Pouco antes de ir para a Suíça, Camila fez visita a meu pai. Seguindo costume, levamos empadas e pastéis do Caranguejo.
Monday, March 28, 2022
A Casa de Jung
Azuki
Wednesday, March 23, 2022
E descobre nas páginas estreitas / A alma de seu amado refletida
Lembram do post anterior sobre um momento lindo de Eugene Onegin (aqui)? Então
Some pages still preserved the traces
Where fingernails had sharply pressed;
The girl’s attentive eye embraces
These lines more quickly than the rest.
And Tanya sees with trepidation
The kind of thought or observation
To which Eugene paid special heed,
Or where he’d tacitly agreed.
And in the margins she inspected
His pencil marks with special care;
And on those pages everywhere
She found Onegin’s soul reflected—
In crosses or a jotted note,
Or in the question mark he wrote.
Algumas páginas guardavam traços
Da decidida pressão de seus dedos;
Os olhos de Tânia são como abraços
Que abarcam dessas linhas seus enredos.
E Tânia nota com trepidação
O pensamento ou observação
Onde Eugene Onegin se demorou
Ou com que em segredo concordou.
E nas margens percebe comovida
As marcações de lápis ali feitas
E descobre nas páginas estreitas
A alma de seu amado refletida
Numa cruz ou notinha rabiscada
Numa interrogação ali deixada.
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Optei por decassílabos em vez de octossílabos e ignorei a questão das rimas masculinas e femininas.
Monday, March 21, 2022
Hear me sing / Swim to me
Quando Dante e eu andamos pelas ruas
É sempre da sua maneira peculiar
Ele me dá o braço como fôssemos casal
Minha outra mão eu a estendo sobre o peito
E me sinto o próprio cavalheiro de El Greco
São tantos os olhares sobre nós que me incomodo
E às vezes solto 'Por que será
Olham tanto pra gente, Dante?!
Devem estar nos achando bonitos!'
Assim hoje
Assim no tempo distante de ontem
PS: Mas eu também se cruzasse com esses dois
Olharia para ele pensando
Meu Deus, como esse menino parece o Tim Buckley
Cantará como ele a canção para a sereia?
Sunday, March 20, 2022
Ler as Marcações no Livro : Eugene Onegin
Desolação total no meio do capítulo sete de Eugene Onegin. Tatyana não só teve seu amor por Eugene desprezado como viu este matar em duelo o noivo de sua irmã caçula Olga. Esta, porém, não ficará de luto por muito tempo, casando-se pouco depois com novo pretendente (algo como um J. Pinto Fernandes / que não tinha entrado na história). Com o casamento, sai de casa, claro
Agora Tatyana está inteiramente só com a mãe em sua casa afastada. Inverno russo. Alguns anos se passaram e Eugene, ostracizado (não que isso lhe doa muito), mudou-se. Tatyana continua apaixonada e se entrega aos passeios pelos campos. Numa cena de rara beleza crepuscular, vê-se defronte à casa onde Eugene morava. Entra, com a permissão do velho caseiro. Não de todo satisfeita, volta no dia seguinte para examinar os livros! E esse exame se detém nas marcações que Eugene fizera! As marcações que o homem que ela tanto amava deixara à margem dos livros.
Isso é muito lindo. É o exame atento dessas marcações que lhe permite conhecer melhor aquele a quem tanto amou.
Tchaikovsky omitiu esta cena de sua ópera. Prokofiev manteve
Some pages still preserved the traces
Where fingernails had sharply pressed;
The girl’s attentive eye embraces
These lines more quickly than the rest.
And Tanya sees with trepidation
The kind of thought or observation
To which Eugene paid special heed,
Or where he’d tacitly agreed.
And in the margins she inspected
His pencil marks with special care;
And on those pages everywhere
She found Onegin’s soul reflected—
In crosses or a jotted note,
Or in the question mark he wrote.
Há uns seis anos fiz postagem sobre esse nosso (meu e do pai) hábito de sublinhar e anotar em livro. Está aqui.
