Monday, February 17, 2014

Roine Stolt e eu


O show do Transatlantic na semana passada na capital paulista proporcionou-me, dentre outras coisas, conhecer os supermúsicos da superbanda do progressivo e em especial dois a quem admiro há muito :: Neal Morse e Roine Stolt. Os dois, junto com o Steve Wilson, são dos maiores nomes da cena progressiva dos últimos 15 anos, seja em termos de excelência, seja em termos de enorme, a beirar o absurdo, prolificidade.

Confesso que fiquei meio abestalhado na hora, mas não perdi a chance de contar ao sueco um segredo. Confesso que fiquei meio abobado ao conhecer o Portnoy, o Trewavas o Stolt, o Morse, nesta ordem.

Para o primeiro não tinha nada a dizer. "Você é um baterista monstruoso" é coisa que ele deve ouvir dez vezes a cada 15 minutos. Para o Trewavas também pareceu-me pueril algo do tipo: "Olha, você é um baixista do cacete e já estou sonhando com os dois show do Marillion em maio", de modo que nada falei, mas dele ouvi o elogio ao Magma, que eu trazia na camisa.

Para o Morse eu confundi tudo, queria dizer que toco há anos a música "Wind at my Back" para os meus alunos e acabei dizendo que eu tocava Snow. Plé.

Mas com o Roine, com quem eu já trocara alguns e-mails em 2008, quando andei por suas terras, acertei. Disse-lhe o seguinte:

"Olha, há alguns anos, quando eu me dilacerava com a dúvida de ser pai ou não, foram as três últimas músicas do Solo (último disco dos anos 70 do Kaipa) que me fizeram escolher que sim, eu seria pai. Ele se chama Dante. He's five now."

Roine, que já demostrara surpresa quando lhe estendi o disco para o autógrafo, levantou os sobrancelhas, no que me pareceu um sincero espantoe respondeu: "Well, at least we have achieved something".
 
Yes, you certainly have.
 
 
 



 
 
PS: O encontro com os sujeitos antes do show, by the way, não teria sido possível sem a ajuda de dois amigos ::: Nilda e Paulo. Tack så mycket!!!

Sunday, February 16, 2014

O Iauaretê num Vitral em Belo Horizonte




Também Belo Horizonte passa por mudanças que conduzem, quase que invariavelmente, à verticalização, inchaço e, claro, uglification of the world (escrevi aqui). Em caminhadas pelo Brasil (Rua Rio de Janeiro, São Paulo, Piauí, DA Bahia) e seus indígenas (Aimorés, Guajajaras), surpreendemos ainda aqui e ali casas vistas por olhos do Nava, Drummond, Cyro, Guimarães, Otto, Fernando, Paulo. Parece pouco? Bastava esse argumento para a cidade ser inteiramente preservada. Mas enfim... sigh...

Em andanças recentes, passei por casa meio que bleak house, toda achaleisada à europeia. Não mais é casa de gente, convertida que foi em estabelecimento comercial (acessórios de.... aeromodelismo). O próximo passo, quando os aeromodelistas locais não mais derem o lucro ambicionado pelo proprietário, será.... Bem.

Da rua vislumbro vitral. Subo, peço, tiro fotos de um vitral parcialmente oculto por mercadorias. Trabalho belíssimo, em que um mineiro da capital (profissional liberal? funcionário público do alto clero? fazendeiro???) manda pintar no vidro cenas das Gerais, os buritis, a vereda, as araras e a pintada.

Então era assim, tinha-se Iauretê ali, na sala de jantar, nos convidando a beber cachaça, desonçar o mundo, até a língua picar de areia ou, mais, tornar-se parte da tribo das onças.
 


 

Crônicas Búlgaras 4 ::: A Catedral de Alexander Nevski e Prokofiev




Lembram daquelas coleções de disco clássico vendidas em banca de jornal? Foi por meio de uma delas, em 1985, que conheci Prokofiev (já aqui), desde então um de meus compositores preferidos. E o disco nem era meu, mas emprestado de amigo. Se o intuito dessas coleções era tornar a música erudita um pouco mais acessível, bem, conseguiram.

