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Sunday, June 19, 2022

De "Torto Arado", Jarê & Outros Atabaques

Gostei de Torto Arado, de Itamar Vieira Júnior. Não amei. Tudo bem que nem todo livro / disco / filme tem que mudar sua vida, mas é que achei pobre o trabalho com a linguagem, por vezes me lembrando mesmo alguns livros que éramos obrigados a ler nos anos 80 no Colégio São José, como Justino, o Retirante. No Ensino Fundamental

Mas a trama é muito boa, a história das meninas, da faca. Muito bom também o teor de denúncia e de desromantização do que foi o ciclo do diamante no sertão baiano. Ótimo também o último capítulo, "Rio de Sangue", em narrativa que se dá em torno do Rio Santo Antônio e do Rio Utinga, pela mudança de ponto de vista, o que nos faz lembrar O Som e a Fúria, do Faulkner. O ponto de vista deste capítulo cabe a uma encantada!

Repensando assim, gostei, gostei bastante, a leitura como que coincidindo com minha viagem à Chapada. Pois fui conhecer o famoso terreiro de jarê, o Palácio de Ogum e Caboclo Sete Serras, na Capivara. Dois dias antes, conheci Mussum, que foi desse terreiro e hoje tem o seu próprio 


Eram famílias que depositavam suas esperanças nos poderes de Zeca Chapéu Grande, curador de jarê, que vivia para restituir a saúde do corpo e do espírito aos que necessitavam.


Para chegar à Capivara, só moto, mototáxi. Eu apavorado. Como ficara para visitar os Pankararu em 2019 (aqui), como ficara para chegar ao Céu, em Marajó (aqui). Apavorado na ida, destemido na volta. Atravessamos areais, atravessamos dois rios. No segundo, da Capivara, pedi para parar na volta, mergulhei e tive a certeza de que a Chapada é dos lugares mais bonitos do mundo. Melhor dito: a Chapada Diamantina é o lugar mais bonito do mundo. Empatada com muitos outros (nem é competição), mas second to none

No Palácio de Ogum fui recebido por Sandoval, babalorixá filho de Pedro de Laura, a grande influência do jarê na Chapada

Muito bem recebido, na enorme casa, no grande silêncio. Ele e seu filho me deram uma canja dos poderosos atabaques. O grande, segundo ele, faz-se ouvir em Lençóis. A dez quilômetros 













Mussum


Sunday, March 20, 2022

Ler as Marcações no Livro : Eugene Onegin



Desolação total no meio do capítulo sete de Eugene Onegin. Tatyana não só teve seu amor por Eugene desprezado como viu este matar em duelo o noivo de sua irmã caçula Olga. Esta, porém, não ficará de luto por muito tempo, casando-se pouco depois com novo pretendente (algo como um J. Pinto Fernandes / que não tinha entrado na história). Com o casamento, sai de casa, claro

Agora Tatyana está inteiramente só com a mãe em sua casa afastada. Inverno russo. Alguns anos se passaram e Eugene, ostracizado (não que isso lhe doa muito), mudou-se. Tatyana continua apaixonada e se entrega aos passeios pelos campos. Numa cena de rara beleza crepuscular, vê-se defronte à casa onde Eugene morava. Entra, com a permissão do velho caseiro. Não de todo satisfeita, volta no dia seguinte para examinar os livros! E esse exame se detém nas marcações que Eugene fizera! As marcações que o homem que ela tanto amava deixara à margem dos livros. 

Isso é muito lindo. É o exame atento dessas marcações que lhe permite conhecer melhor aquele a quem  tanto amou.

Tchaikovsky omitiu esta cena de sua ópera. Prokofiev manteve

 

Some pages still preserved the traces

Where fingernails had sharply pressed;

The girl’s attentive eye embraces

These lines more quickly than the rest.

And Tanya sees with trepidation

The kind of thought or observation

To which Eugene paid special heed,

Or where he’d tacitly agreed.

