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Wednesday, August 10, 2022

Para se conhecer o Progressivo Holandês parte II

A primeira parte deste pequeno levantamento (aqui) partiu dos itens da minha coleção que, não por acaso, destacou os mais conhecidos desta não tão conhecida cena, como Focus, Earth & Fire, Supersister, Trace. Me animei e agora apresento uma segunda antologia, a que se seguirá em breve a terceira e última

Novamente, uma messe variada, ou não estaríamos falando de rock progressivo. Do psicodélico Group 1850 (um dos quatro únicos holandeses considerados fondamentali pela bíblia Prog 40), passando pelos folk Mayfly, Deirdre e Elly and Rikkert (que não constam do Prog Archives, que prefere incluir Iron Maiden), pela sonzeira do Pandorra Ensemble, até chegar ao inclassificável Flairck. E tem muito mais, recomendo todos! De curiosidade, o Pantheon foi a única banda da terra de Vermeer que saiu pelo Vertigo


"Purple Sky" (1969) -- Group 1850 (Focus, Supers e Trace indispensável junto com xx)

"Fallen Tree" (1970) -- Ahora Mazda

"De Steen Der Wijzen" (1971) -- Elly and Rikkert tb n consta FOLK

"Marc's Occasional Showers" (1972) -- Alquin

"Apocalyps" (1972) -- Pantheon  canterbury, ún holandes saiu vertigo

"Blue Sofa" (1973) -- Mayfly (n está no PA)

"Young Waters" (1977) -- Deirdre (outro folk q n consta PA)

"Keep Control of what I am" (1978) -- Kracq (lembra até o Kultivator)

"Aoife" (1978) -- Flairck , grupo todo acústico, com indonésio

"Karotten" (1978) -- Het Pandorra Ensemble soft machine, sonzeira, baixão










Thursday, July 21, 2022

Para se conhecer o Progressivo Holandês

Talvez pequena contradição aqui: a banda de rock progressivo estrangeira que mais vezes se apresentou no Brasil é de país cuja cena prog está longe de ser das mais prolíficas. Enquanto qualquer fã do gênero cita sem delongas cinco bandas alemães, italianas e inglesas, na hora de citar cinco holandesas é provável que ele empaque no Focus (a tal da banda que mais se apresentou) e peça cola ao google. Ou ao progarchives. A não ser, claro, esse fã seja um Marra, um Pizzato, um Munhoz, um Paiva, um Moura, um Ed, quem sabe até um von Sydow

Tendo voltado ontem de Amsterdam, animei para fazer minha lista básica. Como toda lista progressiva que se preze, é variada, indo do hard de Brainbox e Cargo, passando pelo canterbury do Supersister, pelo folk do Fungus, pelo orquestral-teatral do Groot e chegando ao sinfônico do Earth and Fire, Focus e Kayak. O Golden Earring não é propriamente banda prog, mas esta música é progressiva até a medula. São todas dos anos 70, com exceção de uma

Lamentável que quase banda nenhuma do país de Vermeer cante em holandês. As duas únicas exceções da lista são o De Groot e a Fungus, banda folk que está para a Holanda como Malicorne para a França. Sequer consta do progarchives

Pra compensar, temos o Irolt que canta em frisão

Vai de bônus a "Driving to Amsterdam", por afinidades óbvias e por ser Khan

 

"Dark Rose" (1969) -- Brainbox

"Heksensabbat deel Vier" (1969) -- Boudewijn De Groot 

"Song of the Marching Children" (1971) -- Earth and Fire

"Judy Goes on Holiday" (1972) -- Supersister

"Cross Talking" (1972) -- Cargo

"Love Remembered" (1973) -- Focus 

"Vanilla Queen" (1973) -- Golden Earring

"They Get to Know me" (1974) -- Kayak

"Paradoxical Moods" (1975) -- Finch

"De Gudrun Sêge" (1975) -- Irolt

"Opus 1065" (1975) -- Trace

"Het Vrouwtje Van's Hertogenbosch" (1976) -- Fungus

"Arctic Skies" (2005) -- King Eider


BONUS TRACK

"Driving to Amsterdam" (1972) -- Khan



                                         









Tuesday, April 12, 2022

O Rock Progressivo e seus Loops Maravilhosos

 

