Thursday, March 05, 2020

Brighton, para além do The Who


Conforme escrevi aqui, foi o The Who / Quadrophenia que motivaram a visita a Brighton, aonde eu não iria por outros motivos, minha companheira me acompanhando por saber da minha paixão pela banda.

Mas, então, tirante o diretamente relacionado a Quadrophenia -- a praia, a avenida defronte a esta, as ruas transversais onde Mods, Rockers e a polícia caem no pau, o píer e, last but not least, o beco --, sobraria alguma coisa?

Bem, mais do que sobrou, Brighton revelando-se uma cidade deliciosa, nem que seja para bate-e-volta desde Londres: o labirinto das lanes, o Pavilhão Real (espécime perfeita de orientalismo e onde Carême preparou barrocas refeições), murais do John Upton, o primeiro grafiteiro do Reino Unido, a ótima oferta de restaurantes, pub em azulejos, uma infinidade de lojas de segunda-mão, as afamadas charity shops.

Achávamos sobraria tempo. Quase perdemos o último trem.














Tuesday, March 03, 2020

O sino de madeira



Lá em São Bartolomeu
colada ao Rio das Velhas
vive rua já bem velha
tantas velhas nas janelas
neste mesmo arruamento
que vai dar lá nas Mercês
imperiosa tem assento
igrejona azul e branca
contando mais de trezentos
anos. Sem grandes artífices
não tem ela Aleijadinho
não tem ela chinesices
não tem ela grande órgão
Ataíde ela não tem
mas tem ela duas torres
duas torres em quatro águas
duas torres telhadinhos
sendo a esquerda, a esquerda torre
(tinha que ser a sinistra)
que quase esconde da vista
o seu tesouro maior:
velho sino de madeira.
Esse sino tem histórias
e não poucas as versões
roubaram o sino de prata
ninguém sabe dos ladrões
nem para quem protestar
tempo que o governador
Velho Conde de Assumar
punha fogo em Ouro Preto.
Fabricam pois outro sino
de madeira pois não cabe
arraial, mesmo pequenino,
ter igreja assim caolha
Assim sino e seu badalo
sino mudo de madeira
tanta vez tocou em vão
tanta vez se desespera
no afã de ser ouvido
tão inútil o seu badalo
Não será como Cassandra
que viu dentro do cavalo
de Troia a destruição?
E ninguém lhe deu ouvidos
por mais que a jovem gritasse
O vemos em poucas horas
entre nacos da cascão
depois nos vamos embora
enquanto ele -- o sino mudo --
tartamela o seu bordão
no alto da torre esquerda
manterá os seus badalos
para ouvidos nenhuns

Galo velho no quintal
rouco mouco pouco galo
que ainda grita de manhã

para ouvidos nenhuns




Capela das Mercês




Quem disse que não há chinesice em Ouro Preto?



Quando falamos em chinesices geralmente pensamos em pinturas douradas sobre fundo vermelho, como aquelas com as quais recentemente me deliciei na Matriz de Catas Altas (aqui). Pinturas com motivos orientais, claro.

Então fico sem saber se essas belezinhas nos painéis laterais (pode chamar de 'ilharga'?) da capela-mor da Igreja de Santa Ifigênia também serão chinesices. 

O acesso à capela-mor nos é muitas vezes vedado, de modo que, à falta de drone, estiquei o corpo aonde pude para fazer os registros.

Não são douradas nem há fundo vermelho, mas há todo um orientalismo (Evoé, Said!) aqui. Também os traços finos, quase um nanquim. Achei curiosa também a paleta de cores, como que sugerindo azulejos, já que são nessas ilhargas onde geralmente os há (em Ouro Preto só no Carmo).







Wednesday, February 26, 2020

A Justa Fama de Famagusta



Bem, sou um homem que jamais vestiria camisa do Vasco com propaganda da Havan, mas aqui traí meus idealismos e, sim, fomos a Famagusta (ver aqui), porventura a cidade mais interessante da parte ocupada e destaque da viagem.

Contribuiu para a traição o fato de o Chipre não estar correspondendo às nossas expectativas bem como o fato de não termos conseguido visitar lugares por que ansiávamos, como as montanhas Troodos.

