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Wednesday, February 02, 2022

Ange :: Paralém do Delírio


Não há como ser lado B aqui (bien, já estamos no lado B) : minhas duas bandas preferidas da cena progressiva francesa são as reconhecidamente maiores da dita cena: Ange e Magma. Por óbvio que é sempre uma questão de gosto, e vou adorar quem prefira Mona Lisa ou Wapassou, mas em termos de importância, produção e intensidade o lugar de proeminência que ocupam é tanto aceito quanto merecido. Quase como, em analogia, reconhecer a Santíssima Trindade PFM, Banco e Le Orme na mais rica cena italiana Se bem que aí a minha banda preferida é o Museo Rosenbach. Mas não compliquemos, falemos do Ange.

A postagem que sonhei escrever sobre eles -- uma resenha pormenorizada sobre Au-delà du délire, um dos discos da minha vida -- nunca saiu, mas algo das noites varadas empurrando o carrinho do insone Dante ao som do Ange registrou-se aqui.

Agora há pouco estávamos na Suíça e fomos passar dois dias em Lyon. Em meio aos bouchons maravilhosos, aos pralulines de sonho e aos traboules e lembranças de Juninho, uma única loja de discos na cidade velha. Onde me esperava a edição original do Au-delà du délire. Como me senti? Au-delà du délire.










Tuesday, July 07, 2020

Guimarães Rosa Jurado de Concurso


Deus de Caim, do mato-grossense Ricardo Guilherme Dicke, é o romance que ficou em quarto lugar no Prêmio Nacional Walmap de 1967, que teve Guimarães Rosa, Jorge Amado e Antonio Olinto como jurados.

Em suas anotações, Rosa viu nele "traços geniais", mas criticou-o como desordenado, caótico, indepurado, bem como suas "excessivas alusões culturais-intelectuais". Foi das últimas coisas que ele, Rosa, fez em vida.

Quem gostava muito de Ricardo Guilherme Dicke era a Hilda Hilst. Hilda, sempre polêmica, dizia preferi-lo ao Rosa.

Primeira edição autografada, 1968, pela editora novata Edinova, prefácio de Antonio Olinto.

A mãozinha é do Dante.

Estou terminando a leitura, prazerosa em muitos momentos, mesmo profunda, mas que não raro esbarra no excesso de causos (uma praga do regionalismo) e, sim, nas "excessivas alusões culturais-intelectuais", como criticou Rosa.

E, ó que interessante, lá na página 225, o atormentado Isidoro, preso a uma cadeira de rodas em seu palacete, resolve bisbilhotar o quarto da irmã, que foi para Paris ter filho de uma relação incestuosa:

"Um grande urso de pelúcia verde abarcava o espaço em cima da estante de livros. Sobre a mesa uns livros amontoados. Leu-lhes os títulos. Aldous Huxley, Hesse, Dostoiévski, Guimarães Rosa, Jorge Amado, a Biblia, era lida a moça. Na pia, a água da torneira gotejava."

Ou seja, de autores nacionais, apenas o Rosa e o Jorge Amado! Dois dos três jurados do concurso para o qual Ricardo Dicke submetera o seu romance! Será que os nomes dos jurados foram divulgados de antemão? Faz pensar.




Thursday, March 26, 2020

Navegar em Nava :: Hoje é Aniversário do Meu Pai


Esta minha coleção de Pedro Nava, minha naveana, orgulho da minha vida. Os seis livros de memória, que li e reli de modo febril, foram todos comprados por meu pai, que hoje completa 85 anos.

Meu pai assim, apresentando-me à vida sempre, sempre sem forçar nada, aliás, me ensinando tanta coisa no seu jeito

Me lembro mesmo de, talvez 1983, talvez 1984, eu olhar para seus livros do Nava e pensar 'Caramba, como deve ser chato isso'. Em 1996, 1997, fazendo meu mestrado, deixei a chatice do Afonso Celso de lado e caí de boca e alma em Pedro Nava. 

Li compulsivamente. Li de ter febre, li de sonhar com ele dizendo EU SOU O COMENDADOR, li de ter que percorrer seus caminhos, de conhecer seu sobrinho, de ir a Juiz de Fora. E de reler sempre. E nunca desvendar tudo. Mistério que a vida me emprestou.

