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Sunday, September 18, 2022

Dante e a Cannabis

Nos vídeos mágicos, autistas não-verbais começam o tratamento com CBD e, shazam!, logo estão falando mais que papagaio em areia quente

 
Com a gente não foi bem assim. Imagina você tomar um remédio pra emagrecer, porém você não apenas não emagrece como... engorda. Foi o que aconteceu com o CBD aqui em casa. Ele não apenas não trouxe a organização psíquica tão almejada como fez com que o Dante regredisse de modo que nem meus piores pessimismos poderiam conceber
 
Uma neuropediatra indicou-lhe o óleo Shanti, que é o CBD + THC. Atenção para esse componente que atende por THC, que é o que dá o barato na cannabis. E que é o que pode causar esquizofrenia também, principalmente em cérebros adolescentes, mas isso terapeutas canábicos não aceitam
 
Não somos, Dante e eu, contra o CBD. Somos mesmo favoráveis à liberação para que a erva possa ser cultivada em casa. Só estamos dizendo que pode não dar certo. No nosso caso, o terapeuta canábico recomendou o aumento da dosagem (!) e eu, cansado de limpar manchas de sangue nas paredes causadas pelas cabeçadas do Dante, achei era hora de suspender
 
( foto de ontem à tarde, depois da interrupção. durante o THC um momento assim seria impossível )


 

Thursday, July 28, 2022

Com Sylvia pelas ruas geladas de Londres

 

 

Os dezoito minutos finais de Sylvia (2003) são dolorosos. Bonitos, dolorosos. Na sequência de cenas doídas (suas conversas com o vizinho, o abandono frio e definitivo de Ted, suas alucinações no corredor, a preparação para a morte), há aquela em que ela caminha pelas ruas geladas de Londres. Ninguém pode fazer-lhe companhia, trocar palavras ou silêncios. Ela caminha com olhos insistentes e desesperançados, fixa o vazio que em breve irá abraçar. A música de Gabriel Yared é a trilha perfeita e quando, há muitos anos, pedi que meus alunos atendessem à notação de Tennessee Williams de que a música para sua The Glass Menagerie fosse 'perhaps the saddest music', foi esta que eu trouxe

Foi assim, foi exatamente assim, que caminhei com o Dante em Petrópolis, na véspera do meu aniversário deste ano

Nós saímos de um restaurante, onde ele estivera muito, muito mal. Meltdown, TAG, expressos em seu obsedante bater de cabeça, nas costas da cadeira, na mesa, na parede. Foi assim por todo o final de semana, dos piores. Nós saímos do restaurante, eu frustrado, exausto, impotente. Caminhamos numa estrada em que não havia calçada, caminhamos contra os carros. Por um momento pensei que se um daqueles carros nos colhesse, ao menos seria o fim de tudo. Eu pensei isso

Logo em seguida a esta cena de que falei, Sylvia entra numa cabine telefônica e procura algum contato, uma ajuda. Mas a pessoa não pode se encontrar com ela. Em seguida ela liga para seu médico, a quem diz "I can't manage". Caramba. Foi exatamente o que eu disse quando por esses dias me perguntavam, alguns realmente interessados, outros apenas faticamente, 'Não estou dando conta, não'. A reação que recebi ao meu desabafo desesperado foi, também aqui, a mesma em alguns casos: a indiferença

E ai de quem, e ai de mim, reclamar dessa indiferença. Se transforma em raiva.




Saturday, April 02, 2022

Viva o Dia Mundial da Conscientização do Autismo!

