Friday, October 05, 2012

Ama-me, de Manuel Cintra





A melhor fase da poesia portuguesa é hoje. Fernando Pessoa, ok, é continente à parte e continentes, mesmo Gondwana, são atemporais.

Os melhores poetas portugueses estão vivos, pingam venenos e colírios pelo mundo. João Ricardo Lopes, Vasco Gato, Miguel-Manso, Manuel Cintra.

Este poema do Manuel lembra o esparsíssimo sueco que sei, Älska mej, nome de um filme do Festival de Chicago de 1986. Não é preciso pedir muito mais que isso para ser feliz. Mesmo que seja soco a soco, desastre a desastre, fatia a fatia. O problema é que este verbo acomoda-se muito mal ao modo imperativo, o que talvez explique desastres.




Ama-me onde a terra queimada for capaz de ser fértil outra vez.


Ama-me a uma esquina, onde nem tu nem eu sejamos capazes de reconhecer o tempo que alguém, em nome do amor, nos tentou tirar. Ama-me já, com a loucura da paz, e o correr do tempo, mas devagar.

Ama-me sobre as cortinas de todo o vento, toda a dor que te entreguei como um larápio, em surdina, sem tambor nem trompete. Ama-me como quem jura saber sempre que sabe o que não sabe e que nada sabe do que sabe. Ama-me como uma pergunta, uma dúvida e uma estúpida certeza afogada de antemão num jarro de sangria.

Ama-me soco a soco, beijo a beijo, desastre a desastre, fatia a fatia. Ama-me docemente, mas como quem desafia. Ama-me a tempo, mas nunca mais tenhas medo que o tempo te impeça de amar.

Pois não é de tempo que se trata, mulher. Trata-se tão só e suavemente do próprio mar.

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