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Wednesday, July 10, 2019

Marajó, Dalcídio Jurandir



Marajó (1947) é o segundo romance de Dalcídio Jurandir, então pela prestigiada José Olympio, que no entanto não tornaria a publicá-lo. Tenho a primeira edição autografada, um tesouro, mas a edição mesmo é recheada de erros.

O romance é recheado de acertos, embora não seja ainda o Dalcídio mais experimental, mais faulkneriano que teríamos vinte anos depois em Primeira Manhã. Mesmo para um regionalismo social de um Graciliano, tem uma carga excessiva de cor local.

A ação da narrativa se dá em Ponta de Pedras, cidade natal do autor que viria a morar em Cachoeira, Cachoeira do Arari, já devidamente imortalizada em Chove nos Campos de Cachoeira.

Chove nos Campos de Cachoeira, que nome mais lindo

Missunga sentiu a voz de Alaíde como se ela falasse do meio do rio, numa embarcação ao sabor da vazante. Aos poucos, algumas cenas de vaqueiragens, as escrituras do pai, Marta acuada no muro do cemitério, as donzelas que seu pai deixava , nos campos e nas beiradas, caídas e abertas como os peixes de Alaíde, despertaram-no confusamente. E deu com o olhar de Alaíde, tão parado, que não entendeu o que havia nele, de triste, um olhar que não se repetiria mais e que logo mudou, como surpreendido ou culpado. 



Thursday, May 09, 2019

Morrer talvez seja voltar para a poesia :: A Morte de Maria Behú


Qualquer leitor apaixonado do Rosa terá dificuldades em escolher qual a morte mais triste, mais tocante, mais inesquecível, se a de Diadorim, se a de Dito. O público em geral (sim, estou sendo um pouco esnobe, mas só um pouco) ficará com a de Diadorim, mais pela popularidade de Grande Sertão.

Eu não consigo escolher, porque dificulto tudo colocando na lista a de Maria Behú, no final (todas as mortes ocorrem no final) deste monumento que é a novela (romance?) "Buriti", que magistralmente encerra o ciclo do Corpo de Baile.

A de Diadorim nos dói porque a acompanhamos por toda a torrente do Grande Sertão, conduzidos justamente por quem mais a amou, Riobaldo. A do Dito nos dilacera (eu não posso nem lembrar, como o Miguel, seu irmão crescido, diz : "não posso demorar o pensamento nele. Tenho medo de sofrer") porque ele é uma criança, uma criança perfeitinha demais.

Com Maria Behú, "tisna, encorujada, com a feiíce de uma antiguidade", tudo é mais complicado, por não ser cativante, por parecer que só existe para ressaltar o esplendor de sua irmã Glorinha.

Mas não foi por compaixão que ontem chorei a água de dois cocos (re)lendo seu encantamento:

"Meu Deus, e aquilo se dera, atroz, tenramente, na noite, na calada. E era possível! Maria Behú, sem perfil, os olhos fechados, nos lábios nem sofrimento nem sorriso, e a morte a embelezara. Partira, na aurora. (...) Ela se fora antes. Todos, enquanto vivendo, estão se separando, para muitos diferentes lugares. Maria Behú, também princesa.

(...)

O Chefe ainda não soubera da morte de Maria Behú; quando disseram a ele, então foi depositar o caneco num degrau, e chorou muito.

(...)

Lalinha se lembrava -- uma ideia, que na ocasião não criara sentido. E, agora, era capaz de não chorar por Behú -- tanto a amava, tanto a compreendia, de repente. E aquilo, sem razão nenhuma nem causa, sim: -- Morrer talvez seja voltar para a poesia..."

Sunday, April 14, 2019

Dona Tatá, Milho Verde-MG


O endereço de Dona Tatá: entre a Nossa Senhora do Rosário e a dos Prazeres, numa das bem poucas ruas que formam Milho Verde. Se você botar assim na caixa com goiabada cascão: Dona Tatá / Entre a Rosário e Prazeres / Milho Verde-MG, chega, o carteiro acha.

Mas talvez seja tolo presenteá-la com goiabada cascão, que ela encontra por lá, então talvez seja melhor azeite de dendê. Ou uns tamarindos daqui do Grajaú, catados depois de ventania.