Ontem, depois de deixar o Dante na escola, fui caminhar um pedaço e me enfiei por umas ruas no sopé do Morro dos Macacos. Enquanto via casas interessantíssimas, percebi me olhavam entre curiosos e desconfiados. Terminei dando voltas na Praça Barão de Drummond, a Praça Sete, dominada pelo imponente Convento da Ajuda, onde há alguns meses encomendei missa para celebrar bodas com a Pampi

A praça encontra-se em estado deplorável, como a maioria dos logradouros públicos da cidade. Sendo manhã de segunda, a sujeira era particularmente acentuada

Para espanar a tristeza, fiz listinha mental de músicas de rock progressivo que terminam com loops memoráveis. Uma lista feita de cabeça, sem pesquisa, despretensiosa. O bacana será comentar o que esses loops têm em comum e no que se diferem. Ainda esta semana faço isto.

Goma :: "Shooting up" (1975)

Faust :: "Picnic on a Frozen River" (1973)

Steve Hackett :: "Shadow of the Hierophant" (1975)

Babe Ruth :: "The Runaways" (1972)

Liquid Scarlet :: "Lines are Drawn Again" (2005)

Beatles :: "I want you (She's so Heavy)" (1969)








Wednesday, February 02, 2022

Ange :: Paralém do Delírio


Não há como ser lado B aqui (bien, já estamos no lado B) : minhas duas bandas preferidas da cena progressiva francesa são as reconhecidamente maiores da dita cena: Ange e Magma. Por óbvio que é sempre uma questão de gosto, e vou adorar quem prefira Mona Lisa ou Wapassou, mas em termos de importância, produção e intensidade o lugar de proeminência que ocupam é tanto aceito quanto merecido. Quase como, em analogia, reconhecer a Santíssima Trindade PFM, Banco e Le Orme na mais rica cena italiana Se bem que aí a minha banda preferida é o Museo Rosenbach. Mas não compliquemos, falemos do Ange.

A postagem que sonhei escrever sobre eles -- uma resenha pormenorizada sobre Au-delà du délire, um dos discos da minha vida -- nunca saiu, mas algo das noites varadas empurrando o carrinho do insone Dante ao som do Ange registrou-se aqui.

Agora há pouco estávamos na Suíça e fomos passar dois dias em Lyon. Em meio aos bouchons maravilhosos, aos pralulines de sonho e aos traboules e lembranças de Juninho, uma única loja de discos na cidade velha. Onde me esperava a edição original do Au-delà du délire. Como me senti? Au-delà du délire.










Wednesday, January 12, 2022

Rock Progressivo Italiano : o Ano de 1972

 




Se 1971 marca o início de fato do rock progressivo italiano, 1972 fica sendo o ano da sua consolidação, com algumas bandas dando continuidade ao seu trabalho (Balletto, Formula 3, Le Orme, Osanna), muitas estreando (Garybaldi, Quella Vecchia Locanda), e outras, das mais seminais do movimento, estreando com dois discos (!) (Banco, Jumbo, Premiata). Há também aquelas que, infelizmente, lançariam seu único trabalho (Capitolo 6, Paese dei Balocchi, Reale Accademia di Musica)
 
Não olvidemos dos cantautori, com trabalhos de altíssima qualidade, alguns verdadeiramente históricos como os de Franco Battiato e Alan Sorrenti
 
São discos lançados em 1972 da minha coleção, alguns lançamentos não estão na foto porque não os possuo, como os dois do New Trolls
 
Gravado em 72, o Buon Vecchio Charlie só viria a ser lançado quase duas décadas depois
 
Teremos, portanto, muitos cinquentenários para comemorar!

Tuesday, January 04, 2022

Oi, Céu Azul

 