And in the margins she inspected

His pencil marks with special care;

And on those pages everywhere

She found Onegin’s soul reflected—

In crosses or a jotted note,

Or in the question mark he wrote.

 

Há uns seis anos fiz postagem sobre esse nosso (meu e do pai) hábito de sublinhar e anotar em livro. Está aqui.

Thursday, February 17, 2022

Os Sonetos de Seth. E o meu

 

Na pequena mesa da sala livros recém-chegados esperam sua sorte: colhidos para a leitura ou para a estante (o que não impediria leitura posterior, claro). The Golden Gate, de Vikram Seth, estava ali há alguns meses, a gente se entreolhando, ele bem vendo que outros passavam-lhe a frente, recém-chegados ou não.

 Há poucos dias comecei a lê-lo e aconteceu o que suspeitava: achei genial. Estou apenas chegando à metade mas para um amante de sonetos como eu, uma narrativa escrita toda ela em sonetos Pushkin (ou estrofes Onegin, de vez que foi como o poeta russo escreveu seu Eugene Onegin, inaugurando a forma) dificilmente não iria me cativar. São 590 sonetos para ser preciso, no invariável esquema monostrófico ABABCCDDEFFEGG, sempre em tetrâmetros iâmbicos, isto é, versos octossílabos. Bem, até poderia dar errado, o domínio de uma técnica não resulta necessariamente em obra de arte, mas o humor de Seth (wit), seu vocabulário coloquial e também refinado (diction), seu conhecimento de mundo resultam em sonetos deliciosos, que invariavelmente termino de ler com sorriso, quando não aberto riso. E depois de ler dois, quinze, trinta, a gente fica com os tetrâmetros na cabeça (fraca-forte / fraca-forte / fraca-forte / fraca-forte) e tem vontade de só falar assim, até na hora de pedir um chopp ('GarÇOM queRIdo, TRAZ um CHOPP').

Abaixo dois exemplo de Seth, que narram o momento em que John tem seu primeiro encontro com uma pretendente (sonetos 2.36 e 2.37). Em seguida, soneto que escrevi na varanda, com os tetrâmetros martelando na cabeça. Não acho muito fácil escrever em tetrâmetros, prefiro os decassílabos, e tampouco acho o português muito apto para eles, de vez que tem palavras maiores que o inglês.

Bem representativos esses exemplos do Seth: coloquiais, divertidos, mas com um rigor espartano por detrás. Amei a rima "I'm / time".

 

"She's lovely," John thinks, almost staring.

They shake hands. John's heart gives a lurch.

"Handsome, all right, and what he's wearing

Suggests he's just returned from church...

Sound, solid, practical, and active,"

Thinks Liz, "I find him quite attractive.

Perhaps...." All this has been inferred

Before the first substantive word

Has passed between the two. John orders

A croissant and espresso; she

A sponge cake and a cup of tea.

They sit, but do not breach the borders

Of discourse till, at the same time,

They each break silence with, "Well, I'm --"

 

 

Both stop, confused. Both start together:

"I'm sorry --" Each again stops dead.

They laugh. "It hardly matters whether

You speak or I," says John: "I said,

Or meant to say -- I'm glad we're meeting."

Liz quietly smiles, without completing

What she began. "Not fair," says John.

"Come clean. What was it now? Come on:

One confidence deserves another."

"No need," says Liz. "You've said what I

Would have admitted in reply."

They look, half smiling, at each other,

Half puzzled too, as if to say,

"I don't know why I feel this way."



O meu soneto:


Se todo dia tem suas horas

(ao todo 24, não?)