Em seu pequeno repertório lexical, em que nomeia apenas as suas coisas importantes -- como 'rua', 'não' e 'chocolate' (tssss) --, Dante só chama Pampi de Tatá. Tatá, oxítona, que se ele diz táta já está dizendo batata.

Pois. Não foi um encontro bom ali em Milho Verde?

E Tatá podia ficar sendo Rosalina, Lina, mas sem perder o nome:


"Velhinha, os cabelos alvos. Mas, mesmo reparando, era uma velhice contravinda em gentil e singular -- com um calor de dentro, a voz que pegava, o aceso rideiro dos olhos, o apanho do corpo, a vontade medida de movimentos, -- que a gente a queria imaginar quando moça, seu vivido. Velhinha como-uma-flor. O rastro de alguma beleza que ainda se podia vislumbrar. Como de entre as folhas de um livro-de-reza um amor-perfeito cai, e precisa de se pôr outra vez no mesmo lugar, sim sem perfume, sem veludo, desbotado, uma passa de flor. Disse: -- "Meu Mocinho..." Mas dizia depressa, branda e enérgica, que nem que "meu-mocinho" um nome fosse, e que ele mesmo fosse dela, por bem que tantos cuidados não o prendiam nem vexavam. Ela olhava reto. O que falava -- a gente fazia. Mandava sem querer. Lélio se sentou no banquinho baixo. Ela disse que ele ia ficar para almoçar. E ali reinava um sossego." 

(...)

"E dona Rosalina, que nunca mudava, tinha como que naqueles olhos, diversos de todos, um exato de coisas que ele precisaria de um existir sem fim para aprender, mas que cabiam também no momento de um só olhar de bem-querer."


'A Estória de Lélio e Lina' 
Guimarães Rosa












Wednesday, April 10, 2019

Quando Rosa é doce



Quando Rosa pega pra ser doce e terno, não tem pra ninguém. Às vezes acho ele escrevia meio bêbo, no sentido baudelairiano ao menos, de que é preciso sempre estar.

-- "O burití é a palmeira de Deus!" -- ela disse, disse. Lélio se lembrava dos gestos de sua mãe, e, como êsses vaqueiros do Alto Urucúia, relatava coisas ao cavalo. Mais se contentava, sem pensamento, perto de tudo. Ela estava com um plastro branco na ponta de um dedo, machucado em qualquer parte. Seu nome era que lindo por lindo, qual retinia. No que não havia risco de ninguém ver, pois já estavam de saída, êle o escreveu, porção de vêzes, nas costas das fôlhas das piteiras. Mas ao cavalinho pampa os nomes que dela disse foram outros: Minha-Menina, a Môcinhazinha, Sinhá-Linda...

"A Estória de Lélio e Lina"

 

Monday, April 08, 2019

Clarice e os 80 tiros em Guadalupe




Em 1964 (!) foi publicado pela Editora do Autor (aqui) A Legião Estrangeira, de Clarice Lispector, seu sétimo lançamento. A primeira parte traz os contos (e alguns eternos estão lá), enquanto a segunda intitula-se "Fundo de Gaveta", sugestão do Otto Lara Resende (aqui).

Tudo aqui vale muitíssimo a pena. E no fundo do fundo da gaveta, os textos se seguem uns aos outros na mesma página, está lá o Mineirinho, o bandido assassinado com treze tiros.

Quando bastava um só.

O texto é um soco no estômago. E o que diria Clarice dos 80 tiros?



"Esta é a lei. Mas há alguma coisa que, se me faz ouvir o primeiro e o segundo tiro com um alívio de segurança, no terceiro me deixa alerta, no quarto desassossegada, o quinto e o sexto me cobrem de vergonha, o sétimo e o oitavo eu ouço com o coração batendo de horror, no nono e no décimo minha boca está trêmula, no décimo-pimeiro digo em espanto o nome de Deus, no décimo-segundo chamo meu irmão. O décimo-terceiro tiro me assassina -- porque eu sou o outro. Porque eu quero ser o outro.

