Thursday, December 19, 2013

A Fuga para o Egito Made in China


Dos poucos princípios que norteiam minha vida: reconhecer o terreno, sempre. Vale para quando se chega ao lugar novo, vale para lugar que habitamos há anos.

No caso aqui, lugar novo: eu jamais estivera na Vila Olímpia. No reconhecimento das imediações, atopo com a Igreja da Missão Católica Chinesa, que antes lembra um templo. Há painel de azulejos na fachada.

Isso foi o reconhecimento, a visita se deu na manhã de domingo, aproveitando que a missa é em chinês. (Como me lembrei da Velha Goa com sua única missa em português também na manhã de domingo, o padre expulsando em concanim aqueles que ali estavam só pela obrigação sem nada entender porque não compreendiam o idioma).

Aqui não houve expulsões. A não ser que os chinesinhos da entrada já houvessem sido convidados a se retirar, dada a atenção exclusiva dada ao gadget.

Adorei o painel. Interessante que retrate a Fuga para o Egito, passagem que rendeu à imaginária cristã a Nossa Senhora do Desterro. Cara, portanto, a imigrantes.









Wednesday, December 18, 2013

S. F. Sorrow ::: que obra-prima!



Quando fui a três shows do Van der Graaf na Alemanha em 2007, conheci no primeiro, em Nurenberg, um sujeito cuja banda preferida era o The Pretty Things. Venhamos que já é difícil encontrar quem conheça, um pouco mais quem seja fã, mais ainda quem a tenha por primeirona. E isso depois de um show do Van der Graaf Generator. Gostei daquilo.

Se The Pretty Things é totalmente desconhecida aqui na terra do tchan, mesmo na Inglaterra, nos anos áureos, nunca foi das mais badaladas. Ok, destino de bandas de rock progressivo? Mas eles não são rock progressivo.

S. F. Sorrow, ópera-rock de 68 que precedeu Tommy, para desespero do Pete Townshend, é obra-prima de fio a pavio. Ouvi-la hoje e dizer "lembra Beatles" é cruel, quase ignorância. Não há como negar a influência dos Beatles, mas a influência aqui é fruto de todas as vibes esvoaçantes numa Inglaterra no final dos 60s. A galerinha nascida nos anos da guerra ou logo após a esta andava meio criativa e a revolução total contra as instituições burguesas quase deu certo.

Mas "influência" dos Beatles? Bem, o disco foi gravado no Abbey Road e o produtor era o Norman Smith, que já trabalhara com os próprios e também com o Pink Floyd. Isso coloca o S. F. Sorrow ao lado de um Revolver, Sgt. Pepper's, White Album, ao invés de fazer dele um epígono. Mellotron pra cacete. Cítara. Vocalizações harmônicas lindas, como na música que destaco.

O enredo da ópera é triste de dar dó. Não há redenção como em Tommy e, de certo modo, no The Wall. É hopeless. Bem, já chamar o herói de Sebastian Sorrow e lançar o disco com uma capa de lápide... esperar o quê?

Nesta faixa que é a minha preferida, como gosto imenso do encadeamento dos primeiros versos que fazem um longo "Excuse me, please, I wipe a tear / away from an eye that sees there's nothing left to trust" cheio de aliterações, assonâncias e rimas internas....




Visitando Glauco, parte 2

Glauco Mattoso nos jardins de seu condomínio da Vila Mariana

Comecei a (d)escrever a visita ao poeta Glauco Mattoso neste post aqui. Um amigo perguntou se houve visita de verdade. Ora, se houve visita de verdade.



O cego me esperava no jardim
inofensivo como boi capado.
A namorada advertira: cuidado!
Li seus poemas, é tarado sem fim!

Olha que põe pozinho na cerveja
e bem antes mesmo que você veja
te ataca! Não sobra nada pra mim!
Leva ao menos o número do Alckmim!

