Sunday, November 30, 2014

Uma fé infantil no final da infância



Me lembro de amiga atriz falando que preferia mil vezes os textos cômicos aos dramáticos. Sim, com os cômicos podia rolar o mal estar de ninguém ou quase rir, mas isso seria preferível a, segundo ela, você investir num drama e ninguém se tocar e ficar com cara de paisagem.

Avaliemos, pois, os riscos que não correu Peter Hammill. 

"Childhood's faith in chilhood's end" um dos dos epítomes disso, em seus intermináveis doze minutos. 

Não é a música para ser julgada com a aparelhagem disponível do lado de cá. É música das esferas, para ser avaliada naked to the galaxies, para onde Hammill nos convida em 4:17, 4:52, ao quebrar o silêncio em 6:54 e em 10:02.

Tive o privilégio de ouvir ao vivo num dos três show na Alemanha em 2008.

Eterna.


A IPA, a Witbier e a Belgian da Ambev



A Carlsberg já havia feito isso :: em face do crescimento vertiginoso das cervejas artesanais, lançou a sua linha própria de especiais, o que pude comprovar, provar e aprovar aquando de minha visita à fábrica em Copenhagen em 2008.

Aqui a Ambev optou primeiro pela mesquinharia, bem semelhante à sua carta de produtos, tentando desqualificar o movimento de cervejas artesanais / especiais no Brasil em nome de uma suposta assepsia e controle de qualidade. Skol, Brahma, Antarctica :: controle de qualidade. Tá.

Agora a poderosa indústria parece ter aceito um pouco a nova realidade, lançando uma série de cervejas realmente dignas de receber o nome de especiais, e não aquela bobajada de Bohemia Black ou Brahma com malte cultivado na Granja do Torto (como se isso fosse um plus. Gol da Alemanha!).

A Bohemia lançou sexta-feira passada uma witbier, uma IPA e uma Belgian Blonde. Até a segunda semana de dezembro só podem ser degustadas em três bares da capital paulista :: o Astor, o Original e o Pirajá. Depois poderão ser consumidas em 50 bares brasileiros (SP, RJ, Riberião Preto, Beagá e Curitiba). Fui no Pirajá não por bairrismo, mas porque é o único que possui um belíssimo Nilton Bravo em perfeito estado de conservação.

A proposta é apostar no terroir, tendência mundial, daí a witbier Bela-Rosa ter pimenta-rosa, a IPA Jabutipa jabuticaba e a Belgian Caã-Yari, erva-mate. Minha preferida foi a Jabutipa, mas não por ser eu um ipófilo. Justo por ser ipófilo é que sou mais crítico com o que amo. Ela tem ótimo acentuado amargor sem que isso signifique pouca drinkability. A jabuticaba é sutil, para desgosto do Pedrinho do Pica-Pau Amarelo. Já a Bela Rosa chama atenção pelo maravilhoso bouquet :: tem pimenta-rosa mesmo ali e isso é lindo, mas falta algum corpo. A Belgian batizada com o nome da protetora da erva-mate ficou devendo um pouco. Em contraste com as outras duas, porque em relação às ambevs ordinárias, é ótima.


O Nilton Bravo


Minha cunhada pimentinha

Wednesday, November 26, 2014

Crônicas Gregas 10 ::: Erato



A caminho do umbigo do mundo, paramos na desolada Erato, que até agora não descobri tratar-se do nome da cidade ou da "parada". Lugares assim me fascinam tanto quanto angustiam. A desolação parecia vir da época :: algo como, mal comparando, um hotel em Porto de Galinhas durante um mês de dilúvio.

Erato me trouxe à mente o livro homônimo de Marcus Acioly (a quem Glauco Mattoso denominou "rei do parêntese", enquanto a Cecília seria a rainha da reticência...).

Ontem confesso hesitei em empregar a palavra "fodiam" em soneto que rememorava as noites adolescentes em Visconde de Mauá. E não era nem eu quem o fazia (quem me dera!....), mas estrelas e pirilampos em nossos cabelos. Relendo o poeta pernambucano me envergonho de tamanha pudicícia.