'Essa justiça que vela meu sono, eu a repudio, humilhada por precisar dela. Enquanto isso durmo e falsamente me salvo. Nós, os sonsos essenciais."

Monday, April 01, 2019

De Ninhos e Lambrequins


Do recém-lançado livro do Washington Takeuchi -- Saudade do Ninho: A Cidade de Madeira que Existe Dentro de Curitiba --, falo depois.

A postagem é só para lembrar que ele é cheio de lambrequins, o que inspirou, ainda no voo, poema de circunstância:

No título do livro Saudade do Ninho
a letra i é um lambrequim

O título bonito traduz
a palavra nostalgia
mas dá pena ele não seja
pirlimpsiquice



Monday, March 18, 2019

Crônicas Amazônicas IV : Que livro levar


Que livro levar para Manaus e para a selva, para o tempo que sobra entre um tambaqui e outro, entre um lago e um igapó, entre pesca de piranha e sesta na rede, entre a rede e o tambaqui, igapó e sinuca, entre Novo Airão e o Tupana?

Pensei em A Mata Submersa, de Peregrino Júnior, mas fiz bem em deixá-lo no Grajaú: textos que pesam a mão no regionalismo e não transcendem o causo. Interessantes, ainda.

Levei foi o Dalcídio Jurandir, que li muito tão logo o descobri, isso no começo dos 90.

Que reencontro.  

"Mas adeus? Adeus nesta perneira rangendo até o pescoço? Adeus? Despedir-me dos fantasmas que me habitam? Ah nem bateu as sete e meia e já neste sol suando feito um recruta no rumo do quartel, ou atrás da oculta e renegada Luciana? Adeus? O raio também vai me abrindo um caminho, não na rua, nuvem ou rio, mas em mim mesmo, neste verdoengo e secreto ser que sou."

"O que restou deles dois boi pisou, cobriu com a sua obra verde, logo dura no sol? Não mais aquela nem a de agora, e esta, aonde? Tornarem-se amigos, como se ensina o modo? Amantes? Amantes de tal pegadio só por força do Guajará, o lago que faz soar coisas no fundo, puxa por baixo o mar de longe, aí sempre os dois amantes, dos dois dobrado o encanto." 

Minha edição de 'Primeira Manhã' tem o autógrafo ao Valdemar Cavalcanti, poucos dias antes de eu nascer

Monday, November 19, 2018

A Era da Ansiedade


Bar Don Juan (1971) , romance de Antônio Callado que tematiza a malograda tentativa de um grupo desunido para pôr fim à ditadura então mais violenta que nunca, é divido em três partes, em que se espraiam 12 capítulos.

A serendipity aqui é que comprei o livro (a primeira edição numa rua do Leblon) justo quando ouvia muito Bernstein, pelo centenário.

E as epígrafes são justo retiradas de The Age of Anxiety (1947), de W. H. Auden, que Bernstein musicou já no ano seguinte na peça que seria a sua segunda sinfonia.

E tudo tão ligado a novembro de 2018, a era da ansiedade.


Parte1

"When the historical process breaks down... when necessity is associated with horror and freedom with boredom, then it looks good to bar business"

Parte II

"I must go away with my terrors
until I have taught them to sing."

Parte 3
But we mustn't, must we? Moses will scold
If we're not all there for the next meeting
     At some brackish well or broken arch,
                                         Tired as we are."





Saturday, November 17, 2018

Callado e Meu Avô


Escrevi recente sobre o romance Don Juan (1971), de Antônio Callado, para tratar, feliz, da referência, logo nas primeiras páginas, a um quadro, a um qualquer quadro, de Nilton Bravo em um botequim (aqui).

O romance, por óbvio, merece lembranças e postagens por outros diversos motivos. Ele começou bem (e não apenas pelo Nilton Bravo), depois esfriou, mas terminei de olhos molhados.

Havia um folclore entre os von Sydow que quando Callado esteve preso no terrível quartel da Barão de Mesquita, meu avô, que morava ali perto na Rua Uruguai, foi visitá-lo. Callado de fato foi preso, em duas ocasiões, e teria dito a meu avô que foi dele sua única visita recebida.

Biruta do jeito que meu avô era (aqui), não duvido que ele tenha subestimado os riscos e de fato ido, a pé, visitá-lo.