Os livros do meu pai foram um pouco dilapidados, os anos difíceis do Dante (como para os CDs, aqui). Mas são os do meu coração, porque têm todas as minhas anotações e, claro, a assinatura do meu pai.

Mas comprei também dois exemplares autografados. E tenho alguns estudos, e suas cartas e pequeno diário de viagem.





Friday, November 01, 2019

Minha coleção de CDs (enfim) reorganizada





Pode até parecer ostentação, mas quem hoje iria se ostentar com coleção desse objeto obsoleto, o CD?

Descartada, pois, essa hipótese, é isto: reorganizo minha coleção de CDs passados oito anos de abandono e destruição. E o faço em homenagem à minha mãe. E se as coisas parecem obscuras ou dramáticas, explico:

Dante, meu filho amado, tem autismo. Nos seus dificílimos primeiros anos, ele cismou porque cismou com minha enorme e cuidada coleção de CDs, tendo algum prazer e grande obsessão em tirá-los do lugar, arremessá-los no chão, jogá-los pela janela, quebrá-los. Mas isso era ainda algo menor, comparado a outros comportamentos e estereotipias como bater a cabeça no chão, morder-se, agredir-nos. Com a distância, parece fácil pensar hoje que bastava tirar os CDs de seu alcance, escondê-los enquanto ele estivesse dormindo (o que fazia pouquíssimo) para preservar a coleção. Sim. Mas quando se está no olho do furacão, exausto estressado frustrado, não se tem clareza nenhuma.

Quando a mãe do Dante saiu de casa e eu fiquei absolutamente só, minha mãe vinha do Rio (morávamos em Niterói) para ajudar alguns finais de semana. Num sábado de destruição, ela reagiu "Não deixa não, Evandro, é a sua coleção, são seus CDs".

Guardei aquilo.

Juntei os cacos. Faltou-me energia para organizar a coleção na primeira mudança. Nesta agora, enrolei as mangas, chamei marceneiro e aí está. Ainda abro um CD do Banco e encontro um Andrew Bird, às vezes não encontro nada. Reavalio também minha relação com a coleção: num exercício raro de desapego, boto itens à venda ou doo. 

Eu havia prometido que só voltaria a comprar depois que organizasse a coleção. Pois, no show do Arcpélago, durante o ótimo Carioca Prog Festival, compro, criança, o Caravela Escarlate e o Kaizen.

E a Dona Maria de Lourdes, sentada em sua nuvenzinha, a tudo assiste feliz: à coleção que retoma forma, ao menino mais lindo que cresce feliz, amado.

Obrigado.






Thursday, August 01, 2019

Sinto que o mês presente me assassina : Mario Faustino em Belém



Tragicamente morto aos 32 anos, o poeta Mario Faustino publicou um único livro, sete anos antes, pela editora carioca Livros de Portugal.

Tenho essa boabagem aí autografada, comprada num dia de São Sebastião, Fortaleza 1992.

Um joia.

Se o livro era destinado a um jornalista ou crítico literário, era então praxe os autores colocarem seu endereço na página do autógrafo, de modo a facilitar o feedback.

Então tenho este livro aqui há 27 anos, com este endereço tantálico: Passagem Bolonha, 15. Belém-Pará.

Eu já estivera em Belém em 1989. Voltando agora, não podia falhar.

Fui na Passagem Bolonha, conheci, apenas por fora, o Palacete Bolonha, vi o belo conjunto de casas. O número 15 mesmo não existe mais, mas acredito antes numa mudança dos números do que numa derrubada. De modo que dá para imaginar.

E para canhestramente ler uns versos


Wednesday, July 10, 2019

Marajó, Dalcídio Jurandir



Marajó (1947) é o segundo romance de Dalcídio Jurandir, então pela prestigiada José Olympio, que no entanto não tornaria a publicá-lo. Tenho a primeira edição autografada, um tesouro, mas a edição mesmo é recheada de erros.

O romance é recheado de acertos, embora não seja ainda o Dalcídio mais experimental, mais faulkneriano que teríamos vinte anos depois em Primeira Manhã. Mesmo para um regionalismo social de um Graciliano, tem uma carga excessiva de cor local.