Se repetições, estereotipias, stims e ecolalias são marcas registradas do autismo, não se pense, no entanto, que o autista é previsível. Posso tentar cercá-lo de tudo que gosta: levá-lo à praia com água de coco e rede à mão, como em Maceió, e ele não fazer outra coisa senão insistir em sair dali. Em Prata dos Aredes, em Teresópolis, bem distante do centro, onde nos enfiamos num chalé para virar o ano, tinha piscina e rio, mas choveu quase que ininterruptamente todos os quatro dias ("Os navios soçobram. Continentes / já submergem com todos os viventes") e eu pensei 'Meu Deus, tô ferrado' e ele ficou doce como um alfenim de Goiás Velho, batendo récordes de soninho, um tatu-bolinha ronronando em seu canto, que amou, que Bachelard amaria

Numa das poucas tréguas, saímos os três para passeio pela estrada encharcada cheia de hortênsias. Os três: ele, o guarda-chuva, eu. Foi um passeio tão simples, ele gostou tanto. Eu também. Logo depois ele queria de novo, mas 'as fontes de Maria mais chuvavam' e não pudemos sair e nessa hora ele se irritou

Mas havia uma rede, havia o tablet. As arapongas soavam o gongo sem parar. Na varanda do dia 31 e do dia primeiro do ano ouvimos muito "King of the Universe", da Electric Light Orchestra. Caiu tão bem

King of the Universe
I am King, King of the Earth
 
King of the Universe
I am King, King of the Sky

Ontem foi o dia da mentira, o dia do genocida e seu desgoverno. Hoje é o Dia Mundial da Conscientização do Autismo. Viva o Dia Mundial da Conscientização do Autismo!




Monday, March 21, 2022

Hear me sing / Swim to me

 


Quando Dante e eu andamos pelas ruas
É sempre da sua maneira peculiar
Ele me dá o braço como fôssemos casal
Minha outra mão eu a estendo sobre o peito
E me sinto o próprio cavalheiro de El Greco
São tantos os olhares sobre nós que me incomodo
E às vezes solto 'Por que será
Olham tanto pra gente, Dante?!
Devem estar nos achando bonitos!'
Assim hoje
Assim no tempo distante de ontem

PS: Mas eu também se cruzasse com esses dois
Olharia para ele pensando
Meu Deus, como esse menino parece o Tim Buckley
Cantará como ele a canção para a sereia? 




Monday, February 28, 2022

De vendedores de bilhetes de loteria e peixeiros

Meu pai só comprava bilhete de loteria com um vendedor (de bilhetes de loteria) que ficava ali na esquina da 1o de Março com a Rua Larga de São Joaquim

Eu achava engraçada essa fidelização assim. O que esse vendedor fez pra cativar meu pai? Provavelmente nada

Na mesma época, eu tinha meus 13 anos, eu estava na casa de um amigo que saiu pra cortar o cabelo. A gente era tão amigo que ele podia sair pra cortar o cabelo e eu continuar em sua casa. Voltou em dez minutos e todos 'Ué?' e ele "Meu barbeiro não estava lá". Logo liguei as coisas

 E eu não tinha isso, só fui ter muitos anos depois, justo com o Levi, um barbeiro em Icaraí que escrevia cordel (escrevi aqui)

Mais recentemente tornei-me fiel ao peixeiro da feira de sábado do Grajaú, na Duquesa de Bragança. De sábado, porque a famosa é a da sexta. Só compro peixe e camarão com ele. Às vezes polvo e lula

Ontem não foi diferente e na hora de pagar, sua filha, que cuida dos pagamentos, perguntou 'Hoje veio sem seu ajudante?' Sorri feliz "Você acertou o nome dele: Dante". Sorrimos

Um gesto tão pequeno, né? Pra gente faz diferença: ela perguntou pelo menino de caracóis na cabeça, aliás quase sempre agitado quando está lá, ameaçando bater a cabeça no cherne e jogar os filezinhos de viola no chão

Sunday, February 13, 2022

Só pode levantar com o dia claro

Há todo o ritual para dormir, se já para neurotípicos, imagina para autistas com seu pendor para rituais e repetições. Na hora mesmo em que deita Dante pede um copo d'água. Quase nunca tem sede e muitas vezes mal bebe gole, é só mesmo para retardar, tanto quanto possível, a hora de dormir. Mas às vezes bebe tudo e pede mais, o que já me irritou um pouco, em momentos de exaustão. Mas tá. Depois bate na cama ao seu lado, forma de pedir que eu me deite ali. Sempre o faço e o beijo, evitando dizer coisas como "Amanhã a gente vai isso ou aquilo", o que geraria ansiedade e um menino acordado ainda de madrugada. E é por isso então que não só não faço qualquer referência ao futuro como digo "Só pode levantar com o dia claro, tá? Não pode levantar se estiver escuro", eu ainda traumatizado com seus acordares às 4, 4:30 da manhã.

