Wednesday, April 22, 2020

O Cesteiro de Lavras Novas


Apesar da chuva que não dava trégua, Lavras Novas já se pagara. Eu já vira a Serra do Trovão, a Serra do Buieié. Meu chalèzinho era uma delícia, era eu o único ocupante das cinco unidades, serviam-me o café no quarto, eu lia Chekov com chuvas e neblinas.

No arruamento original do século XVIII, um centenário botequim-mercearia de sonho atende pelo nome de Bar do Claudinho e tem Heineken a dar com pau. O Claudinho é simpático, ouve atento minha opinião sobre o assassinato da Marielle, que vê em minha camisa.

A Matriz tem por orago N. Senhora dos Prazeres, está sempre fechada e nem acho ruim. Gosto de vê-la, suas esbeltas torres mal proporcionadas, em meio à neblina. Quando aparece um cavalo, me sinto num filme do Béla Tarr.

Um morador cruza comigo pela manhã: "Esse sereno não quer deixar nós, não".

Mas faltava conhecer o Carlos Aurélio de Carvalho, cesteiro, balaeiro e mestre-esteireiro, patrimônio vivo, (i)material. São ofícios em extinção, principalmente o de esteireiro.

A tradição é indígena, tanto que os maxakáli ainda hoje viajam com o "bicho da taquara", que devoram para saciar a fome e obter sonhos e visões.

Foi Lévi-Strauss quem enxergou aqui equilíbrio entre a natureza -- a taquara extraída das matas -- e a cultura, o objeto criado com o entrelaçamento das fibra.

Encontrei-o com a mão na massa, rádio ligado falando da Quaresma. Carlos Aurélio de Carvalho é mineiramente gentil e atencioso, me ensina feixes de coisas, mas as mãos não param.

Atentem para os tetos das velhas casas mineiras: forros de taquaras com rebuscado jogo de imagens, traços indígenas, traços cristãos.







Em São Bartolomeu, reparem o teto





1 comment:

luciana said...

Massa demais Evandro
Não tem um link pra compartilhar direto no face, não???