Falei já aqui de Out of the Blue (1977), ótimo disco duplo da Electric Light Orchestra (ELO) e postei a música "Mr. Blue Sky", o grande destaque do disco, da banda, do art rock / pop progressivo. Faltou dizer que a música é assim tão genial porque nascida de experiência de viagem / trabalho do Jeff Lynne. Ele na Suíça para compor e a pátria de Rousseau sendo a pátria de Rousseau: chuva, frio, 24 horas de céu plúmbeo. Ele não escreve nada, deprimido (não custa lembrar a pesquisa sobre o povo inuit de Andrew Solomon em seu monumental O Demônio do Meio-Dia, sobre a depressão). Mas uma manhã o sol dá as caras, Jeff o vê brilhando majestoso sobre os Alpes, fica tão maravilhado que compõe não apenas a dita cuja "Mr. Blue Sky", como outras treze canções. Em duas semanas. Acabou que o lado 3 do álbum virou "Concerto for a Rainy Day": três músicas sobre chuva e como o tempo pode afetar as pessoas e, em seguida, "Mr. Blue Sky". Out of the Blue não é um álbum conceitual e carece mesmo de um pouco de liga lá pro lado 4 (o famoso lado 4 dos discos duplos, hehehe), mas encaixar um concerto assim foi tirada de mestre.

Isso tudo para dizer que Dante e eu tivemos nossa "Mr. Blue Sky" na virada do ano. Refugiamo-nos no chalé 5 do lindo Moinho Azul em Prata dos Aredes, interior de Teresópolis. Tudo lindo, muita mata fechada, arapongas, uma varanda em um chalé que o Dante amou. Tanto que bateu seu récorde de sono. E muita chuva. Mas no último dia o sol saiu. Tímido, do jeito dele. Corremos pro rio. Duas vezes.



Friday, November 05, 2021

Equipe 84, Chico Buarque e o Menino Jesus

Equipe 84 foi das bandas beat mais famosas da Itália, naquele período proto-prog, indeciso ainda entre a cópia de modelos anglófonos e a tradição da canção italiana. Se não chega a gravar álbum veramente prog, como, por exemplo, I Giganti e seu esplêndido Terra in Bocca, pela Equipe passaram nomes como Franz di Cioccio e Maurizio Vandelli, que em 1972 produziria o primeiro álbum da Reale Accademia di Musica (e aqui comparem-se os acordes iniciais de "Un brutto sogno" com os de "Ognuno sa"). Para todos os efeitos, é lembrada em livros importantes sobre o movimento progressivo italiano, como o do Paolo Barotto, o do Maurizio Galia e o do Augusto Croce.

Em 1971, justo o ano inicial do progressivo italiano, Lucio Dalla apresenta no Festival de Sanremo (que nada tinha de prog e servia mesmo de contraexemplo para o movimento) sua canção "4 Marzo 1943" que termina em terceiro lugar e se torna grande sucesso na Itália. Acompanhou-o no festival a Equipe 84, que posteriormente gravou sua própria versão, que fez mais sucesso ainda que a do Dalla. Curioso, não? Não para por aí: o nome inicial da música era "Gesù bambino", mas para evitar problemas com a censura (!), Dalla trocou o nome para a data do seu aniversário.

Chico Buarque incluiu versão sua em Construção de 1971 com o nome de "Minha História". Está ali escondidinha, penúltima faixa do lado B, a única música do disco não composta por ele. E eu, que posso ser acusado de várias coisas menos de ufanista (ainda mais agora), acho que a versão do Chico -- o arranjo, a voz, a viola, a percussão, os vocais do MPB 4 -- põe a gente comovido como o diabo








Saturday, August 14, 2021

12 MÚSICAS PARA SE CONHECER A CENA PROG DE QUÉBEC

A cena progressiva canadense não se resume ao Rush, tampouco a cena progressiva francófona de Québec se resume ao Harmonium. Embora haja muitos elementos em comum, sendo o uso do francês presente em todas as bandas, não sei se dá para falar num estilo de prog de Québec, mas isso não interessa muito. Interessa que tenha muito para se explorar. Assim como na postagem passada, só citei o que gosto muito. Como gosto muito muito do Harmonium, citei duas. Poderia citar mais. Aliás, se só houvesse o Harmonium, a cena de Québec já seria a minha segunda preferida. =)

“Vieilles Courroies” – Harmonium

“Cocktail” – Morse Code

“La Femme Ailée”  – Pollen

“Dimanche“ – Jacques Tom Rivest

“Les Épinettes”  -- Maneige

Jos Coeurs (Fermeture) – Contraction

Genocide – Les Séguin

Checkmate – Miriodor

“La Bataille” – Conventum

“Potage aux herbes douteuses  – Sloche

“L’intersection”  -- Bregent

“Depuis l’automne” – Harmonium


 

 

 


 










Saturday, July 17, 2021

O Progressivo num Estalar de Dedos

Já estava para fechar mais uma série de rock progressivo com palmas (exemplos aqui e aqui), quando me deu um estalo: se é pra falar de mão como instrumento, por que não juntar músicas com aquilo que é tão querido pelos métodos audiolinguais mundo afora, o estalar de dedos?