Assim fizemos muitas vezes, mas fiquei com a pulga atrás da orelha: e se ele sentisse qualquer mal-estar durante a noite? Um sonho ruim que fosse? Um ataque de insônia? Se lembrasse de minhas palavras, iria se sentir culpado em me procurar, então passei a dizer "Só pode levantar com o dia claro, tá? Não pode levantar se estiver escuro. Mas se você sentir qualquer coisa e precisar falar com o papai, pode me chamar". Acho que ficou com contornos de piada, como a da lápide do comerciante recém-falecido 'Fulano de tal, grande pai e marido, benfeitor da comunidade etc etc e tal. Mas sua loja continua funcionando na Rua da Assembleia, número 27, sobreloja'. 

Também ele achou que ficou engraçado, de modo que tão logo termino a frase completa caímos na risada. Ontem foi assim. E dormimos de coração aquecido

No quarto ao lado tocava "Mother's Nature Son", com o Gryphon




Tuesday, January 11, 2022

A árvore comedora de bolas e pipas

 


Dante tem umas coisas tão engraçadas. Reparem que na foto há uma bola dourada presa na palmeira, qual goiaba, enquanto ela segura a vermelha. Zangado. Mas não porque a dourada ficou presa nos galhos, mas por não conseguir fazer o mesmo com a outra. Ajudo, tentamos, mas é questão de vento e sorte. Em vão

Isso me lembra a famosa, para os fãs de Peanuts, claro, árvore comedora de pipas do Charlie Brown. Fracassado como jogador de beisebol, fracassado no amor (a Ruivinha nem sabe que ele existe e ele não percebe o amor ali à mão da Patty), fracassa também na tentativa de empinar pipas, que ficam todas presas na maldita árvore. (Eu tampouco conseguia empiná-las, exceto na praia, mas aí sempre aparecia um malandrão com cerol)

Voltando ao Dante: a diferença é que o Charlie Brown fica puto, triste, frustrado, tadinho, enquanto que o Dante quer porque quer que seu balão fique preso na árvore

Pensando bem, no fim dá igual: ele também fica bem frustrado, a ponto de eu ter de intervir 



Saturday, January 08, 2022

Que guarda o guarda-chuva além da chuva II

Eu lembrava, sim, de ter postado algo por aqui sobre a relação Dante / guarda-chuvas, mas me esquecera inteiramente de ter escrito soneto para esta relação (aqui)! 

Viramos o ano em Prata dos Aredes, interior de Teresópolis. Isolado, lindo, natureza exuberante (parece hotel de selva, Pampi disse ao ver vídeo) com rio e arapongas. Úmido. Muita, muita chuva. Tinha muito pra dar errado, por causa do tempo, mas deu incrivelmente certo, com Dante batendo récordes de soninho, no seu cantinho que amou, que Bachelard amaria.

Deu certo também porque tínhamos guarda-chuva, um único que por lá ficou, depois de combater o bom combate e fazer a alegria do mocinho.

Gostei das fotos, que aqui publico, junto com algumas mais antigas, da postagem antiga.