A ação da narrativa se dá em Ponta de Pedras, cidade natal do autor que viria a morar em Cachoeira, Cachoeira do Arari, já devidamente imortalizada em Chove nos Campos de Cachoeira.

Chove nos Campos de Cachoeira, que nome mais lindo

Missunga sentiu a voz de Alaíde como se ela falasse do meio do rio, numa embarcação ao sabor da vazante. Aos poucos, algumas cenas de vaqueiragens, as escrituras do pai, Marta acuada no muro do cemitério, as donzelas que seu pai deixava , nos campos e nas beiradas, caídas e abertas como os peixes de Alaíde, despertaram-no confusamente. E deu com o olhar de Alaíde, tão parado, que não entendeu o que havia nele, de triste, um olhar que não se repetiria mais e que logo mudou, como surpreendido ou culpado. 



Sunday, April 14, 2019

As Camisas de Futebol com a Lista Transversal


Novas aquisições para uma das coleções mais importantes que tenho: a de camisas de futebol com faixa transversal, que pode começar da direita ou da esquerda: a do Puebla, México, e, enfim, a do Galícia Esporte Clube, da cidade de Salvador.

Primeiro tricampeão do futebol baiano, o glorioso Galícia levantou o caneco pela última vez no ano em que nasci, ano do Álbum Branco, só coisas boas. Junto ao time do Jorge Amado, o Ypiranga, dá ao amante de futebol a chance de fugir das dicotomias limitadoras, no caso, o Ba-Vi.

Eu tinha já camisa do Galícia, presente de baiana amiga, mas eu precisava dessa com a faixa transversal.

Foi ganhá-la e, criança, vesti-la em seguida para o primeiro dia do Comida du Buteco 2019. Coincidência (ou não, porque eu justo falara nele), encontro na saída o Luiz Antônio Simas, autor do delicioso Ode a Mauro Shampoo e Outras Histórias da Várzea. Simas logo reconhece a camisa, porventura o único habitante do Rio ("nesta cidade do Rio / de dois milhões de habitantes") que reconheceria de pronto a camisa do Galícia assim num boteco na Praça Mauá.

Ainda digo a ele: "Pois é, Simas, agora temos que conseguir a do Ypiranga, time do Jorge Amado", ao que ele rebate: "Tenho três".

Eu e minha boca grande.



Sunday, December 02, 2018

Um Beiral para os Sabiás


Ontem fui à Feira do Subsolo da Livraria Berinjela, um dos melhores programas para as manhãs cariocas de sábado (aqui). Como sempre, não voltei de mãos vazias ou não teria estado lá: Outras Cores, de Pamuk; Teatro, de Bernardo Carvalho; A Inglesa Deslumbrada, de Fernando Sabino.

Dos três, o que ora enseja postagem e início de coleção é este último: primeira edição de 1967, capa da Ziraldo, Editora Sabiá.

A Editora Sabiá é uma dissidência da Editora do Autor, tocada por Fernando Sabino e Rubem Braga. Durou 'apenas' seis anos, de 1966 a 1972, mas que anos! e quanta história!

Basta dizer que, em 13 de dezembro de 1968, Sabiá planejou lançamento de quatro livros no MAM. Coisinha pouca: Márcio Moreira Alves, Dom Hélder Câmara, Che Guevara. E Roda Viva, do Chico.

Justo no dia em que os vermes baixaram o AI-5. O lançamento, por óbvio, nunca aconteceu.

Começo a minha coleção de primeiras edições da Sabiá, de que já tenho exemplares, inclusive edição autógrafa do Vinícius (aqui).



Saturday, November 10, 2018

O Tio de Guimarães Rosa e Joãozito


O dia amanheceu nublado e foi abrindo. Dante já saudoso de piscina e pracinha, irritado irritável na manhã de sábado. Apostei num passeio que sói dar certo: o 606 até o ponto final; de lá, o VLT até a Praça XV, onde tomamos sundae de chocolate no Bob's. Depois passeamos pela feira que amo e isso é mais pra mim que pra ele que então ficou irritadíssimo. Na barraca de livros vi belíssimo de azulejos portugueses modernos e outro de capas de livros no Brasil, mas o pequeno era tão irritado que tive que me retirar para achar banheiro, conversar, acalmar.

