproduzir a foto que ele me mandou como forma de agradecimento.

Mas o que esqueci de mencionar é que tinha esta cidade um autêntico museu do Nilton Bravo no bar Arco Teles, localizado no Arco dos Teles e atualmente fechado. Neste bar havia nove (!) painéis do artista, o maior acervo reunido. Os azulejos eram azuis e pretos, rara combinação. Cheguei a frequentá-lo, mas, infelizmente, não tirei nenhuma foto. A que reproduzo é foto da foto que se encontra no Rio Botequim 1999. O local se encontra em obras e sempre que por lá passo (e mesmo quando não passo) sou assaltado por temores em relação aos quadros.


Se o novo dono os retirou com o intuito de mudernizar o bar, é um ignorante. Se tentar comercializá-los, é bom que saiba que um quadro do Nilton Bravo só tem valor em um botequim. Fora dali, revelará tão-somente as limitações de um pinto naïf. Se os destruiu, é um iconoclasta, um criminoso. Meu temor, percebe-se, é justificado, haja vista a uglification of the world que grassa por aí.


Bar Brasília, no Cachambi:





Bar Canto do Minho, no Grajaú:



Flor do Bairro, em Vasco da Gama:




O açougue na Matacavalos:




O finado Arco Teles:

Le Orme




Neste post aqui lembrei os 40 anos do rock progressivo italiano. Ora, não fica bonito lembrar isso e esquecer que, há exatos 10 anos, isto é, em novembro de 2001, aportou por aqui o Le Orme, uma das bandas mais importantes do movimento.

Vieram tocar no extinto (chuif...) Rio Art Rock Festival, evento que durou mais de uma década e trouxe tantos grupos bons. Com efeito, quando comecei a escutar Le Orme, em 1984, não poderia sonhar que um dia iria vê-los ao vivo. O Leonardo Nahoum trouxera também o Banco no ano anterior. Depois, fora do RARF, veio o Premiata. Ou seja, a Santíssima Trindade do Rock Progressivo Italiano já tocou no Brasil. Não é pouco. Mais ainda se lembrarmos (este blog quer catar o miúdo e o esquecido) que também tocaram Baletto di Bronzo (abrindo para o Banco) e, em um distante Festival da Canção nos 70, o Formula Tre.

O show do Le Orme foi memorável em todos os aspectos. Abriram com "Collage", canção imortal, própria de aberturas e fanfarras, progressiva até a medula no que mescla sonoridades europeias clássicas (Scarlatti) e roquenrol. Tocaram o Felona e Sorona de fio a pavio. Depois, como se fosse beber um copo d'água, Tagliapietra sentou-se no chão, todo de branco, para tocar cítara.

Na véspera eu, macaquinho de auditório, fui ao Hotel Argentina colher o autógrafo do baterista Michi dei Rossi. Ele não foi muito simpático, limitando-se a murumurar "Estrana visione" quando lhe estiquei a capa do meu vinil do Collage, lançado por aqui pela Philips em 1975.

Tenho o autógrafo do Rossi (aliás, tenho o do Tagliapietra também, mas isso é outra história), tenho o pôster do RARF encimando minha coleção de CDs. Tenho as lembranças do show. Já posso morrer tranquilo.

Mas quero viver mais 200 anos, na esperança de revê-los ao vivo.

Thursday, November 17, 2011

A música erudita morreu, viva a música erudita!: Nico Muhly



Quem assistiu a O Leitor prestando atenção à música já o conhece, mesmo sem o saber: Nico Muhly.

Nico é uma espécie de enfant terrible da cena erudita atual. Escreveu uma ópera na qual um solitário anda por Londres à busca de amigos, que queiram ver suas fotos, escrever em seu mural, curtir seus comentários... Quite familiar, uh? A ópera se chama Two Boys, mas já tem outra, a Dark Sisters. Aos trinta anos, tem também um concerto para violino... elétrico. A peça postada chama-se "Skip Town" e é tocada pelo próprio.

Como se percebe, a música erudita morreu. Viva a música erudita!

PS: Prestigie o artista, comprando seus CDs e indo aos concertos / shows. A vida não se resume (ainda) à tela do computador.

O CORNO DO BOTECO

A verdade é que São Jorge impera, quase ubíquo nos botequins cariocas. Vira e mexe surge uma Nossa Senhora, uma Sagrada Família ou um outro santo.

