Monday, July 19, 2010

Bar das Rolas - Usina

Na quadra final de meu mestrado, quando as atenções devem todas estar direcionadas para a dissertação, descobri Pedro Nava, um dos maiores encontros literários que tive. Uma revelação, um incêndio e assim, no sofá da sala da Paulo Alves, devorei Balão Cativo, Beira-Mar, Baú de Ossos (sim, não li os três primeiros na ordem), Chão de Ferro, Galo-das-Trevas, Círio Perfeito. E, inda que o Nava falasse alguma coisa relacionada aos meus estudos de mestrado, para o inferno com a dissertação, que eu descobrira coisas muito mais importantes.

Words fail me para descrever as sucessivas epifanias, os sucessivos gozos, estupefações e paixões que o mineiro de Juiz de Fora me proporcionou.

Umas dessas estupefações maiores está nas páginas finais do seu último livro, O Círio Perfeito, sexto volume de suas memórias, páginas finais de suas 2565 páginas de memórias nas letras miúdas das primeiras edições da José Olympio e Nova Fronteira.

Nessas páginas que Egon (alter ego que Nava assumira) tem conversas terríveis com um misterioso Comendador. Lá estão alusões ao suicídio, ao homossexualismo, a segredos inconfessáveis. Lembro que à época fiquei tão impressionado e perturbado, sobretudo com uma frase em caixa alta na página 574 (EU SOU O COMENDADOR), que cheguei a sonhar com Nava em minha casa, no sofá da sala, a pronunciar a terrível frase (em caixa alta???): EU SOU O COMENDADOR.

Bem, terminados livro e tese, vou à Usina, falo de 1998, procurar o Bar das Rolas onde os dois travaram as conversas, na frente do rio onde depois banharam-se (e batizaram). Após alguma conversa e pesquisa, descubro-o.

Passados 12 anos, volto à Usina e procuro pelo mesmo Bar das Rolas. Continua lá (a construção é de 1880), um túmulo. Silencioso e desafiador, suicidário porém eterno.




EU SOU O COMENDADOR.

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