Num estalar de dedos, lembrei da Þursaflokkurinn, também conhecida como Hinn Íslenzki Þursaflokku, da minha querida Sigmund Snopek III e uma tal de Gentle Giant (em quem, aliás, o Þursaflokkurinn mais que bebeu, embebedou-se). 

 

Na música  "Frá Vesturheimi, do álbum Þursabit (1979) a gente acha que com aquele clima de baixo e pratos, lá pelos 3'30'', só cabia mesmo estalar de dedos.

Do idiossincrático Sigmund Snopek III, do disco Seas Seize Sees (1974), do qual só eu pareço gostar no Brasil, a música "Arrival Boogie" (0:46).

 


 

Não preciso nem dizer onde ficam os dedos em "Just the Same", música que abre o Free Hand (1975) do Gentle Giant. Também tem palmas ótimas



Não é prog, but (estalos misturados com palmas)




Monday, May 31, 2021

Vanda Spinello, Capista do Rock Progressivo Italiano


A minha capa preferida do rock progressivo italiano é a do meu disco preferido do rock progressivo italiano. Não é marmelada. Sempre me fascinou, me perturbou essa colagem disforme, variegada, a que não falta a cara do Bufão mussolini. A contracapa não é menos perturbadora: aqueles braços cruzados: o empresário que esmaga outro (concorrente? sócio?) por cima do braço macilento onde se injeta heroína.

O disco mais oscuro do Formula 3, o Sognando e Risognando, também tem capa perturbadora: aquela roda abrindo o corpo da ragazza. Tortura.

Mesmo uma banda mais doce, digna mesmo do adjetivo pastoral, a Reale Accademia di Musica (top 5), tem trabalho gráfico que não se limita à marionete: o porco, o açougue, a faca, sangue. Na parte interiror o mesmo porco toca violino.

Por trás dessas três capas, um nome: Vanda Spinello, às vezes Wanda. Pelo volume de trabalho, pela presença marcante em discos seminais do movimento, está para o prog italiano como Roger Dean e Paul Whitehead estão para o inglês. Não pela temática, como ficou provado.

Achou pouco? Spinello é responsável ainda pelas capas dos dois primeiros do Premiata, bem como pelo Darwin! de um certo Banco del Mutuo Soccorso e pelo Melos, do Cervello. Também fez a do Il Grande Gioco, do Albero Motore.

Numa entrevista, Vanda Spinello afirma ter feito umas 250 (!) capas de disco. Uma coleção que certamente vale a pena, ainda que o ideal mesmo fosse visitá-la e encomendar-lhe um retrato do Dante.


 









A entrevista pode ser vista aqui.

 

Friday, May 21, 2021

Ninna Nanna

 Uma das músicas mais bonitas do progressivo italiano dos anos 70 não é conhecida por ninguém: "Ninna Nanna", do Stefano Testa, do seu único álbum de 77 (sim, também a ele esqueceram de avisar que o progressivo tinha acabado)

 
Violão, flauta, violoncelo e vocais de outro mundo (mais poético, de nuvens, alusões, onde o amor reagrupa as formas naturais)
 
A primeira música, a mais longa em seus 16', é sobre a morte e a vida de Cesare Pavese. Não é fácil, não poderia ser.
 
 

 

Wednesday, April 28, 2021

SAGRADO CORAÇÃO DA TERRA



Quem guarda tem.

 
Mexendo aqui no meu vinil do Sagrado Coração da Terra, encontro programa de show deles que fui em 1985 na Sala Funarte.
 
Impossível lembrar do meu 1985 sem lembrar do alumbramento que foi o Sagrado.
 
Pouco depois teve show deles no Parque Lage, abrindo para o Beto Guedes.
 
Eu estava ali para os dois -- Sagrado e Beto --, mas a grande maioria estava apenas pelo menestrel de Montes Claros. De modo que, após algumas músicas, começaram a demonstrar impaciência e esboçar vaias. E eu, sentado na marquise do Palazzo Romano, me levantei e mandei, aos berros, que fossem todos, em fila indiana, à merda.
 