COITO IN/VER/TIDO 2

por detrás o prazer é diferente
do gozo pela frente (e pela boca
e nas mãos e nas) toda a carne é pouca

para tanto desejo (pela frente
o amor ao próprio amor se satisfaz)
mas é diverso o coito por detrás

da fêmea (é como os animais copulam)
existe um cio por detrás (um jeito
de puxar os cabelos quando ondulam
como crinas) e o gozo insatisfeito

precisa de mais gozo para ser
em sua plenitude e goza mais
(se uma só vez o amor acontecer
é preciso que seja por detrás)








Sunday, November 23, 2014

No Pavão as estrelas eram próximas


no Pavão as estrelas eram próximas
absurdamente próximas pegávamos
e as passávamos de mão em mão
junto com o Maravilha de São Roque
à beira da fogueira onde assavam
batatas no alumínio e nossos sonhos
e nossas fraquezas nossas loucuras
brotavam à luz das estrelas : próximas
tão sofrido o desejo de reter
o tempo que ninguém ali deitava
antes
de acolhermos dezenas nos cabelos
onde elas
fodiam gostosamente os vagalumes

Friday, November 21, 2014

Minha avó acariciava o tempo

Museu do Inconsciente ::: Engenho de Dentro


minha avó acariciava o tempo
depois do almoço como se este fosse
um gato gordo desses gatos gordos
que ela nunca teve os olhos grisalhos
pousados nas fotografias da
parede :: ali o neto de soslaio
espia o avô que não conhecerá
enquanto este salta da moldura
para habitar seus lábios ressequidos
na parede o tempo mítico oro-
-boro é como mosca presa em copo
próxima ao teto num canto da sanca
nasce enorme e ruidosa rachadura
que serpenteia até o rodapé

Wednesday, November 19, 2014

O Casamento Silencioso



Um quê de felliniano, um quê de realismo mágico e pastelão em Nunta Muta / O Casamento Silencioso (2008), mas as risadas perturbadoras no final nos mostram que o que temos é de fato filme romeno, da  Noul val românesc, em que certa dose de humor negro parece imprescindível.

Há algo também de maniqueísmo, mas que não chega a atrapalhar. Maniqueísmo, aqui, é da alegria  e conflitos puros e espontâneos da vida da aldeia em contraste com o a brutalidade do comunismo stalinista.  A vida da aldeia é a encontrada por Bakhtin em Rabelais (e não a descrita pela também romena Herta Müller em Depressões), não em confronto com o materialismo burguês, como o pensador russo queria. Esta oposição, pois, é a força motriz da história encaixada da narrativa. Na história que a emoldura, a da equipe de produção de programas paranormais, as coisas já não são assim previsíveis. Daí as risadas perturbadoras e ambíguas do final. Uma geração atual, pós-Ceausescu, alienada a ponto de incapaz de entender o drama daquelas viúvas traumatizadas, daquela aldeia devastada e suplantada por uma fábrica. Refugiam-se no rolo compressor do riso e da chacota.

Cenas absolutamente memoráveis ::: o clima da taberna, o beijo dos amantes com o lençol no meio, a chegada do circo (Fellini), a silenciosa celebração das bodas em si, com direito à sessão de pum.

PS :: Sem guglar, tenho quase a certeza de que Stálin morreu no inverno, o que mostra que o diretor desposou certas liberdades, o que acho ótimo.

PPS: Houve quem teve as bodas, e depois a vida, interrompidas por causa da morte do tirano. Houve quem morresse no mesmo dia em que o tirano :: Prokofiev, daí o velório sem única flor.



Tuesday, November 18, 2014

Paul in Rio, parte I



Fui a três dos quatro shows do Paul McCartney aqui no Rio e exatamente por isso não me peçam para escolher meu momento preferido.

Assistir a um show do Paul já preenche todas medidas de pasmo e satisfação :: o beatle ali, vivo ao vivo, quase podendo ouvir o que você lhe gritar.

Num show do Paul até as músicas que não ouço em casa me fazem chorar. Falo de uma "I saw her standing there" e "All my loving". Chorar e pular e cantar e chorar mais um pouco. Não incluo aqui no grupo "Eight days a week", que essa ouço em casa (em menor frequência do que pede a música) e cuja inclusão me surpreendeu menos por ser cantada pelo John do que por ter aberto os trabalhos na noite de 12 de novembro de 2014.