E a obra nem era das mais populares desse ucraniano que tampouco é dos mais populares: a cantata Alexander Nevski. Aquilo ali, desde aquele começo poderoso sutil, escavou-me a alma. Uns três anos mais tarde adquiri gravação mais decente (a do Fred nunca devolvi) e depois, claro, comprei o CD junto da suíte Cinderela (que tem a introdução mais linda de toda a história da música universal).

A cantata nasceu da trilha-sonora que Prokofiev escrevera para o filme homônimo de Sergei Eisentein. A música, nacionalista, pode ser acusada de fazer concessões ao zdhanovismo? Bem, talvez. Mas sua beleza transcende o contexto em que foi produzida, servindo para qualquer embate entre a valentia de Nevski e os odiosos cavaleiros teutônicos. Cavaleiros teutônicos, by the way, que às vezes carregamos no peito.

Um de meus projetos de vida é ir à Rússia colocar uma flor no túmulo de Prokofiev. Explico: como o mestre morreu no mesmo dia do sanguinário Stálin, todas, mas TODAS as flores da União Soviética foram enviadas para o assassino. Não sobrou umazinha para o Prokofiev. Um homem que escreveu essa cantata sombria, pungente e redentora.

Enquanto esse dia não chega, conheço Sófia que tem sua linda catedral de Alexander Nevski. Aos domingos a missa é cantada, inesquecível. A igreja é mesmo búlgara: linda, linda, mas algo distante, misteriosa, altissonante. Fotografias eram expressamente proibidas. Todas as que tirei, portanto, são ilegais e como infrator estou sujeito às penalidades da legislação em vigor.


 

Wednesday, February 12, 2014

Crônicas Gregas 3 ::: Uma Camisa de Futebol




Como coleciono camisas de futebol, qualquer viagem, seja para o Cariri seja para capital europeia, é sempre chance de aquisições. Claro que sei que na internet posso comprar de tudo ou quase, mas não é mesma coisa.

Sabia que Atenas possuía três times importantes, dos mais importantes de toda a Grécia: o Olympiakos (ΠΑΕ Ολυμπιακός), a Panathinaikos (Παναθηναϊκός Αθλητικός Όμιλος) e o AEK. Já ouvira mesmo falar deles por alto já que acompanho (por alto) campeonatos europeus. Desde os primeiros passeios deparei-me com lojas de lembranças com camisas dos 3 (não tanto do AEK) e em infinitas andadas pela Plaka, Monastiraki e Psírri, encontrei mesmo as respectivas lojas oficiais. Sou colecionador de camisas de futebol, mas não a sério a ponto de só querer produtos oficiais, de modo que pago os 12 euros por uma boa réplica em vez dos 65 pela licenciada. (Arrá, e eu que sempre critiquei a pirataria de CDs!!!)

Enfim, satisfeito por perceber que não seria difícil adquirir os itens fui adiando a primeira compra até o dia em que saí pouco preparado para o frio grego (nada radical), de maneira que pensei: ‘bom, compro uma das camisas e já a visto por cima desta’. Comprei a do Olympiakos.

Pra quê.

Logo notei ser alvo de toda sorte de olhares: surpresos, odientos, simpáticos, infelizes, pasmos, odiosos. Ao parar em uma ótima loja de café, o ótimo gerente, com quem conversamos sobre Copa, corrupção, desemprego, Nikos Kazantzakis, advertiu-me no final: “Olha, cuidado com essa camisa. Eu mesmo sou torcedor do Panatinaikos, mas comigo tudo bem, mas pode ter gente que veja e não goste... Se você ainda estivesse nos Pireus...”. Seguimos nosso caminho rumo ao Museu Arqueológico. Lá, um dos funcionários diz: “Você é torcedor do Olympiakos?” Antes que eu respondesse que mais ou menos, que não era bem assim, que era só mais uma camisa para coleção, ele continuou: “Se é, não posso te deixar entrar....”. Mas disse num tom amistoso, e depois que soube de onde eu vinha confessou que no Brasil torcia pelo Botafogo. E repetiu a história dos Pireus.

Esqueci de mencionar: o gerente do café disse que ali na Grécia as pessoas eram muitos fanáticas, que torciam de um modo balcânico de ser. Aí, tremi. Lembrei-me de texto lido há anos sobre o Estrela Vermelha e de vídeo visto há pouco mostrando a recepção de torcedores a um novo técnico na Bulgária.

