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Thursday, June 11, 2020

Assistindo ao "Cobra Verde"



Por sugestão do Dave, my American dad, com quem felizmente retomei contato após um hiato que já se tornara angustiante, assisti há três dias ao Cobra Verde, filme de 1987 do Herzog.

Apesar de algumas críticas, gostamos bastante, a mim me agrada certa visão de mundo desesperada do Herzog, conforme eu já vira em Aguirre. Aliás, há alguma coisa de Aguirre aqui.

E aconteceram sucessos extraordinários:

1) O filme começa com o Cego Oliveira do Cariri! Por uma coincidência veramente incrível, o vinil duplo que tenho estava fora do chão, fora da estante, era o único disco fora da estante

2) O filme é baseado num romance de Bruce Chatwin, de 1980. Este romance trata da vida de um comerciante de escravos chamado Francisco Félix de Souza, ou seja, possivelmente antepassado do meu amigo Raul Félix de Souza. O Raul reconhece o fato, já pesquisou, ele que pesquisa tudo, sobre a vida desse seu antepassado xaxá, como ele era conhecido. O Raul acha que é só uma coincidência

3) Boa parte do filme tem como locação o assombroso Castelo de São Jorge da Mina, em Gana, tão bem documentado no livro Do outro lado, que possuo. Mas aqui a coincidência nem foi tanta. Mas a vontade de conhecer este local fantasmagórico enraizou-se aqui já

4) Eu tinha a trilha-sonora do filme, comprada na Alemanha em 2007. Nunca tinha ouvido. Aliás só fui descobrir que tinha quando o filme terminou

5) Camila quedou-se mesmerizada pela cena final, em que as moças locais dançam e cantam  "Die singenden Madchen von Ho, Ziavi". Perdou o sono embaixo do sofá, só veio deitar-se de madrugada



Wednesday, April 08, 2020

"A Morte de Stálin" : Filme desastroso


Existe um mandamento tácito no mundo de que é preciso preencher os silêncios, uma vez que estes forçosamente denotam desconforto. Assim em situações tão díspares quanto uma excursão a uma praia distante ou um show de rock. Na excursão, o guia no ônibus não vai nos deixar quietos olhando a paisagem e, esgotadas as informações acerca do objetivo da excursão,  ficará falando ininterruptamente, fazendo piadas, enquetes, elegendo vítimas no grupo. No show de rock, o "porta-voz" da banda, nem sempre o líder, ou membro fundador, ou vocalista, toma para si a tarefa de fazer piadinhas entre as músicas. Quando se trata de um singer-songwriter, os resultados podem ser desastrosos, é só pensar num Nick Drake, que não queria, ou num Neil Young ou Damien Rice, que não são talhados para isso, mas entram no esquema. Tipo, faz parte do entretenimento, 'tem que'. Putz, tão americano.

Acho que isso está presente em pelo menos 90% dos filmes (de) Hollywood. Não tenho dados precisos porque não os assisto.

Há filmes que não são propriamente feitos em Hollywood, mas pagam total tributo à sua estética e nisso, claro, não falta o horror ao silêncio.

O britânico The Death of Stalin, 2017, é exemplo perfeito. Já na primeira cena, o diálogo idiota entre os engenheiros de som da sala de concerto. Quando, vinte minutos depois, chega o momento de transportar o corpo do ditador do chão para a cama, essa coisa de preencher-todos-os-espaços-com-piadinhas-idiotas-americanoides-e-absolutamente-inverossímeis chega a um paroxismo tal que lembro que tenho mais o que fazer.

Sei que o objetivo do filme era ser comédia (black humour???), mas não funciona sequer nesta clave. É apenas horroroso. 

Uma pena porque o argumento era até interessante.


PS: Quem pensar que achincalho o filme por ele zoar com o Stálin vai levar um sopapo. Tenho ódio a esta figura hedionda.