Monday, February 28, 2022
De vendedores de bilhetes de loteria e peixeiros
Meu pai só comprava bilhete de loteria com um vendedor (de bilhetes de loteria) que ficava ali na esquina da 1o de Março com a Rua Larga de São Joaquim
Eu achava engraçada essa fidelização assim. O que esse vendedor fez pra cativar meu pai? Provavelmente nada
Na mesma época, eu tinha meus 13 anos, eu estava na casa de um amigo que saiu pra cortar o cabelo. A gente era tão amigo que ele podia sair pra cortar o cabelo e eu continuar em sua casa. Voltou em dez minutos e todos 'Ué?' e ele "Meu barbeiro não estava lá". Logo liguei as coisas
E eu não tinha isso, só fui ter muitos anos depois, justo com o Levi, um barbeiro em Icaraí que escrevia cordel (escrevi aqui)
Mais
recentemente tornei-me fiel ao peixeiro da feira de sábado do Grajaú, na Duquesa de Bragança. De sábado,
porque a famosa é a da sexta. Só compro peixe e camarão com ele.
Às vezes polvo e lula
Ontem não foi diferente e na hora de pagar,
sua filha, que cuida dos pagamentos, perguntou 'Hoje veio sem seu
ajudante?' Sorri feliz "Você acertou o nome dele: Dante". Sorrimos
Um gesto tão pequeno, né? Pra gente faz diferença: ela perguntou pelo menino de caracóis na cabeça, aliás quase sempre agitado quando está lá, ameaçando bater a cabeça no cherne e jogar os filezinhos de viola no chão
Monday, February 21, 2022
Uma coisa puxa outra
Uma coisa puxa outra que puxa a outra e outra
Perdi meu livro do Vikram Seth (aqui). Perdi, apenas perdi, dentro de casa. Li bastante ontem pela manhã, já entrando nos capítulos finais e hoje procurei-o high and low e nada. Chances de que o Dante o tenha enfiado em algum lugar, mas já olhei cantinhos do sofá, embaixo da cama, vão da poltrona, interfonei pros porteiros, liguei pra polícia e nada
Uma tristeza querer ler e não poder. Para compensar, para ficar perto, peguei o grande livro Le Ton beau de Marot, de Douglas Hofstander, que tem dois capítulos inteiros dedicados ao livro do Seth. E aí descubro que aos 16 anos ele ganhou um dos melhores presentes da sua vida: O Cravo Bem-Temperado, do Bach, por Glenn Gould
E aí me lembro que eu tinha esse disco quando morei em Chicago! Eu achava esquisito o Glenn murmurando enquanto tocava. É esquisito, e só pode ser assim para ser ele. Lembro que lá no início, quando Camila e eu nos enfurnávamos nas cidadezinhas da Mantiqueira, a gente ouvia. E eu lia sobre o Glenn. Tanto que um dia ela me recebeu em seu quarto na USP e preparou lanchinho. Com, segundo ela, queijo Goulda.
Este vídeo é sensacional
fecha
as janelas amor deixa apenas
a luz coada das treliças verdes
me vem de blusa branca os cabelos
o rio negro e volumoso que
não há conter :: o rio vasto e negro e sonho
te escorrem pelas costas infinitos
perto da cama larga os teus chinelos
ao lado dos meus deixa que namorem
e se segredem coisas dos seus donos
agora vem e deita e fecha os olhos
para que no escuro te venham cores
que como nunca se repetirá
deita ao lado :: eu te dedilho o clitóris
e o Glenn Gould : sempre ele : dedilha Bach
Thursday, February 17, 2022
Os Sonetos de Seth. E o meu
Na pequena mesa da sala livros recém-chegados esperam sua sorte: colhidos para a leitura ou para a estante (o que não impediria leitura posterior, claro). The Golden Gate,
de Vikram Seth, estava ali há alguns meses, a gente se entreolhando, ele
bem vendo que outros passavam-lhe a frente, recém-chegados ou não.
Há poucos dias comecei a lê-lo e aconteceu o que suspeitava: achei genial.
Estou apenas chegando à metade mas para um amante de sonetos como eu, uma
narrativa escrita toda ela em sonetos Pushkin (ou estrofes Onegin, de
vez que foi como o poeta russo escreveu seu Eugene Onegin,
inaugurando a forma) dificilmente não iria me cativar. São 590 sonetos
para ser preciso, no invariável esquema monostrófico ABABCCDDEFFEGG,
sempre em tetrâmetros iâmbicos, isto é, versos octossílabos. Bem, até
poderia dar errado, o domínio de uma técnica não resulta necessariamente
em obra de arte, mas o humor de Seth (wit), seu vocabulário coloquial e
também refinado (diction), seu conhecimento de mundo resultam em sonetos
deliciosos, que invariavelmente termino de ler com sorriso, quando não
aberto riso. E depois de ler dois, quinze, trinta, a gente fica com os
tetrâmetros na cabeça (fraca-forte / fraca-forte / fraca-forte / fraca-forte) e tem vontade de só falar assim, até na hora de
pedir um chopp ('GarÇOM queRIdo, TRAZ um CHOPP').