A postagem é para dizer isso. Era para outra coisa, era pra falar das epígrafes do livro, retiradas do Auden, mas botei meu avô no meio e agora já acho que isso inunda a postagem inteira.

Sunday, November 11, 2018

A Modelo da Playboy, o Autismo e os Votantes do Bozo



Neste 2018 completam-se 20 anos do início daquela história de que vacinas -- em especial as que contém timerosal, onde a segunda sílaba significa mercúrio -- podem causar autismo. Muita, mas muita água mesmo rolou, como tão bem documentaram John Donvan e Caren Zucker no penúltimo capítulo de Outra Sintonia - A História do Autismo.

O corolário de todo o imbróglio é que Andrew Wakefield, que tudo começou com um artigo na Lancet, foi não apenas desmascarado como teve seu registro médico cassado.

Trago isso à baila porque cerca de dez anos depois do artigo inicial, ou seja há coisa de dez anos atrás, quando a campanha contra as vacinas já estava perdendo ímpeto, uma ex-modelo da playboy de nome Jenny McCarthy abraçou a esparrela contra a vacinação. Quando indagada acerca de sua formação, declarou a sua falta completa de educação formal em medicina, psicologia, nutrição ou em qualquer coisa relacionada com a ciência: "Foi na Universidade do Google que tirei o meu diploma".

Gente, isto não lembra tanto os votantes do Bozo?? E o próprio Bozo que ainda ontem declarou que brasileiros têm tara por ensino superior?

Wednesday, November 07, 2018

Um Nilton Bravo em Antônio Callado


Começa muito, muito bem Bar Don Juan, romance de 1971 de Antônio Callado. Em pleno anos-chumbo pós-AI-5 tem que ter culhão para iniciar uma obra com dois personagens, os lindos João e Laurinha, relembrando em seu apartamento em Santa Teresa a tortura e o estupro que esta sofrera nas mãos de um torturador de nome Salvador.

João vai em seu encalço na Polícia Central na Rua da Relação. De tocaia no Bar Atlas, botequim na Rua dos Inválidos aonde os policias iam tomar café, o que João encontra?

"E muitos comiam ali também, na base do ovo duro e do sanduíche de pernil com uma cerveja, sentados nas cadeiras azuis do bar, de armação metálica. Tomando seu primeiro cafezinho no Atlas, João não viu ninguém que pudesse ser Salvador. Voltou na manhã do dia seguinte, para uma média com pão torrado, e deixou-se ficar um tempo à mesa (...) Voltou à mesa e, como quem faz cálculos de cabeça, deixou vagar os olhos pelo mural do botequim, um grande lago enluarado, bordado de salgueiros, com um misterioso castelo à direita e dois cisnes se beijando entre nenúfares"

João encontra um Nilton Bravo, no qual descansa atormentados olhos.

Callado é fiel -- e isso nem é mérito ou demérito -- ao Rio factual do final dos 60. Provável que o Atlas tenha de fato existido. Não deixou traços, não consta do inventário de João Antônio (aqui) e muito menos (*sigh) constará do meu (aqui). Permanece, no entanto, eterno. Intacto, suspenso no ar.


Monday, October 01, 2018

TUTAMÉIA Ou Como um Fraquejada derrota os Truculentos



Foi seu amigo Paulo Rónai quem disse, acerca de Tutaméia, que "cada qual descobrirá dentro das quarenta histórias a sua, a que mais lhe desencadeia a imaginação", ficando ele mesmo ("Seja-me permitido citar as duas que mais me subjugaram pela sua condensação") com "Antiperipléia" e "Esses Lopes".

Acabei de ler Tutaméia pela terceira vez. Na primeira, em 88, fiquei aturdido demais e talvez seja apropriado dizer que não é livro para se iniciar em Rosa, mas mais apropriado é que não há o livro para se iniciar em Rosa. A segunda, sete anos depois, foi profunda. Mas porventura interessada demais: era livro para o ingresso no mestrado na PUC-Rio. A terceira foi esta, totalmente desinteressada, naquela hora entre 6 e 7 da manhã, papagaios e sabiás em algazarra por sobre meu ombro esquerdo.

