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Thursday, July 28, 2022

Com Sylvia pelas ruas geladas de Londres

 

 

Os dezoito minutos finais de Sylvia (2003) são dolorosos. Bonitos, dolorosos. Na sequência de cenas doídas (suas conversas com o vizinho, o abandono frio e definitivo de Ted, suas alucinações no corredor, a preparação para a morte), há aquela em que ela caminha pelas ruas geladas de Londres. Ninguém pode fazer-lhe companhia, trocar palavras ou silêncios. Ela caminha com olhos insistentes e desesperançados, fixa o vazio que em breve irá abraçar. A música de Gabriel Yared é a trilha perfeita e quando, há muitos anos, pedi que meus alunos atendessem à notação de Tennessee Williams de que a música para sua The Glass Menagerie fosse 'perhaps the saddest music', foi esta que eu trouxe

Foi assim, foi exatamente assim, que caminhei com o Dante em Petrópolis, na véspera do meu aniversário deste ano

Nós saímos de um restaurante, onde ele estivera muito, muito mal. Meltdown, TAG, expressos em seu obsedante bater de cabeça, nas costas da cadeira, na mesa, na parede. Foi assim por todo o final de semana, dos piores. Nós saímos do restaurante, eu frustrado, exausto, impotente. Caminhamos numa estrada em que não havia calçada, caminhamos contra os carros. Por um momento pensei que se um daqueles carros nos colhesse, ao menos seria o fim de tudo. Eu pensei isso

Logo em seguida a esta cena de que falei, Sylvia entra numa cabine telefônica e procura algum contato, uma ajuda. Mas a pessoa não pode se encontrar com ela. Em seguida ela liga para seu médico, a quem diz "I can't manage". Caramba. Foi exatamente o que eu disse quando por esses dias me perguntavam, alguns realmente interessados, outros apenas faticamente, 'Não estou dando conta, não'. A reação que recebi ao meu desabafo desesperado foi, também aqui, a mesma em alguns casos: a indiferença

E ai de quem, e ai de mim, reclamar dessa indiferença. Se transforma em raiva.




Sunday, December 12, 2021

Que eu pudesse estar tão enganado

Se 1985 foi o ano do fim da nefasta e covarde ditadura militar brasileira, fico feliz que tenha sido também ano marcante em minha vida e, claro, marcante também por isso

Nunca esquecerei do ambiente do Colégio Marista S. José neste ano em que eu concluía o Ensino Médio e colégio, que, a propósito, criticava abertamente os desgovernos. É o que lembro. Se houve imbecis que os defendessem, minha memória seletiva apagou

Em 1977, a professora Elisa sentou com sua 3a série no chão (hoje 4o ano) e tocou e analisou "Meu Caro Amigo", do Chico. Em 1980 Ronaldes, de História, tocou "Mulheres de Atenas". Dois anos depois, dando OSPB (que merda, hein?), ele organizou um seminário maravilhoso sobre as eleições diretas para governador no Rio de Janeiro (eu já era Lysâneas Maciel, nome que ele secretamente sugeriu)

Mas 85 foi 85, os professores falando abertamente dos podres da ditadura covarde. Respirava-se ambiente oxigenado de liberdade, para o qual, contribuiu o BRock

Fui a uma exposição no centro da cidade, talvez na sala Sidney Miller da Funarte, não tenho certeza, estava tudo lá: numa parede: os nomes dos mortos e desaparecidos durante os 21 anos. Lembro de comentar (a quem??), sentindo-me muito conhecedor: se fosse na Argentina, seriam necessárias três paredes 

Se havia uma certeza, ao menos em mim, era a de que um período como esse, que eu de fato experenciara diretamente muito pouco, pois nasci em 1968, não voltaria nunca mais, pois ninguém mais poderia querer aquelas coisas. A certeza de que não voltaria nunca mais

Que eu pudesse estar tão enganado me dói. E revolta

Tuesday, November 16, 2021

O desgoverno que deprime e mata

Este acima é o Raul Córdula, notável artista plástico paraibano residente em Olinda, 78 anos. Tive a honra de estar com ele por duas vezes, na segunda praticamente só conversamos sobre o Paêbirú, esta obra-prima da psicodelia brasileira lançada em 1975. Não fosse o Raul, neca de Paêbirú, de vez que foi ele quem apresentou a Pedra do Ingá a Lula Côrtes e Zé Ramalho. E escreveu ainda as letras da primeira música, "Trilha de Sumé".