Sabemos o quão débil e tíbio é o mundo da música pop. Paul demonstra estar muito muito além ao poder vasculhar três repertórios maravilhosos, sendo um mítico, para pinçar as músicas para uma apresentação. Refiro-me, claro, aos Beatles, ao Wings e à sua atual carreira solo. O guitarrista Rusty pede-lhe que inclua "Rocky Raccoon", o que eu adoraria para poder cantar junto "Her name was Magil / but she called herself Lil / but everyone knew her as Nancy", prodígio de rimas e assonâncias verbais e mentais. Em vez disso, ele inclui as improváveis "Lovely Rita" e "For the benefit of Mr. Kite". E tem música do New e tem música para antigos e novos e eternos amores.

Queria que ele incluísse "Uncle Albert", "Let 'em in" e tantas outras e mais que as outras, "Heather". Mas reconheço isso difícil, porque ele sussura "Heather" no final da música e existem os amores novos e eternos que podem não gostar.

Mas, ora.

E, sim sim, eu tenho meus momentos preferidos. Fica pra parte 2.


Monday, November 17, 2014

Grajaú faz 100 Anos / InstaGrajaú 4

Mais uma coleção de fotos para a série. Não deve dar tempo para muito mais de vez que já estamos a uns 40 dias do fim do ano do centenário.

Ah, reconhecer o desenho das pedras portuguesas, o botequim azul, a praça do vendedor de algodão-doce é doce, quero ver é adivinhar a rua da poça da terceira foto. Isso, verdadeira prova de grajauidade....















Risotto de Champagne com Pequi / Um Assunto Espinhoso, pt. 2



Comi arroz-com-pequi há muitos anos, numa birosca durante minhas expedições saint-hillarianas adolescentes pelos cerrados do Planalto Central. A dona, talvez pesarosa do aspecto solitário do viajante, não quis fazer graça nem ter assunto para o jantar em família, e assim advertiu-me dos espinhos. Embora incrédulo, segui as instruções à risca, riscando cuidadosamente a superfície das bolotas com os dentes.

Em viagem mais recente a Corumbá de Goiás (ver aqui e aqui), encontrei empadão goiano (aqui), mas nada de pequi, fora de época.

Só agora com colega de trabalho do Planalto, consigo o precioso contrabando, que me chega às mãos congelado em pote de sorvete, mesmo assim exalando seu profundo aroma de sexo de índia arredia.

Sendo o pequi, portanto, fruto dos mais nobres, Prínspe do cerrado, comida de jagunço feita em lata, comido por guarás e capivaras, dourado como os cabelos de Uadi, achei por bem equilibrar-lhe com coisa chã, mode evitar que o risotto se enchesse de fumos. Natural que eu pensasse no ótimo espumante Miolo Cuvée Brut, método tradicional, para o primeiro cozimento dos duros grãos arbóreos. E, claro, para o acompanhamento do prato que, reparem, é caprichosamente adornado com pequis nas bordas.

Evoé, Cananxuié.

Trilha-Sonora :: Moldau, do Smetana.

PS: A parte 1 deste artigo está aqui.



Sunday, November 16, 2014

A tarde lentamente descascada




a tarde lentamente descascada
deixa nos dedos o seu cheiro vário
um quê de serra um quê de pássaro
algo de inexprimível
nos foi roubado
os mesmos dedos fazem o café
bebido lentamente na varanda
tentativa estúpida de reter
o tempo

Um Assunto Espinhoso :: o Pequi pt. I



Pequi é fruto tão espinhoso que bota medo até no Riobaldo, o Tatarana, o Urutú-Branco (dentre outras postagens, aqui), que reúne forças tidas e não-tidas para matar o malvadão Hermógenes. Quem gosta dele é o Garanço, montesclarense cujas histórias servem como contraexemplo na arte de contar, pois tediosas. Em duas menções a ele no Grande Sertão, aparece associado ao pequi:


"Andei, em dei, até que lembrei: o Garanço. Bom, o Garanço, esse ia comigo, me seguia em tudo, era pobre homem à espera de qualquer ordem cordial. Isto ele mesmo nem sabia, mas era: que carecia era de alguma amizade. Estava lá, curvado, cabeçudo como uma cigarra. Estava cozinhando pequis, numa lata. – “Eh, eh, nós!...” – ele assim dizia. Ladeei conversa. Ele me ouvia, com anuídos, e fazendo uma cara de entender. Não conseguia."