é a hora do sol ir embora

que mora no meu coração

se rola cigarra, aí ferrou

melancolicamente eu vou

lembrando as coisas que perdi

a cigarrinha cicia em si

em lá, em sol e aí, né, quem

aguenta? para não chorar

retorno ao velho patamar:

Folheio o Seth, abro uma Heineken

e minha dor tão má, em cacos,

Escala o Morro dos Macacos

 

Da série 'se explicar estraga?': claro que há ambiguidade em "a cigarrinha cicia em si": em si mesma e na nota si. Também aliteração e onomatopeia: a cigarinha cicia em si . Mas o mais legal é que como o eu-lírico se põe a recordar o passado, a cigarra canta de trás pra frente: si-lá-sol. A nota sol a lembrar também o sol que se põe. Já que falamos em notas, ao fim a dor escala o morro. E ainda a rima: aí, né, quem / Heineken.

Thursday, November 04, 2021

A menina que repetia palavrões baixinho, para aprendê-los

No trigésimo capítulo da primeira parte de Ressurreição, o narrador nos descreve a cela para qual retorna Máslova, que acabou de ser julgada e sentenciada a quatro anos de trabalhos forçados na Sibéria.

 A cela em que Máslova ficava era um cômodo comprido, de nove archin de comprimento e sete de largura, com duas janelas, uma estufazinha proeminente com paredes esfoladas e beliches feitos de tábuas rachadas pela secura, que ocupavam dois terços do espaço da cela. No meio, em frente à porta, havia um ícone escuro com uma velinha de cera colada e com um empoeirado buquê de sempre-vivas embaixo. Junto à porta, à esquerda, havia um lugar enegrecido no chão, onde ficava uma tina fedorenta. Tinham acabado de fazer a chamada e as mulheres já estavam trancafiadas para a noite.

Ao todo, os residentes na cela eram quinze: doze mulheres e três crianças.

Segue-se a caracterização das prisioneiras, magistral e dura, dureza só atenuada pela presença das crianças. É justamente uma dessas crianças que nos fornece a parte mais bonita, exemplo perfeito do conceito de "detalhe sensível".

Quatro das doze mulheres estão de pé à janela, interagindo aos gritos com os prisioneiros no pátio. E agora:

Sua filha, uma menininha de sete anos, de cabelos brancos e desgrenhados, só com uma pequena camisa e mais nada, estava ao lado da ruiva, segurava-a pela saia com a mãozinha magra e miúda,e com os olhos parados, escutava atentamente as palavras obscenas que as mulheres trocavam com os prisioneiros e as repetia num sussurro, como que para aprender.

 

O grifo acima é meu, e repito: "escutava atentamente as palavras obscenas que as mulheres trocavam com os prisioneiros e as repetia num sussurro, como que para aprender."

Muitos escritores calibrados podem descrever com desembaraço uma cela de prisão e narrar a interação entre algumas de suas ocupantes e prisioneiros pela janela. Só um grande escritor irá se deter nesse detalhe sensível -- da criança que repete palavrões baixinho para memorizá-los --, revelando excepcional poder de observação, utilizado aqui para humanizar ambiente tão hostil.

Sem falar que é um detalhe extremamente cinematográfico.

Wednesday, October 27, 2021

POETA DENTRO DA VIDA


Este livrão maravilhoso sobre o Vinícius estava ali, no espaço de leitura da Pousada do Marujo, onde esperávamos, não sem ansiedade por parte do pequeno, a hora do café

Percebi havia dois
 
De volta ao quarto, mandei mensagem para a dona do hotel, caprichando na voz muito melíflua e tal
 
No dia seguinte ela me presenteou o livro
 
Algo semelhante acontecera em 2014, quando Pampi e eu descobrimos deslumbrados improvável livro da Sandy Denny em nosso hotel de Olinda, hoje aqui em casa
 
Quase aconteceu também no Sêrro , final de 2018, com livrão formidável sobre Conceição do Mato Dentro. Pedi, improvisei soneto, fiz voz de bichinho, mas a proprietária, 90% de minério na alma, não anuiu
 






 

Tuesday, April 13, 2021

Anotações de um Jovem Leitor

Em postagem de julho de 2016 (aqui) tratei do hábito de fazer marcações em livros, herdado do pai. Isso voltou à tona ontem, lendo Anotações de um Jovem Médico, de Bulgákov, que lhe dei de presente em fevereiro e que ele, concluída a leitura das 214 páginas em dois dias, me emprestou.