Monday, December 06, 2021

Em Búzios com Dante

Sempre tive grande resistência a Búzios. Digo: grande. De modo a já ter ido a Marrocos, Chipre, Malta, Eslováquia, Nepal e Andrequicé mas fazer questão nenhuma de Búzios. Escusado listar motivos para tal recusa. Pampi já sugeriu Arraial do Cabo, ali perto, e eu eriçava ouvidos moucos e evasivas

Fui a Búzios com o Dante. Três sóis e três luas. Nossa terceira viagem juntos (Maceió está aqui), nossa segunda só nós dois

Foi qualquer coisa de maravilhoso

A escolha do hotel segue princípios: perto de praia, piscina, rede. Nossa pousada querida em Geribá ticou em tudo

Aqui boto apenas nossa coleção de placas de praias, amanhã faço postagem mais abrangente







Tuesday, November 02, 2021

Inclusão começa em casa. Exclusão também


 Dante tinha duas semanas de vida quando uma amiga da época estava em Niterói e então me convidou para ir ao Mercado de Peixe. Respondi que não dava. Para ouvir: "Olha, se você não pode sair, você está limado", colocando grande ênfase na última palavra. Fiquei meio chocado.

Com o diagnóstico de autismo, aí todo mundo some. As pessoas veem matéria na TV sobre autismo e ficam com os olhos marejados, mas ajudar minimamente irmão, sobrinho, primo, tio que tem autismo, ou que são cuidadores de autistas, ah isso é muito chato! Então disfarçam, dão um jeito de fazer inversões formidáveis para que você seja o errado, o mimizento, e deitam tranquilas as cabecinhas no travesseiro. Comem a consciência com Nutella, como Lampião comeu a dele com farinha.

Durante a pandemia, não houve um único von Sydow ou Domingues que se oferecesse, por exemplo, para dar um passeio de carro com o Dante. Ele que tanto gosta (e eu não dirijo). Daí pra baixo: agora já é abertamente excluído de aniversários e o (literalmente) tiozão que se compromete a recebê-lo em sua casa por um dia se lembra depois que precisa sair pra pescar. E sai pra pescar.

Este texto não está sendo escrito em momento de raiva, mas de serenidade. Hoje até prefiro assim. Minha régua hoje é como as pessoas agem em relação ao Dante. Se se interessam, se acheguem. Se não, podem ir embora. Na verdade já foram. E nem nos importamos mais.



Thursday, July 29, 2021

Dante, Chef Jonatas : Akuaba, estamos abertos

Quem resume muito bem o que é uma saída com filho autista é Luiz Fernando Vianna, quando constata ser "desgastante sair com seu filho para um passeio e se sentir alvo de olhares, nem todos generosos". Se num passeio, digamos, pelo calçadão, pode-se cruzar com um desses olhares pouco generosos e seguir adiante, sentar-se num restaurante pode ser bem mais difícil.

Embora Dante e eu já tenhamos o hábito de entrar em lanchonetes para um sorvete ou mate, as experiências em restaurantes, quando tentei uma refeição juntos, foram poucas e todas péssimas: ele numa de suas crises clássicas que não tem santo que dê jeito. 

Restaurantes normalmente são tidos como espaços sacralizados, onde uma refeição ganha contornos de missa ou de concerto de cravo. Se o celular da mesa vizinha pode deixar clientes mal-humorados, ruídos de crianças nem se fala. Seriam muitos olhares pouco generosos. Ainda mais porque o primeiro movimento é sempre o de considerar a criança mal educada, sem modos, o que divide esses olhares mortais como pistolas entre as crianças e seus pais, que não sabem controlar a prole.

A semana nas Alagoas trazia esse desafio: não seriam duas ou três, mas pelo menos oito idas a restaurantes, mesmo porque Camila e eu consideramos as refeições um dos pontos altos da viagem e não queríamos fosse diferente. Queríamos provar a melhor casquinha de siri do Brasil, o autêntico chiclete de camarão, ir a um Boa Lembrança, eu precisava voltar a tomar caldinhos de sururu, passados trinta anos. E Dante incluso.

Bem.

Os caldinhos de sururu estavam divinos (como pude esperar trinta anos?), a casquinha de siri do Massagueirinha é para comer rezando, o chiclete de camarão logo grudou-se à nossa memória e a experiência no Akuaba, restaurante afro-baiano aonde fomos para nosso pratinho da Boa Lembrança, já mora em nossos corações e não apenas pela moqueca deliciosa.