"Mas eu não cheguei a falar, não quis, não expliquei nada. Que era que eu ia fazer, às fugas com aquele prascóvio, pelo sul e pelo norte, nos sertões da Jaíba? Ele só sabia cumprir obediência, no que eu riscasse, governado por meu querer e por minha idéia; um companheiro assim não aumentava segurança minha
nenhuma. Quero sombra? Quero eco? Quero cão? Não, com ele eu não me fazia, melhor esperar; eu iaficando. Desse no que desse; mais um tempo. Algum dia, podia Diadorim mudar de tenção. Em Diadorim era que eu pensava, de fugir junto com ele era que eu carecia; como o rio redobra. O Garanço se regalava
com os pequis, relando devagar nos dentes aquela polpa amarela enjoada. Aceitei não, daquilo não provo: por demais distraído que sou, sempre receei dar nos espinhos, craváveis em língua. – “Eh, eh, nós...” – o Garanço reproduzia, tão satisfeito. Minha amizade sobrou um pouco para ele, que era criatura de simples
coração. Digo ao senhor: naquele dia eu tardava, no meio de sozinha travessia."

Num texto lindo (pra ladear aqui com o Rosa, tinha que ser), Sérgio de Sá alertou na Piauí.

"É possível sentir, cheirar, tocar, lamber, chupar, apertar, sorver, se lambuzar e se deleitar. Só não pode morder. Nunca. O perigo é grande. A dor, indizível. Em torno do pequi a virilidade tem limites. Os experientes avançam com desembaraço e precisão sobre a pequena saliência. Os novatos progridem às apalpadelas, cheios de dedos, assustadiços. É com cuidados infinitos que fazem uma pinça com o indicador e o polegar e seguram o globo carnoso. Os sôfregos - ah, os sôfregos. - eles não se agüentam. Com as mãos trêmulas, seguram o fruto delicioso e dão-lhe uma dentada. Começa então o sofrimento, atroz. Parte da emoção de comer pequi está no perigo de encontrar os minúsculos espinhos que separam a polpa amarelo-ouro da branca semente."

Saturday, November 15, 2014

Pell Meeeeeell! Pell Meeeeeell!



Em 1982 era muito difícil encontrar quem também gostasse de rock, e quando isso acontecia a banda preferida dessa pessoa seria Led Zeppelin, Deep Purple, Kiss, Beatles, ELP, mais raramente o Black Sabbath, como no meu caso.

A do Renato era o Pell Mell.

Eram épocas pré-Internet, disco importado só na Modern Sound, mais que distante, inacessível. De modo que a fita cassete que o Renato tinha do Marburg (1972, álbum de estreia da banda alemã Pell Mell), era cópia da cópia da cópia da cópia. Sem exagero. Da cópia (e gol da Alemanha!).

O sonho daquele garoto cabeludo rebelde do Colégio Marista São José era ter o Marburg, sonho sabido e consabido por toda a sua família, o que eu já achava notável, vê lá se minha mãe sabia qual a minha banda preferida.

Vim enfim a conhecer sua banda amada em viagem que fizemos com sua família para Pouso Alto. Estávamos no banco de trás do Passat do seu pai, tudo escuro lá fora, e eu ouvindo pela primeira vez aquilo. Na hora das maluqueiras vocais da "Friend", o Renato cantava junto! Cantava o incantável. 

Certa vez saiu uma revista especial da Som Três sobre rock e eu, indignado com algumas ausências, dizia a ele que iria escrever carta à redação para protestar. Depois de me ouvir, Renato replica: "Vou escrever também. Mas vou escreve apenas PELL MELL!". Quando íamos a shows no Circo Voador, qualquer que fosse, enquanto nós bobinhos gritávamos coisas como "Rock!", "Rock!", ele gritava desesperado "Pell Meeeeell!, Pell Meeeeeell", a ponto de um atônito Perfeito Fortuna certa vez parar tudo e perguntar "O quê? Mel Mel!? Mel Mel!?"