E olha que nessa época eu nem bebia cerveja
 
Curioso que outro dia comentei isso com o Marcus Viana, o próprio, o homem por detrás do Sagrado. Ele disse não lembrar desse show.
 
Eu não esqueço

 


 


 

 

Tuesday, April 27, 2021

(O Progressivo entre) Os Melhores Discos Italianos de Todos os Tempos


Daquelas listas que a Rolling Stone gosta de fazer: melhores discos do ano, da década, da história, saiu na edição italiana de janeiro de 2012 uma lista dos 100 melhores discos italianos de todos os tempos. O foco, claro, era o rock, pop, pop rock, musica leggera.

E não é que.... há na lista oito trabalhos verdadeiramente progressivos? São eles, na ordem, e cumpre lembrar que não podia haver repetição de artista / banda :

9. Arbeit Macht Frei (73) - Area

44. Storia di un Minuto (72) - Premiata Forneria Marconi

51. Uomo di Pezza (72) - Le Orme

52. Aria (72) - Alan Sorrenti

59. Profondo Rosso (75) - Goblin

64. Sirio 2222 (70) - Balletto di Bronzo

85. Biglietto per l'Inferno (74) - Biglietto per l'Inferno

92. Darwin! (72) - Banco del Mutuo Soccorso


Agora é aquilo: o copo está meio cheio ou meio vazio? Pode-se sentar ao computador e enviar e-mails, extemporâneos e zangados, à revista:  Dove Museo Rosenbach? Dove Locanda delle Fate? Jumbo?! Campo di Marte?! Non so niente e só ouvem Eros Ramazzotti!!! (que não está na lista)

Ou pode-se arregalar as íris: caramba... oito discos foram lembrados!.... Biglietto!.... Um Alan Sorrenti progressivo!

Aos 15 anos eu teria escrito o e-mail. Hoje, 52, mais jovem e leve, arregalo as pupilas. Em um país com forte, fortíssima tradição de canção.... lembraram-se de oito discos progressivos.

Monday, April 26, 2021

O Velho Marinheiro de Coleridge no Rock Progressivo


Não apenas Shakespeare, Poe e Dante mexeram com corações, ouvidos e mentes do rock progressivo. The Rime of the Ancient Mariner, poema do inglês Coleridge que inaugurou o Romantismo, também chega junto.

Primeiramente temos um disco inteiro dedicado ao poema pelo inglês David Bedford, compositor de fatura erudita que também fez obras mais, er, populares. Que de pop não têm nada. Não é de fácil audição, mas muito bom. Um tal de Mike Oldfield toca guitarra aqui e quem quiser ouvi-lo mais nitidamente pode ir direto para 11'13" da parte II. Com Mike Oldfied e coral infantil, you can't go wrong. São dois minutos de puro nirvana.

Mappamondo, da banda italiana Errata Corrige, não foi lançado na época e só foi sair em CD em 1992. As primeiras músicas são de antes de Siegfried (1976) e dentre elas a longa faixa de quase dez minutos que tem por nome o poema de Coleridge. Bom. É um prog muito suave, começa muito bem com o acordeão, tem boas partes de guitarra e um sintetizador que parece do final dos anos 70. Em face do restante do disco, muito bom.

Décadas depois, em 2010, a banda Una Volta Eravomo in Sette lança disco também inteiramente dedicado ao poema, cantado em italiano, como já faz prever o título La Ballata del Vecchio Marinaio. Pelo que pude ouvir, ótimo.

Para não ficar por baixo, dois anos depois a Höstsonaten, do prolífico Fabio Zuffanti, também lança álbum para o poema, cantado em inglês. Como tudo do Fabio, há muito esmero: produção, letras, vocais, instrumentação. Só acho que poderia haver um pouco mais de ousadia. E lançar as mesmas músicas como instrumentais, sendo que só o vocal foi retirado, me parece um filler de que nem Roine Stolt em dia de preguiça seria capaz se fazer. E olha que adoro o Roine. Mas claro que o disco vale muito.

Fã de Pink Floyd, o também italiano Renato Pezzano lançou em 2018 um bonito Musique pour Enfants. A última faixa se chama "La ballata del vecchio marinaio".


