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Friday, October 07, 2022

Clemilton, Artista Total

 

Este é o Clemilton, da Mata da Onça, povoado alagoano às margens do São Francisco. Mata da Onça é como que distrito da Ilha do Ferro, por sua vez distrito de Pão de Açúcar, velha sertaneja alagoana, muito citada, com Piranhas, pouco acima, nas crônicas do cangaço

Este é o Clemilton. Mas fica difícil chamar Mata da Onça, com suas seis casas, duas delas quase tão velhas quanto o rio, de "distrito". Nem capela tem. É povoado. Não está no mapa, e olha que falo do mapa específico das Alagoas.

Mas voltemos ao Clemilton, artesão de mãos cheias, como outros da Ilha do Ferro. Pense num Vavan, pense num Cícero. Meu barqueiro, Caronte, acha ele devia se mudar para a Ilha, por amor de ter mais visibilidade. Meu amigo André Dantas, da Ilha, acha ele deve manter-se lá em seu tugúrio mesmo, isso lhe agrega

Concordo com o André. Clemilton decerto recebe menos visitantes. Mas os que chegam até ali sabem por que chegaram

Clemilton pinta o que vê pela frente: as paredes de sua casa, as paredes da sua cozinha, paredes e portas e janelas. Diz que seu sonho era ser artista, talvez pensando em pinturas, mas ele se especializou mesmo nas obras em madeira. Um artista. Feito, consumado, total, na acepção romântica do termo. Não deu pra roça, não deu pra moleque de feira quando pequeno. Não gosta do burburinho de Pão de Açúcar, gosta do seu canto, gosta do murmúrio do rio, e olha que o Velho Chico é muito quieto por ali. Pedi-lhe história do nego d'água, o caboclo d'água, o romãozinho, espécie de saci fluvial. Ele, sem barqueiro ser (Clemilton é só artista), contou-me.

Alumbrado pela prosa, pedi licença pra mergulhar no rio. Lembrei-me foi do Mário: "Que calmaria serena... Que mundo de águas lisas, fluidas... Que espelho claro... Uma ausência plena de inquietações, de audácias... E o sol, o sol do lado, todo de ouro branco, claro, mui claro, claríssimo, impossível da gente fitar". Interrompeu tanta calmaria o barco que trazia crianças da escola. Mergulhei e fingi ser o nego d'água, sorriram sem entender muito. Por elas soube que pouco mais acima havia outro povoado, de nome Pantaleão (!), inda menor que a Mata da Onça.

Quando voltei pra casa do Clemilton, esperavam-me piabinhas fritas

Vascaíno, pintou a fachada de sua casa assim: um art déco sertanejo psicodélico com o escudo do Vascão. Prometi-lhe levar em São Januário um dia. Ele, o moço artista total das Onças, aceitou




Sunday, July 31, 2022

Azulejos em Amsterdam :: Distel



Não, não são os Delft, em Amsterdam facilmente encontráveis à venda, antigos ou fresquinhos. Refiro-me aqui a esses que descobri por acaso, andando principalmente pela parte sul da cidade, dispostos na entrada daqueles pequenos prédios vermeerianos, ladeando a porta. Já me dava por satisfeito com eles, alguns esmaltados, mas eis que depois vieram frisos art nouveau a que se seguiram ainda  dois lindos painéis. Nestes, de quebra, a assinatura no canto inferior direito revelou o segredo: Distel. Trata-se da De Distel, fábrica de cerâmica fundada em 1895 e muito requisitada e premiada nos primeiros decênios do século XX. Em Distel desenvolveu-se a técnica carduus, por sua vez inspirada na corda seca. Um achado, um tesouro 

 










 






Sunday, January 30, 2022

O Homem com Anjos na Cabeça

A frase é de Picasso ('Não sei se onde ele tira essas imagens, ele deve ter um anjo na cabeça') e vindo de quem vem deve ser tomada como um grande elogio. E é perfeita, pois Chagall tinha anjos na cabeça

Certa vez li que pensaram em canonizar Gaudí. Não pelos milagres que teria operado, mas pelo fato de muitas pessoas ficarem tão abismadas ao entrarem na Sagrada Família que se convertiam. O que não deixa de ser. Eu mesmo digo que se um dia virar cristão (não tenho vontade), a culpa é do Neal Morse. Ou do Chagall

A descoberta dos vitrais de Edmond Bille em Lausanne foi uma surpresa (aqui). A visita aos vitrais de Chagall na igreja de Fraumünster em Zürich, sobre os quais eu já tinha lido e visto fotos, foi surpresa do mesmo jeito. Porque não adianta ver fotos antes, a gente não está preparado para aquilo. É como conhecer Veneza ou Milho Verde. Eu não tinha vontade de ir embora. Eu dava as costas e voltava o rosto para aquelas figuras no típico azul Chagall, mas também em verde, amarelo, vermelho. Alguma conversão aconteceu? Por ora digo apenas que quando o mundo parecer 'um vácuo atormentado, um sistema de erros', existe o refúgio em Chagall