Dante sempre tem que conhecer o banheiro dos lugares. No Akuaba, no caminho deste estava a cozinha aberta, onde o chef Jonatas pilotava as panelas e finalizava a montagem de um prato. Dante gostou daquilo, sentou-se para ver, ainda mais porque tinha frigideira na jogada. Percebendo o interesse do pequeno, Jonatas perguntou-lhe o que ele gostava de comer. Dante respondeu-lhe em dantês: a mão esquerda batendo sobre a direita fechada. Traduzi: ovo. O chef então carinhosamente preparou-lhe dois. Para dois meninos fascinados. Não sei se foram os melhores ovos da vida para o Dante, foram os melhores ovos da vida do Dante para mim. Jonatas fez com que os ovos fossem acompanhados de purê, fez também com que tudo fosse cortesia. Voltamos para mesa e Dante devorou a refeição em um minuto.

Pode parecer exagero, deslumbre talvez. Trata-se de um pequeno ato enormemente significativo cuja mensagem é 'Venham, tragam seus filhos autistas, estamos abertos'. Para os autistas isso diz muito, para cuidadores que já decidiram não esconder esses pequenos no porão, também. Aliás, não por acaso 'akuaba' significa 'bem-vindo' em iorubá.

 


 




Thursday, April 29, 2021

A Cadela da Exclusão

A neuropediatra do Dante, conosco há mais de dez anos, tem seu consultório distante de nossa casa (o que já foi enorme transtorno, hoje bem menos) e suas consultas, lá vai litotes, não são nada baratas, com o agravante de que os preços obedecem a índices de reajuste muito próprios, cuja lógica me é desconhecida. Ela é excelente: profunda conhecedora da área, atenciosa, boa ouvinte.

Para a pediatra regular, no entanto, e não se veja aqui hierarquização, pensei em solução mais simples: alguém que atendesse pelo plano e num bairro próximo. Encontrei.

Logo na nossa primeira consulta ela perguntou sobre a escola do Dante. Ante minha resposta, indagou, muito melíflua: 'Você não acha que o Dante estaria melhor numa escola especial?'. Perdi o ar, mas consegui dizer 'Não, não acho não, e a educação inclusiva é um caminho sem volta'. Ela percebeu meu desconforto, não insistiu, examinou o pequeno. E se revelou, a propósito, ótima profissional: carinhosa, paciente, também boa ouvinte.

Tantas vezes nos arrependemos achando que não demos a resposta certa. Olha, ali acho que acertei.

No entanto, hoje já não sei se a educação inclusiva é um caminho sem volta. Não achávamos ser a democracia caminho sem volta? Não houve / há o decreto 10.502, o Decreto da Exclusão? Educação inclusiva não é caminho sem volta, mormente em país que joga confete pra fascista. É aquela coisa, perdoem os chavões, será caminho sem volta com incansável (pra não usar 'eterna', pesada) vigilância. Mesmo porque, parafraseando Brecht, a cadela da exclusão está sempre no cio.

Wednesday, December 23, 2020

Dante, aulas remotas, eu

Quando começou essa história de aulas remotas, pensei logo 'Não vou conseguir'. Entravam aí, claro, insegurança e contumaz desacerto com internet. Entrava aí minha preocupação com o Dante, eu tendo que estar com ele, ele atrás de mim, eu me lembrava do Robert Kelly dando entrevista para a BBC: entra a filha dançando, entra o bebê no andador, entra a mãe desesperada atrás, puxando filha filho andador e porta. Foi engraçado mas preferi ver a resposta a isso: se fosse mulher, ela iria sentar a criança no colo, dar de mamar se necessário e continuar a entrevista.

Nela me inspirei quando anuí: partiu, mas vai ser como der, como for possível, tenho filho autista em casa e, como disse Thiago Queiroz, tão acertadamente, "não são os filhos que invadem o trabalho, foi o trabalho que invadiu a vida de filhos e família".