Mas não tirei a camisa. Numa praça, um grupo de jovens virou-se à minha passagem, olhando-me entre perplexo e zangado; um motorista dirigiu-me palavras em seu bom grego, e no Mercado Municipal dividi o mar, com alguns peixeiros e açougueiros e azeitoneiros gritando “O-lym-pia-kos!!!” para receber sonoras vaias e gritos de Panatinaikos.

A rivalidade entre Olympiakos e Panatinaikos é tal a ponto de o clássico entre os times ser chamado de Clássico dos Inimigos Eternos. Acho que, por perceberem-me turista, pegaram leve. Poderiam chegar e exigir que eu tirasse a camisa ou coisa do tipo? Pode ser, principalmente, claro, fosse dia de jogo. Mas aí eu não seria tolo. Afinal, vascaíno em uma família de von Sydows flamenguistas, sou escolado já.
 
PS: Comprei também a camisa do Panathinaikos. Mas acho que escolhi já meu time grego.

Monday, February 10, 2014

Crônicas Gregas 2 ::: I need a FIX



Com exceção da SEPTEM, uma microcervejaria extraordinária de que falarei em breve por aqui, a cena cervejeira grega é humana, demasiado humana, nada tendo de divina. Mythos, Vergina, Alpha, Hellas são pilsens normaizinhas, produzidas, é fácil crer, para um povo que vai pra lá em busca do sol e do sal das ilhas.

Todas as citadas sendo, entretanto, superiores à tríade Brahma-Skol-Antarctica, este lixo cheio de milho e arroz que a Inbev nos impinge goela abaixo.

E tem a FIX. A FIX é outra pilsenzinha ordinária, com a vantagem de me fazer lembrar uma das canções favoritas dos Beatles: "Happiness is a warm gun".

Não estou sozinho. Esta música (uma colagem de três esboços, algo tão Lennon) é também a preferida do George e do Paul. Esta música, aliás, é uma das poucas do disco branco em que a banda soa como banda, já que o disco todo é uma colcha de retalhos de músicas solo.

Porque John canta "I need a fix because I'm going down,,,,". Claro que seu fix aqui era bem outro, mas isso não importa.
 

PS: Lembrei: por ocasião da morte de John, a revista Veja, que já era ruim mas não esta vergonha idiota que publica coisas de um Rodrigo Constantino, dedicou-lhe a capa. Algumas letras foram traduzidas, pelo Millôr, excelente tradutor. Happiness estava lá.

PS 2: Esta a música que uso para ensinar aos meus alunos o que é uma metáfora!

Sunday, February 09, 2014

O tempo, cavalo estúpido, já não tem poder aqui





Em Afaia os minutos se eternizam
pois talhados da mesma substância
que reveste as colunas deste templo
e o canto na garganta destes galos
então cuidado, minha cara, o tempo,
cavalo doido e estúpido, já não
tem poder aqui, as palavras ditas
e o que se faz à sombra dos pinheiros
como que se instalam nos capitéis
da memória :: não haverá rotinas
não haverá segunda-feira nem
angústia ou dor que os possam macular
e tremo a mezza state ardendo il verno
em teus dedos o compasso do eterno


Crônicas Gregas 1 ::: O Gato Grego




Ele está por toda a parte: tem livre acesso às ruínas a nós interditas, toma de assalto praças e cafés como pombos. Desconfiado, como todo gato, mas nem tanto: alguns atendem ao chamado. É grande, como seu irmão romano. Vivem na Grécia há tanto que acredito mesmo que alguns presenciaram a Titanomaquia.
 

 


Friday, February 07, 2014

Crônicas Búlgaras 3 :: A Capital do VInho 2




Mas o melhor, não em termos de paladar mas de experiências, estava ainda por vir.

A caminho do Monastério de Rila, no alto de seus 1.100 metros, passamos por diversas cidades. A última é Rila mesmo, ainda um pouco distante do mosteiro, em que vislumbramos muitas vinícolas. Aquilo ali num outono deve roçar ombros com a paisagem piemontesa ou toscana. Chegando ao único restaurante aberto já próximo ao mosteiro, haveríamos forçosamente de provar o vinho local, ainda mais se o prato era a truta do rio gelado. Fizemos, com a satisfação de saber que o vinho, produzido artesanalmente, fora feito pelo dono do restaurante.