Meu primeiro encontro com Raul foi em novembro de 2019, em sua casa. Tomamos delicioso lanche cheio de pernambucanidades: ele, sua companheira de lutas e artes Amélia Couto, seu sobrinho que intermediou o contato, Bao, e eu. O segundo foi quase dois anos depois, há pouco mais de um mês: ambos, ele e companheira, alquebrados. Raul confessou-me deprimido por causa deste desgoverno. E não era só força de expressão.

 

 

Este aí de cima é meu pai, que continua o mesmo leitor voraz de sempre. Este ano, aos 86, descobre Tolstói. Paixão fiel e adolescente, pela intensidade. Em nove meses, leu uns 20 livros dele e sobre ele, incluindo obras mediúnicas.

Quando fomos pra sala comer as empadas de camarão do Caranguejo que sempre lhe levo, revelou que já nem lê jornais, para não esbarrar com fotos da familícia, que lhe dão engulhos. E me disse (*suspiro) que já não se importa em "desembarcar", gíria maruja que usa para "morrer", já que o estado de coisas no Brasil hoje lhe faz muito mal.

Então se você votou 16 + 1 e continua defendendo, saiba que você é responsável por isso.

E nesses se incluem o Bao, o sobrinho graças a quem conheci o Raul e meu amigo de 30 anos anos, hoje ferrenho negacionista, e que não merece os tios que tem. Quanto a meu pai, responsáveis pelo seu desgosto incluem-se pessoas muito, muito próximas que, de tão cegas, não enxergam os efeitos de sua ignorância, alienação e egoísmo sobre aquele a quem dizem amar.

Tuesday, November 02, 2021

Inclusão começa em casa. Exclusão também


 Dante tinha duas semanas de vida quando uma amiga da época estava em Niterói e então me convidou para ir ao Mercado de Peixe. Respondi que não dava. Para ouvir: "Olha, se você não pode sair, você está limado", colocando grande ênfase na última palavra. Fiquei meio chocado.

Com o diagnóstico de autismo, aí todo mundo some. As pessoas veem matéria na TV sobre autismo e ficam com os olhos marejados, mas ajudar minimamente irmão, sobrinho, primo, tio que tem autismo, ou que são cuidadores de autistas, ah isso é muito chato! Então disfarçam, dão um jeito de fazer inversões formidáveis para que você seja o errado, o mimizento, e deitam tranquilas as cabecinhas no travesseiro. Comem a consciência com Nutella, como Lampião comeu a dele com farinha.

Durante a pandemia, não houve um único von Sydow ou Domingues que se oferecesse, por exemplo, para dar um passeio de carro com o Dante. Ele que tanto gosta (e eu não dirijo). Daí pra baixo: agora já é abertamente excluído de aniversários e o (literalmente) tiozão que se compromete a recebê-lo em sua casa por um dia se lembra depois que precisa sair pra pescar. E sai pra pescar.

Este texto não está sendo escrito em momento de raiva, mas de serenidade. Hoje até prefiro assim. Minha régua hoje é como as pessoas agem em relação ao Dante. Se se interessam, se acheguem. Se não, podem ir embora. Na verdade já foram. E nem nos importamos mais.



Thursday, April 29, 2021

A Cadela da Exclusão

A neuropediatra do Dante, conosco há mais de dez anos, tem seu consultório distante de nossa casa (o que já foi enorme transtorno, hoje bem menos) e suas consultas, lá vai litotes, não são nada baratas, com o agravante de que os preços obedecem a índices de reajuste muito próprios, cuja lógica me é desconhecida. Ela é excelente: profunda conhecedora da área, atenciosa, boa ouvinte.