Tuesday, November 26, 2019

Mary & Max & Pampi


Antes de passar Mary & Max para meus alunos, advirto 'Não desanimem com o começo, é muita informação, depois as peças vão se juntando'. De fato, há tantos detalhes, tanta riqueza ali e por todo o filme, que reassistir é sempre descobrir e redescobrir, como molhar a mão no rio que nunca é o mesmo.

Mas o final a gente guarda desde a primeira vez e nunca mais esquece. Mary, jovem adulta jovem mãe, formada em Psicologia, enfim viaja da Austrália para Nova York para conhecer pessoalmente o seu amigo Max. Max, o esquisitão, Max, o autista, Max, o Asperger, o Aspie, mas sobretudo o Max que, em meio a suas confusões, rejeitava uma "cura".

Sábio Max.

Quando ela chega em seu apartamento, ele está morto, morrera naquela manhã. E há da parte dela menos tristeza que aceitação, aceitação de que eles tiveram, sim, uma linda amizade. You're my best friend. You're my only friend. E eu já ia escrever 'quem não chora nesta cena já está morto', quando lembrei que nem o Max choraria, já que não conseguia ter lágrimas, a não ser quando cortava cebolas. Mas essas não contavam.

(Bem, Mary enviou algumas lágrimas para ele, mas já quase conto o filme todo) e esta postagem é só pra dizer 

que Pampi, antes de viajar para Londres, deixou-me uma carta embaixo do travesseiro e agora tenho que dar mais spoilers: quando Mary se senta no sofá com Max, ele já morto, ela vê a parede forrada com as cartas que ela lhe escrevera ao longo dos anos, todas rigorosamente passadas a ferro. Então esse final a gente guarda e desde a primeira vez. E chora, lágrimas de cebola ou não.

Aí eu também passei a cartinha e a emoldurei. Cartinha que, debalde meus esforços, continuou amarrotada. E pensar que Max se achava clumsy. Todo pai de autista é meio autista também.

Pendurei-a perto da cama, na primeira parede que olho ao acordar, para que seja sempre a primeira visão do dia.

Mas eu a vejo mesmo no escuro. E antes mesmo de acordar.


Sunday, September 29, 2019

Pois nasceste menina ( Bilhete a Mariana )



Acabei de assistir com meus alunos do 3o ano ao lindo Monsoon Wedding. Primeira vez pra eles, vigésima pra mim, não enjoo, nunca cansarei sobretudo pela música 'Aaj Mera Jee Karda' (aqui).

Tanta coisa pra conversar aqui, dentre elas a condição da mulher, tão bem tematizada. Aí falei um pouco da questão espinhosa do dote, falamos dos abortos cometidos quando se sabe que será menina, das mulheres solteiras, das viúvas. Mencionei também que pelo menos em alguns países do mundo árabe paga-se menos (metade) à parteira se ela traz menina à luz.

Então impossível não lembrar do "Bilhete a Mariana", do poeta amigo Afonso Félix de Sousa, escrito em 1972 por ocasião do nascimento da Mariana, amiga minha durante meu exílio em Chicago.

Então quem recita o poema é o Raul Félix de Sousa, filho do Afonso, irmão da Mariana, amigo meu.

BILHETE A MARIANA

Sabias que entre os árabes
se a mulher engravida
aos pais todos auguram
um varão e não filha?

Que se nasce menina,
o pai já tem por praxe
do que cobra a parteira
não dar mais que a metade?

Pois nasceste menina
contra o augúrio de todos,
e por isso à parteira
eu pagaria em dobro.



PS: Só não entendo por que Afonso usou "pagaria" em vez de "pagarei". Raul tampouco entendeu. Depois reescrevo. Com toda devoção.

Monday, July 08, 2019

A Livraria, Fahrenheit 451



Um dos passatempos dos aficionados do filme Fahrenheit 451 consistia em listar os livros que, de uma maneira ou outra, inteiros ou em chamas, apareciam na tela. Era divertido e não será impossível que tenham realizado algum congresso.

O que torna interessante que, em outro filme recente sobre livros, o inglês The Bookshop (2017), o primeiro livro vendido por Florence Green seja justamente o sempre atual romance de Ray Bradbury, junto aos poemas de Philip Larkin. Seu cliente, um velho isolado e até então casmurro, torna-se fã do autor e daí segue o Martian Chronicles e, quase, Dandelion Wine.

