Monday, May 06, 2013

Ça Ira - A Ópera de Roger Waters



No sábado último tive o privilégio de assistir à ópera Ça Ira, do Roger Waters. Vejam bem, não se trata de uma ópera-rock, mas de uma ópera-ópera mesmo, aliás, no melhor estilo oitocentista italiano, com pitadas de musical.

Só isso já bastaria para enriquecer ainda mais o currículo de Waters: em vez de tomar o rock, ou o rock progressivo que seja, como estilo e ficar fazendo plágio de si mesmo, ele procura sempre novos meios de expressão, o que será típico do artista inquieto. E "artista inquieto" há-de soar como redundância.

Esta foi a segunda vez que esta ópera foi encenada no Brasil. A primeira foi em Manaus, em 2008, e serviu para o Roger fazer diversos acertos no trabalho. Creio que isto já nos coloca, ufanismos à parte, numa posição de destaque no coração do Roger. Ainda mais.

A cenografia desta montagem foi belíssima, inda que econômica. Para uma ópera excessivamente narrativa, a cenografia é de grande importância, ou corre-se o risco da monotonia. Para uma ópera excessivamente narrativa, teríamos que ter, forçosamente, um ótimo narrador. E isso o barítono Leonardo Neiva fez muitissimamente bem.

Alías, todas as vozes estavam maravilhosas. Senti falta apenas do coro infantil, tão bonito no terceiro ato, aqui a cargo das sopranos. Ficou bom, para quem não conhecesse já (e por elas esperasse) as vozes das crianças em "To take you hat off".

Que Roger Waters tenha preocupações sociais, socialistas (e anti-belicistas, conforme escrevi neste antigo post aqui), é óbvio. Tais preocupações, que jamais afloraram explicitamente durante o período Pink Floyd, surgem na carreira solo em canções como "Each small candle", "Flickering flame" e "Lost boys calling". O perigo, aqui, é escorregar para um terreno muito panfletário. E mesmo didático. O final da ópera, digo-o com maldade, poderia ter como palavras finais "Campanha da Fraternidade 2013". Se perdoo Roger? Mais que perdoo. (E, tá, sei que o libretto não é dele, mas a ópera, ao fim e ao cabo, é).

Outro pequeno problema / contradição é que a parte musical mais linda da obra é a ária cantada pelo Rei Luís XVI quando preso. É uma carta que o monarca (tirano, não?) escreve para seu primo, um Bourbon da Espanha. O tema é tão bonito que surgirá novamente no final do terceiro ato (ou seja, no final da ópera), quando este mesmo rei vai ser executado. Claro, um tema musical bonito não se desperdiça assim, e um compositor de ópera, ainda que iniciante, saberá disso.

Mas então, como assim? Não fica parecendo que há uma simpatia pelo monarca? Como também por Maria Antonieta, quando também ela sabe que vai perder a cabeça e canta "Adieu my good and tender sister"?! Não fica parecendo simpatia pelo Ancien Régime? Ou é este contraponto que, pelo contrário, irá livrar Roger da acusação de maniqueísta? Ou é algo como transcendência, no melhor estilo perdoemos nosso inimigos, só amor constrói, e, com Pelé e Romário ao marcar o milésimo, pensemos nas criancinhas?

Se eu "perdoo" o Roger? Mais que perdoo. Roger Waters é um dos artistas mais sensíveis e competentes daquela geração mágica surgida nos anos 60. E quando ele subiu no palco ao fim do espetáculo (até o fim esperamos... Ça Ira! Ça Ira!), acho que ninguém gritou Bravo tão alto como este blogueiro pateta aqui.



Adieu Louis for you it's over


1 comment:

Marta rodrigues said...

O que posso dizer senão: MORRI DE INVEJA? Quisera eu ter ido. E muito me arrependerei desse pecado.