Te juro pelos olhos das meninas
e posso mesmo te provar agora
(esta ambiguidade não se deita fora)

que se algo libertino lhe passou
por sua cabeça, ele guardou
pro gozo das punhetas vespertinas.

Mosaico do Lívio Abramo



Um dos grandes da gravura no Brasil, Lívio Abramo fez um lindo painel de pedras portuguesas no quintal dos fundos da casa de Maria Luisa e Oscar Americano, no Morumbi.

Achei muito interessante a policromia, até onde, claro, pedras portuguesas se permitem coloridas. Quanto às formas, tudo aqui me lembrou as linhas de Nazca.

O contraponto às linhas modernistas espartanas da casa é notável.

Provável que muitos por ali pisem ligeiro, rumo aos sons do auditório ou às delícias do chá.

Tread carefully.






Tuesday, December 17, 2013

Devo me Habituar a Viver no Leprosário?



No post sobre Longe da Árvore (nunca suficientemente citado), citei Cece e Marvin Brown. Citei-os metonicamente, sem a pretensão de completude. Mas, metonímias à parte, não posso deixar de nomear também o casal Nancy e Marcus e seus filhos Luke e Fiona, ambos autistas.

Não irei resumir aqui as três páginas e meia, com sua absurdamente sincera conclusão, deste capítulo 5, mas apenas destacar trecho.

Típico de crianças autistas, posso atestar de carteirinha, Luke é doido por água. Certa vez, no clube de que eram sócios, o menino teria feito gestos obscenos para uma moça na piscina e portanto estava doravante proibido de frequentar aquele espaço. Nancy escreveu uma carta tentando explicar que o autocontrole do filho era prejudicado pela biologia do seu cérebro, mas a proibição foi mantida. A mãe concluiu: "Nós estamos habituados a viver no leprosário, não é mesmo?"

Lembrei-me disso hoje ao receber a notícia de que a matrícula do Dante em uma escola foi negada. Procurei a escola em setembro, me cozinharam em banho-maria por três meses para agora, aos 45 do segundo tempo, negarem a matrícula com uma desculpa idiota.

Fazemos o quê? Procuramos o leprosário?


(Sou louco pra conhecer o Antigo Lazareto de São Cristóvão, hoje, infelizmente, convertido em hospital normal. Parece há por lá azulejos lindos. Quem sabe agora?)

PS: A escola é a Bia Rizzo, no Grajaú.

Colagem de Sonetos


O grande Augusto de Campos revelou que sofria de sonetofobia, o que não causa nenhum espanto ou fobia. Para exorcismar de vez seus pavores, produziu dois sonetos satiricamente chamados de "Soneterapia".  No segundo, publicado em Balanço da Bossa e Outras Bossas, realiza colagem em que mescla decassílabos de sonetos clássicos da lit. bras. com versos de sambas tradicionais.

Vamos a ele:

SONETERAPIA 2

tamarindo da minha desventura
não me escutes nostálgico a cantar
me vi perdido numa selva escura
que o vento vai levando pelo ar

se tudo o mais renova isto é sem cura
não me é dado beijando te acordar
és a um tempo esplendor e sepultura
porque nenhuma delas sabe amar

somente o amor e em sua ausência o amor
guiado por um cego e uma criança
deixa cantar de novo o trovador

pois bem chegou minha hora de vingança
vem vem vem vem vem sentir o calor
que a brisa do brasil beija e balança




Bem.

O Thiago Ponce de Moraes, poeta que me honrou ao prefaciar meu Voo sem Pássaro, repetiu a dose (qual?) ao produzir soneto com os versos iniciais de alguns de meus sonetos do Pampinea.

Vejam o que uma Eisenbahn Strong Ale e uma fila de autógrafos não fazem!


Monday, December 16, 2013

O Leone Mendes de Todos Nós


Depois daquela selvageria em Joinville envolvendo as torcidas do Vasco da Gama e do Atlético-PR, circulou pela internet uma foto que despertou a atenção de muitos: a de um torcedor atleticano sendo agredido quando já estava no chão.

