Wednesday, August 27, 2014

Uma Crônica de Bandeira sobre os Prodigiosamente Sinceros Pintores de Botequim

Delicías's Bar :: Grajaú


Maravilhado descubro crônica do Bandeira de novembro  de 1941 sobre pinturas em botequins cariocas. O texto "Pinturas no Café" foi recolhido na antologia Andorinha, Andorinha, que apresenta uma faceta pouco conhecida do poeta, o Bandeira todo prosa.

A crônica é formidável menos por mostrar que já havia interesse no assunto, mas que era interesse de gente como Cícero Dias, Murilo Mendes, Vinícius de Moraes e, claro, o próprio Manuel.

Reproduzo aqui a primeira metade.

"No penúltimo número da revista Diretrizes vem uma interessantíssima reportagem de Carlos Cavalcanti sobre esses ingênuos exemplares de arte popular que são as pinturas murais dos cafés e pequenos restaurantes da cidade. É a primeira vez, creio, que um crítico de arte fala desses trabalhos. No entanto, há muito tempo vinham eles despertando curiosidades de alguns pintores e poetas. Cícero Dias, Murilo Mendes, Vinícius de Moraes e tantos outros, são grandes admiradores dessa pintura incorreta, mas prodigiosamente sincera. Murilo Mendes possui mesmo uma erudição surpreendente no assunto e sabe, por exemplo, que em tal café do Catete há um São Jorge fabuloso, e em tal botequim da Saúde uma sereia copacabaníssima. Nenhum de nós, porém, soube nunca o nome desses modestos muralistas, só agora revelados por Carlos Cavalcanti - Justino Miguéis, natural do Porto, chegado aqui em 1912, ex-aluno da nossa Escola de Belas-Artes, Bravo Filho, Albino Beija-Flor... Miguéis contou a Carlos Cavalcanti que foi o primeiro professor de Portinari, menino recém-chegado de Brodóvsqui.
'Mas o que Carlos Cavalcanti parece que não sabe, senão teria citado, é que entre esses pintores de cafés do povo se deve citar um dos nossos artistas mais finos, mais cultos, mais viajados -- Guignard. O "Café e Restaurante Progresso", pertencente ao Sr. Francisco Rocha, estabelecido à Rua Barata Ribeiro 218, tem as suas paredes enriquecidas com três pinturas à têmpera do conhecido artista. E uma delas está assinada pelo autor com todas as letras do seu nome. Vale a pena ir ao cafezinho do Inhangá especialmente para ver os trabalhos do Guignard."

A crônica prossegue em mais quatro parágrafos, nos quais o poeta do porquinho-da-índia descreve as pinturas de Guignard, relata sua dificulade em extrair informações do dono do bar (arrá!, não mudaram em nada) e conclui que as pinturas não foram encomendadas, mas oferecidas (!) pelo pintor.

Para além dos aspectos já citados, a crônica é notável também por apresentar nomes de alguns pintores (o nosso Bravo!). E vamos atrás dessa revista, já que os golfinhos, o São Sebastião e os girassóis de Guignard já foram devidamente soterrados.

Para ilustrar este post, não o Nilton Bravo de quem já tanto falei, mas uma pintura em um boteco no Grajaú com seu algo de Goya. E é provável que seja o mesmo pintor de um botequim no Estácio.

Café e Bar S. Judas Tadeu :: Estácio

3 comments:

Ana said...

Vou ver se na bn tem a Diretrizes de 1941.

Conceição Silva de Araújo said...

Parabéns pela.pesquisa! Esse bar fica em q altura?

Papel de Roça said...

Delícia viajar nessa história.
Sheila