Então, vamos a Famagusta. Embora estivéssemos na pouco interessante Larnaka, teríamos que passar por Nicósia, porque ali haveria um posto fronteiriço que poderíamos atravessar a pé. E assim foi: de Larnaca a Nicósia e de lá atravessamos a fronteira. 

Me recuso a dizer que é um outro país, que aí seria trair demais, mas de fato tudo muda, é impressionante. Não apenas detalhezinhos mínimos como língua, arquitetura, religião, culinária (a doçaria!), tipos humanos, mas de súbito suco de romã por toda a parte e, pior, sai de cena a KEO para dar lugar à onipresente EFES, pilsen turca maravilhosa sobre a qual já escrevi aqui. E nada de letreiros russos, nada de arranha-céus, nada de centros antigos transformados em espaços insípidos. Estamos num lugar muito interessante e que, de quebra, tem ainda a portentosa ex-catedral de São Nicolas, onde os reis de Jerusalém eram coroados, e ainda o castelo de Otelo. Otelo, o mouro de Veneza, o próprio.

Não é pouco

















Monday, February 24, 2020

Crônicas Cipriotas II :: Dum spiro spero


Não, não queria conhecer Famagusta, eu não queria conhecer qualquer parte do Chipre ocupada pelos turcos, que invadiram o país em 1974, tocaram o terror e se autoproclamaram país independente --  República Turca do Norte do Chipre -- tão sólido que reconhecido por apenas dois países: eles próprios e, adivinhem, a Turquia.

Não queria conhecer, achando, e ainda acho, que uma visita poderia ser lida como prestigiar, negativa aliás que minha dileta amiga Claudia defenderia. Ela não visitaria, por exemplo, a Índia, dados os inúmeros casos de violência contra a mulher. Respeito muito sua posição, mas no caso da Índia é possível visitar à contrapelo, uma visita crítica, que não caia no chavão dos incensos e flores. Visitar mesmo para denunciar, que foi o que fizemos um pouco aqui, quando visitamos, em Agra, o café das mulheres vítimas de ataques de ácido.

Mas ao norte do Chipre não queria ir, ainda mais depois de conversar com duas interessantíssimas, maravilhosíssimas senhoras no Museu Etnográfico de Paphos, que a princípio me pareceu caro e desorganizado, armadilha para turistas e que, ao fim, revelou-se muito especial pela presença das duas senhoras, mãe e filha, a mãe viúva do arqueólogo responsável pelo trabalho em Kato Paphos. Um lugar especial, sem deixar de ser caro e desorganizado.

Ousando conversar sobre o espinhoso e doloroso tópico da invasão turca, da filha do falecido arqueólogo ouvi cristalino o adágio latino Dum spiro spero, que significa 'Enquanto estou vivo, tenho esperança', o latim sempre mais conciso que bula de remédio, a beleza do verbo 'esperar' como ter esperança, hope, não wait.

E Famagusta? Ah, falo depois que a postagem ficou longa



Friday, February 21, 2020

A Segunda Igreja Mais Antiga de Minas



Esqueçam Ouro Preto, Mariana, São João d'El Rey, Tiradentes, Sabará : as igrejas mais antigas das Minas Gerais estão no imenso norte do estado: a grande matriarca em Manga, às margens do Velho Chico, sobre a qual escrevi aqui, e a segunda mais vetusta em Brejo do Amparo, distrito de Januária, também colada ao São Francisco. De 1688, ficou pronta quando a sua irmã de Manga debutava

Com sinalização inexistente, não é fácil chegar lá, no distrito do distrito do distrito: do centro de Januária chega-se a Brejo do Amparo, tantos alambiques, e de lá a Ilha. Aí nos perdemos, é inevitável, até que um sinal do céu oriente o Google Maps. E lá está ela, toda branca de sol, seu grande átrio revelando inequívocos cuidados defensivos.

Como recebeu restauro recente (bem, eu gostava daquele negrume lembrando as velhíssimas igrejas de Olinda e de Goa), lá está ela, toda branca de sol. 'Brancuras do Rosário dos Homens Pretos', como notou meu amigo Helion, ao que redargui: parece coisa do Cruz e Sousa, Ó Formas alvas, brancas, Formas claras

Uma visita inesquecível