Pela imagem a polícia agiu com presteza e chegou facilmente ao agressor Leone Mendes e o prendeu quando ele se enfurnou no banheiro do ônibus da torcida.

Na internet os comentários variaram pouco: de "cadeia nele!" a outros impublicáveis.

Embora a torcida do Vasco estivesse, em primeiro lugar, se defendendo, o que estranhamente quase não foi mencionado, não há em mim paixão clubística que me faça simpatizar por ele. Cadeia nele!, faço coro.

Mas a porção de Leone Mendes existente em torcedores de futebol, mormente dos times que se querem majoritários, não é nada desprezível. Desde que o campeonato acabou mandei para o éter já quase 10 "amigos" do facebook porque, assumo, o Leone Mendes presente nas piadinhas, nos insultos abertos encheram-me as medidas. Não era mera rivalidade: era intolerância, ódio, desprezo, desrespeito à diferença e, como vinham de time que se quer majoritário, o querer impor à força o pensamento hegemônico. Eram todos Leones Mendes, agindo com armas mais brandas, decerto, mas não menos leones-mendes.

Agora um episódio pitoresco: há muitos anos eu jantava no tradiconal Monteiro, centro de Niterói, quando vi estendida sobre o balcão grande bandeira do América. Adorei aquilo, não apenas porque adoro o América, mas porque me agrada a diversidade, inda mais se corajosa. Após constatar que a bandeira pertencia a um grupo de velhinhos numa mesa próxima, perguntei de brincadeira ao garçom se estava rolando ali uma convenção de torcedores americanos. Ele grunhiu alguma coisa em resposta e fez um gesto desdenhoso com a mão. Pouco depois, foi até a bandeira e.... tirou-a de lá! 

Redundante dizer que o garçom era flamenguista. O que causa estuperfação (não devia?) foi o fato de ele ter se sentido incomodado pela bandeira do América. Fosse uma bandeira do Vasco, Botafogo ou Fluminense, já teria sido algo grosseiro (não se sai por aí mexendo nas coisas dos outros), mas poderíamos colocar na conta das rivalidades. Mas... do América!?

Não é bem bem Leone Mendes esse garçom? Talvez digam que não, que exagero. Mas realmente acho que assim.

Foi só um exemplo.

Monday, December 09, 2013

Capela de N. S. da Conceição - Grajaú

A pequenina capela de Nossa Senhora da Conceição na Rua Grajaú, erigida em 1914, é o marco inicial oficial do bairro. Pertencia à casa de número 11 da rua e é um dos pouquíssimos remanescentes arquitetônicos do Grajaú dos primeiros decênios do século XX.

Ainda hoje é propriedade particular, abrindo apenas no dia da padroeira. Para um monumento histórico, isto é extremamente prejudicial. Com o uso constante, conserta-se em tempo um quebrado aqui, tapa-se uma goteira ali, detectam-se cupins vorazes acolá.

Há hoje um movimento para que a capela seja ou anexada à diocese local ou tombada.

Acho que ela poderia ser anexada e tombada. 

Em conto que escrevi há muitos anos, retratei-a como que feita de areia molhada que o vento mal endurece. Exagerei, nos meus direitos. Ela é de um belo neogótico. Gosto imenso do seu altar em estuque e sua grande (para uma capelinha) porta ogival. Aquilo é madeira boa que cupim não rói.

Mas cupim aqui é pinto. O que assusta é a sanha de JM, PDG, Gafisa e a hedionda Cyrella.

Tombamento já!