Não é por acaso, claro.

E Dandelion Wine, que nome mais lindo para um livro.

Wednesday, February 20, 2019

(Minha) Vida de Menina


Fosse necessário provar importância de Minha Vida de Menina (1942), da Helena Morley, pseudônimo de Alice Dayrell Caldeira Brant : ensejou a uma inteligência da envergadura de Roberto Schwarz o delicioso Duas Meninas, pequena obra-prima da crítica brasileira, em que aproxima as figuras da menina do diário e a de Capitu. E aí traça o painel devastador da nossa infeliz sociedade emproada e patriarcal, a mesma que defende e elege bolsonaros da vida.

Fosse necessário mais um pouco: foi traduzido para o inglês pela Elizabeth Bishop e daí criou asas e rompeu as clausuras de Diamantina e Rio de Janeiro. Bishop encontrou no diário secreto encanto, como Drummond e Rosa.

E tem ainda o filme de Helena Solberg, lançado em 2004. Não se espere dele ênfase no enredo, se baseado no diário da menina que tanto reclama da mesmice de enredos de sua vida e de sua cidade. Podia descair para a pieguice, não o faz. Podia desandar na cor local, que dribla. Filme sensível e exato, brisas, viração, das asas de uma abelha.

Fosse necessário ainda: a trilha é do Wagner Tiso.

Friday, March 09, 2018

Inxeba -- The Wound



Brincando, direi apenas que senti falta de mais clique (aqui). Afinal, é falado em xhosa ou o quê?

A sério, direi que Inxeba - The Wound (África do Sul, 2017) é um muito bom filme. Os protestos na África do Sul e a consequente proibição em alguns cinemas reforçam a sua importância e, espera-se, atrairão ainda mais atenção. A pseudoargumentação de que a cultura xhosa está mal representada é risível por pelo menos dois fatores: 1) artefatos culturais não têm a obrigação de 'representar' o mundo qual documentários, e como se mesmo estes fossem inteiramente desprovidos de qualquer ideologia. Assim, criticar uma novela da Globo por não 'representar' corretamente o autismo é tão válida quanto criticar Dostoievski por não ter caracterizado com precisão científica o comportamento compulsivo de um jogador compulsivo no romance do mesmo nome; 2) no fundo, esta argumentação deseja esconder, por óbvio, o preconceito contra o amor e o sexo entre indivíduos do mesmo gênero. Homofobia. Algo como dizer que não há homossexuais na Chechênia



Wednesday, February 14, 2018

Dois Filmes Cazaques



Tirei de letra o longo voo Madri-Pequim (me recuso a chamar de Beijing) que atravessa simplesmente toda a Rússia: durmo, leio, converso, escrevo, durmo, olho para o banco da frente sem único pensamento na cabeça, durmo mais um pouquinho. Assisto a filmes.

Não sei como anda a oferta de filmes nas companhias aéreas, mas um hurra! à Air China que nos oferece duas produções cazaques: Tulpan (2008) e O Anjo Ferido (2016), ambos excepcionais. Poderiam, como sói acontecer em países infelizmente considerados periféricos, carregar na cor local. Não o fazem. Mas percebe-se fácil que o Cazaquistão está todo ali. E quem não irá querer se demorar naquelas estepes depois de assisti-los?

Tulpan tem um final feliz. Ou quase. A cena em que Asa, o jovem pretendente orelhudo, faz juras de amor a uma mula, sem o saber, é sensacional. Não é digna de Oscar porque essa bobajada de Oscar é que não é digna dela.

O Anjo Ferido é perturbador do início ao fim. Obra-prima.





Friday, December 29, 2017

Desamor



Loveless (Нелюбовь) é a história -- terrível -- de uma pequena família russa de um casal e um filho onde reina o desamor. Digo pequena porque me refiro ao pequeno núcleo que vive sob o mesmo teto, mas se expandirmos um pouco, para a casa da avó materna, encontra-se o mesmo desamor. Por desamor aqui não se entenda 'apenas' indiferença. Trata-se de um desamor ativo, isto é, ódio. Ódio entre o casal, ódio e indiferença dos pais para com o filho.