Então o Renato era assim. A vida (sauve qui peut) fez das suas e nos separou, mas depois nos juntamos novamente.

Contra todas as previsões sensatas, é hoje advogado. Quando soube que ele votaria no Aécio, reclamei saudades da sua rebeldia, ao que ele respondeu que nunca foi tão rebelde. Vindo dele, acredito. Foi ontem seu aniverário, fique este post de presente e homenagem. Ao som da lindeza extraordinária de "Alone", que fecha o disco, e dos gritos de Pell Mell Pell Mell que ainda ecoam aqui.



Dante é o menino mais teimoso do Brasil / Dante este băiatul cel mai încăpățânat din Brazilia

Sem tempo para outras leituras que não as absolutamente inúteis


Sim, o romeno é uma língua românica / latina, não menos que o castelhano, o italiano, o francês, o catalão, o galego. Lo que pasa es que o romenu é a única língua latina que se desenvolveu na fração oriental da Europa Latina. O resultado disto é notável. Quando peço ao google que me traduza o alexandrino "Dante é o menino mais teimoso do Brasil" nas línguas românicas, todas os resultados são razoavelmente transparentes, com exceção, claro, do romeno, onde se reconhecem apenas os nomes próprios.

Adorável.



Dante é o menino mais teimoso do Brasil

Dante es el chico más testarudo de Brasil

Dante è il ragazzo più testardo dal Brasile

Dante est le garçon le plus tenace du Brésil

Dante és el noi més tossut del Brasil

Dante é o neno máis teimoso do Brasil

Dante este băiatul cel mai încăpățânat din Brazilia


PS: O google não tem ainda o sardo, o corso nem o dálmata. Ce rușine! 

Nos 40 Anos do "Phaedra" do Tangerine Dream



Lançado em 1974, Phaedra dará início ao que muitos, eu incluso, consideram a fase áurea do Tangerine Dream. As asperezas, no caso aqui entendidas como trilha-sonora para a imutabilidade do nirvana de Sidarta, de um Atem e um Zeit foram ultrapassadas, sem que isso signifique a Tangerina fazendo pastiche de si mesma em infindáveis trilhas-sonoras. Seguiriam ao Phaedra, pois, Rubycon, Stratosfear, Cyclone e Force Majeure. Uma Royal Flush, hein? E ainda incluo, sem favores, os três seguintes Tangram, Exit e White Eagle neste rol de obras-primas.

Eu ouvia muito isso aqui no escuro em um quarto ensopado de incenso. Eu adolescente yogue tentando meditar à espera de uma iluminação que não veio. Hoje que já consigo discernir alguns timbres de teclado, não posso reescutar o álbum sem ficar absurdado com a quantidade generosa de Mellotron utilizada. Explico: se hoje vibro com qualquer dez segundos de Mellotron em uma música (em todo o Snow do Spock's Beard, por exempo, há um único trecho que não dura muito mais que isso e já me deixa feliz), o que dizer da "Mysterious Semblance At The Strand Of Nightmares", toda ela praticamente um solo de 16 minutos de Mellotron do Edgar Froese? O Tron, by the way, já anuncia o banquete nos dois minutos finais da faixa-título.



Thursday, November 13, 2014

Corrupções



A Casa Chamma tudo de prevenção de incêndios localizada em Vaz Lobo ardeu ontem do alicerce ao telhado. Enquanto isso a redação vencedora do concurso sobre corrupção era desqualificada. Aquilo não podia ser texto texto de menino do Ensino Fundamental! De fato não era. Foi o tio do menino João Carlos de Souza Corrêa, professor de Filosofia na Universidade do Brasil, que o escrevera.

Saturday, November 08, 2014

Dante Plebeu, plebeu



Toda criança especial é de estirpe nobre, daí o meu príncipe Isso minha princesa Aquilo meu Reizinho Sicraninho. E toda criança especial tem sempre pais especiais, de maravilhosos que são.