Sunday, December 08, 2013

O sol espesso no teu corpo claro

Brennand


o sol espesso no teu corpo claro
imprime um raro selo de passados
dias :: o preço é o preço incalculado
o gesto captado em multidão
o canto das cigarras nos tumultos
a brisa nos odores do verão
o sol espesso no teu corpo raro
é o que há de claro nella selva oscura
de tudo que domina me despeço
à deriva no mundo apenas peço
estar próximo de tua pele :: estranha
planta toda ela musgo e trepadeira
onde brilha assustada em seus recessos
a noite vasta como um sol espesso





Os Sonetos Visuais de Avelino de Araújo



Por ocasião do passamento de Nelson Mandela lembrei-me do "Apartheid Soneto" do poeta norte-rio-grandense Avelino de Araújo.

Publico-o aqui bem como link em que se pode ver / ler coletânea de seus sonetos visuais.

Agrada-me sobretudo seu Ornitológico, um achado.

Pode-se conhecer mais de sua literatura intersemiótica / experimental em seu site aqui.




Friday, December 06, 2013

Villa-Lobos, Jobim, Pau Brasil e outros que tais



Sábado passado estive no Ibirapuera para assistir à Jazz Sinfônica com o quinteto Pau Brasil, num programa todo ele dedicado ao Villa-Lobos (Er, a abertura foi "Fé Cega, Faca Amolada, mas tudo bem).

O concerto foi ótimo e em dado momento o maestro João Maurício Galindo nos exorta a conhecer a obra de Villa, segundo ele 95% desconhecida.

Desculpem o comentário maldoso, mas na noite estivemos todos confortavelmente dentro dos 5%, com duas Bachianas (a linda 5 sem o vocal), Três Cirandas (Villa nosso Bártok) e "Na Solidão da Minha Vida". Mas tudo belissimamente executado, e o quinteto, quase que fazendo as vezes de solista em contraste ao corpo sonoro da orquestra, diz a que veio.

Parte da noite foi dedicada à influência do Villa em outros compositores, e aí foram executadas três peças, sendo que duas, "A Última Noite do Índio" e "Lá Vem a Tribo", de autoria de dois membros do Pau Brasil: o violonista Paulo Bellinati e o baixista Rodolfo Stroeter. Pela surpresa, mas não só por causa disso, o auge do concerto.

A outra peça foi "Saudades do Brasil", do Antônio Carlos Jobim, com sua orquestração edulcorada e melosa. Disneylândia perde.

Nesta imensa província que é o Brasil, falar mal de MPB é como mandar Jesus à merda no século XV na Espanha.

Todos devemos gostar de MPB, a nossa música.

Eu não gosto de MPB, mas respeito. Não gosto de funk, pagode, sertanejo, brega e não respeito : acho um lixo.

Mas voltando pra MPB. Tom Jobim fez a trilha-sonora do filme Crônica da Casa Assassinada, inspirado no forte e perturbador romance homônimo de Lúcio Cardoso (outro perturbador e perturbado).

Gente, será que o Tom leu o romance, o mínimo que se espera?

A música, que infelizmente lembra o lado soft do rock progressivo italiano dos anos 70, nunca se sincroniza com as imagens e jamais captam o ethos do Lúcio Cardoso.

Mas como é um Tom Jobim, só elogios.



Obra Máxima do The Who ::: Quadrophenia faz 40 Anos

Meus Quadrophenias


Sabe a marca CCE? Comigo foi assim com o Quadrophenia: comecei comprando errado. Em setembro de 1980 eu pirralho compro a trilha-sonora nas Lojas Americanas e por anos achei que aquele era o verdadeiro Quadrophenia. Eu tinha apenas 12 anos, relevem, e não existia internet.

Ouvi tanto as duas bolachas (sim , a trilha também era dupla) que o acetato gastou, furou, virou peneira, mas com o tempo, como nossos tímpanos, se recompôs.

Eu já era beatlemaníaco há quatro anos, mas ao contrário dos idiotas que insistem em Beatles X The Who e outras, identifiquei-me com o Pete desde o início, inda mais por ser ele feio e narigudo. Eu não era coisa ou outra, mas achei que pertencia à tribo mod, isso no São José de 1980.

