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Monday, January 31, 2022

Deitando a Etiqueta às Urtigas

 


A capital culinária da França e, portanto, uma das capitais culinárias do mundo, tem em seus bouchons sua expressão máxima

Não bastassem as comidinhas absolutamente singulares, como os patês, as andouillettes (salsichas de tripas de porco que merecem postagem própria), as quenelles, os queijos, Lyon é ainda a terra do Beaujolais, esse vinho travesso que se anuncia "est arrivé". Nos bouchons, os da casa são servidos em garrafa de fundo falso, o Pot Beaujolais

Camila empolgou tanto que fez o que se vê acima: deitou a etiqueta às urtigas e bebeu do gargalo

A senhora da mesa ao lado, uma condessa de nariz adunco, arregalou as íris como nem os Lumière sonharam e pensou 'Dieu, se essa moça tão linda pode fazer isso, também eu'. Logo todas bebiam do gargalo e Camila entabulou com elas conversa tão natural, que como retomada depois de anos

Das melhores memórias



Thursday, July 29, 2021

Dante, Chef Jonatas : Akuaba, estamos abertos

Quem resume muito bem o que é uma saída com filho autista é Luiz Fernando Vianna, quando constata ser "desgastante sair com seu filho para um passeio e se sentir alvo de olhares, nem todos generosos". Se num passeio, digamos, pelo calçadão, pode-se cruzar com um desses olhares pouco generosos e seguir adiante, sentar-se num restaurante pode ser bem mais difícil.

Embora Dante e eu já tenhamos o hábito de entrar em lanchonetes para um sorvete ou mate, as experiências em restaurantes, quando tentei uma refeição juntos, foram poucas e todas péssimas: ele numa de suas crises clássicas que não tem santo que dê jeito. 

Restaurantes normalmente são tidos como espaços sacralizados, onde uma refeição ganha contornos de missa ou de concerto de cravo. Se o celular da mesa vizinha pode deixar clientes mal-humorados, ruídos de crianças nem se fala. Seriam muitos olhares pouco generosos. Ainda mais porque o primeiro movimento é sempre o de considerar a criança mal educada, sem modos, o que divide esses olhares mortais como pistolas entre as crianças e seus pais, que não sabem controlar a prole.

A semana nas Alagoas trazia esse desafio: não seriam duas ou três, mas pelo menos oito idas a restaurantes, mesmo porque Camila e eu consideramos as refeições um dos pontos altos da viagem e não queríamos fosse diferente. Queríamos provar a melhor casquinha de siri do Brasil, o autêntico chiclete de camarão, ir a um Boa Lembrança, eu precisava voltar a tomar caldinhos de sururu, passados trinta anos. E Dante incluso.

Bem.

Os caldinhos de sururu estavam divinos (como pude esperar trinta anos?), a casquinha de siri do Massagueirinha é para comer rezando, o chiclete de camarão logo grudou-se à nossa memória e a experiência no Akuaba, restaurante afro-baiano aonde fomos para nosso pratinho da Boa Lembrança, já mora em nossos corações e não apenas pela moqueca deliciosa.

Dante sempre tem que conhecer o banheiro dos lugares. No Akuaba, no caminho deste estava a cozinha aberta, onde o chef Jonatas pilotava as panelas e finalizava a montagem de um prato. Dante gostou daquilo, sentou-se para ver, ainda mais porque tinha frigideira na jogada. Percebendo o interesse do pequeno, Jonatas perguntou-lhe o que ele gostava de comer. Dante respondeu-lhe em dantês: a mão esquerda batendo sobre a direita fechada. Traduzi: ovo. O chef então carinhosamente preparou-lhe dois. Para dois meninos fascinados. Não sei se foram os melhores ovos da vida para o Dante, foram os melhores ovos da vida do Dante para mim. Jonatas fez com que os ovos fossem acompanhados de purê, fez também com que tudo fosse cortesia. Voltamos para mesa e Dante devorou a refeição em um minuto.

Pode parecer exagero, deslumbre talvez. Trata-se de um pequeno ato enormemente significativo cuja mensagem é 'Venham, tragam seus filhos autistas, estamos abertos'. Para os autistas isso diz muito, para cuidadores que já decidiram não esconder esses pequenos no porão, também. Aliás, não por acaso 'akuaba' significa 'bem-vindo' em iorubá.

