Sunday, April 23, 2017

Os Índios Fulni-ô



Em julho de 1991 fui conhecer o barroco de Pernambuco e depois, muito satisfeito, guinei pro sertão por amor de conhecer os índios fulni-ô. A aldeia fica no município de Águas Belas, onde meu amigo Bao, aka Wanderley Holmes, gozava de certos privilégios, pois seu tio Oriel fora padre ali durante muitos anos e, mesmo depois de largar a batina para se casar, continuava popular e querido.

Eu amei Águas Belas, quase tanto quanto o Bao. Fiz umas três visitas à aldeia, desenhei e pulei corda com as crianças, tomei cachaça com o pajé, joguei futebol com as moças e aprendi um pouco de iatê ('nossa fala'). Só não pude assistir ao toré, que eles não deixam. Nem toré nem ouricuri são para brancos. O Bao já tentou participar do ouricuri e, numa caminhada com eles pela mata, justo quando caminhavam para a reclusão de três meses, foi graciosamente ameaçado de morte (está gravado na Basf: "Posso ir ao ouricuri com vocês? / Não / E se eu for? / A gente mata").

Ontem no Parque Lage, em meio a um monte de tribos, encontrei alguns fulni-ô. Desenferrujei meu parco iatê (o guerreiro elogiou minha pronúncia!) e me inteirei um pouco da situação da tribo. O guerreiro, claro, conhecia o Bao.

PS: Pra quem ainda não sabe: aquele anjo das pernas tortas, que também atendia por Garrincha, descende da etnia. Como gosto de dizer: não é pouco.

1 comment:

Grazi Albuquerque said...

Adorei o texto! Quantas línguas você fala, afinal?
Agora a foto... sensacional! A expressão do menino branco deve estar representando o estranhamento de quinhentos e dezessete anos atrás.