Então :: o Quadrophenia, um dos mais estupendos discos de rock, completa 40 anos e não saiu nenhum selo comemorativo? Tá, des(a)tino de disco mod. Vive à sombra do Tommy, caçula que virou filme (chato) e até musical. Quadrophenia também virou filme, ótimo.

Se comecei comprando errado, lucrei. Se tivesse comprado o álbum de estúdio de 1973, dificilmente teria me animado para comprar a trilha, assim perdendo takes diferentes das músicas clássicas e, principalmente, três inéditas geniais: "Get out and Stay out', "Four Faces" e "Joker James", as duas primeiras com vocais do Pete.

Aliás, é de todo incompreensível que "Four Faces" tenha ficado de fora do álbum da ópera-rock de 1973 :: ela não é apenas genial, ela sintetiza o que é a quadrophenia, este estado avançado de esquizofrenia.


Thursday, December 05, 2013

Croma ::: Alphataurus



Mais de uma vez pensei em lista de top 5, top 10 de músicas instrumentais do rock progressivo italiano dos anos 70. Não há tantas assim. Enquanto a lista não sai, segue esta que terá presença certa, obrigatória, cativa.

Grandiosa com o que o rock progressivo tem de grandioso, para desespero de seus detratores. Lírica, antêmica, eterna. Divide o álbum como faca divide laranja, como o assobio do amolador de facas divide a tarde :: as duas canções anteriores têm inevitável cariz hard-rock inglês, mesmo sabbathiano. As duas seguintes são o rock progressivo italiano de sabor mediterrâneo no auge de um de seus anos eternos :: 1973.

Embora mal passe de três minutos, é daquelas pérolas épicas que nos faz enxergar tudo por outro prisma.

Em todo o disco dos bravos milaneses destacam-se a tecladeira de Pellegrini e a voz de Michele Bavaro. Aqui todos brilham enquanto Bavaro descansa um pouquinho....


Visitando Glauco, parte 1 ou O Torresmo do Jabuti


No meio do caminho da Vila Mariana, entre a casa modernista e o apartamento do Glauco Mattoso, tinha o Bar Jabuti. O Jabuti é relativamente antigo, mas, como quase todos os botecos de São Paulo, infelizmente não possui quase nenhuma das características que enumerei aqui, que fazem um boteco realmente digno de visita e pesquisa. Digo quase porque ele tem um espaço interessante (ótimas as vitrines com os acepipes), além de atender plenamente o item 12 ::: os quitutes do mar são o forte (parece que a ex-primeira-dama Ruth devorava ostras por aqui) e o torresmo impressiona.

No caminho da casa do Glauco, que tem soneto para os torresmos. Nada pude fazer senão.


Racista, já falei que não sou, mesmo,
e me solidarizo com o meu
irmão israelita, que sofreu
demais, desde que errou, no mundo, a esmo.

Trocar constipação por um tenesmo
é coisa a que me exponho, mas me deu
mais dó quando lembrei-me do judeu
que está fadado a não comer torresmo!

Desgraça das desgraças! Nenhum povo
merece sacrifício tão extremo,
por cuja causa choro e me comovo!

Ficar sem pururuca é o que mais temo,
além de, no café, sem o meu ovo
com "bacon", já que o pão me amassa o Demo!


Wednesday, December 04, 2013

Pega a Fagundes! parte 3 :: Os Grafites da Fagundes Varela


Tecnicamente (ou numericamente) falando, desconheço se ali é o começo ou o fim da rua. Como moro no Ingá, permitam-me o etnocentrismo: é o começo. Enfim :: belos belos grafites por ali. Olhos, peixinhos, sereias, seios.

O que diria o bardo ao ver a donzela abaixo, hein? Ora, já disse::

Teus seios são alvos símbolos
Que vejo sem traduzir;
São os teus braços capítulos
Que podem,
Que podem me confundir.