Para terminar, a caminho do aeroporto, descobrimos que nosso taxista Boris sabe que Dilma tem raízes búlgaras, orgulha-se de suas raízes trácias, coleciona avidamente cédulas do mundo inteiro (sempre as 3 de menor valor; dei-lhe notas de 2 e 5 reais) e, last but not least, é também vinicultor! Fez questão de presentear-nos com uma amostra de sua criação, que transposta no porta-malas.... E a vida, assim, se nos afeiçoa...
 
 

Crônicas Búlgaras 2 :: A Capital Mundial do Vinho 1



Esqueça Itália, França, Califórnia, a capital mundial do vinho hoje há-de ser a Bulgária.

Em nossa primeira noite em Sófia fomos ao acolhedor restaurante Hadjidraganov, onde fomos tratados como verdadeiros búlgaros, comemos o que sempre imaginei ser um tipiquíssimo manjar búlgaro e, melhor, provei do seu potente Mavrud.

Assim como restaurantes, lanchonetes e cafés de rede devem ser evitados em viagens, também varietais como Cabernet e Merlot. Não se trata de um nacionalismo xiita: cabs e merlots podem ser provadas nos três países citados acima e também por aqui, enquanto que a Mavrud só poderá ser provada no perímetro búlgaro.

Com seu tinto generoso, profundo e aromático, próprio para sabores fortes e climas frios, a Mavrud logo encontrou um espaço aqui debaixo do ventrículo esquerdo.
 
 

Thursday, February 06, 2014

Crônicas Búlgaras 1 :: Pelo Sim, Pelo Não

Bulgarozinhos que conheci nos subúrbios de Sófia


Uma das coisas que me fez querer conhecer a Bulgária foi poder investigar  in loco o que se diz acerca de seus gestos com a cabeça. Sempre ouvi dizer que era o único país do mundo em que o menear pra cima e pra baixo significava ‘não’, enquanto que o menear horizontal (que na nossa cultura não significa apenas ‘não’ mas imenso desprezo) significa ‘sim’. Nos outros 191 países do mundo, todos o sabemos, é o contrário.

Quando eu dava aulas no IBEU  e tinha aquelas lições que se queriam multiculturalistas sobre gestos, eu falava todo empolgado ao meus alunos acerca desta mítica Bulgária, para tomarem cuidado quando fossem lá nas próximas férias etc. Eles ouviam com o estupendo interesse típico adolescente e replicavam (às vezes meneando a cabeça para os lados): “não é só lá, tchitcher, o Chaves também faz isso”. E eu cedia: “Tá, a Bulgária e o Chaves”.

Bem. Com o levantar (ou derretimento, como queiram) da Cortina de Ferro, a Bulgária abriu-se para o mundo. Embora por toda Sófia eu não visto e lidado senão com búlgaros, em Rila vislumbrei mesmo o rosto de um japonês no friíssimo monastério. Isso em três dias.  Mas enfim, com o fim do comunismo, os búlgaros, cientes de sua imensa diferença em relação ao mundo, como que se adaptam ao resto. O que é de todo lamentável, uma tristeza imensa para os antropólogos profissionais e amadores. Mas.

Em exame atento, surpreendi, sim, búlgaros querendo dizer ‘sim’ meneando a cabeça para os lados. Ou seja, a Bulgária (r)existe! O gesto lembrou-me imediatamente o que tanto vi em Goa e mais ainda no Sri Lanka. Pena não ter visto cabeças pra cima e pra baixo com a intenção de dizer ‘não’. Talvez por não quererem me dizer um não, ao reconhecer a minha bela pronúncia de благодаря.
 
 

Tuesday, February 04, 2014

Os Reis do Chocolate da Padaria Marconi



Com os autógrafos do baixista Patrick Djivas, do guitarrista Franco Mussida e do baterista-vocalista-showman Franz Di Cioccio, meu Reis do Chocolate nunca mais será o mesmo.