Eu estou longe de merecer o título e também o Dante é um bocado plebeu. Adora arrotar e soltar pum (sempre rimos), atira objetos no gato, faz remoque aos cachorros do bairro, rirá se escorregares na frente dele. Sua teimosia é mesmo digna do campesino, do moleiro, do hortelão, do garrafeiro mais coberto de trapos que se possa pensar. Imagina a mulinha mais teimosa (e plebeia), das que empacam na encruzilhada e não há São Gregório que a faça mover uma pata. Ainda não tens o Dante.

E assim seguimos, teimosamente, a contrapelo, de mãos dadas.

Friday, November 07, 2014

Stefan Baciu :: Poeta Romeno-Brasileiro



Amar se Aprende Amando foi dos poucos livros do Drummond comprados enquanto ele vivo. Comprei também os dois volumes de Reunião (único livro que levei para Chicago), mas o Amar é diferente pois era lançamento.

Na verdade, nem comprei. Naquela infinidade de amigos-ocultos do final de ano de 1985, pedi e ganhei.

É livro que sempre desprezei como menor.

De fato, tem um monte de poemas circunstanciais, mas um circunstancial do Carlos pode valer mais que.... Enfim. E mesmo esses circunstanciais hoje têm muito mais sentido para mim. Nava, cuja obra estou sempre relendo, Alphonsus de Guimarães Filho, que li e conheci, e por aí.

E aí me deparo com dois poemas para Stefan Baciu. Como estou em fase muito romena, ligo o alerta.

Stefan Baciu ::: escritor, poeta romeno-brasileiro. Escreveu, em português, biografia do Bandeira. E tem mesmo poema chamado "Café Palheta" (!), sem tradução para o português ainda. Será o café café ou a instituição tijucana hoje quase que inteiramente transformada em drogaria? O poema de Drummond faz também alusão ao café. Mira era mulher do Stefan.

Mais sobre Baciu, nascido em Brasov, cidade do romeno mais conhecido, o Vlad Tepes, em breve.




PRESENÇA DE MIRA

A Stefan Baciu

O errante colar de lembranças e metáforas
apaga-se no colo de Mira.
Maintenant je ne serais nulle part.
Quem sabe?
Mira, hei de encontrá-la sempre em alguns versos
que falam da criança construindo na areia
palácios e jardins da pátria proibida:
que contam do domingo, cesta de solidão,
e da mulher agitando um xale imaginário,
e do esquecimento, que é um papagaio de papel.

Não preciso escutar
o tambor do crorcunda anunciando as notícias,
para saber de Mira.
Neste grão de café encontro Mira pensando no Brasil.


A KISS, UN BAISER, UN BACIO

A kiss, un baiser, un bacio
para a terra que o acolheu.
Assim quis nosso Stefan Baciu
saudar o Rio antigo e seu.

Não muito antigo, mas trint'anos
tecem uma quase eternidade.
Entre danos e desenganos,
resta porém a claridade

(ou a penumbra) de lembrar
em surdina dias e gentes,
muito doce, bem devagar.
E as coisas tornam-se presentes.

Jornal e bonde e mortadela
comida à pressa, num minuto.
Contra a sorte cinz'amarela,
a Poesia: último reduto.

Praias e ondas do Havaí,
pulsando ao sol e ao vento vário,
não nos tiram Baciu daqui:
carioca ele é, mais que honorário.

CAFÉ PALHETA

Fostilor mei vecini
Titi si Alexandru Bilciurescu


Cesti de cafea intoarse si uscate
atat din eri ne-a mai rămas.
Cuvintele se intalnesc pe'mperechiate
când din taceri se-aude stins un glas

noi suntem propria-ne stafie
iesim din eri si nu intram în azi
amara-i dulcea gingirlie
când norii-si rup dantelele în brazi

din Honolulu'n piata Lahovary
e-un drum ascuns în alte cesti.
Zadarnic ne mai punem ochelarii
când tac profund cafelele turcesti

Wednesday, November 05, 2014

São árvores imensas que amo



Meu amigo Maurício morou na rua e diz serem figueiras-da-Índia. Eu sei bem o que é uma figueira (aqui), sei alguma coisa de Índia, de modo que discordo.

