Saturday, November 14, 2015

O Tao do Prokofiev, o Prokofiev do Tao



Lembro-me da preocupação de Said (sim, ele mesmo, o do orientalismo e do cultura e imperialismo) com a unidade, com a coesão e coerência de um programa de concerto, principalmente quando este envolvia piano.

Lembrei-me de Said hoje depois da apresentação magistral do Conrad Tao com a OSB tocando o 3o Concerto para Piano do Prokofiev. Não digo que o Municipal tenha vindo abaixo (nosso Municipal que agarra-se ao século XIX como o limo à pedra), mas, dados os apalusos, o pianista de 21 anos houve por bem mimar-nos com um bis. Pois aí. Imagine que depois do concerto de Prokofiev, com seus dois minutos finais que são, simplesmente, uma das experiências mais eletrizantes que se pode ter na vida, Tao tocasse um Chopinzinho, um Bach, um Scarlatti. Nada contra os três, mas seria de um anti-clímax tremendo, melhor que nem houvesse. E qual carta Tao retira da manga? O terceiro movimento da sétima sonata do Prokofiev (o 'Precipitato', que apareceu recente neste blog, ver aqui), peça que faz Motörhead lembrar música de criança. (Ou nos faz lembrar que Motörhead é música de criança, com a devida data venia ao Philthy Animal Taylor, recém-falecido.)

Said se contorceu no túmulo. De regojizo.

E assim fechou-se o concerto de hoje, que antes tivera a primeira sinfonia de Shostakovich e "Pángü", peça do próprio Conrad Tao. Eu tinha esse Shostakovich em vinil, comprei garoto, nunca bateu. Hoje achei sensacional. Em seu opus 10, Shosta já revela o que faria depois nas sinfonias posteriores. Por aí se vê a riqueza inesgotável da música sinfônica russa do século XX.

A peça de Conrad Tao também pareceu-me muuuuito interessante, traços de Villa-Lobos aqui, Wim Mertens ali.


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