 


 




Monday, April 26, 2021

(Queremos) A Cabeça do Moro

 


 


Sou colecionador de pratos da Boa Lembrança, conforme tratei aqui e aqui. Com a pandemia e o isolamento, 2020 foi ano difícil para a coleção, para a minha, para a sua, para tantas todas as outras. Ainda que as esperanças de 2021 logo tenham sido soterradas sob políticas do desgoverno genocida, o início do ano foi marcado por diversos lançamentos, como o do Fabrizio acima, em Arraial D'Ajuda.

Pensei logo: este nem se fosse a 100 metros daqui de casa: dispenso prato cujo nome remeta ao juiz ladrão, hoje devidamente desmascarado.

Uma pesquisa, no entanto, me fez conhecer a excepcional cerâmica da Sicília e a cidade de Caltagirone, já na minha wishlist. Destorci o nariz: teria este prato em minha parede, sim.

Mostrei isso tudo à Camila, que também não conhecia nada disso, na quinta-feira, nos empolgamos horrores a ponto de escolhermos já as cabeças di Moro que traríamos de Caltagirone para casa. Isso foi na quinta. Na tarde de sexta aboletamo-nos no sofá para assistir a A Voz Humana, filme mais recente do Almodóvar.

E na estante do apartamento de Tilda Swinto, lá estava ela: a testa di Moro. 

Onde sempre esteve.




Tuesday, November 20, 2018

Enrolando Harumakis com Amigos


Uma tradição do restaurante Szerelem Szerelem: sendo a entrada harumakis (e quase sempre é): bota os convidados pra fazer! A lição fica por conta da Camila, melhor e paciente professora. A mim cabe fritá-los deep fried.

Neste ano, se não me engano, já enrolaram: Helion, Isabela, Aline, Jessica, Thiago, Luiz Guilherme, Mariana, João Leite, Eric, Damian.









Nosso harumaki de feijoada aqui. Nossa primeira vez, ici.


Tuesday, August 14, 2018

El Verídico de Fidel :: Melhor Leite de Tigre do Mundo (será?)


Em muitos aspectos, El Verídico de Fidel lembra o Caneco Gelado do Mário: lugar simples em parte nada badalada da cidade. Frutos do mar. Comida soberba e barata. Foram assim. Fama e prestígio chegam, faz-se reforma, catapultam-se preços. O Nova Capela e o File de Ouro, e talvez o  Pavão Azul poderiam entrar na lista, com a diferença da nobre / central localização.

Para todos os efeitos, continuo fã do Caneco, do Capela e do Pavão, então por que não iríamos conhecer o Fidel, inda mais com essa faminha desprezível do melhor leite de tigre? Inda mais se em frente ao estádio do Alianza Lima?

O leite de tigre tem já sua fama de levantar defuntos, curar ressacas e evitar bebedeiras. Sua fama de afrodisíaco dobra se acompanhado de línguas frescas de ouriço, que foi o pedido, menos pela fama e mais pelo exotismo. Estava do outro mundo, mas sua pungência acabou com meu pisco sour, também espetacular até chegarem as (más) línguas. Camila foi de tacu tacu e não poderia se arrepender.

Depois descobrimos uma filial em Miraflores, perto de onde nos hospedávamos. Ora, mas restaurante com nome destes só pode ter um, não?









Sunday, August 12, 2018

Valverde, Nilton Bravo de Lima :: Crónicas Peruanas VI


A culinária peruana é exuberante a ponto de estar, sem favores, entre as mais interessantes do planeta. Os endinheirados podem visitar, em fila indiana, os três bambambãs da lista do Top 50 mundial. Está tudo muito certo. E os durangos, mochileiros, inclassificáveis, podem perambular pelas ruelas congestionados da capital peruana e fazer os seus achados. Mochileiros e durangos já devidamente praticamente expulsos de Machu Picchu. Mas não, ainda, das ruelas congestionadas de Lima e seus achados.

Como o Mar Limón y Sabor. À frente o imperdível Lolo. No salão as pinturas do Valverde. Com direito a neon. Ao contrário do Brasil e seu nariz empinado, ninguém acha cafona.