Para a pediatra regular, no entanto, e não se veja aqui hierarquização, pensei em solução mais simples: alguém que atendesse pelo plano e num bairro próximo. Encontrei.

Logo na nossa primeira consulta ela perguntou sobre a escola do Dante. Ante minha resposta, indagou, muito melíflua: 'Você não acha que o Dante estaria melhor numa escola especial?'. Perdi o ar, mas consegui dizer 'Não, não acho não, e a educação inclusiva é um caminho sem volta'. Ela percebeu meu desconforto, não insistiu, examinou o pequeno. E se revelou, a propósito, ótima profissional: carinhosa, paciente, também boa ouvinte.

Tantas vezes nos arrependemos achando que não demos a resposta certa. Olha, ali acho que acertei.

No entanto, hoje já não sei se a educação inclusiva é um caminho sem volta. Não achávamos ser a democracia caminho sem volta? Não houve / há o decreto 10.502, o Decreto da Exclusão? Educação inclusiva não é caminho sem volta, mormente em país que joga confete pra fascista. É aquela coisa, perdoem os chavões, será caminho sem volta com incansável (pra não usar 'eterna', pesada) vigilância. Mesmo porque, parafraseando Brecht, a cadela da exclusão está sempre no cio.

Monday, December 28, 2020

Soneto de Cabo Roto para o Demo

Numa das minhas caminhadas matinais, encontrei enfiado num tronco de figueira pedaço de papel que, para minha surpresa, continha soneto, assinado por um certo Fuas Roupinho. Para minha enorme estupefação, era soneto de cabo roto, na melhor tradição cervantina.

O leitor logo perceberá que verso de cabo roto é aquele em que se omite a sílaba depois da tônica, não podendo, portanto, para que se dê o efeito de estranhamento da omissão, ser verso agudo.

Aliás, tão estranhado fiquei, que tive dúvidas acerca do tema exato de tão belo soneto e a quem ele estaria aludindo (ainda que no último verso ele confesse ser para o demo).

Segue:


Grande besta, inimigo da vaci~
Empenhado em tirar o país dos tri~
Estoca ozônio, armas e cloroqui~
Contra a PF blinda os seus fi~
 
Aos 33 foi logo aposenta~
o ex-capitão que nem pra isso ser~
Fez muito dindim como deputa~
Por nadas feitos com empenho e ver~
 
Juízo de camarão, boca de esgo~
Quando o ouço falar, logo vomi~
Mas lobotomizados mugem "Mi~" 

Aqui se finda este troço esquisi~
Com flato com desprezo e com arro~
Dedica-se ao demo este cabo ro~


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Como são estes, contudo, tempos de perseguição, não quer Fuas Roupinho complicações para si, de modo que enfiou na árvore seguinte, desta feita uma fedorenta chichá, o mesmo soneto sem as esquisitas omissões. E agora, creio, poderá mesmo figurar em antologias com o selo de qualidade do Escola Sem Partido.


Grande besta, inimigo da vacilação
Empenhado em tirar o país dos tristes
Estoca ozônio, armas e cloroquita
Contra a PF blinda os seus fidalgos
 
Aos 33 foi logo aposentando
o ex-capitão que nem pra isso serpenteia
Fez muito dindim como deputante
Por nadas feitos com empenho e versos
 
Juízo de camarão, boca de esgotado
Quando o ouço falar, logo vou-me
Mas lobotomizados mugem "Minas!" 

Aqui se finda este troço esquisitice
Com flato com desprezo e com arroz
Dedica-se ao demo este cabo romântico
 
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PS: A precaução de Fuas não apenas procede como segue os célebres versos de cabo roto no prefácio de Dom Quixote:

Advierte que es desati-
siendo de vidrio el teja-,
tomar piedras en la ma-
para tirar al veci-.

