Saturday, May 20, 2017

Friday, May 19, 2017

Simpatia pelo Demônio e São Cristóvão



Publicado no ano passado, o mais recente romance de Bernardo Carvalho se chama Simpatia pelo Demônio, mas há nota introdutória esclarecendo que "embora o título deste romance faça menção explícita à canção dos Rolling Stones, aqui o sentido é outro". Aqui, sympathy não é falso cognato : "a simpatia pelo demônio é simpatia mesmo".

São 236 páginas muito perturbadoras. A menção explícita ao demônio surge lá bem no final. Ou talvez um pouco antes, quando é descrito ritual dos índios ximpicós. Lá para o final também aparecem menções à capa, igualmente perturbadora ao reproduzir fragmento do quadro São Cristóvão, de Bosch, que o personagem Rato viu pela primeira vez no museu Boijmans, em Roterdam. Uma "situação grotesca e inexplicável", ao retratar, em sua extremidade esquerda, o que parece ser um índio (brasileiro?) enforcando um urso em uma árvore morta.

Um índio enforcando um urso em uma árvore morta.

De Bosch pode-se esperar tudo.

Todos sabemos que São Cristóvão foi um gigante pagão que percorria o mundo em busca de alguém mais forte que ele. O gigante se verga quando tem que atravessar um rio com uma criança nos ombros, mal conseguindo suportar o peso. A criança era o Menino Jesus, com os pecados do mundo. O gigante malvado, claro, se converte: Christophoros é aquele que carrega Cristo. Aí o narrador relaciona uma interpretação do quadro -- o urso era uma criatura terrena, pesada e temperamental -- à situação de angústia insuportável que Rato está vivendo com seu amante mexicano, o chihuahua.

Uma porrada. Uma explicação para o próprio romance: síntese do peso com a leveza? Não sei.

Bosch

Grajaú

Um Postal para a Mãe ::: Crônicas Ouro-Pretanas VII




Um almoço no Chafariz não se faz apressadamente. Verdade que são dois grandes bairros, São Bartolomeu e mais nove distritos, muitas igrejas, muita pedra sabão, muitas ladeiras a serem vingadas e logo ao pé dali, o Toffolo, onde Drummond, a falta de jantar, comeu pão de nuvens.

Mas se for pra comer correndo, melhor agarrar um pão de queijo e uma Ouropretana e continuar subindo e descendo, que o Chafariz demanda provas, prosas, contemplações. Retrato do Alphonsus de Guimaraes ali para lembrar.

Ao fim do repasto virá garçom com postais e caneta: oferta da casa. 

Pampi e Lu dizem que escreverão para suas mães. Para não ficar atrás, endereço o meu postal para minha mãe também. Afinal, ela amava os telhados de Ouro Preto, embora nunca fosse me perdoar o tanto de molho pardo que eu acabara de beber.







Thursday, May 18, 2017

A Casa Mariana ::: Crônicas Ouro-Pretanas VI



Existem alguns mal-entendidos espalhados em sites e mesmo em livros acerca da casa que pertenceu à poeta Elizabeth Bishop em Ouro Preto, a quem ela chamou carinhosamente de Mariana, não em homenagem à linda cidade vizinha, mas em lembrança de Mariane Moore, sua amiga poeta por quem ela nutria grande admiração.

Bishop não morou por muitos anos na casa. Na verdade, morou por bem pouco tempo. Como ela comprou o imóvel em ruínas, em 1965, foram decorridos quatro anos até que a casa se tornasse minimamente habitável.

1965 mais 4 dá 1969, pois. Como sua companheira Lota se suicidou em 67, elas nunca moraram juntas lá. Como sua companheira Lota se suicidou em 67, as coisas nunca mais foram as mesmas para Elizabeth que, para além da dor da perda, tinha, a partir de então, de relacionar-se com brasileiros sem a intermediação da companheira de personalidade forte. Isso não foi nada fácil.

Bishop morou apenas um ano e meio na casa, e com uma nova companheira, muito mais jovem e também norte-americana. Um casal de mulheres estrangeiras numa pequena cidade histórica mineira. As duas não eram nada benquistas. Pequenas maldades, como destruir a campainha ou a plaquinha com o nome da casa ou arremessar para dentro de casa o lixo que elas haviam colocado para fora, não eram raras. Uma grande maldade, como arremessar uma pedra em sua jovem companheira, também rolou.

Depois deste ano e meio, Bishop mudou-se de volta para os Estados Unidos, voltando a Ouro Preto apenas nas férias. Até 1974. Desta data até sua morte, em 1979, nunca mais. Tentou vender Mariana sem sucesso.

É uma história triste. Mais ainda se lembrarmos o seu grande entusiasmo inicial presente nas cartas. A casa tinha "o telhado mais lindo da cidade", "como uma lagosta de bruços". A casa, enfim, era "a mais linda do mundo".

Sua localização, no caminho para a cidade de Mariana, é metáfora da relação de Liz para com a cidade: mais de observação do que de efetiva participação. Isso não só em Ouro Preto, mas no Brasil, nos EUA, no mundo.

Quando fomos estava fechada. Eu gostava de ao menos passear pelo jardim, ouvir o córrego que ela ouviu. Mas gostei imenso de visitá-la por fora, eu que tantas vezes por ela passei quando por ali fiquei hospedado há exatos trinta anos.