PS: A pesquisa neste blog me trouxe várias referências a Chagall, incluindo o poema "A Arte da Levitação", do Voo Sem Pássaro









Saturday, January 29, 2022

Os teus olhos são vitrais / Que mudam de cor com o céu

Se sabíamos que em Zürich esperavam-nos os de Chagall, a descoberta dos vitrais de Edmond Bille na imponente catedral gótica de Lausanne foi alumbramento e surpresa. Logo percebemos que as obras não eram contemporâneas à igreja, do século XII, e o sol encontrava meios de incidir sobre as cores e raios de fogo que como se formavam. Enfim encontramos assinatura e data no canto inferior de um deles: Edmond Bille, pintor suíço, 1932. Eu sempre falo isso, parco que é meu repertório de hipérboles, mas vá lá: só essas vitrais já pagariam o passeio a Lausanne

 

Os teus olhos são vitrais
Que mudam de cor com o céu
E quando sorriem iguais
Quando sorriem iguais
Quem muda de cor sou eu
 
Tomara teus olhos vissem
O amor que tenho por ti
Nem o entardecer me acalma
Nem o entardecer me acalma
Na ânsia de te ter aqui
 
(Madredeus)

 










Sunday, January 09, 2022

Nossa Cortina Miguilim

No dia 12 de dezembro de 2019, animado com viagem recente que eu fizera a Andrequicé (aqui e aqui), encomendei a algumas bordadeiras de lá uma cortina que tematizasse o "Campo Geral", do Miguilim e Dito. Para o quarto do Dante. Duas semanas depois, não sem alguns mal-entendidos, fui conferir o trabalho in loco, já bem adiantado (quatro bordadeiras bordavam). As agulhas avançaram, bem como outros mal-entendidos, de modo que, cortina pronta, no dia 20 de fevereiro, novas discussões impediram a concretização do negócio! Cortina pronta!

Recuperado da experiência, dois meses depois fiz nova encomenda. Para outra bordadeira, claro! Com apenas duas mãos desenhando Miguilim, Dito, Cuca Pingo-de-Ouro e rol de buritis, ficou pronta ontem, 1 ano e oito meses depois. Nem senti passar. Minha amiga Dallena, que intermediou tudo, mandou fotos, de surpresa. Tive alegrias nos olhos. Obrigado, Dallena, obrigado, Dona Lourdes

Agora já não sei se a quero cortina. Ou colcha. Ou na parede. Ou se saio enrolado nela, como um manto da apresentação do Bispo do Rosário

 





Dona Lourdes

 



Tuesday, November 09, 2021

Mestre Zuza, de Tracunhaém

Sempre quis ter uma peça do GTO, assim como sempre quis ter gravura do Samico. Ao travar contato com mestre Zuza, santeiro de Tracunhaém, encomendei-lhe não um santo, desses que ficam no chão, mas a cabeça de uma Nossa Senhora. Ele acedeu, as negociações foram ligeiras. Animado, encomendei-lhe em seguida peça semelhante a uma roda-viva do GTO, enviando-lhe fotos. Sei que as do mineiro Geraldo Teles Oliveira são em madeira, a dele seria no barro, mas minhas dúvidas culposas não passavam por aí mas na intervenção que eu poderia estar fazendo. Se Mestre Zuza não faz esse tipo de coisa, teria eu o direito de pedir? O anjinho bonzinho do ombro esquerdo dizia que sim, que artista (de todas áreas, quantas peças musicais não foram encomendadas?) gosta e precisa de encomendas, que lhe garantem o sustento. Para além disso, coisa que não ocorreu ao anjinho, uma encomenda dessas poderia abrir-lhe novas possibilidades de trabalho e mesmo destacá-lo no cenário da Zona da Mata, já que de ordinário o artesanato ali está centrado em santos. Minha pretensão.

Bem, Mestre Zuza concordou em fazer a peça. Iniciou, mandou foto, dei sugestões, ele retificou. Depois foram, sua roda-viva e a cabeça de Nossa Senhora para o forno, o fogo e seus mistérios. Aí já não funcionou tanto, ambas as peças não saíram bem como prevíramos.

Isso tudo foi eu no Rio e ele lá, em Tracunhaém. Quando enfim vou lá, almoçamos galinha cabidela na Toca do Caranguejo, com cachaça amadeirada por saideira. Conheci seu ateliê e consegui até que ele tirasse o boné para uma foto. Das duas encomendas, deixei a Nossa Senhora lá, trouxe a roda-viva. E a amizade. Não vejo a hora de voltar para o maracatu de baque solto