Talvez um lar assombrado por doença, miséria ou drogas se salve pelo amor. Talvez. O que salvará um lar assombrado pela absoluta falta de amor?

Naturalmente que este filme não é o primeiro a fazer isso, mas sempre bom encontrar obras que derribam um conceito terrivelmente ingênuo de maternidade / paternidade. Andrew Solomon: "como se o fato de ter filhos pudesse oferecer um estojo de primeiros socorros para egos feridos e para o desespero incomensurável".

A cena em que o pequeno Alexey chora desesperado e silencioso atrás da porta enquanto seus pais discutem seu confinamento em um orfanato não é para iniciantes. Os gritos "Aaalyooshaaaa" ecoando pela fria floresta, tampouco.

Do mesmo Andrey Zvyagintsev (aqui).

Wednesday, December 06, 2017

Wonderland, Michael Nyman



Quando comprei o CD de Wonderland (Michael Winterbottom, 1999) eu já inaugurara, com Gattaca, a prática de ouvir as trilhas antes de ver os filmes. As trilhas me levaram aos filmes e não o contrário, mais comum.

Quando tentei ver o filme, há coisa de quinze anos, não passei dos primeiros vinte minutos. Outra noite sentamos com um Chardonnay geladinho e assistimos mesmerizados de cabo a rabo, só parando para encher as taças.

Aqui uma Londres que não se vê nos filminhos da Julia Roberts ou da Gwyneth Paltrow. Filmado como que em filtros Lo-Fi e Sutro do instagram, só não nos perturbou demais porque estamos já um pouco vacinados, com Leigh e Loach.

Há uma cena de 9 Canções (2004), em que o casal resolve parar de fazer amor para assistir ao concerto de 70 anos de Michael Nyman. (Eu diria que não pararam de fazer amor.) Cena que revela a importância que Winterbottom confere à música e o quão prolífica foi a colaboração entre os dois. Basta dizer que a filha mesma de Nyman (Molly!) compôs a trilha para um outro trabalho do diretor, The Road to Guantanamo.

Molly, Eddie, Nadia, Dan, Debbie, Bill, Eileen, Jack, Darren, Frank. Qual a mais bonita? Diga sem se envolver com o personagem. É difícil. Mas acho que Debbie. Ou Darren.

Camila ouviu aqui "Onward", do Yes. Há quem ouça "We are the champions". Uma música belíssima, a ponto de acharmos que o filme poderia tê-la usado mais.




Thursday, November 30, 2017

Ken Loach e o Brasil Pós-Golpe



Já foi dito que Bob Dylan atingiu o atemporal em "Blowin' in the Wind" quando deixou para trás canções que reportavam a contextos muito específicos, como "The Ballad of Donald White" e "The Death of Emmett Till", para tratar, poeticamente, de temas mais amplos com que indivíduos de diversas condições pudessem se identificar. Faz sentido. Mas creio ser possível tratar de contextos muito específicos e ainda assim dialogar com diversas pessoas em diversas situações e, assim, atingir a atemporalidade. É o que faz Ken Loach em Hidden Agenda (1990).

Ao tratar da guerra suja entre o IRA e o Estado Britânico na Irlanda do Norte, o filme expõe as vísceras de um aparelho absurdamente fascista no seio de um país considerado um dos faróis da democracia do mundo: a Inglaterra.

Uma das cenas de destaque, aparentemente de menor impacto, é aquela em que Harris, do IRA, tem encontro secreto com a ativista norte-americana, que recentemente teve o marido assassinado por grupo paramilitar que come na mão do governo, e com policial inglês que está ali para investigar tal assassinato. Didático, Harris explica-lhes como o estado de direito britânico desmantelou os partidos populares através da mídia e de perseguição implacável. Sim, a facínora Dama de Ferro por trás disso.