 

Sunday, May 03, 2020

Dos 200 países do mundo


Fazendo uma média entre a lista da ONU e a da FIFA, esta contabiliza 209 e aquela 193, há 200 países no mundo, dos quais conheço apenas 1/4.

200 países no mundo e eu tinha que nascer, às 13 horas daquela tarde friinha de junho em Laranjeiras, neste.

Sempre gostei do Brasil. Gosto criticamente, como creio ser a única maneira possível de se gostar, afinal, assim que gosto dos Beatles, do Vasco, da Camila, do meu pai, do Dante. E de mim mesmo, sendo que neste caso muitas vezes até desgosto.

Gosto criticamente, mas gosto, gosto imenso, amo. Ou não teria viajado tanto por aqui, sempre com sede de mais, sede demais.

Mas as conjunturas -- um presidente coprófilo racista, machista, misógino, bandido, irresponsável, assassino, defensor da tortura, fervorosamente defendido por legião de imbecis -- me trazem à mente trecho de Um Estranho em Goa, do Agualusa. Trata-se de diálogo entre o narrador e Lili:


"Se nos encontrarmos numa próxima encarnação – suspirou Lili –, e eu tiver uma aparência muito diferente, ainda assim saberás quem sou por causa destes sinais.

Disse-lhe que não gostaria que ela fosse diferente, nem pouco nem muito, achava-a perfeita assim.

Quanto a mim, qualquer coisa servia, poderia reencarnar numa abóbora ou num gafanhoto, contanto que não fosse outra vez em Angola."


Também eu voltaria como um gafanhoto.

Conquanto que não fosse no Brasil

 

Wednesday, April 01, 2020

Bolsonaro no Inferno



Retomei hoje projeto que inventei com algumas perguntas do Livro de Perguntas, do Pablo Neruda. Retomei e encerrei! Mas nesta postagem não falo do projeto.

O Livro do Neruda consiste em 74 partes, tendo, cada uma, quatro ou cinco perguntas em média. Sempre em dísticos. As perguntas não têm ligação entre si. 

Mas qual não foi minha surpresa, ao reler hoje pela manhã, e perceber que os capítulos 70 e 71 fogem à regra, de vez que todas as perguntas estão relacionadas: as dez perguntas dizem respeito às atividades de Hitler no inferno.

Mexendo aqui e ali, adaptei-as para nossa realidade, a do Coprófilo na presidência.

O texto-base que usei é a tradução do Ferreira Gullar, de 2007.


Qual é o trabalho forçado
de Bolsonaro no inferno?

Corre na pista ou da justiça
Aspira o odor dos seus mortos?

Dão-lhe para comer as cinzas
de tantos índios calcinados?

Ou desde sua morte lhe dão
sangue pra beber num funil?

Ou lhe martelam na cabeça
a culpa dos assassinatos?

Ou o deitam para dormir
em cercas de arame farpado?

Ou lhe estão tatuando a pele
para as lâmpadas do inferno?

Ou o mordem sem compaixão
os negros mastins do fogo?

Ou deve ele, noite e dia,
viajar sem trégua com seus presos?

Ou deve morrer sem morrer?
De gripe, eternamente sem ar?

Saturday, September 14, 2019

Quadrinha para o Procurador que só Ganha 24 MIL



Ele só ganha 24.000
Toma anti-depressivo, é muito miserê
Leonardo Azeredo é a cara do Brasil
Mas a culpa, claro, é do PT