Lendo ontem o impressionante conto "Tempestade de Neve" (que me trouxe à mente a cena final de Yol), encontro sua marcação, trecho em que o narrador faz referência a "Nevasca", de Tolstói.

Tolstói é sua nova paixão, descoberta aos 84 anos. Amou Ressurreição e quando pensou em desistir do Guerra e Paz ('muitos nomes em russo, muitas referências históricas'), sugeri 'Força na peruca, chegue à página 60!'. Ele chegou, ultrapassou e só se afastou do livro para tomar a primeira dose da vacina. 

Por ocasião da segunda dose, já estava enrolado com Anna Kariênina.

Viva a vacina, viva o SUS. 

 

Oh que maravilha é viver e inventar

Monday, March 15, 2021

Como ela deve ter sido linda quando jovem!

                                                              Dona Tatá, Milho Verde

HÁ UM TRECHO muito bonito nas memórias de Nikos Kazantzakis quando ele lembra estar numa aldeia na Calábria sob forte chuva e sem quem o acolhesse. Lembra-se de seu avô cretense, que iria acolher qualquer desconhecido em situação semelhante e conclui que nas aldeias calabresas não havia avôs assim. Bem.

Bem, uma senhora o acolhe, com um lar, um fogo para secar suas roupas, um feijão delicioso, um banco para seu sono e, na manhã seguinte, leite quente. Não trocam palavras, exceto quando ele pega a carteira e ela recusa, agradecendo, "Desde que meu marido morreu, nunca dormi tão bem"

Acho tudo isso bonito, mas me chamou a atenção o trecho em que ele a examina, já de manhã, e conclui "Como ela deve ter sido linda quando jovem!", maldizendo o destino humano e sua inevitável deterioração.

Me lembrei foi de Carrière, Jean-Claude Carrière, roteirista de Buñuel e que escreveu um dos livros mais bonitos sobre a Índia: Índia : Um Olhar Amoroso. No verbete 'Mulheres' :

Uma forma de expressão nunca deixa de surpreender : os indianos, homens e mulheres, falam naturalmente da beleza das mulheres idosas. Podemos dizer que uma jovem é bonita, atraente, pretty, nice-looking. Raramente dizemos que ela é bela. A beleza só chega com a idade, com o cumprimento de uma vida. A beleza é uma qualidade que é merecida e adquirida. Não cai do céu nem é fundamentalmente perecível, como entre nós. 

Isso torna menos difícil a tarefa de envelhecer?

Em 1982 Jean-Claude Carrière e Peter Brook foram convidados a conhecer, em um centro de danças de Madras, a conhecida dançarina e coreógrafa Rukmini Devi. Enquanto a esperavam, Carrière perguntou a alguém como ela era. A resposta foi:

-- She's very beautiful.

Ela tinha então 81 anos.

Quando Rukmini Devi enfim apareceu, Jean quedou-se impressionado com sua beleza:

Vestida com uma roupa de algodão claro, com os longos cabelos brancos até a cintura, os olhos negros, ela não fazia nada para esconder sua idade. Não usava nenhuma maquiagem e ao andar se apoiava em uma bengala. Mas era como uma luz penetrando no lugar onde estávamos.
 
*********
A visão que faltou ao Kazantzakis.
 
Quanto ao Carrière, morreu há pouco mais de um mês. Com certeza passeia pela eternidade ao lado de Ganesha, o que era seu sonho.

