Tuesday, August 18, 2015

A Toccata de Ginastera e o Precipitato de Prokofiev


Existe um bocado de controvérsia em torno de Lang Lang. Eu, que entendo muito pouco, direi somente que sua interpretação do 'Precipitato' da sétima sonata do Prokofiev me lembra o que o Emerson, Lake & Palmer fez com a Toccata do Ginastera. À época, o argentino (gênio) afirmou que o ELP compreendera como ninguém a sua composição. Como ele não falava inglês, de sua boca saiu apenas um "Diabólico" ao ouvir a versão progressiva pelo próprio Emerson, que viajara para a Suíça unicamente para tocá-la (em fita cassete) para ele, durante as gravações mesmas do Brain Salad Surgery. Se Emerson empreendou sua viagem para ganhar uma chancela, acho desnecesário; se para ganhar uma bênção, acho bonito. 

Não era novidade que grupos de rock progressivo fizessem (re)leituras de obras do repertório erudito. Os compositores, claro, eram os velhos conhecidos de sempre, e os resultados variavam enormemente entre o chato / dispensável (Latte Miele com sua "Opera 21", de Beethoven), interessante / bonito (Rovescio della Medaglia com Contaminazione, de Bach) e realmente empolgante, como o que o espanhol Los Canarios fez com as "Quatro Estações" de Vivaldi em seu Ciclos.

O mais interessante aqui, apenas para começar, é que Alberto Ginastera é um compositor contemporâneo, de um país latino-americando sem grandes tradições eruditas. E Keith escolheu apenas um movimento do seu primeiro concerto para piano, peça de 1961. Ou seja, o cara era antenado! Eu ouvi tanto, mas tanto isso lá por volta dos 13 anos que depois enjoei. Hoje, com o ouvido muito mais afeito à música erudita, vejo inequivocamente uma prova do gênio de Keith Emerson e, por extensão, de toda a banda. Exemplo cabal de pós-modernidade.








E o Lang Lang? Ele consegue imprimir clareza em um tempo de incrível rapidez. Em prol desta clareza, Glenn Gould sacrificou a rapidez. Mas o Glenn (gênio) era doido.


1 comment:

Ivo Korytowski said...

Todos geniais: Prokofiev, Lang Lang, Glenn Gould, Emerson, Lake & Palmer. Para mim (nos idos dos setenta) Emerson, Lake & Palmer era o ápice, o suprassumo do "rock", o caminho que o rock logicamente seguiria no futuro, mas não foi o que aconteceu, e eles hoje (com exceção de uns poucos "conhecedores" como você e eu) foram praticamente esquecidos (como foi o Bach por um século até ser redescoberto por Mendelssohn). Serão um dia reabilitados? Ótima postagem, parabéns!!!