Thursday, August 15, 2019

Já não sei que esgar me resta


E como encarar a irmã
em meio ao nosso jantar
bebem-se vinho e cerveja
com risadas e clichês
E como encarar a irmã
falar da feira, netflix
fofocar da velha tia
E como encarar a irmã
durante o fondue de inverno
o fontina derretido
naco de pão que ora cai
(ah quem? pagará prenda?)
E como encarar a irmã
a noite nos é tão cálida
e a música não é má
sempre as conversas de sempre
sempre as piadas de sempre
E como encarar a irmã
que votou pelo fascismo
e não se arrepende?
Pois eu já não tenho olhos
não sei se odeio a irmã
não quereria odiá-la
odeio o fascista virtual
que xingo dou pontapés
todos eles virtuais
a irmã não, está aqui
tão próxima mesmo sangue
mesma infância mesmas fotos
e escolheu o fascismo
e não se arrepende
mata-se o garoto negro
a caminho de sua escola
e pra família no carro
oitenta tiros bem dados
e morre o gay espancado
e morre o índio queimado
Evandro, você não quer
mais um copo de cerveja?
Ó, não vai beber demais
preocupa-se minha irmã
tão ciosa do meu fígado
mata-se a trans a pauladas
fazemos o vídeo
(ela vestia calcinha!)
reforme-se a previdência!
que já há velhos demais!
professor e lavrador
só querem parar bem cedo
corrigir as distorções
e como te encaro, irmã,
já não sei que esgar me resta
já não sei que olhar me sobra
minha irmã aqui em frente
preocupada com meu fígado



Friday, August 09, 2019

Haicais para o bolsonaro


Escrevi uns haicaizinhos para o presidente deste país. Em todos mantive o metro de 17 sílabas (5-7-5), rimando o primeiro com o terceiro. Nos três primeiros ousei, à la Guilherme de Almeida, uma rima interna no segundo verso.

Em breve tem mais. Faça o seu!


Elegeu-se a besta
Mente lerda a falar merda
de sábado a sexta

E vejam que graça
O presidente sem dente
é pura desgraça

Da questão o cerne:
O bolsonaro, meu caro,
não passa dum verme.

Relincha o truão:
'A embaixada americana
é do meu filhão'

Mamata acabou!
Grita quem aos 33
Se aposentou

Sunday, June 16, 2019

Moro : Merda à Milanesa com Cerol


E o Moro, garotada, quem diria
não passava realmente de um marreco
O bolsogado t(r)eme e se arrepia
O pobre de direita tem um treco

Mestre no power point, Dallagnol
também se afunda até o pescoço
Bolsonaro, nervoso, para o almoço
(que é merda à milanesa com cerol)

E brada: "Não somos Venezuela
*(%$#*)_+nvhfkeurmoiuouovo!"
Olha que assim este governo cai!

Apenas peço, de forma singela
Vocês vão tudo pra Ótica do Povo!
Morô?! Ràrái!




Monday, April 29, 2019

We'll always have Olinda ::: LULA LIVRE


 Os dias são difíceis, inacreditáveis. Mas quando a gente estiver triste / Mas triste de não ter jeito, é lembrar que we'll always have Olinda, República do Lula Livre. 


























Tuesday, April 09, 2019

De Patrimônio Histórico e Conservadorismo

Palmeira-BA

Queijo do Serro

1986 tinha tudo para ser um grande ano: eu terminara o Ensino Médio feliz, iria iniciar os estudos de Psicologia na UERJ e já com a viagem de intercâmbio para Chicago marcada no meio do ano.

Antes disso, em janeiro, teve Ouro Preto. Uma epifania. Todas as questões de patrimônio histórico, cidades históricas, arquitetura e preservação entraram na minha alma com força para duas, três, quatro vidas. Antes mesmo que as férias terminassem, eu já quase esgotara o périplo das cidades históricas mineiras mais conhecidas. O Caraça ficou para a Páscoa.

Desde então, pois, é dos meus interesses maiores, em leituras, fotografias e, claro, viagens. Como outros de meus interesses maiores (rock progressivo, single malts, poesia), não partilhado por muitos.

Com a chegada das redes sociais, fui, como todos, procurar a galera com interesses semelhantes.

A turma interessada em questões de patrimônio histórico é particularmente desagradável (há exceções). Camila tem uma teoria, tão simples quanto válida: 'Mas é claro, estão interessados em preservação, em conservação, você acha que isso iria se limitar às igrejas barrocas?'