Mas os cornos, antíquissimos e poderosos amuletos do paganismo, fazem-se também presentes. Colocar chifres na frente da casa, no telhado, é prática ancestral, sendo eles dos mais poderosos símbolos de proteção.

No Nordeste e em Goiás colocavam-se cornos na roça. Meu Folclore Goiano, de José Teixeira, confirma. Quem aí já viu um espantalho? Eu vi um em São Tomé das Letras, mas isso serão europeizações que não se enraizaram aqui. O corno, sim. E da roça passou à botica, à mercearia, ao boteco, onde o vendeiro carece de proteção menos do pinguço que quer debitar uma cachaça e mais do governo que quer cobrar-lhe impostos escorchantes.

Seguem três ocorrências de corno: Glória, Flamengo, Praça da Bandeira. No da Praça, os atuais donos, cearenses, disseram-me que os antigos, purtugueses, não gostavam dessas coisas. Pode ser.

Quando for de dono de boteco, vou de São Jorge, Sâo José e corno. Sabem como é, pelo sim, pelo não... chá de barbatimão.


Confeitaria e Bar Solange - Glória



Café e Bar Martins - Flamengo


Bar e Restaurante Carne de Sol - Praça da Bandeira

Wednesday, November 16, 2011

AZULEJOS DE BOTEQUIM

Minha magnum opus sobre azulejos em botequins contará com cerca de dez volumes, sendo que o lançamento do primeiro está previsto para agosto de 2017. De modo a evitar tumultos, como aqueles a que recentemente assistimos no show dos Beatles no Shea Stadium, a distribuição de senhas começará em breve. Atentos, pois!

Entretanto, para saciar a voracidade dos insaciáveis, ora publico alguns teasers do que andei encontrando por aí.

Embora não desgoste de todo de azulejos modernos (haverá mesmo espaço para eles no apêndice do oitavo volume), meu negócio mesmo é azulejo velho, de preferência naquelas inefáveis combinações bicromáticas. São azulejos que, após a montagem, ficam como um tabuleiro de xadrez. A este recurso dá-se o nome de enxaquetamento.

Como era de se esperar, a combinação azul / branco é a mais comum, seguida de perto pelos maravilhosos azul / amarelo. Mas eis que encontramos também azul / azul piscina, azul / rosa, azul piscina / branco, preto / rosa, amarelo / roxo, branco / verde escuro e amarelo / preto.

Ora publicamos somente uma foto de cada (duas da mais comum), a título de exemplo. Se você conhece algum boteco com azulejos assim enxaquetados, deixe a dica nos comentários, por favor.

Santa Mônica -Praça Mauá


Confraria do Bode Cheiroso - Tijuca


Roças do Minho - Grajaú


Fica Bem - Benfica


Jôdecama - São Cristóvão


Almeria - Praça da Bandeira


Tosão de Ouro - Vila Isabel


Balcão Tombado - Caju


105 Pontes - Maracanã


Enchendo Linguiça - Grajaú

Friday, November 11, 2011

Pearl Jam



Mau fã de Pearl Jam, não ouço a banda em casa ou na rua. Entanto, tenho incorporadas em meu repertório didático duas canções -- "Black" e "Light Years". Ou seja, todo anos irei tocá-las e trabalhá-las com meus alunos do 1o ano EM. Não é pouco.

Mas mais do que isso: se rolar show por aqui, de preferência na Apoteose, me chama que eu vou. Assim em 2005, assim domingo passado. Vou sem ansiedades, chego tarde, fico lá trás. Mas curto horrores.

No primeiro teve, para além dos clássicos e outras nem tanto, "Baba O' Riley" já no finalzinho. Morri. A cerveja (jamais esquecerei) era clandestina: Schincariol quente por 5 reais.

Este ano o show abriu com... trecho de As Horas do Philip Glass!!! PQP, como assim? Depois vieram os clássicos e outras nem tanto. O cover foi... "Mother", do Pink Floyd. Pirei o cabeção. O show do Roger Waters, que será em março de 2012, começou aqui.

A cerveja (jamais esquecerei) era a Budweiser morna por 6 reais. Em que pese, antes mesmo do fim da apoteose, já não havia mais para vender. Ou seja, os fãs que lá estavam (os bons e os maus) esgotamos (silepse indispensável) o estoque de cerveja.

Mr. Vedder bem que podia, quem sabe, ter feito um cover também de "Sweet Nuthin'" do Velvet Underground. Mas ninguém é perfeito. Só o Dedé.