Abrindo outras portas, o compositor inglês Howard Skempton também escreveu música para a bela declamação do barítomo Roderick Williams. Highly recommended.

"The Rime of the Ancient Mariner" fecha Powerslave (1984), do Iron Maiden. Em seus quase 14 minutos, a música mais longa da banda até então e muitos veem aqui o início do prog metal. Curioso que escrita por Steve Harris, o que mostra que Dickinson, com sua paixão por Blake, não era o único leitor na Donzela.


Por fim, na obra-prima Tabela Periódica, Primo Levi lembra sentir-se como o velho marinheiro quando precisa contar o que foi sobreviver a Auschwitz. Escrevi sobre isto e sobre Brennand aqui.








Sunday, April 25, 2021

A Cena Progressiva Zeneize


Tantos anos de audição e admiração pelo rock progressivo italiano nos levam a aprofundar a pesquisa, explorando bandas obscuras, cantautori,  projetos solo e, por fim, a geografia, isto é, as cenas específicas de cada região.

Faz diferença saber que Osanna vem de Nápoles e não de Milão? Que o Museu vem da Ligúria e o Campo di Marte da Toscana? Para mim, muita.

Nesse espírito que, há muitos anos, comprei Codice Zena, de Riccardo Storti, ótimo trabalho sobre a fabulosa e variegada cena progressiva de Gênova. De Gênova, uma cidade, e não da pequena região da Ligúria, tanto que duas bandas seminais do prog italiano -- Museo Rosenbach e Celeste --, ambas de San Remo, ficam de fora.

De ordinário curioso por palavras e nomes, aceitei Codice Zena sem pesquisas. Foi só muitos anos depois, comemorando o aniversário da Camila no restaurante Zena Caffè, em São Paulo, que, entre um gnocchi e outro, caiu a ficha: 'Gente, Zena é como se diz Gênova em lígure! Que máximo!' O que deixou o almoço ainda melhor.

Todo o meu respeito pela cena zena, zeneize, de que seguem exemplos da minha coleção.

PS: Fabrizio De André, genovês que gravou com a PFM em fins dos 70, tem álbum de 1984 inteiramente cantado em zeneize: Crêuza de mä.



 

A antologia ::: 











Bônus ::




Sunday, April 18, 2021

Deixa que eu Faço a Capa Também!

 


Contra aqueles que queiram ver aqui narcisismo do artista que quer ocupar todos os espaços, prefiro olhar mais generoso, algo como, relevem o exagero, Leonardo da Vinci, artista total.

Aliás, se não me falha a memória (cousa frequente), acho que Susan Sontag viu em Lennon esse artista pós-moderno, que joga nas 11: compõe, toca, canta, atua em filmes, pinta, faz performances.

(E talvez nem narcisismo nem artista total, mas... economia. John Entwistle falou que a capa de Quadrophenia custou 16 mil libras, o preço de uma casinha na época, enquanto o seu desenho para o Who by Numbers ficou por 32 libras. Que ninguém lhe pagou)

Minha proposta aqui é modesta, apenas juntar algumas capas feitas pelo próprio músico ou, no caso de banda, por um de seus integrantes.

Joni Mitchell é um caso especial, tendo feito a arte de mais de uma dezena de seus álbuns. E feito tão lindamente, que chegou a contribuir para outros: é dela a capa So Far (1974), coletânea de Crosby, Stills, Nash & Young.

No campo do progressivo, os poucos exemplo são significativos no que temos dois membros da banda fazendo a arte. Na obra-prima First Utterance, do Comus, o líder Roger Wootton pinta capa e contacapa, enquanto a arte interna é do guitarrista Glenn Goring. Em Landscape of Life, do Osanna, a capa coube ao baterista Massimo Guarino, e a arte interna ao vocalista / guitarrista Lino Vairetti.

 

  1969


 

 Self Portrait, Bob Dylan, 1970

 

    1970


    Teaser and the firecat, Cat Stevens, 1971


    1974

    John Entwistle, 1975

    Jerry Garcia, 1991

Progressivos ::

    Roger Wootton, 1971




    Glenn Goring, 1971

    Massimo Guarino, 1974



    Lino Vairetti, 1974

   Roine Stolt, 1975