Wednesday, May 17, 2017

E agora, Michel ?????





E agora, Michel?
A festa acabou,
o cara gravou,
a panela calou,
a noite esfriou,
e agora, Michel?
e agora, você?
você que tem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que finge amar?
e agora, Michel?

Está com ninfeta,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
a reforma não veio,
o riso não veio,
não veio a anistia

e tudo acabou
e tudo mofou
e tudo mofo deu,
e agora, Michel?

E agora, Michel?
Sua doce mesóclise,
seu falar com as mãos,
sua gula de poder,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu telhado de vidro,
sua incoerência,
seu ódio
e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Miami,
Miami não há mais.
Michel, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
o forró universitário,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse...
Mas você não morre,
você é duro, Michel!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, Michel!
Michel, para onde?

Tu não verás, Marília, azulejos :: Crônicas Ouro-Pretanas V



Notável já por muitos aspectos, a começar pela localização -- central, porém de costas para a sua praça principal -- a Igreja de Nossa Senhora do Carmo em Ouro Preto é a única da cidade, a única de toda Minas colonial, com azulejos portugueses, aqui em painéis nas partes inferiores das paredes da capela-mor, com temas caros à Ordem.

A quase total ausência de azulejos no barroco mineiro é amiúde explicada pela dificuldade do transporte e, consequentemente, pelo custo elevado. Naturalmente que não se trata de levar umas ou duas peças, que isso até colocariam na algibeira. Sal também era difícil de transportar, e quando chovia era uma desgraça, cousa que ao menos não aconteceria com os queridos azulejos, mas só mesmo uma irmandade muito rica como a dos irmãos terceiros do Carmo para tal. Se a intenção era a de causar dor de cabeça aos franciscanos, devem ter conseguido, se bem que a igreja destes, obra-prima do Aleijadinho, deve ter rendido também carradas desse pecado mortal gorduroso a que chamamos inveja.

Em 'Carmo', primeiro poema da série "Estampas de Vila Rica", com três estrofes com versos que oscilam entre hexassílabos e de redondilha menor, Drummond não deixa de lembrar esta peculariedade da igreja :

Quer nos azulejos
ou no ouro da talha,
olha: o que está vivo
são mortos do Carmo













Tuesday, May 16, 2017

Crônicas Ouro-Pretanas IV :: O Pouso do Chico Rei / O Quarto da Bishop



Há exatos dois dias antes de eu nascer, Vinícius de Moraes, contumaz frequentador do Pouso do Chico Rei, onde amiúde esbarrava com a tímida Elizabeth Bishop para longos serões de whisky -- pois, retomo, que a frase vai ficando barroca demais, há exatos dois dias antes de eu nascer, Vinícius escreveu a "Poesia do Pouso", assim:


Amiga, dizer nem ouso
De certa coisa que sei
Desde então acho-me em gozo
Das coisas que sempre amei


Lá dentro tudo é formoso
Toda a madeira é de lei
Lá dentro encontrei repouso
Lá dentro me reencontrei

Amiga, só quero pouso
No Pouso do Chico-Rey!

dedicada com 'carinho total' à Lili, proprietária dinamarquesa do hotel e, ao que parece, amiga de todos.

Pois bem, a Bishop, que sempre levou esse negócio de poesia MUITO a sério, a ponto de terminar a vida com apenas 101 poemas publicados, não era, não causa espécie, chegada a isso que se chama versos de circunstância.

Mas talvez tenha sido o whisky, talvez a vista da Mercês de Cima e da São Francisco de Paula pelos caixilhos das janelas em forma de coração, talvez o Vinícius, talvez a influência do Bandeira e seu Mafuá do Malungo, provavelmente isso tudo, fato é que também Elizabeth Bishop fez quadrinha para o Pouso do Chico Rei. Assim:

Let Shakespeare and Milton
stay at a Hilton
I shall stay
at Chico Rei.

Bem, tendo eu estado por lá, e justo no quarto onde Bishop ficava (e que hoje leva o seu nome), não posso deixar de rabiscar os meus. 

Mais ou menos assim:


Guignard, Vinícius, Neruda
Scliar, Bishop, Burle Max
todos sabichões sabiam
o que só agora eu sei:
Pouso em Ouro Preto, dear
só mesmo no Chico Rei.











Haikai para Ouro Preto




lavar os olhos
na cantaria asada
do Aleijadinho

Monday, May 15, 2017

Crônicas Ouro-Pretanas III ::: Santo Antônio do Leite



Há uns trinta anos que tenho vontade de ir a Santo Antônio do Leite, ou seja, desde que nele ouvi falar. Um dos doze distritos de Ouro Preto, Santo Antônio, não raro, é chamado apenas de Leite.

Como não gostar de lugar assim? De lugar que nos recebe com azulejos? Com um FORA TEMER no poste, com o carimbo oficial da Estrada Real concedido pelo dono da padaria, onde trabalha Raíssa, que tira a touquinha para a fotografia? Com a confecção de colchas de retalhos? Tudo sob o céu de maio, quando a manhã se fazia tarde, a quem nada pedimos, senão que continue, no tempo e fora dele, irreversível.