Minha edição é nacional (os avisos DISCO É CULTURA, ESTEREO MONO e TAMBÉM EM FITAS [!!!] não me deixam mentir). Comprei-o usado em fevereiro de 1984, juntando meus parcos caraminguás, que eu não tinhas as fortunas exigidas pelos vinis importados da Itália.

Peguei-o na pressa da saída para o show da semana passada. Acertei. Tocaram 3 das 5 músicas ("Harlequin", "Out of the Roundabout" e, se não me falha a Mnemósines, a faixa-título). O disco todo é ótimo, embora a maioria dos fãs não lhe dê o merecido valor. Depois dos épicos, capolavori absolutos Storia di um Minuto e Per un Amico e do superproduzido L'Isola di Niente (mas que também amo), Chocolate Kings assinala certa mudança, sim, a começar pela língua. O disco é todo cantado em inglês e eu só não maldigo isso porque os vocais estão a cargo do Bernardo Lanzetti (ex-Acqua Fragile, de que falei aqui).

Com este disco, a PFM tentaria romper de vez a bolha e deslanchar no mercado norte-americano. A estratégia da mudança da língua pode ser pra lá de questionável, mas ainda se me afigura menos ruim que a versão para o inglês de músicas já clássicas cantadas em italiano. (Heresia, aliás, cometida no show daqui, o que motivou meu grito cheio de cólera, mas isso fica pra depois). A muitos críticos dessa postura da banda passa despercebido a absurda ironia do título do álbum. A missão era conquistar ouvintes e eles o tentam ironizando esses ouvintes, os "reis do chocolate", termo pejorativo para se referir aos americanos no pós-guerra.

Um aspecto notável aqui é que, dado o timbre de Lanzetti, a Premiada Padaria Marconi soa como Genesis. E muitas das bandas nascidas e criadas sob a influência do Genesis de Peter Gabriel hoje me parecem na verdade muito mais influenciadas por este Premiata que pelo próprio Genesis. É só pensar no Marillion inicial e, principalmente, no Citizen Cain. Uma tese questionável, admito, por isso gosto dela.
 
Djivas

Mussida

Cioccio
 

Saturday, January 18, 2014

Dante no Zoo

 
 
 
Menino intransitivo, de intransitivas ações. A primeira visita do Dante ao zoo foi. A próxima visita, que não esperará cinco anos, será, espero, um pouco mais (ver aqui). Mas a coisa tampouco cai em evolucionismos fáceis. Mas como a próxima haverá, esperamos seja um pouco mais.

Dante não se fixou muito em nenhum bicho. Como na entrada alugamos um carrinho tipo velocípede, fixou-se mesmo no carrinho e neste que o empurrava, com ocasionais diatribes se um ou outro falhavam.

Vimos os elefantes, distantes, elegantes, altissonantes. Distantes até darmos as costas, que logo veio um ter conosco de perto. Na foto eu olho para a máquina, Dante e Elefante se entreolham.

Urso, macacos, girafas, felinos mortificados pelo calor que desde o século XIX cresta a monarquia de São Cristóvão.

Dante gostou mesmo foi do espaço dos pinguins. Não tanto pelos exímios nadadores felizes, mas pela água que jorrava aos borbotões para a piscina. Enquanto todos olhávamos para os pinguins da orquestra, o menino só tinha olhos para a água que ama.

Aliás (e não falo das elefoas), parrte dos meus olhlos fickou por lá :: Dante atitou mneus ócullos na jaula dos gnus.



Segue a Orquestra dos Pinguins, em momento lindo.
 
 

Friday, January 17, 2014

Mais Paineis de Azulejos ::: As Vilas::: Irmãos Igrejas

Flanar pela Vila continua rendendo boas surpresas azulejares, como os excepcionais paineis encontrados hoje.