A ativista norte-americana, marido recém assassinado, tem sua epifania. O investigador inglês, por bem intencionado que seja, continua cego.

Nossa, isso é tão Brasil, isso é tão golpe de 2016, isso é tão organizações Globo, tão Folha, tão espanhol El País com seu discursinhos apenas aparentemente bem intencionados (existe corrupção dos dois lado, ai ai ai), isso é tão o mundo de milhões de patos lobotomizados que, ainda hoje, recusam-se a enxergar que mafiosos de terno e gravata são um milhão de vezes mais danosos e perversos que o cara que rouba a bicicleta ou o celular e que sequer admitem que houve golpe. E agora fecham os olhos para o absurdo retrocesso que vivemos.


Na esperança de que possamos celebrar a morte de Temer



Tuesday, October 17, 2017

Tangerine Dream - O Documentário (parte 2)



Sim, claro que o doc foi emocionante, bastavam as imagens da louca cena berlinense do final dos 60 e meus 11 caraminguás já estavam pagos com sobras. Mas faltou coisa, claro, e a ênfase nas trilhas-sonoras foi desnecessária. Mencionar as trilhas foi essencial, deixá-las de lado seria falha -- sobretudo para músicos que desejavam fazer música o mais distante do padrão ocidental-comercial e logo se viram alçados a queridinhos de Hollywood -- mas enfatizá-las pareceu-me igualmente falho. Fosse meu o documentário (bem, posso fazer o meu), daria mais destaque aos míticos Virgin Years, ao soberbo Cyclone (só dez segundinhos sobre a participação de Steve Jolliffe) e exploraria mais a ligação (ou não) do Tangerine Dream com a cena Krautrock, buscando registros do Amon Duul, Ash Ra Tempel e, sobretudo, CAN (aqui).

Sim, mas claro que o doc foi emocionante. Tocou trechos da "White Eagle" duas vezes. Tocou trechos do Phaedra enquanto víamos galáxias. Isso tudo enquanto a sexta virava sábado em Botafogo.

A tradução foi da minha amiga Nadine Sickermann. Orgulho.

A parte 1 está aqui.



Sunday, October 15, 2017

Tangerine Dream ::: o Documentário (parte I)



Sofri bullying por amar o Tangerine Dream, que uns imbecis radicais do Clube Metálico (que eu co-fundara!) chamavam de Tangerine Drama só para me atazanar. Eu engolia a raiva e pedia que os mestres Maitreya e Kut Humi os iluminassem. Minhas preces não davam muito certo: a galera cada vez mais radical já desprezava Accept e Manowar e mergulhava em busca de um death ou black metal, que nem existiam ainda como estilos. Isso em 1984.

Cheguei ao Tangerine Dream por meio do Renato (aqui), que, em 1982, tinha o relativamente recém-lançado Force Majeure, comprado na Modern Sound. Ele botava a última faixa pra tocar, apagava as luzes e dizia "Agora vamos ouvir o arremesso das pedras metamórficas". Éramos uns três ou quatro, no quarto pequeno. Viajávamos assim, sem qualquer necessidade de substâncias. Em meio às pedras metamórficas, a tosse da sua avó.

O Renato tinha uns amigos especialistas em Tangerine Dream. Eu, confuso, dava um braço para ser um. Quando levei umas TDKs a um deles, ele me gravou o Phaedra (escrevi aqui), o White Eagle e o Tangram. Este último tinha no lado B o Ommadawn, do Mike Oldfield. Depois vieram Strastosfear, Cyclone, Exit, Poland, Ricochet e outros. Toda a fase áurea.

Durante muitos anos foram a trilha-sonora dos meus dias e não falo apenas da meditação num quarto escuro em busca de uma iluminação que espero distraído até hoje.

Chato que quando se fale hoje em 'música eletrônica' se pense imediatamente num bate-estaca horroroso e formulaico, destituído de inventividade. Porque música eletrônica já foi música de aventura e o Tangerine Dream, o grande precursor, prova-o.

E ontem assisti ao documentário sobre a lendária banda. A postagem pp dita a respeito vem em breve.