Pega a Fagundes! parte 2 ::: A Poesia de Fagundes Varela



Seu poema mais famoso (e triste) é aquele único elogiado por Bandeira, o "Cântico do Calvário", trenodia em versos brancos escrita para seu filho morto em dezembro de 1863. Tem real sentimento, mas um excesso de exclamações aliado a certos lugares-comuns da imagística romântica fazem com que não envelheça assim tão bem. Não, não estou sendo mais severo que o Manuel. E acho mesmo interessante que o verso final, felizmente sem exclamação, traga a palavra asinha, o que deve confundir  um bocado leitores de hoje, principalmente porque dois versos antes há a palavra "asas" :

(...) Quando a morte fria
Sobre mim sacudir o pó das asas,
Escada de Jacó serão teus raios
Por onde asinha subirá minhalma.

Asinha é advérbio que signifca "depressa". Caiu em total desuso por aqui, mas acho que em galego é corrente.

A musicalidade do poeta se revela absurda quando ele lança mão de um metro raro entre nós, o hendecassílabo ou de arte maior, que já mencionei aqui. Em "Elegia":

A noite era bela, -- dormente no espaço
A lua soltava seus pálidos lumes,
Das flores fugindo, corria lasciva,
A brisa embebida de moles perfumes.

Em "Névoas", para além de cumprir com rigor a exigência da tonicidade nas sílabas 2, 5, 8 e 11, ainda rima a palavra final dos versos ímpares com palavra do meio do verso seguinte.

Na hora em que as névoas se estendem nos ares,
Que choram nos mares as ondas azuis,
E a lua cercada de pálida chama
Nas selvas derrama seu pranto de luz...

Um pouco o que se encontra em "O Corvo" do Poe.

Gosto ainda do seu "Arquétipo", suma do spleen romântico, em que o sujeito se mata entre baforadas de charuto para ver se encontra alguma diversão:

Pegou numa pistola e entre as fumaças
De saboroso havana, à eternidade
Foi ver se divertia-se um momento.

Teria algo mais a dizer, mas é suficiente. Suficiente, espero,  para fazer lembrar o poeta por detrás da rua esquisita que subimos quando queremos cortar caminho sem passar pela praia.

Pega a Fagundes!



Morando no Ingá, a frase mais comum para quem pega táxi é "Pega a Fagundes!" ou "Vai pela Fagundes!". A Rua Fagundes Varela é uma longa artéria que nos leva do Ingá para Icaraí e vice-versa. Rasga um morro (qual?) de modo que, bem em seu topo, temos entrada para o Morro do Estado. No começo, não a pegava por temor, depois passei a usá-la direto.

Justamente por ser "esquisita", passou anos à margem da especulação imobiliária, tanto que conservou muitas de suas belas casas (mencionei alguns de seus azulejos neste antigo post aqui),  mas agora já está mais do que descoberta.

Fagundes Varela é o poeta romântico Luiz Nicolau Fagundes Varela (decassílabo imperfeito) que sempre, desde criança, gostei de dizer o meu romântico brasileiro favorito. Morreu em Niterói aos 33.

Talvez pela sua vida desrergrada e atormentada -- a perda do filho, o abuso do álcool, suas longas jornadas mata adentro (que elegi como um dos 10 mais da Lit. Bras. aqui) --, mas também pela qualidade e musicalidade de seu estro.

Gostava tanto dele quando adolescente que, ao ler na antologia Nossos Clássicos o comentário crítico do Manuel Bandeira que atentava quase que apenas para seu alcoolismo e dizia que o "Cântico do Calvário" permaneceu "um cimo isolado em toda a sua poesia", escrevi a lápis "péssimo o comentário". Isso em 1984. Quem, pensava, era ele para julgar o Fagundes, ele com seus versos de porquinho da índia e Irene preta Irene boa???? Vendeta!!

Um pouco da poesia do Fagundes no próximo post.

