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Saturday, February 04, 2023

Vila de Nossa Senhora da Conceição de Sucuriú


 

'you talk to me / as if from a distance / and i reply / with impressions chosen from another time time time / from another time'

brian eno


Tuesday, January 31, 2023

De Araçuaí eu trouxe uma pedra de topázio ou O Presente de Riobaldo para Diadorim : Erro e troco -- o confuso assim

Qual foi, afinal, o presente que Riobaldo trouxe de Araçuaí para Diadorim? Ele é muito claro aqui:

"De Araçuaí, eu trouxe uma pedra de topázio"

Bem, pedra de topázio fique sendo? Mais adiante será safira:

– “Diadorim, um mimo eu tenho, para você destinado, e de que nunca fiz menção...” – o qual era a pedra de safira, que do Araçuaí eu tinha trazido, e que à espera de uma ocasião sensata eu vinha com cautela guardando, enrolada numa pouca de algodão, dentro dum saquitel igual ao de um breve, costurado no forro da bolsa menorzinha da minha mochila."

E, pasmai, mais adiante ainda, Riobaldo diz que é ametista! Mas aqui ele já admite estar confundindo e diz que "só no bocal da idéia de contar é que erro e troco – o confuso assim"

 Ainda que essa fala de Riobaldo no finzinho da saga admita erros e trocas, ainda me pergunto se não terá sido confusão não do narrador, rio baldo, rio que falha, mas do autor mesmo, o Rosa

Há duas ocorrências para ametista no romance, três para safira, enquanto o topázio é mencionado uma, duas, três, quatro, cinco vezes

Estive em Araçuaí há poucos dias

E de Araçuaí, eu trouxe duas pedras de topázio: uma para o Dante, uma para a Camila. Porque amor é pássaro que põe ovos de ferro



Monday, November 14, 2022

(Faltava falar de) Majorlândia II

Assim como em Iguape, também gravei os cocos de Majorlândia em fita cassete, naquela noite de janeiro de 1992. Ao contrário da de Iguape, no entanto, não a  encontrei. Guardo no coração alguns cocos daquela noite: "Andorinha Branca", "Me dá um cacho" e o indefectível "Maneiro Pau". Voltar a Majorlândia, portanto, prometia fortes emoções e já na van lotada que me levou de Aracati até lá eu repetia às pessoas, criança, que estava voltando passados trinta anos. Essas pessoas na van lotada, umas eram nascidas em 92, outras não, respondiam com um "Seja bem-vindo de volta"

E reencontro a família dos Mendes, que me transmitem ideia de família sólida e unida. Posso estar caindo naquela esparrela do viajante que, de passagem, vê tudo com olhos de contos de fada, mas a impressão que tive e tenho é esta: uma família unida em torno da matriarca Joana, mulher do falecido Zé Mendes, que este ano mesmo completou 100 anos. Hugo, o puxador de coco em 1992, ótimo e irreverente, está recolhido numa casa ao lado, já entronizado na História como Mestre da Cultura do Ceará

Falamos das eleições (todes eleitores do Lula, por que será?), falamos de futebol, falamos de coco. Por motivos diversos, o grupo está desfalcado, mas conseguem fazer uma apresentação caseira e linda, com Baiano, filho de Zé Mendes, no ganzá e iniciando no ofício de puxador

Começam no quintal da casa. Passaram-se 30 anos, no Brasil há guerra e fome, mas uma família cearense ainda se encontra no quintal de sua casa para dançar o coco. Logo ocupam a rua, espaço tão familiar quanto o quintal. Estamos em 2022, saímos de uma pandemia e de um período de trevas e ignorância. E uma família cearense se une para dançar o coco

Isso tudo me põe comovido como o diabo. A Ypióca Ouro ajuda. E pego meu triângulo para me unir ao ganzá e ao caixão nessa doce liturgia










Agradeço imenso à Liciane, neta de Zé Mendes, filha do Baiano, que reuniu a família para a apresentação. Não esperarei trinta anos para voltar. Volto antes de Joana completar 102.