São árvores imensas que amo, sempre amei, mesmo bem antes de morar aqui. Inventei mesmo que em sonho pedia a Messiaen que transformasse em música o canto dos sabiás que nelas moram (aqui).

Pergunto à moradora de quintal pelo seu nome (da árvore), eu temporariamente esquecido de que aqui sabemos nomes de atores e atrizes de novela e de jogadores de futebol mas não de árvores ou pássaros.

Ela desconhece o nome, mas aproveita para muito reclamar da grande moça, da sujeira que fazem. Falo da sombra e do frescor, ao que ela dá poucos ouvidos e lembro-me então de que no país São Paulo já houve quem reclamasse veementemente de sabiás que se faziam ouvir às 4:30 da manhã.


Moro no quinto andar, de minha exígua varanda descanso os olhos em suas generosas copas, refúgio e morada e tugúrio de sabiás, bem-te-vis, papagaios, maritacas, rolinhas fogo-apagou e um e outro casal esvoaçante de Chagall. Isso em espaço urbano.

Será esta metáfora da divisão de classes? A senhora ao rés-do-chão limpando a belíssima caganeira que fazem folhas e flores e frutos e pássaros e morcegos. Eu no meu quinto andar deliciando-me com o sumo de um oásis na cidade cinza. Estou a ponto de perder meu domingo, justo agora que eu ia sentar pelado ao computador e escrever no blog no ar condicionado tomando cerveja.

Tuesday, November 04, 2014

Meus Escritores Suicidas

O desenho é da Sylvia


Estatisticamente há mais suicídios entre velhos do que entre jovens, mas o suícidio dos velhos me intriga mais do que o dos jovens. Intrigar não significa aqui perturbar, ambos perturbam-me igual.

"Entendo" (aspas imprescindíveis) melhor Sylvia Plath, Mário de Sá-Carneiro e Florbela do que Emilio Salgari, Camilo Castelo Branco, Sándor Márai, Primo Levi e Pedro Nava. Mais apropriado dizer que entendo menos o destes do que o daqueles.

Emilio Salgari comete harakiri aos 49. Camilo, Pedro e Sándor dão um tiro na cabeça aos, respectivamente, 65, 80 (!) e 88 (!!). Primo Levi sobreviveu ao Shoah para jogar-se da escada aos 67.


Com o risco de soar perfunctório se não mesmo francamente tolo, mas sem qualquer laivo de ironia :: não podiam esperar mais um pouco?

Não podiam.



PS: Drummond tem poema a respeito, que ora não localizo. Na busca.

Rock Progressivo Italiano ::: Grande Jumbo Pt. II



Lançado em 1973, Vietato ai minori di 18 anni? é outra obra-prima. Musicalmente o grupo chegava ao seu ápice. As três primeiras canções se fundem em outra suíte, na qual a banda destila impiedosamente sua crítica à nossa hipocrisia. Há um quê de bufo, de sarcástico por todo o álbum. Os temas, que tratam de masturbação, homossexualismo, prostituição, isolamento e hipocrisia religiosa chegaram a ser censurados à época do lançamento (o que explica o título).

Ouvir Álvaro Fella urrando “Aveva dentro tanta paùra”, e “Continuo a masturbarme”, ao rememorar os sofrimentos de um menino enclausurado em um internato é inesquecível, desfazendo a ideia de que o prog italiano é sempre dolce e soave. Chega a ser inacreditável que tanta riqueza possa caber em apenas 7 minutos de “Specchio”. Ouvir os metais de “Come vorrei essere uguale a te” é outro auge.

Na faixa “Gil”, seguramente a mais experimental de todas (na verdade uma jam session), temos a presença de Lino Capra Vaccina (Aktuala) e Franco Battiato. Não deixem de notar a sutileza do mellotron, que piange quietinho, fazendo uma base melancólica para as viagens da percussão maravilhosa, para o VCS3 de Battiato, para o moog, para a slide-guitar e para a voz de Fella.