Sunday, March 14, 2021

Um Soneto de Pete Townshend

Estou chegando à metade do primeiro romance de Pete Townshend, lançado em 2019, The Age of Anxiety, depois de Auden e Bernstein, of course. E olha que a pandemia não começara. Profético.

Estou chegando à metade e encontro um... soneto! Bem, escrito por Pete? Claro que sim, mas, na "economia do romance", como gostava de dizer um professor, escrito por Siobhan (em irlandês esse 'bh' se pronuncia /v/), então mulher do seu afilhado querido, Walter. 

Este afilhado tinha uma banda de rock que tocava num único pub. Faziam relativo sucesso, tanto que Walter recebeu proposta de vender seu catálogo e ter uma música usada num comercial de carro. Ele ficaria rico. E ficou. Sua mulher, porém, sempre desdenhou a banda e todo seu trabalho, achando que ele deveria usar seu talento para escrever poemas e não canções para vender carros. Ah, e poemas para ela.

Na noite do seu último show, que é quando ele recebe a proposta, ela sai de cena e vai para uma casa no campo, onde escreve o soneto. A estratégia era chamar sua atenção -- ela jogou alto e fracassou. Na mesma noite, ele se apaixona por uma amiga em comum, Floss, e abandona a carreira musical e a mulher.

Mas ela escreveu o soneto na esperança.

 

I hoped for Shelley, Byron in your pen
    I longed for you to rise to meet your star
    The songs you wrote moved drinks across the bar
Why would you waste fine words on drunken men?
And wasting once, go on to to waste again?
    No sonnet to Siobhan, how could you mar
    Our love with elegies to some fast car?
For money? What can those in love dare spend?
You've sold your talent; then your soul is sold.
    You've championed commerce -- why? So you'll be 'free`?
    I love you, and I'll always tightly hold
The hope that one day you might dream with me
    To Waterford! I'm gone! I'll take my heart.
I can't stand by and watch you lose your art.  
 
 

O narrador afirma que ela usou o esquema de rimas do soneto italiano, um erro, já que ele é formado por três quartetos e um dístico, para além de ser monostrófico. Informa também que ela pretendia lançar livro de sonetos (!), já que "they were becoming popular again".

Ah, a minha edição é autografada pelo Pete! Quem sabe não consigo também um autógrafo da Siobhan? =)



Tuesday, July 07, 2020

Guimarães Rosa Jurado de Concurso


Deus de Caim, do mato-grossense Ricardo Guilherme Dicke, é o romance que ficou em quarto lugar no Prêmio Nacional Walmap de 1967, que teve Guimarães Rosa, Jorge Amado e Antonio Olinto como jurados.

Em suas anotações, Rosa viu nele "traços geniais", mas criticou-o como desordenado, caótico, indepurado, bem como suas "excessivas alusões culturais-intelectuais". Foi das últimas coisas que ele, Rosa, fez em vida.

Quem gostava muito de Ricardo Guilherme Dicke era a Hilda Hilst. Hilda, sempre polêmica, dizia preferi-lo ao Rosa.

Primeira edição autografada, 1968, pela editora novata Edinova, prefácio de Antonio Olinto.

A mãozinha é do Dante.

Estou terminando a leitura, prazerosa em muitos momentos, mesmo profunda, mas que não raro esbarra no excesso de causos (uma praga do regionalismo) e, sim, nas "excessivas alusões culturais-intelectuais", como criticou Rosa.

E, ó que interessante, lá na página 225, o atormentado Isidoro, preso a uma cadeira de rodas em seu palacete, resolve bisbilhotar o quarto da irmã, que foi para Paris ter filho de uma relação incestuosa:

"Um grande urso de pelúcia verde abarcava o espaço em cima da estante de livros. Sobre a mesa uns livros amontoados. Leu-lhes os títulos. Aldous Huxley, Hesse, Dostoiévski, Guimarães Rosa, Jorge Amado, a Biblia, era lida a moça. Na pia, a água da torneira gotejava."