(Faltava falar de) Majorlândia

Há cinco meses fiz aqui postagem relatando minha volta a Iguape, Ceará, para reencontrar o pessoal do coco que eu conhecera há trinta anos e cujo conhecimento foi um dos princípios da minha vida

Falta falar de Majorlândia, que, aliás, conheci antes de Iguape. Uma história que não esqueço e que conto até hoje. Foi assim:

Da cidade histórica de Aracati há estrada para o litoral, que em dado momento se bifurca: pra cima, Canoa Quebrada, pra baixo, Majorlândia. Sempre lado B, escolhi esta última. Levava comigo a Antologia do Folclore Cearense, do Florival Serraine, e só então, no meu quarto da pousada de cama de alvenaria, descubro o artigo de Oswald Barroso sobre os coco de Majorlândia. Ou seja, não escolhi Majorlândia por causa dos cocos (como eu mesmo já me enganei), descobri-os ali, em livro

Saí então para a rua atrás dos cocos. Pergunto a um sujeito na rua, que responde Ah, isso acabou tudo, é coisa dos antigo, não tem mais essas coisa não. Fico arrasado. Mas eis que vem outro sujeito em minha direção, a quem pergunto, já desanimado:

Moço, ainda tem coco por aqui? 

Tem muitcho! Tem ali na casa de fulano de tal, tem ali e acolá!

Radiante, apressado para correr atrás de suas dicas, pergunto ainda:

Obrigado, obrigado! E qual o seu nome?

E ele:

Zé Coco!

Que história. Na mesma noite, conheço o coco do clã de Zé Mendes, conheço seu filho Hugo, repentista e tocador de ganzá. Me encanto com a família que dança em volta da árvore no quintal

Pois faltava voltar a Majorlândia, ainda este ano, trinta anos. Voltei

Hugo em 1992

Hugo Mendes hoje

Tuesday, October 25, 2022

Boi Calemba

Boi Calemba é como o potiguar chamam o folguedo que os maranhenses chamam de bumba-meu-boi e os amazonenses, de bumba-meu-boi, nomes que se popularizaram mais. O Boi Calemba de São Gonçalo do Amarante, na grande Natal, completou este ano 118 anos de existência. Cento e dezoito. Em um país como este, em que as coisas pouco duram, exceto as más, como o patriarcalismo, o machismo, o racismo

Escrevo amargo, é verdade, nesta semana tensa que precede a eleição mais importante de nossa triste História. Ou ela se redime aqui, a História, ou vai mesmo para a lata de lixo, não sei se com reciclagem possível. Estamos no Nordeste. E é duro andar pela orla de Natal e ver as varandas e os carros ostentando o nome e o semblante doentio do genocida. Mas chegar nos recantos de cultura popular e ver a presença do Lula é um alívio que basta a lógica para explicar

Mário de Andrade, em sua viagem de 1928, ouviu o Boi Calemba de São Gonçalo do Amarante. Cascudo, claro, conhecia-o bem e talvez por isso o tenha nomeado o folguedo mais representativo de todo o folclore brasileiro

O crânio do boi é o mesmo do começo do século passado. O mesmo, pois, que Mário e Cascudo alisaram com os olhos marejados...

Uma vez mais, uma pena falar de um folguedo musical e não conseguir postar vídeos, por pequenos sejam

 










 




 PS: Assistimos a um ensaio. Se por um lado não gozamos daquelas roupas lindas brilhantes como a lua, por outro gozamos de certa intimidade, só possível em momentos assim. Agradeço muito ao Kléber e ao Mestre Dedé

 

 

Sunday, October 09, 2022

Clã do Jabuti

 

Um dos trechos mais queridos do Grande Sertão será sempre o encontro mítico do menino Riobaldo com o menino Reinado ('Atravessa!'), sobre o qual já escrevi por aqui e aqui, quando conheci o de-Janeiro

Agora. Uma outra coisa, lateral, que sempre me chamou a atenção é que o Riobaldo, velho já, menciona tartarugas no rio e aquilo sempre me impressionou muito

Saiba o senhor, o de-Janeiro é de águas claras. E é rio cheio de bichos cágados. Se olhava a lado, se via um vivente desses -- em cima de pedra, quentando sol, ou nadando descoberto, exato. Foi o menino quem me mostrou.
 
Pois as há. Há tartarugas no Rio São Francisco, as lavadeiras temem as beliscadas e eu as vi tomando sol nas pedras e nadando nas verdes águas transparentes
 
Já tava bom
 
Aí hoje voltando de barco pra Pão de Açúcar e D. Amélia trazia com ela uma tartaruguinha. Ela cria tartaruguinhas desde que descobriu que seu filho tinha asma. Simpatia, e amor. Quando elas crescem, ela troca por uma pequena. Isso há 20 anos. O filho cresceu, tem 24 anos, estuda Medicina. E ela mantém a prática
 


 

Friday, October 07, 2022

Clemilton, Artista Total

 

Este é o Clemilton, da Mata da Onça, povoado alagoano às margens do São Francisco. Mata da Onça é como que distrito da Ilha do Ferro, por sua vez distrito de Pão de Açúcar, velha sertaneja alagoana, muito citada, com Piranhas, pouco acima, nas crônicas do cangaço

Este é o Clemilton. Mas fica difícil chamar Mata da Onça, com suas seis casas, duas delas quase tão velhas quanto o rio, de "distrito". Nem capela tem. É povoado. Não está no mapa, e olha que falo do mapa específico das Alagoas.