No final dos anos 80, a banda lançaria um álbum ao vivo, que vale mais pelas circunstâncias do que pela música em si. Um grande fã conseguiu reunir a banda, que não tocava junta desde 74, para um concerto, junto com IQ e Magma! O público, na verdade presente pelo Magma, teve uma grata surpresa com o Jumbo, que se concentrou no seu último álbum, Vietato?. Mas este disco não acrescenta muito para quem já conhece os de estúdio.



Monday, November 03, 2014

Rock Progressivo Italiano ::: Grande Jumbo Pt. I



Algumas palavras sobre o Jumbo (originalmente o apelido do vocalista Alvaro Fella), sexteto milanês que é dos mais originais e perturbadores grupos da cena progressiva italiana e um dos poucos daquele país a ter uma carreira mais ou menos sólida. Foram três discos na primeira metade dos 70.

O primeiro, homônimo lançado em 1972, não é muito progressivo, não. É todo blueseiro, com toques hendrixianos. Mas a voz do Álvaro Fella está lá! Assim como a  belíssima “Dio è”, que iria ressurgir no DNA.

Quanto ao segundo, que salto! Embora também lançado em 72, já aos primeiros acordes de piano da maravilhosa “Suite per il Sig. K”, se percebe que temos uma obra bem mais madura que o trabalho precedente. Dividida em três partes, a suíte é um dos momentos mais emblemáticos do prog italiano, com o piano, a flauta, a gaita, a nervosa guitarra, a voz marcante de Álvaro Fella, e a poesia contundente da letra: “Sta accadendo qualcosa dentro me...”. A canção “Dio è” reaparece aqui, fechando a suíte.

Em que pese o destaque natural da suíte, as outras canções, menos ambiciosas, não têm menor valor. A coragem e a falta de autocomiseração de Fella estão explícitas em “È brutto sentirsi vecchio”. A capa tem também qualquer coisa de genial. Um palhaço? Não, na contracapa, vê-se que é um velho, simplesmente um velho. É que em sociedades imediatistas e guiadas exclusivamente pelo consumo, muitas vezes não há diferença entre palhaços e velhos.




Sunday, November 02, 2014

Gazeis de Hafiz na Voz de Szymanowski


Tentarei estar na Sala do Conservatório no final do mês para assistir ao Quarteto da Cidade de São Paulo tocar Shaping the Curve, do Michael Nyman. Será a segunda vez em que ouvirei obra de Nyman ao vivo. A primeira foi há punhado de anos, quando fui também a São Paulo assistir à opera O Homem que Confundiu Sua Mulher com um Chapéu, no Theatro São Pedro. Dante não era nascido e hoje acredito que eu também não.

A peça de Michael não chega a dez minutos de duração, mas, alas, eu atravessaria os Cárpatos e vadearia o Danúbio ou o Guandu para assistir a qualquer execução de obra sua.

O programa inclui Britten (!) e o segundo quarteto de Szymanowski. Algo como sentar em um pub e pedir uma IPA bem lupulada e ganhar de brinde um combo de sushi e sashimi e de sobremesa um brownie com calda de chocolate quente.

Em 1911, Karol Szymanowski, vejam só, musicou alguns poemas de amor de Hafiz. Acredito que foram gazeis, o que me alegra imenso. Não se trata aqui de um lied schubertiano intimista para voz e piano, mas obra para tenor e orquestra inteira, num tom decididamente mahleriano.

Um achado.

Abaixo parte da obra, pela Filarmônica Polonesa. E aqui e aqui  o gazeis que escrevi ano passado.




Saturday, November 01, 2014

Eu digo ao Dante que ele vai dormir



minha casa marcada de morcegos
que ninguém a pinte ou ouse cobrir
seus noturnos rastros diagonais
quando o sol se põe por detrás da serra
eu digo ao Dante que ele vai dormir
ele se aquieta em momento raro
deita os cabelos sobre os meus joelhos
eu digo ele ouve a seu modo sempre
a seu modo e também assim ouvimos
coisas ao nosso modo assim o sol
deita sua cabeça sobre o morro
e nele afunda-se que a tarde quente
descansa e volta ainda os olhos para
pingar silêncios nos olhos do menino