Tuesday, December 03, 2013

Igreja Nossa Senhora do Brasil :: Os Azulejos pt. 2


Já publiquei algo de Antônio Paím Vieira aqui, ao tratar das madonas latinas lindamente azulejadas por ele na Igreja de Nossa Senhora do Brasil em Pinheiros. Antes de ser pan-americanista, bien sûr, foi nacionalista e pintou nos arcos das portas laterais externas todo um catálogo da nossa ornitologia.

Então ao contemplar seu trabalho em manhã nublada de sábado tenho duas minhas paixões reunidas ::: os plumados, os azulejos.









Tinha me esquecido do quanto era sublime ::: a Quarta de Mahler



Tinha me esquecido do sublime da Quarta Sinfonia do Mahler. Época houve, final dos 80s começo dos 90s, que eu, querendo que gostassem de Mahler tanto quanto eu ou que pelo menos o conhecessem, presenteava com a Quarta, obra relativamente acessível se comparada às duas anteriores e ao que estava por vir.

Fiz algum mahleriano? Certo que não. Mas esse meu hábito acabou por passar a mim mesmo que essa sinfonia era... "fácil". Tolice. Fechando o ciclo Wunderhorn e mais uma vez com voz (reservada para o movimento final), é obra mais intimista e em menor escala. Para padrões de Mahler, claro. É sinfonia em Sol Maior, em que o gênio concede férias coletivas a seus demônios.

Mas é sublime. O adágio é sublime. Esqueçamos o fanfarramento tolo lá pelos 20 minutos. Ali um pouco antes, pelos 19' e depois 22' :: é o que mais próximo se pode chegar a Deus, whatever that means.


Monday, December 02, 2013

Em Nome da Razão :: The horror, the horror



Há alguns dias meu amigo Paulo Tarso postou no face o documentário Em Nome da Razão, de Helvécio Ratton, gerando muitos comentários.

Helvécio era estudante de Psicologia e, em 1979, tinha acabado de voltar do exílio no Chile. Com o documentário, creio, conseguiu reunir suas duas paixões: o cinema e a psicologia. 

Mas não aquela psicologia clean dos consultórios, ou a psicologia linda dos frasismos, ou a psicologia inexpugnável de um Lacan. Ratton quis mostar como viviam os loucos e "loucos" institucionalizados em nosso país. A instituição, no caso, é o malfadado hospício de Barbacena.

O livro de Daniela Arbex, Holocausto Brasileiro, de que falei aqui, obviamente faz menção a Ratton.

O documentário é bastante forte. A trilha-sonora resume-se aos sons do desespero captados.

Agora, pausa para the horror the horror:

Antes que digam que isso é coisa de país de Terceiro Mundo, e asseguro que não há uma gota de nacionalismo aqui:

Em 2011, o New York Times noticiou maus-tratos horríveis em instalações residenciais para deficientes mentais em todo o estado de Nova York. Funcionários que abusavam sexualmente, batiam ou zombavam dos residentes quase nunca eram demitidos, mesmo depois de repetidas transgressões. 2011, New York. New York.

Mais: foi só em 1984 que Ronald Reagan (!) assinou a Emenda Baby Doe, que classificava como maus-tratos infantis a negligência ou a negação de tratamento para crianças deficientes. Até então, pais e médicos podiam, se quisessem, deixar essas crianças morrerem. Isso mesmo: podiam deixar a criança morrer ao relento e depois ir tomar uma cerveja. Provavelmente para comemorar.

Sunday, December 01, 2013

Gozando Junto IIIIIII (com Stanley Kubrick)

A magnífica exposição Stanley Kubrick, apresentada pela primeira vez na América Latina, no Museu da Imagem e do Som em São Paulo, é uma ótima oportunidade para gozar junto.

E não é todo dia que se goza junto em uma experiência multissensorial que possibilita um mergulho no rico universo do realizador de Lolita, Laranja Mecânica, 2001: uma Odisseia no Espaço, O Iluminado e De Olhos Bem Fechados.