Quando o filho é autista, a parada complica, quem disser que é a mesma coisa leva sopapo. Virtual.

Dei um curso sobre Pink Floyd para os alunos do 1o ano que ia das 7 ás 7:50. Estive à frente de uma roda de conversa chamada "(Precisamos falar sobre) Autismo na Quarentena", que ia das 7:50 às 8:40. Éramos só nós dois. E tantas outras aulas e orientações. Minha tranquilidade é ouvir o ranger da rede, ao menos sei onde ele está e que está bem. Os alunos também ouvem o ranger e sabem onde está o Dante. Num dia de roda de conversa, ele estava muito quieto, o que não é bom sinal. Quando terminei, vi que ele arrastara a poltrona para o meio da sala, bloqueara a porta da frente com o sofá e levara as quatro cadeiras, grandes, para a cozinha. Estava quieto e feliz. Sorria. Suspirei. Tá, Dante, você quer mais chocolate? 

Hoje nos acostumamos um pouco. Ele às vezes vem e se senta no meu colo. Outras vezes pede beijos e shantalas. E pede sempre que eu não feche a porta, no que o respeito totalmente.

Monday, December 21, 2020

Multiple Twelve

Quando contei para os meus 'pais americanos' que Dante em breve faria 12 anos e que eu fizera para ele poema apenas com rimas em 'oze', eles prontamente me responderam assim

 

Ellen:

May Dante stay on his toes
Wherever he goes
And strike a brave pose
Against any foes
Presents with bows
And even a rose
Can brighten his lows
And dispell any woes

 

Dave:

Ellen and I wish him a life with very few woes, wherever he goes, and not many lows, and presents with bows.

And when he throws, may he hit 'em on the nose.
 
Tenho é muito orgulho do Dave e da Ellen, com quem morei em Chicago em 1986-1987. Hoje eles moram em Wisconsin, numa casa ao lado do lago, em Eagle River, ainda mais ao norte de Chicago. Disseram-me que se trump fosse reeleito, subiriam mais um pouco e iriam morar no Canadá.
 
Tenho muito orgulho. Felizmente podem continuar onde estão, na casa linda ao lado do lago onde à noite se escuta o canto de um pato de olhos muito vermelhos que só há por lá, o loon. 

"Multiple Twelve", Wim Mertens ::


Saturday, December 19, 2020

12



 

12
 
É teimoso gaiato cheio de pose 
Quando zangado já não há quem ouse
confrontá-lo, pois às vezes é dose
pra leão pra bisão se fica azedo
(e isso às vezes começa bem bem cedo)
but I love him dearly I'm one of those
who can but love even if I can't doze
off in my siesta : somos sempre dois e
o mundo o vasto mundo pouco doce
nem sempre entende. No poema pouse
amor sem fim plural metamorfose
Que o menino mais lindo chega aos doze 


Da série "Se explicar estraga?" ::

Para os 12 anos do Dante, poema de 12 versos, todos eles rimando com "doze", precisando recorrer ao inglês e a inversões silábicas: doze > zedo

O correto seria, creio, que os versos fossem alexandrinos, é o que se dá por aí, mas isso não sei fazer


Saturday, November 28, 2020

Amor às cigarras: de pai pra filho, de pai pra filho

Com sua pedagogia muito própria (aqui), meu pai me ensinou amor às cigarras, por que sou grato, que é dos grandes que carrego. E feliz agora por conseguir transmiti-lo ao Dante, a comprovação veio hoje. Naquela hora preferida delas, uma gritou, agarrada ao flamboyant, sua cabeça de noiva, as asas como véu, translúcidas. Dante estava de pé no corredor e apontou para o ouvido, sem incômodo. Perguntei O que é, Dante? Ele sorriu e apertou o nariz, seu jeito de dizer sol (e piscina)

 A cigarra atrelas as patas é no nosso coração.