Eu amei essa nonada toda, esses ossinhos de borboleta, eu quero agora voltar pro Serro.

E "Esses Lopes", o que é isso? Como sublinha com exatidão estes nossos dias, como deve inspirar a quem quiser lutar contra a misoginia chancelada por grande parte da população. (Ver aqui)



Má gente, de má paz; deles, quero distantes léguas

Quero falar alto

Com eles, nenhum capim, nenhum leite.

Ainda achei o fundo do meu coração

Regi de alisar por fora a vida

Custoso que nem guardar chuva em cabaça, picar fininho a couve


Que em meu corpo ele não mexa fácil

Tuesday, September 11, 2018

Rosa, Soberbo


Preciso como minha vó contando seus causos: esquecia tudo. Pois: sei que foi um escritor brasileiro falando de um francês e o que dizia era: invejava quem nunca o tivesse lido porque aí poderia fazê-lo pela primeira vez.

Possível que fosse Jorge de Lima ou Murilo Mendes falando de algum escritor católico, talvez Bernanos.

Eu sentia assim em relação a Guimarães Rosa, pois quando descobri de amar li tudo de uma vez só, li e reli, que sou assim completista

Faltavam "Os Chapéus Transeuntes".

No Dia dos Namorados deste ano almoçamos e depois esbarrei num sebo, desses de calçada, onde comprei Os Sete Pecados Capitais, 1964, em que cada romancista escreve sobre um pecado.

O primeiro é precisamente o já então consagrado João Guimarães Rosa, a tratar da soberba. Deixei para o final e quando a ele cheguei, já animadíssimo com a alta beleza dos outros seis pecados, a cargo de Mário Donato (ira), Guilherme Figueiredo (gula), Carlos Heitor Cony (luxúria), Otto Lara Rezend (avareza), José Condé (inveja) e Lygia Fagundes Telles (preguiça), foi para encontrar nonadas assim:

Eu queria que ela quisesse, que aquiescesse, que viesse, longe dos outros, só para me comigo, igual à minha ternura, só para mim.

Wednesday, August 08, 2018

Este é o nosso mundo


O livro de cabeceira do Peru foi o Collected Stories, do Paul Bowles, porque eu já estava avançado nele e não queria largar. Acabou que vieram muito a propósito, principalmente na longa espera do voo de Cuzco.

Todos sabemos que Bowles realiza-se melhor nas histórias ambientadas no Magrebe. De quebra há aquelas que têm como setting a América Latina. Há já aqui um conjunto de narrativas de causar inveja a Fitzgerald. Mas é "The Frozen Fields", escrita em 1959 entre Londres e Sri Lanka, que quase ocupa a primazia no panteão das obras-primas do autor.

A história, dentre outras coisas, nos fala de um homem intratável. Pai odioso, marido intolerável. A repulsa baldada da família (simples) da mulher a ele. O filho pequeno com o rosto esfregado na neve.

Na volta, troco o Bowles por El Pez en el Agua, porque queria comprar um Llosa em sua Arequipa natal, em que pesem as recentes escorregadas do autor.

E está lá, já no primeiro capítulo: o pai insensível, arrogante, egoísta e violento. Que abandona a mulher grávida e volta apenas dez anos depois para exigir direitos. Como o de oprimir mulher e humilhar e espancar filho.

Já não era ficção, eram memórias.

Wednesday, June 20, 2018

Lugares Distantes :: Andrew Solomon


Descobrir que Andrew Solomon tem livro novo -- com seus relatos de viagens -- é de fato um presente. E descoberta feita não numa tela de computador ou conversa, mas atopar com o lançamento na livraria. É de fato um presente.

Me inspira e constrange como Solomon produz tanto, um pouco como ouvir a Quinta de Schubert e lembrar que ele não tinha nem vinte anos. (E aquele Allegro.)

No sumário descobre-se que ele irá tratar da União Soviética, Rússia, China, África do Sul, Taiwan, Turquia, Zâmbia, Camboja, Mongólia, Afeganistão, Brasil (o capítulo se chama "Rio, cidade da esperança", devo pular para ele como fiz com o Longe da Árvore?), Gana e Romênia. Dentre outros.