Ambos revelam a nítida proveniência dos donos das casas: dizer Portugal é pouco (e, à época, quase que óbvio), há que se especificar a vila / cidade da terrinha. No grande painel horizontal (de 98 azulejos) encaixado em moldura feita para acolhê-lo, descobrimos fonte da Vila da Póvoa de Lanhoso. No painel quadrado (100 azulejos), capela de Pico de Regalados. A reparar que ambos os paineis ostentam o brasão da cidade, e na de Picos há mesmo uma cruz de malta. Ambas vilas minhotas.
Os dois paineis são assinados, mas pude identificar apenas no retangular a assinatura de Antônio Felix Igrejas.
Dos irmãos Antônio e Manoel Felix Igrejas, também eles purtugueses, escreverei post em breve. (No post anterior sobre paineis de Vila Isabel, alguns são também ora d'um, ora d'outro)


Wednesday, January 08, 2014

O Púcaro Búlgaro ou EXPEDIÇÃO À BULGÁRIA

 
 
Por razões que logo (j'espère!) serão conhecidas dos leitores do blog, tive ganas de reler O Púcaro Búlgaro, novela de Campos de Carvalho lançada pela Editora Civilização Brasileira em 1964. Tenho a primeira edição, bem como Vaca de Nariz Sutil (1961) e A Chuva Imóvel (1963), todos pela Civilização, sendo que os dois últimos na "Coleção Vera Cruz". O Púcaro é, mui apropriadamente, da coleção "O Homem que ri". Todos naquelas lindas (e frágeis!) capas não-plastificadas que amo. Só O Púcaro tem ilustrações do Poty (aqui).

Com seu humor pícaro, escrachado e absurdo (sim, no sentido literário, refiro-me aqui a um Alfred Jarry, a um Ionesco), O Púcaro Búlgaro ocupa (ou deveria) lugar de destaque na prosa satírica brasileira, a começar pela rima toante esdrúxula do título.

Após a "Explicação Necessária", temos "Os Prolegômenos", a que seguem uma "Explicação Desnecessária", um "In Memoriam" e uma página-título ("Livro de Horas e Desoras ou Diário da Famosa Expedição 'Tohu-Bohu' ao Fabuloso Reino da Bulgária...").

Depois da impagável sessão de terapaia, terminada com a pergunta do psicoterapeuta "O senhor já foi à Bulgária?", o narrador, em 17 de novembro, põe anúncio no jornal: EXPEDIÇÃO À BULGÁRIA. PROCURAM-SE VOLUNTÁRIOS.

"Poderia ter acrescentado: que não sejam necessariamente loucos. Mas como essa ressalva poderia afugentar os mais capazes e abnegados, deixei a cargo de cada um o juízo sobre o seu próprio juízo. Mesmo porque os loucos nunca se julgam loucos e acabariam vindo da mesma forma -- eles ou ninguém mais."
 
Poty
 
PS: Falei em 'humor pícaro'. Ou será humor púcaro? O Pícaro Bígamo, e estamos já em terras de Campos de Carvalho.

O Post 1000


 
 
Não é este, mas o anterior. Fiz as contas, fiquei de tocaia e, como haveria de ser, ao escrevê-lo me distraí.

Como tudo começou com Goa, justo que seja ela lembrada aqui, se não aquele meu espaço mítico (ao qual não digo que retornarei porque não cheguei a sair de lá), um restaurante assim chamado em Pinheiros.

A comida não é propriamente indiana, mas vegê. A Eisenbahn vem bem gelada.

O blog, acho, vai bem.

Comecei com ele antes do facebook. Quando entrei neste, pensei Agora que ninguém vai ler o blog mesmo. Vislumbrei para ele o mesmo destino do Orkut. Mas a ideia de usar o face como trampolim salvou-o. Mas que o salvou, pois passei a ter muito mais leitor. Se as estatísticas do blogspot estão certas, eu teria leitores nos EUA, Malásia, Rússia, Alemanha e China, para só citar os principais. Não acredito nisso.
 
Acho bom que quando escrevo, leem. Se passo período sem publicar, as visualizações minguam, mas jamais cessam de todo. Quando publico frequentemente, o número de visualizações sempre passa da centena. Em 23 de novembro foram 347 visualizações. Para um blog centrado em poesia, literatura, música impopular, o próprio filho, patrimônio histórico e botequins, isso na terra do tchan, convenhamos que não está mal.

Não tenho muitos seguidores e tampouco muitos comentários. Creio que isso se dá pela simples razão de não verem mais muitos motivos para segui-lo, de vez que o facebook já faz as notificações. Quanto aos comentários, prefere-se o próprio face. O ruim é que assim o comentário não fica "guardado" para sempre junto do texto, mas não se pode ter tudo.