Thursday, August 02, 2018

Crônicas Peruanas I ::: Picanterías de Arequipa



Sou dado a exageros, mas seguro a onda ao dizer que, sim, talvez um dia seja o suficiente para Arequipa. Faz-se o Santa Catalina, vê-se a emocionante Juanita, sempre à sombra do poderoso Misti. E, nadie es de hierro, rumo a uma picantería.

Mas aí reside o problemas: as tradicionais são ainda tantas que vale ficar uma semana na Ciudad Blanca, onde nasceu o grande Vargas Llosa, para poder visitá-las todas. Uma no almoço, outra no jantar: quatorze visitas e aí sim pode-se dizer que se conheceu AQP. Mesmo porque, indo na contramão dos raios gourmetizadores, ainda inauguram-se picanterías. 

Comi pato nas duas vezes, receitas e apresentações completamente diferentes. E tem o rocoto relleno; e a ocopa, o adobo, o cuy. E, por supuesto, o chupe de camarones, com camarões grandes do rio. A chicha, violeta como a morada porém alcoólica, jorra em copázios pantagruélicos. Valei-me Martinho de Porres.

Na exuberante cena culinária peruana, um capítulo à parte.













Wednesday, July 04, 2018

Crônicas Floripas III :: Sequência de Camarão



Não se deve voltar aonde se foi feliz, reza o tão sábio provérbio mexicano. Se são dias de Copa do Mundo, e para ficarmos no México, lembremos que o Brasil voltou em 1986, apenas 16 anos depois da glória de 1970, e caiu melancolicamente diante de uma França que nem era forte como viria a ser.

Sempre segui esse ensinamento à risca. Sempre até voltar um dia a Goiás Velho e gostar, regostar. A Goa voltei no espaço de um ano e inventei que não voltei porque não tinha de fato saído de lá.


Goa dá voltas e voltarei enfim
Que voltar é refúgio de quem vive
Para dizer no aeroporto de Pangim:
Voltar, não volto. Sempre aqui estive
 


Enfim.

É bom ter experiências gastronômicas memoráveis, mas a sabedoria mexicana parece encaixar-se com exatidão aqui. Conheci a famosa sequência de camarão de Florianópolis, da linda Lagoa da Conceição para ser mais preciso, em 1995. Tinha as melhores lembranças: comida deliciosa, fartura, preço baixo, orgia gastronômica a ponto de se deixar belos camarões gordinhos no prato. Isso no tempo em que sequência tinha trema.

Tudo passado. O preço aumentou, o sabor é absolutamente trivial, não há nada de fartura e, pior, o próprio nome sequência deveria ser aposentado, de vez que os camarões hoje chegam à mesa ao mesmo tempo. Depois vem um peixe com molho de camarão miúdo, onde nada presta. Isso tudo na Avenida das Rendeiras e tampouco há rendeiras.

Thursday, October 26, 2017

Crônicas Soteropolitanas II :: O Boca de Galinha



Ainda uma outra experiência aos que desejam escapar da obviedade do Pelourinho (que adoro e recomendo) consiste em tomar um trem na sesquicentenária estação de Calçada para Plataforma. A linha que serve os subúrbios e os suburbanos de Salvador tem dez paradas, sendo Paripe a final. Não há voz anunciando nada, não há placas nas estações: o negócio é ficar atento e contar um, dois três e saltar em Almeida Brandão. Aqui é Plataforma.

A quem acha que vai perder a conta, um método mais poético: ao avistar as enormes alongadas palmeiras imperiais, puxe a cordinha. Aqui é Plataforma.

Da estação é andar pedaço miúdo para chegar ao Boca de Galinha: mesas de plástico, nada de Heineken. O cardápio enxuto diariamente escrito a mão num caderninho. Os preços (ainda) convidativos, as porções (ainda) fartas. Comensais das antigas reclamam que estas diminuíram enquanto aqueles subiam. Nada diferente do Nova Capela: louvam as farturas e os preços, o dono lê, acha que é um otário e logo muda tudo. O negócio é não falar nada. Boca de siri.

Eu, comensal nada antigo, só tenho elogios. Se o camarão não é espetacular, a lagosta compensa, com sobras. E quando passa o trem em meio ao restaurante e a Baía de Itapagipe, os adultos correm tudo pra janela por amor de fazer uma foto. Crianças.