Ou seja, de autores nacionais, apenas o Rosa e o Jorge Amado! Dois dos três jurados do concurso para o qual Ricardo Dicke submetera o seu romance! Será que os nomes dos jurados foram divulgados de antemão? Faz pensar.




Monday, April 27, 2020

A ferocidade da minha ânsia de protegê-los


No meio do conto "Fool to cry", de Lucia Berlin, como que um conto autônomo, lindo. Lindo de chorar.

Eu passo o dia em Coyocán. Na igreja, o padre estava batizando uns cinquenta bebês ao mesmo tempo. Eu me ajoelho no fundo da igreja, perto do Cristo mais ensanguentado, e assisto à cerimônia. Os pais e padrinhos estavam dispostos numa longa fila ao longo da nave, de frente uns para os outros. As mães seguravam os bebês, todos vestidos de branco. Bebês redondos, bebês magrinhos, bebês gorduchos, bebês carecas. O padre foi andando pelo meio da nave, seguido por dois coroinhas balançando incensários. O padre orava em latim. Molhando os dedos num cálice que ele segurava com a mão esquerda, fez o sinal da cruz na testa de cada bebê, batizando-os em nome do Pai, do Filho, do Espírito Santo. Os pais estavam sérios e rezavam de um jeito solene. Eu queria que o padre abençoasse também cada uma das mães, fizesse algum sinal, desse a elas algum tipo de proteção.


Em aldeias mexicanas, quando meus filhos eram bebês, índios às vezes faziam o sinal da cruz na testa deles. Pobrecito!, diziam. Que lástima uma criaturinha tão encantadora ter que suportar esta vida!


Mark, aos quatro anos de idade, numa escola maternal na Horatio Street, em Nova York. Ele estava brincando de casinha com algumas outras crianças. Abriu uma geladeira de brinquedo, botou leite num copo imaginário e o entregou a um amigo. O amigo jogou o copo imaginário no chão. A expressão de tristeza no rosto de Mark, a mesma que vi mais tarde no rosto de todos os meus filhos no decorrer da vida deles. Uma ferida causada por um acidente, um divórcio, um fracasso. A ferocidade da minha ânsia de protegê-los. A minha impotência.


Antes de sair da igreja, acendo uma vela ao pé da estátua de Nossa Senhora, Santa Maria. Pobrecita.


Descritivo até a última frase do primeiro parágrafo. Depois entra a Lucia, narradora, autora, mãe, eu, tudo.

"Fool to Cry" é o nome de uma música dos Stones, de 76. É provável que Lucia jogue com isso, para escrever um conto muito mais interessante, sorry, eu aqui misturando alhos com laranjas, nunca fui fã dos Stones.

Wednesday, July 10, 2019

Marajó, Dalcídio Jurandir



Marajó (1947) é o segundo romance de Dalcídio Jurandir, então pela prestigiada José Olympio, que no entanto não tornaria a publicá-lo. Tenho a primeira edição autografada, um tesouro, mas a edição mesmo é recheada de erros.

O romance é recheado de acertos, embora não seja ainda o Dalcídio mais experimental, mais faulkneriano que teríamos vinte anos depois em Primeira Manhã. Mesmo para um regionalismo social de um Graciliano, tem uma carga excessiva de cor local.

A ação da narrativa se dá em Ponta de Pedras, cidade natal do autor que viria a morar em Cachoeira, Cachoeira do Arari, já devidamente imortalizada em Chove nos Campos de Cachoeira.

Chove nos Campos de Cachoeira, que nome mais lindo

Missunga sentiu a voz de Alaíde como se ela falasse do meio do rio, numa embarcação ao sabor da vazante. Aos poucos, algumas cenas de vaqueiragens, as escrituras do pai, Marta acuada no muro do cemitério, as donzelas que seu pai deixava , nos campos e nas beiradas, caídas e abertas como os peixes de Alaíde, despertaram-no confusamente. E deu com o olhar de Alaíde, tão parado, que não entendeu o que havia nele, de triste, um olhar que não se repetiria mais e que logo mudou, como surpreendido ou culpado. 