Thursday, October 12, 2017

Monsieur HIRE ~ Michael Nyman



A morte de Patrice Leconte me fez seguir para o colégio na manhã seguinte ouvindo a trilha de O Marido da Cabeleireira (aqui). Pulei as (ótimas) músicas árabes para me concentrar no Michael Nyman. Batata. Chorei a água de uns três cocos. A senhora ao meu lado, que só depois descobri ser baiana da G.R.E.S. Vila Isabel, pediu preocupada que o motorista parasse. Ele perguntou se eu queria ficar no Hospital da Lagoa, respondi que não precisava mas depois lembrei que saltaria ali mesmo.

Existe um outro filme de Patrice Leconte com música de Michael: Monsieur Hire, de 1989. Desgraçadamente, jamais foi lançada. Só fui ouvir as músicas "Skating" e "Peeking", fora do filme que por força assisti, na coletânea Michael Nyman: Film Music 1980-2001.

O filme é ótimo.



Sunday, June 11, 2017

Um Bon Iver para todos



Claro que é uma delícia uma trilha-sonora original, uma ost, eu que tanto gosto de trilhas ou não teria Nyman, Glass e Mertens entre meus preferidíssimos, ainda que, claro, eles não se restrinjam a músicas para filmes.

Mas é igual delícia  assistir a algo recheado de coisas lindas conhecidas, pelo prazer de ouvi-las em contexto diferente ( e um terceiro espaço, imagem e música, é então criado ) e pela expectativa qual que vem agora?

Foi muito assim, por exemplo, com Breaking the Waves, do Lars von Trier. E agora com Ferrugem e Osso (2013), do Jacques Audiard. Tem a ost, a cargo do onipresente Alexandre Desplat. Mas o mais legal foi ouvir e reconhecer o Bon Iver. Foi esbarrar com um amigo na pracinha sob o céu de junho. Então hoje ouvi por toda a manhã.





Monday, April 03, 2017

Isolda



Uma das cenas memoráveis de Tomates Verdes Fritos, e aqui as temos a mancheias, é aquela em que Ninny revela a Evelyn que tivera um filho, Albert, portador de necessidades especiais. Quando ele nasceu, o médico a aconselhara que não o visse, já que sua mente não desenvolveria para além dos cinco anos de idade e que ele deveria ser institucionalizado, pois criar filho assim seria um fardo muito pesado ("the burden of raisin' a child like that would be too great"). Talvez nem mesmo o colocassem em uma instituição (isso não está no filme, sou em quem diz agora), mas simplesmente o deixassem morrer ali, no frio de uma bancada de hospital, já que, até Reagan (logo ele!) assinar a Emenda Baby Doe, em 1984, pais e médicos podiam, se quisessem, deixar essas crianças morrerem.

Mas Ninny é diferente. Contrariando seu sábio médico, sorri para ele e pede para ver seu bebê. Oh, como alguém pode pensar que aquela coisinha preciosa poderia ser um fardo? Ah, desde seu nascimento, Albert foi a alegria da minha vida, o maior presente de Deus. Não acredito que tenha jamais havido uma alma mais pura no planeta...

Me lembrei disso tudo ontem, me lembro disso agora, a respeito da Isolda, que ontem fechou aqueles zoião amarelo para sempre. Aliás, eu sempre pensei isso dela. Que não houve nunca, jamais, um gatinho mais doce, mais dócil, vivendo neste planeta.
 


Saturday, February 25, 2017

Magical Mystery Cachambi



É preciso ser fã muito empedernido dos Beatles (opa) para gostar do filme Magical Mystery Tour, definição visual perfeita do que significa autocondescendência ou, em linguagem mais simples, falta de autocrítica. Embora possa se ver aqui (e já viram) um percursor de certo humor nonsense britânico, coisa cara ao Monty Python. E embora, claro, haja pelo menos duas canções geniais: "Hello goodbye" e "Your mother should know".