Mas voltemos ao Clemilton, artesão de mãos cheias, como outros da Ilha do Ferro. Pense num Vavan, pense num Cícero. Meu barqueiro, Caronte, acha ele devia se mudar para a Ilha, por amor de ter mais visibilidade. Meu amigo André Dantas, da Ilha, acha ele deve manter-se lá em seu tugúrio mesmo, isso lhe agrega

Concordo com o André. Clemilton decerto recebe menos visitantes. Mas os que chegam até ali sabem por que chegaram

Clemilton pinta o que vê pela frente: as paredes de sua casa, as paredes da sua cozinha, paredes e portas e janelas. Diz que seu sonho era ser artista, talvez pensando em pinturas, mas ele se especializou mesmo nas obras em madeira. Um artista. Feito, consumado, total, na acepção romântica do termo. Não deu pra roça, não deu pra moleque de feira quando pequeno. Não gosta do burburinho de Pão de Açúcar, gosta do seu canto, gosta do murmúrio do rio, e olha que o Velho Chico é muito quieto por ali. Pedi-lhe história do nego d'água, o caboclo d'água, o romãozinho, espécie de saci fluvial. Ele, sem barqueiro ser (Clemilton é só artista), contou-me.

Alumbrado pela prosa, pedi licença pra mergulhar no rio. Lembrei-me foi do Mário: "Que calmaria serena... Que mundo de águas lisas, fluidas... Que espelho claro... Uma ausência plena de inquietações, de audácias... E o sol, o sol do lado, todo de ouro branco, claro, mui claro, claríssimo, impossível da gente fitar". Interrompeu tanta calmaria o barco que trazia crianças da escola. Mergulhei e fingi ser o nego d'água, sorriram sem entender muito. Por elas soube que pouco mais acima havia outro povoado, de nome Pantaleão (!), inda menor que a Mata da Onça.

Quando voltei pra casa do Clemilton, esperavam-me piabinhas fritas

Vascaíno, pintou a fachada de sua casa assim: um art déco sertanejo psicodélico com o escudo do Vascão. Prometi-lhe levar em São Januário um dia. Ele, o moço artista total das Onças, aceitou




Thursday, September 29, 2022

VIVENTES DO VELHO CHICO

 

Zé Pretinho (Pantaleão-AL)

Ilha do Ferro é povoado bem pequeno, mas sem esforço pode-se ficar lá dias e dias, vasculhando cada canto. Mas o riozão ali, ao alcance de pés e mãos, é sempre convite para outras explorações. Pode-se continuar na margem direita e subir para Mata da Onça e Pantaleão (!), povoados fora do mapa. Pode-se subir e ir para a margem esquerda, em Sergipe, e dar em Curralinho e Bom Sucesso, povoados de Poço Redondo, por onde muito andou Lampião. Ou pode-se descer pela margem esquerda e conhecer o quilombo Mocambo e em seguida a Ilha de São Pedro, onde está a aldeia dos Xokó. Isso já em Porto da Folha, Sergipe

Para quem gosta de explorar, para quem gosta do distrito do distrito, do povoado do povoado, um prazer grande


Clemilson (Mata da Onça-AL)


Daiane (Mata da Onça-AL)

Pintura de Roxinha (Lagoa de Pedra-AL)

Yuri (Pão de Açúcar-AL)

Pai do presidente do Jaciobá e Caronte

Quilombo Mocambo (Porto da Folha-SE)

Maria do Socorro e Luizinho (Mocambo-SE)

Damiana Xokó (Ilha de São Pedro-SE)

Anísio Xokó

Cacique Bá Xokó

João Xokó

Pedro Acácio Xokó

Giovanna Xokó

Maria Amélia (Curralinho-SE)

Cozinheira em Curralinho-SE

Bom Sucesso-SE

Frida em Bom Sucesso-SE

A parte 1 desta viagem está aqui