Thursday, May 09, 2019

Morrer talvez seja voltar para a poesia :: A Morte de Maria Behú


Qualquer leitor apaixonado do Rosa terá dificuldades em escolher qual a morte mais triste, mais tocante, mais inesquecível, se a de Diadorim, se a de Dito. O público em geral (sim, estou sendo um pouco esnobe, mas só um pouco) ficará com a de Diadorim, mais pela popularidade de Grande Sertão.

Eu não consigo escolher, porque dificulto tudo colocando na lista a de Maria Behú, no final (todas as mortes ocorrem no final) deste monumento que é a novela (romance?) "Buriti", que magistralmente encerra o ciclo do Corpo de Baile.

A de Diadorim nos dói porque a acompanhamos por toda a torrente do Grande Sertão, conduzidos justamente por quem mais a amou, Riobaldo. A do Dito nos dilacera (eu não posso nem lembrar, como o Miguel, seu irmão crescido, diz : "não posso demorar o pensamento nele. Tenho medo de sofrer") porque ele é uma criança, uma criança perfeitinha demais.

Com Maria Behú, "tisna, encorujada, com a feiíce de uma antiguidade", tudo é mais complicado, por não ser cativante, por parecer que só existe para ressaltar o esplendor de sua irmã Glorinha.

Mas não foi por compaixão que ontem chorei a água de dois cocos (re)lendo seu encantamento:

"Meu Deus, e aquilo se dera, atroz, tenramente, na noite, na calada. E era possível! Maria Behú, sem perfil, os olhos fechados, nos lábios nem sofrimento nem sorriso, e a morte a embelezara. Partira, na aurora. (...) Ela se fora antes. Todos, enquanto vivendo, estão se separando, para muitos diferentes lugares. Maria Behú, também princesa.

(...)

O Chefe ainda não soubera da morte de Maria Behú; quando disseram a ele, então foi depositar o caneco num degrau, e chorou muito.

(...)

Lalinha se lembrava -- uma ideia, que na ocasião não criara sentido. E, agora, era capaz de não chorar por Behú -- tanto a amava, tanto a compreendia, de repente. E aquilo, sem razão nenhuma nem causa, sim: -- Morrer talvez seja voltar para a poesia..."

Sunday, April 14, 2019

Dona Tatá, Milho Verde-MG


O endereço de Dona Tatá: entre a Nossa Senhora do Rosário e a dos Prazeres, numa das bem poucas ruas que formam Milho Verde. Se você botar assim na caixa com goiabada cascão: Dona Tatá / Entre a Rosário e Prazeres / Milho Verde-MG, chega, o carteiro acha.

Mas talvez seja tolo presenteá-la com goiabada cascão, que ela encontra por lá, então talvez seja melhor azeite de dendê. Ou uns tamarindos daqui do Grajaú, catados depois de ventania.

Em seu pequeno repertório lexical, em que nomeia apenas as suas coisas importantes -- como 'rua', 'não' e 'chocolate' (tssss) --, Dante só chama Pampi de Tatá. Tatá, oxítona, que se ele diz táta já está dizendo batata.

Pois. Não foi um encontro bom ali em Milho Verde?