E com Adélia, de novo

Sunday, September 27, 2020

Adolescência Autista ou A Invenção do Diabo

 


Foi Eustacia Cutler, a mãe de Temple Grandin, quem disse 'A adolescência já é dificílima para qualquer criança, mas a adolescência autista é invenção do diabo'

Cito com sorriso nos lábios, ainda mais vivendo nesta teocracia fundamentalista insuportável em que se transformou o Brasil.

Há exato um ano e um mês eu já descrevera em haikai :

o pai se apavora
a pentelheira do Dante
lentamente aflora
 
Um sorriso nos lábios, sim, mas esse adolescer já me oferece seu grão de angústia na mão esquerda, quando, por exemplo, tem suas crises de ansiedade amplificadas pela masturbação. Sigh, não deveria ser o contrário? A outra, a outra mão, continua acariciando os cabelos e a voz e o passo e a arquitetura / e o mistério que além faz os seres preciosos
 
Tudo isso vem a propósito de Um Sopro no Coração, de Malle, assistido ontem e de onde fiz os stills
 



Monday, September 14, 2020

"I'm not getting what I want even when I'm getting what I want" ou A Era da Ansiedade pt. I


W. H. Auden publicou seu longo poema The Age of Anxiety em 1947. A Europa vivia ainda sob os escombros da 2a Guerra e olhava para o futuro com pavor, afinal foram duas grandes guerras em 30 anos e a próxima poderia ser a final. Desânimo, frustração, pavor. Ansiedade.

Leonard Bernstein não esperou a década de 40 acabar (ansiedade?) para escrever sua segunda sinfonia, baseada no poema de Auden e também chamada The Age of Anxiety, nome também usado por Pete Townshend para batizar seu primeiro romance, lançado ano passado. 

Temos uma tendência para pensar que nunca houve uma era como a nossa, mas creio não haver exagero algum para usar a expressão 'A Era da Ansiedade' em um momento de pandemia. Principalmente no Brasil, abandonado à própria sorte.

Num nível doméstico, aqui em casa sempre houve era da ansiedade. Crises de ansiedade são de tal modo comorbidade que, assim, como o TOD, não consigo imaginar o autismo do Dante sem elas. É possível que exista autismo sem crises de ansiedade. Eu não consigo imaginar. Deve ser bom.

Normalmente associamos ansiedade a frustrações ou situações difíceis, eventos que possivelmente serão desagradáveis: uma prova difícil, uma apresentação oral, uma entrevista de emprego, o chefe diz que precisa conversar algo importante, mas com o Dante as ondas de ansiedade podem vir tanto com a negação de um segundo copo de chocolate quanto com a promessa de batata frita na casa da tia Kátia. Coisas boas também geram tsunamis. A demora em consegui-las, idem. Exemplo: adora andar de carro, mas, recentemente, depois que o Uber chegou depois de demora anormal, ele já estava tão absurdamente ansioso que não aproveitou absolutamente nada do passeio. 

Isso me deixa particularmente triste: ver que a ansiedade evita que ele se sinta bem mesmo quando está fazendo o que gosta. Daí, o 'I'm not getting what I want even when I'm getting what I want', tirado do The Dying Animal, do Philip Roth. O contexto é inteiramente diferente -- um cara maduro apaixonado por uma moça -- mas a ansiedade é basicamente a mesma. 


Sunday, June 14, 2020

Somos pai e filho


Há pais que dizem:
Meu filho, se quiser mais chocolate, que pegue,
e que beba na cozinha.
Eu não. Me levanto
e trago pra varanda
ele paga com sorriso
É tão bom, só a gente sozinhos na varanda,
chove chuvinha miúda
que deveria se chamar poejo
ou, vá lá, hortelãzinha

Coisas prateadas espocam:
somos pai e filho.

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É a segunda vez que rasuro este mesmo poema da Adélia, 'Casamento'. A primeira foi aqui

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Wednesday, May 13, 2020

Haicai enquanto a tarde kai


banho de balde
se ele se esbalda
não foi debalde