Do filme em si a cena quiçá mais memorável, pelo que há de bom (o tal do nonsense) e de ruim (a autocondescendência)  é aquela em que o John, como garçom, serve espaguete a uma cliente gorda em um restaurante. Serve sem parar.

Só pra dizer que isso tudo me veio à mente no almoço de hoje no impagável Cachambeer. Camila nada tem de cliente gorda, ainda mais agora com a sua low-carb, mas o garçom servindo-lhe o risoto de costela, leia-se uma montanha, o que foi aquilo, ela com a mãozinha em riste pedindo que parasse. O bar / restaurante, famoso pelo nome irreverente dos pratos, como "infarto completo" e "porquinho embriagado", para este risoto inventou slogan perfeito: 'Difícil é achar o arroz'.

Perfeito. E delicioso.


Monday, February 13, 2017

Cry Freedom



Do filme assistido há uns quinze anos ficaram três cenas, nítidas : a galera tomando cerveja depois do jogo de rúgbi (em minha lembrança era futebol), arremessando alegres as garrafas uns aos outros; a brutalidade das crianças queimadas por ácido nas camisas ganhas de presente; a brutalidade do policial atirando, do carro, na criança que foge apavorada pelos campos.

As três cenas só cresceram agora que revi Cry Freedom (1987), de Richard Attenborough, o mesmo de Gandhi e a elas adicionarei indelével à memória : a solidão da doméstica Evalina e do cachorro Charlie ao serem deixados para trás.

O filme é muito bonito, embora tenha seus pecadilhos hollywoodianos: a trilha por vezes grandiloquente, a maldita mania de inserir piadinhas inverossímeis só para agradar ao americano médio do subúrbio, desnecessários momentos de thriller, com desnecessárias corridas de carros em alta velocidade. Por fim, os quarenta minutos finais poderiam ser enxugados para uns quinze, de modo que a história de Steve Biko não ficasse tão em segundo plano. (Camila chegou a dizer: em filme que é para ser de herói negro, no fim é mais herói o branco.)

Já a canção homônima deste genial sul-africano que recém completou cinquenta anos é perfeita do início ao fim, linda,deste Crash (1996), obra-prima de fio a pavio.




Tuesday, September 06, 2016

Um é o Número Mais Solitário


Geralmente faz-se trilha-sonora para um filme, mas com a obra-prima Magnólia (1999), de Paul Thomas Anderson foi o contrário: ele fez o filme para as canções de Aimee Mann. Em especial "Deathly", com os versos perturbadores : "Now that I've met you / Would you object to / Never seeing each other again"

Isso me lembra Faulkner que tinha uma cena em mente -- crianças do lado de fora de casa espiando o velório da avó, a menina com a calcinha suja de lama das brincadeiras do dia -- e daí ele nos sai com The Sound and the Fury.

É justo, portanto, que a trilha-sonora de Magnólia seja quase que o segundo álbum de Aimee, após hiato de quatro anos.


O filme abre com "One", canção original de Harry Nilsson, aqui quase um tributo a ele (desde o "Ok, Mr. Mix"), aqui sua versão definitiva. E que venham outras.


Harry Nilsson gravou-a em 1968, ela tornou-se famosa no ano seguinte na versão do Three Dog Night. Trinta anos depois veio a Aimee absurdamente cool.







Wednesday, August 17, 2016

Crônicas Marroquinas V :: Orson Welles em Essaouira



Orson Welles filmou seu Othello (1952) em pelo menos nove locações diferentes no Marrocos e na Itália. Foram três anos de filmagem absurdamente dificultosos, algo como, ouso comparar, Coppola comendo carne de urso para fazer seu Apocalypse Now nas Filipinas.

A dramática e impactante cena inicial -- os funerais de Othello e Desdemona e a punição de Iago -- foi toda rodada em Essaouira.

Parece hoje há pequena praça em homenagem ao diretor. Não vi. Vi exaltações de gaivotas, garotos-gaivotas voando das muralhas, over and over, e um mercado de peixe. Tudo isso do lado de cá da medina ainda.

Agora tentem descobrir quais fotos são minhas e quais do Orson. Rarrá.