E Tatá podia ficar sendo Rosalina, Lina, mas sem perder o nome:


"Velhinha, os cabelos alvos. Mas, mesmo reparando, era uma velhice contravinda em gentil e singular -- com um calor de dentro, a voz que pegava, o aceso rideiro dos olhos, o apanho do corpo, a vontade medida de movimentos, -- que a gente a queria imaginar quando moça, seu vivido. Velhinha como-uma-flor. O rastro de alguma beleza que ainda se podia vislumbrar. Como de entre as folhas de um livro-de-reza um amor-perfeito cai, e precisa de se pôr outra vez no mesmo lugar, sim sem perfume, sem veludo, desbotado, uma passa de flor. Disse: -- "Meu Mocinho..." Mas dizia depressa, branda e enérgica, que nem que "meu-mocinho" um nome fosse, e que ele mesmo fosse dela, por bem que tantos cuidados não o prendiam nem vexavam. Ela olhava reto. O que falava -- a gente fazia. Mandava sem querer. Lélio se sentou no banquinho baixo. Ela disse que ele ia ficar para almoçar. E ali reinava um sossego." 

(...)

"E dona Rosalina, que nunca mudava, tinha como que naqueles olhos, diversos de todos, um exato de coisas que ele precisaria de um existir sem fim para aprender, mas que cabiam também no momento de um só olhar de bem-querer."


'A Estória de Lélio e Lina' 
Guimarães Rosa












Wednesday, April 10, 2019

Quando Rosa é doce



Quando Rosa pega pra ser doce e terno, não tem pra ninguém. Às vezes acho ele escrevia meio bêbo, no sentido baudelairiano ao menos, de que é preciso sempre estar.

-- "O burití é a palmeira de Deus!" -- ela disse, disse. Lélio se lembrava dos gestos de sua mãe, e, como êsses vaqueiros do Alto Urucúia, relatava coisas ao cavalo. Mais se contentava, sem pensamento, perto de tudo. Ela estava com um plastro branco na ponta de um dedo, machucado em qualquer parte. Seu nome era que lindo por lindo, qual retinia. No que não havia risco de ninguém ver, pois já estavam de saída, êle o escreveu, porção de vêzes, nas costas das fôlhas das piteiras. Mas ao cavalinho pampa os nomes que dela disse foram outros: Minha-Menina, a Môcinhazinha, Sinhá-Linda...

"A Estória de Lélio e Lina"

 

Monday, April 08, 2019

Clarice e os 80 tiros em Guadalupe




Em 1964 (!) foi publicado pela Editora do Autor (aqui) A Legião Estrangeira, de Clarice Lispector, seu sétimo lançamento. A primeira parte traz os contos (e alguns eternos estão lá), enquanto a segunda intitula-se "Fundo de Gaveta", sugestão do Otto Lara Resende (aqui).

Tudo aqui vale muitíssimo a pena. E no fundo do fundo da gaveta, os textos se seguem uns aos outros na mesma página, está lá o Mineirinho, o bandido assassinado com treze tiros.

Quando bastava um só.

O texto é um soco no estômago. E o que diria Clarice dos 80 tiros?



"Esta é a lei. Mas há alguma coisa que, se me faz ouvir o primeiro e o segundo tiro com um alívio de segurança, no terceiro me deixa alerta, no quarto desassossegada, o quinto e o sexto me cobrem de vergonha, o sétimo e o oitavo eu ouço com o coração batendo de horror, no nono e no décimo minha boca está trêmula, no décimo-pimeiro digo em espanto o nome de Deus, no décimo-segundo chamo meu irmão. O décimo-terceiro tiro me assassina -- porque eu sou o outro. Porque eu quero ser o outro.

'Essa justiça que vela meu sono, eu a repudio, humilhada por precisar dela. Enquanto isso durmo e falsamente me salvo. Nós, os sonsos essenciais."

Monday, April 01, 2019

De Ninhos e Lambrequins


Do recém-lançado livro do Washington Takeuchi -- Saudade do Ninho: A Cidade de Madeira que Existe Dentro de Curitiba --, falo depois.

A postagem é só para lembrar que ele é cheio de lambrequins, o que inspirou, ainda no voo, poema de circunstância:

No título do livro Saudade do Ninho
a letra i é um lambrequim

O título bonito traduz
a palavra nostalgia
mas dá pena ele não seja
pirlimpsiquice