Abaixo dois exemplo de Seth, que narram o momento em que John tem seu primeiro encontro com uma pretendente (sonetos 2.36 e 2.37). Em seguida, soneto que escrevi na varanda, com os tetrâmetros martelando na cabeça. Não acho muito fácil escrever em tetrâmetros, prefiro os decassílabos, e tampouco acho o português muito apto para eles, de vez que tem palavras maiores que o inglês.
Bem representativos esses exemplos do Seth: coloquiais, divertidos, mas com um rigor espartano por detrás. Amei a rima "I'm / time".
"She's lovely," John thinks, almost staring.
They shake hands. John's heart gives a lurch.
"Handsome, all right, and what he's wearing
Suggests he's just returned from church...
Sound, solid, practical, and active,"
Thinks Liz, "I find him quite attractive.
Perhaps...." All this has been inferred
Before the first substantive word
Has passed between the two. John orders
A croissant and espresso; she
A sponge cake and a cup of tea.
They sit, but do not breach the borders
Of discourse till, at the same time,
They each break silence with, "Well, I'm --"
Both stop, confused. Both start together:
"I'm sorry --" Each again stops dead.
They laugh. "It hardly matters whether
You speak or I," says John: "I said,
Or meant to say -- I'm glad we're meeting."
Liz quietly smiles, without completing
What she began. "Not fair," says John.
"Come clean. What was it now? Come on:
One confidence deserves another."
"No need," says Liz. "You've said what I
Would have admitted in reply."
They look, half smiling, at each other,
Half puzzled too, as if to say,
"I don't know why I feel this way."
O meu soneto:
Se todo dia tem suas horas
(ao todo 24, não?)
é a hora do sol ir embora
que mora no meu coração
se rola cigarra, aí ferrou
melancolicamente eu vou
lembrando as coisas que perdi
a cigarrinha cicia em si
em lá, em sol e aí, né, quem
aguenta? para não chorar
retorno ao velho patamar:
Folheio o Seth, abro uma Heineken
Escala o Morro dos Macacos
Da série 'se explicar estraga?': claro que há ambiguidade em "a cigarrinha cicia em si": em si mesma e na nota si. Também aliteração e onomatopeia: a cigarinha cicia em si . Mas o mais legal é que como o eu-lírico se põe a recordar o passado, a cigarra canta de trás pra frente: si-lá-sol. A nota sol a lembrar também o sol que se põe. Já que falamos em notas, ao fim a dor escala o morro. E ainda a rima: aí, né, quem / Heineken.
Sunday, February 13, 2022
Só pode levantar com o dia claro
Há todo o ritual para dormir, se já para neurotípicos, imagina para autistas com seu pendor para rituais e repetições. Na hora mesmo em que deita Dante pede um copo d'água. Quase nunca tem sede e muitas vezes mal bebe gole, é só mesmo para retardar, tanto quanto possível, a hora de dormir. Mas às vezes bebe tudo e pede mais, o que já me irritou um pouco, em momentos de exaustão. Mas tá. Depois bate na cama ao seu lado, forma de pedir que eu me deite ali. Sempre o faço e o beijo, evitando dizer coisas como "Amanhã a gente vai isso ou aquilo", o que geraria ansiedade e um menino acordado ainda de madrugada. E é por isso então que não só não faço qualquer referência ao futuro como digo "Só pode levantar com o dia claro, tá? Não pode levantar se estiver escuro", eu ainda traumatizado com seus acordares às 4, 4:30 da manhã.
Assim fizemos muitas vezes, mas fiquei com a pulga atrás da orelha: e se ele sentisse qualquer mal-estar durante a noite? Um sonho ruim que fosse? Um ataque de insônia? Se lembrasse de minhas palavras, iria se sentir culpado em me procurar, então passei a dizer "Só pode levantar com o dia claro, tá? Não pode levantar se estiver escuro. Mas se você sentir qualquer coisa e precisar falar com o papai, pode me chamar". Acho que ficou com contornos de piada, como a da lápide do comerciante recém-falecido 'Fulano de tal, grande pai e marido, benfeitor da comunidade etc etc e tal. Mas sua loja continua funcionando na Rua da Assembleia, número 27, sobreloja'.