Quando voltei, coisa de quinze minutos, o de azulejos já fora vendido!!! Mas descobri outro, quieto em seu canto, do tio do Guimarães Rosa, primeira edição autografada de 1972, justo sobre a infância de Rosa, eterno Miguilim. O mais precioso é: o livro tem correções à mão, com certeza do próprio autor. Correção até errada: o tio setentão cansado coloca o 'João' do sobrinho antes da preposição.

Depois escrevo sobre o livro. De qualquer modo, fui dormir ontem sem saber que isso existia.

O dia amanheceu tão nublado e abriu de todo




Sunday, September 23, 2018

Un certo Miguilim viveva con la madre :: Guimarães Rosa em italiano


Contrariando bons-sensos, Guimarães Rosa foi taduzido. Por razões óbvias, não tanto quanto Jorge Amado, mas numa qualidade tal que, Rosa, num de seus exageros, chegou a afirmar que para se entender sua obra seria necessário ler sua tradução para o italiano.

Sua correspondência com Edoardo Bizzarri é capítulo alto na história das traduções literárias brasileiras. Bizzarri descobria coisas que nem Rosa (ambiguidade, per favore) e chegavam a um nível de detalhamentos que só mesmo amantes pela palavra podem ter.

Un certo Miguilim viveva con la madre, il padre e i fratelli, lontano, assai lontano di qui, molto piú in là della Vereda-della-Gallinella-d'Acqua, e di altre veredaas senza nome o poco conosciute, in un punto remoto, nel Mutúm. In mezzo ai Campos Gerais, ma in un avvallamento in zona di foreste, terra nera, alle falde delle montagne. Miguilim aveva otto anni. Quando ne aveva compiuit sette, si era allontanato dí lí per la prima volta: lo zio Terés l'aveva portato a cavallo, sul davanti della sella, perché fosse cresimato a Sucurijú, dove passava il vescovo. Del viaggio, che durò vari giorni, Miguilim aveva conservato intontiti ricordi, che si confondevano nella sua testolina. Di una cosa, non poteva dimenticarsi: qualcuno, che era stato nel Mutúm, aveva detto: "È un bel posto, tra i monti, con molte petraie e molta foresta, fuori di mano; e ci piove sempre..."



Postagem dedicada a meu colega português Ricardo António Alves, leitor de Rosa, e que desde 2005 toca o ótimo blog Abencerragem.

Saturday, September 22, 2018

A Coleção de Livrinhos do Mundo


Tirando proveito desta primeira tarde de sábado de primavera para organizar a coleção querida que Dante e eu mantemos de livrinhos. Livrinhos das línguas do mundo vasto mundo

Temos em português, castelhano, francês, alemão, italiano.

E nestas que seguem, alfabéticos ::

africâner 
alguerês
alsaciano
amárico
árabe
árabe do Líbano
balinês
bretão
búlgaro
catalão
cingalês
concanim
coreano
croata
dinamarquês
finlandês
galês
gatês
georgiano
grego
hebraico
hindi
holandês
hñähñus
húngaro
indonèsio
irlandês
japonês
letão
luxemburguês
macedônio
maltês
nepalês
quéchua
rapanui
romeno
samoano
sérvio
sotho
sueco
tailandês
tcheco
turco
vietnamita
xhosa
zulu

E falta tanta coisa ainda

Friday, September 21, 2018

Os Hai-Kais do Millôr (incluindo um para o Bozo)


Publicado pela Editora Nórdica em 1986, este pequeno tesouro reúne não apenas 81 hai-kais do Millôr mas também suas ilustrações, uma "pequena introdução para os não-iniciados" e um posfácio de Alfredo Grieco.

Quando digo 'ilustração' é porque Millôr, fiel à tradição do haiga, ilustra ele mesmo cada um dos poemetos. É fiel aqui para poder ser gostosamente infiel ali.

Uma pequena seleção de quase 27 anos de produção, de 1959 a 1986, todos atualíssimos como este escrito para o Bozo:

Com que grandeza
Ele se elevou
Às maiores baixezas!