Eu não tinha dúvida de que continuaria a viajar de qualquer forma, mas passei a me sentir duplamente justificado para explorar lugares cada vez mais distantes.

E pouco depois, ainda na introdução, narra vivência na Cidade da Guatemala, aonde fora pesquisar as gangues locais:

Achei-me no bairro pobre de La Limonada. Um senhor de idade com um rebanho de cabras aproximou-nos de nós. "Você com sede?", perguntou o delinquente juvenil que estava me mostrando as redondezas. Eu disse que sim, e o pastor ordenhou uma das cabras diretamente num grande copo de papel e entregou a mim. Nunca gostei tanto de uma bebida.

Sunday, March 04, 2018

São Cristóvão, de Victor Giudice



Ou muito me engano ou ninguém mais lê Victor Giudice. Eu ia começar a postagem assim. Bobagem, melhor ir direto: ninguém mais lê Victor Giudice. Aliás, ninguém mais lê nada. Quem lê prosa de ficção no Brasil? Ninguém. Cito amigo meu português, colega blogueiro: "Anestesiados, cada vez mais anestesiados, com lixo digital e demais porcarias, deixamos que tudo à nossa volta se vá transformando em ruína e sobras. Nada disto faz sentido, este estado lamentável de coisas não faz sentido."

E no entanto falava eu de Victor Giudice, cada início de conto que vale o livro inteiro, vale toda uma literatura, tanto ele sabe disso que assim começa seu "São Cristóvão":

Até 1968, o campo de São Cristóvão era um jardim sob encantamento. Hoje, a exemplo de coisas muito queridas que se dissolvem, é um jardim encantado. Só quem deslizou em seus caminhos de terra amarela, protegido pelas copas sanguíneas dos falomboyants, sob a vigilância dos elefantes de fícus, e indiferente às flores, cultivadas apenas para serem lembradas muito depois de extintas, é capaz de acreditar em magia.

Perdi meia hora em releituras e correções deste começo, inseguro sobre o efeito que faria quando lido pela dupla, talvez pela trinca. Eu achava que a providência mais urgente a ser tomada seria dar uma ideia da validade mítica do ambiente onde tudo ia acontecer. O bairro de São Cristóvão tão mítico e atraente quanto a ilha habitada por Caliban, n'A tempestade, de Shakespeare.















Wednesday, February 21, 2018

Observações do Observatório ::: Crônicas Indianas X


Empolguei ao saber que Cortázar tinha livro sobre Jantar Mantar, os observatórios astronômicos mandados construir por Jai Singh II em cinco cidades do norte da Índia entre 1724 e 1735. Se não me equivoco, o de Jaipur é hoje o mais conhecido e nele está o maior relógio de sol de pedra do mundo, mais preciso que o mais preciso relógio suíço.

Empolguei ainda mais ao saber que o próprio Julio tirara aos fotos dos enormes instrumentos astronômicos, de modo que o livro já estava na fila de leitura antes mesmo de visitar o Jantar Mantar de Jaipur. Ao voltar de viagem, pois, foi só fazer a fila andar.

Não atendeu às expectativas. Ao tentar estabelecer relações entre suas observações do observatório de Jaipur e um artigo publicado no Le Monde em 1971 sobre os ciclos das enguias, Cortázar nos presenteia com uma prosa confusa e pretensiosa, de que a poesia praticamente se ausenta.

As fotos, segundo ele tiradas com um filme de má qualidade, mas 'consertadas' posteriormente, são até muito boas, embora a edição que tenho (segunda edição da Perspectiva, 1985) não ajude sua fruição.

Mas : 

também o céu é assim nas noites limpas quando as estrelas se amalgamam numa mesma pressão, conjuradas e hostis, negando-se à contagem, às nomenclaturas, opondo uma aveludada inalcançabilidade à lente que as circunda e abstrai, amontoando-se às dezenas, às centenas num mesmo campo visual, obrigando Jai Singh a banhar as pálpebras no bálsamo que seu médico extrai de ervas enraizadas nos mitos do céu, nos cruéis, alegres jogos das deidades fartas de imortalidade.