Também ele achou que ficou engraçado, de modo que tão logo termino a frase completa caímos na risada. Ontem foi assim. E dormimos de coração aquecido
No quarto ao lado tocava "Mother's Nature Son", com o Gryphon
Wednesday, February 02, 2022
Ange :: Paralém do Delírio
Não há como ser lado B aqui (bien, já estamos no lado B) : minhas duas bandas preferidas da cena progressiva francesa são as reconhecidamente maiores da dita cena: Ange e Magma. Por óbvio que é sempre uma questão de gosto, e vou adorar quem prefira Mona Lisa ou Wapassou, mas em termos de importância, produção e intensidade o lugar de proeminência que ocupam é tanto aceito quanto merecido. Quase como, em analogia, reconhecer a Santíssima Trindade PFM, Banco e Le Orme na mais rica cena italiana Se bem que aí a minha banda preferida é o Museo Rosenbach. Mas não compliquemos, falemos do Ange.
A postagem que sonhei escrever sobre eles -- uma resenha pormenorizada sobre Au-delà du délire, um dos discos da minha vida -- nunca saiu, mas algo das noites varadas empurrando o carrinho do insone Dante ao som do Ange registrou-se aqui.
Agora há pouco estávamos na Suíça e fomos passar dois dias em Lyon. Em meio aos bouchons maravilhosos, aos pralulines de sonho e aos traboules e lembranças de Juninho, uma única loja de discos na cidade velha. Onde me esperava a edição original do Au-delà du délire. Como me senti? Au-delà du délire.
Monday, January 31, 2022
Deitando a Etiqueta às Urtigas
A capital culinária da França e, portanto, uma das capitais culinárias do mundo, tem em seus bouchons sua expressão máxima
Não bastassem as comidinhas absolutamente singulares, como os patês, as andouillettes (salsichas de tripas de porco que merecem postagem própria), as quenelles, os queijos, Lyon é ainda a terra do Beaujolais, esse vinho travesso que se anuncia "est arrivé". Nos bouchons, os da casa são servidos em garrafa de fundo falso, o Pot Beaujolais
Camila empolgou tanto que fez o que se vê acima: deitou a etiqueta às urtigas e bebeu do gargalo
A senhora da mesa ao lado, uma condessa de nariz adunco, arregalou as íris como nem os Lumière sonharam e pensou 'Dieu, se essa moça tão linda pode fazer isso, também eu'. Logo todas bebiam do gargalo e Camila entabulou com elas conversa tão natural, que como retomada depois de anos
Das melhores memórias
Sunday, January 30, 2022
O Homem com Anjos na Cabeça
A frase é de Picasso ('Não sei se onde ele tira essas imagens, ele deve ter um anjo na cabeça') e vindo de quem vem deve ser tomada como um grande elogio. E é perfeita, pois Chagall tinha anjos na cabeça
Certa vez li que pensaram em canonizar Gaudí. Não pelos milagres que teria operado, mas pelo fato de muitas pessoas ficarem tão abismadas ao entrarem na Sagrada Família que se convertiam. O que não deixa de ser. Eu mesmo digo que se um dia virar cristão (não tenho vontade), a culpa é do Neal Morse. Ou do Chagall
A descoberta dos vitrais de Edmond Bille em Lausanne foi uma surpresa (aqui). A visita aos vitrais de Chagall na igreja de Fraumünster em Zürich, sobre os quais eu já tinha lido e visto fotos, foi surpresa do mesmo jeito. Porque não adianta ver fotos antes, a gente não está preparado para aquilo. É como conhecer Veneza ou Milho Verde. Eu não tinha vontade de ir embora. Eu dava as costas e voltava o rosto para aquelas figuras no típico azul Chagall, mas também em verde, amarelo, vermelho. Alguma conversão aconteceu? Por ora digo apenas que quando o mundo parecer 'um vácuo atormentado, um sistema de erros', existe o refúgio em Chagall
PS: A pesquisa neste blog me trouxe várias referências a Chagall, incluindo o poema "A Arte da Levitação", do Voo Sem Pássaro