Sunday, September 09, 2018

Minha Pedra do Reino



Tenho o gosto de contar com a primeira edição autografada de A Pedra do Reino, do Ariano Suassuna, lançada em 1971 pela José Olympio. Nome completo: Romance d'A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta, romance armorial-popular brasileiro, nota de Rachel de Queiroz, posfácio de Maximiano Campos. A a ilustração da capa é de Gian Calvi, linda porém já modificada para a segunda edição.

No dia seguinte, ainda na "Carnaúba", comemos um almoço que só o Sertão poderia oferecer integralmente: carne de tatu-verdadeiro cozinhado no casco; farofa de cuscuz, enriquecida com ovos cozidos e pedaços esfiapados da mesma carne de tatu; carne-de-sol assada; feijão-mulatinho, cozinhado com pedaços de cascão de queijo, linguiça e jerimum; e, como sobremesa, primeiro uma umbuzada, depois doce de goiaba feito em casa e comido com queijo de manteiga.

Harmonização:


Sunday, June 03, 2018

Mestre Cascudo e Coelho Neto



Dentre os livros do Cascudo da biblioteca do meu pai que estavam endereçados à Livramento e que subtraí no caminho (aqui), o ótimo Gente Viva, primeira edição, Recife, 1970. Livro original na vasta bibliografia original do mestre Luís da Câmara. Aqui ele escreve 41 perfis de homens (nenhuma mulher) que admirou, do seu tio Chico Pimenta ao Coelho Neto. Por aqui descobri que ele só chamava o Guimarães Rosa de Sagarana e só por isso meu roubo justificava-se.

Com Coelho Neto, autoproclamado "o último heleno", foi generoso, sem no entanto deixar de ser crítico ("Para exibir um flor, trazia todo o jardim"; "Irritava a mania de citar a Grécia e seus modelos"). 

Quando ele escreve "Mandou para mim livros, cartas, com aquela letra incomparável de desenho heráldico", lembrei que tenho edição autógrafa do Coelho Neto, de 1927, e que sua descrição é precisa. 

Nunca li.


Monday, May 07, 2018

Memórias do Cárcere ::: Ontem como Hoje



Esta, a primeira edição do Memórias do Cárcere, publicada em 1953 pela José Olympio, em quatro volumes, com capas diferentes do Santa Rosa. Saiu poucos meses depois da morte do Velho Graça. No ano seguinte a obra ganharia prefácio de Nélson Werneck Sodré, que então saudou o escritor alagoano como "homem cuja inteireza foi comprovada pelo sofrimento".

As capas das edições não recebiam qualquer proteção, de modo que hoje são necessários grandes cuidados, pois os volumes que como vão soltando pedacinhos. Comprei em 1992, se não me falha a memória num sebo muito empoeirado ali no Jardim de Alah, pertinho do onde aconteciam os sabadoyles.

Cada volume recebe um título: Viagens; Pavilhão dos Primários; Colônia Correcional; Casa de Correção.

Dir-se-ia nossa Recordações da Casa dos Mortos. À espera de um Janáček que a transforme em ópera. Mário Ferraro, Eli-Eri Moura, fica a sugestão.


Em 1984 virou filme de Nelson Pereira dos Santos. Com Carlos Vereza (epa!, vejam as voltas que o mundão dá) e, claro, Glória Pires, que esta deve ser a única atriz que temos, por isso ela é mulher do Graça, namorada da Elizabeth Bishop e Nise da Silveira.

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Pela manhã, de volta do banheiro, atravessando um corredor, avistamos o comandante em companhia de um homem alto, magro, sério. Enviamos-lhe um cumprimento, e ele nos deteve, nos apresentou:

-- General, estes senhores...
Finda a apresentação, o homem alto pregou-me um olho irritado:
-- Comunista, hem?
Atrapalhei-me e respondi:
-- Não.
-- Não? Comunista confesso.
-- De forma nenhuma. Não confessei nada.
Espiou-me um instante, carrancudo, manifestou-se:
-- Eu queria que o governo me desse permissão para mandar fuzilá-lo.
-- Oh! general! murmurei. Pois não estou preso?