Através do blog conheci pessoas. E mantive outras. Para quem cai no raciocínio fácil de que as tecnologias modernas enfraquecem as relações humanas, um big plé.

É isso.





o espelho

Monday, January 06, 2014

Igreja da Ilhabela

Numa estimativa otimista, acredito que ninguém mesmo pegue a balsa da Ilhabela em busca de patrimônio histórico. Pior pra eles. Como a Vila Bela da Sereníssima Princesa Nossa Senhora ou, melhor ainda, Ilha de Maembipe, tem uma história riquíssima, não faltam casinhas, solares, engenhos e, claro, as onipresentes igrejas.

No coração da Vila, a Igreja de Nossa Senhora d'Ajuda e Bom Sucesso.








Paineis de Azulejos ::: Vila Izabel

Com o cuidado de não colocar aqui azulejos de boteco, que issos serão considerações à parte.

Atopar com um painel deste hoje é alegria das grandes. E raras. Grande por ser rara, não necessariamente o inverso.

Os dois primeiros são de casinha térrea, recebem no quintal o visitante que chega. Antigamente era assim.

O terceiro é no topo de casa grande.

O quarto, insólito por ter temática carioca e não propriamente escapista (ou escapista para o morador da Zona Norte?), é de grande casa térrea.

O quinto é mais comum por ser de temática religiosa. Mas foge à regra pelas dimensões e por não retratar santo ou nossa senhora específica.

O sexto está hoje numa loja de móveis antigos, em antigo açougue. Notável pelas pastilhas e cobogós. Eu morava aqui fácil. Retrata idilicamente inocentes animaizinhos que seriam comprados já devidamente abatidos e esquartejados, prontos para o consumo.







Sunday, January 05, 2014

Bowie, Bertolucci, Major Tom



Outro dia achei carta de minha avó para mim, na época em que vivi em Chicago. Estava dentro de envelope de carta da tia, ou seja, a carta da vó era meio que -- delicioso -- apêndice. Delicioso em suas mal traçadas linhas, sua eterna ingenuidade, sua absoluta doçura. Ela dizia que gostava de assistir a filmes da América do Norte (assim dizia) para que pudesse se sentir um pouco mais próxima de mim.

Sigh.

Pensando com ela, minha doce vampira (ver aqui), gosto de assistir a filmes italianos nem que seja para me sentir mais perto da Itália, ouvir o que e como dizem, ver onde moram no bel paese, mesmo e principalmente quando o filme (ainda bem), não se curva à obrigação da cor local.

Assim com Io e Te, o mais recente do Bertolucci. Só sabemos que estão na Sicília por esparsas menções a Catania e ao notório ciúme dos sicilianos, mesmo que, aqui, oriundo de um fedelho de 14 anos.

Já gosto só por estar ali, ouvindo o fedelho exclamar surpreso "Madonna!" e sua irmã complicada, "Maria!". A namorada ao lado se contorce de sorrir.

Então já valeu por estar ali. O filme é bom sem ser ótimo, mais do que esperei. A trilha é ótima, sem ser apenas boa :: The Cure logo no começo, Muse, Arcade Fire, RHCP, Mogol.

Mas o que roubou a cena mesmo foi o Bowie no final. A imagem paralisa nos olhos desfocados do menino que, depois de se entocar, renasce ao descobrir o outro, o amor, um pouco de si mesmo. Afinal, descobrir o outro e o amor é descobrir a si mesmo.
 
 

Friday, January 03, 2014

Era Ilhabela e Chovia



A chuva de janeiro nos ilhava
encharcava as quilhas do coração
a chuva de janeiro nos olhava
como se olham ilhas da desrazão
a chuva de Ilhabela não é só
resposta dessas coisas naturais
que o selo imprimem à eternidade
como ao banhista o mar tatua os sais
a chuva de Ilhabela nos teus olhos
se cristaliza com o roçar do vento
a chuva desta tarde faz-se em nós
e tudo que é janeiro húmus terra
encontra em nossa peles seu assento
acento de gozo guarida e voz.