Queria crer que sim (bem, e que não se limitasse apenas às igrejas oitocentistas, claro), mas a realidade é que o interesse maior é mesmo "o meu Brasil de volta", havendo até um grupo de monarquistas doentio e outros, que sem serem particularmente apegados às barbas do Pedrão, defendem abertamente ideias fascistas e fascistoides, votam em um partidário da tortura e atacam direitos humanos.

A ironia é que esses imbecis desconhecem que não será com jair bolsonaro, não será com esse ministério de idiotas que teremos avanço na área do patrimônio histórico. Ou alguém acha que um desgoverno desses, corrupto, ignorante e despreparado, entende das questões de preservação? Que esse desgoverno que criminaliza pesquisa e conhecimento não achará preferível entregar o patrimônio em troca de vultosas propinas? E o patrimônio imaterial? Esses asnos estarão interessados na capoeira, no amolador de faca, no queijo do serro, no empadão goiano, no grafismo dos wajapis, no samba de roda do Recôncavo?


Monday, April 08, 2019

Clarice e os 80 tiros em Guadalupe




Em 1964 (!) foi publicado pela Editora do Autor (aqui) A Legião Estrangeira, de Clarice Lispector, seu sétimo lançamento. A primeira parte traz os contos (e alguns eternos estão lá), enquanto a segunda intitula-se "Fundo de Gaveta", sugestão do Otto Lara Resende (aqui).

Tudo aqui vale muitíssimo a pena. E no fundo do fundo da gaveta, os textos se seguem uns aos outros na mesma página, está lá o Mineirinho, o bandido assassinado com treze tiros.

Quando bastava um só.

O texto é um soco no estômago. E o que diria Clarice dos 80 tiros?



"Esta é a lei. Mas há alguma coisa que, se me faz ouvir o primeiro e o segundo tiro com um alívio de segurança, no terceiro me deixa alerta, no quarto desassossegada, o quinto e o sexto me cobrem de vergonha, o sétimo e o oitavo eu ouço com o coração batendo de horror, no nono e no décimo minha boca está trêmula, no décimo-pimeiro digo em espanto o nome de Deus, no décimo-segundo chamo meu irmão. O décimo-terceiro tiro me assassina -- porque eu sou o outro. Porque eu quero ser o outro.

'Essa justiça que vela meu sono, eu a repudio, humilhada por precisar dela. Enquanto isso durmo e falsamente me salvo. Nós, os sonsos essenciais."

Saturday, April 06, 2019

LULA LIVRE :: VIGÍLIA EM CURITIBA



Guardei para hoje a postagem sobre nossa visita à Vigília Lula Livre, em Curitiba: um ano de sua prisão tão absurda quanto injusta.

Chegamos na cidade na noite de quinta e eu já queria ir lá, mas a noite e a chuva desanimavam. Na sexta, o passeio de trem para Morretes toma quase o dia todo, embora eu também tivesse querido na volta. Com chuva e vento. Acabou que a manhã de sábado (o passeio à colônia anarquista em Palmeira se revelando impossível) mostrou-se o melhor dia: o céu melhor azul como fundo para araucárias, tantas.

O motorista de táxi incrédulo e arregalado: 'É aqui que vocês vão ficar?'. Sim, moço, é aqui, junto desse povo que acampa e que visita e que foi marginalizado e feito marginal por uma mídia corrupta e vendida. A energia boa, a cordialidade imensa, um carinho grande apesar das indignações. A luta.

Duas caravanas chegaram. E havia grupo de cegos. E canções e palavras de ordem. O bom-dia entoado treze vezes, depois mais música enquanto o mate ferve e (parece) o grupo mais die-hard, os de fato acampados, a tudo observam.

A gente fica meio criança, tocado pela energia, mas sem esquecer o absurdo, a injustiça da situação, que está ali na figura nefasta do prédio da Polícia Federal.

Não somos contra polícia, claro, ainda infelizmente necessária. Mas polícia não é pra isso: pra comer na mão da elite e sentar a porrada nos que a incomodam. A polícia no Brasil não foi outra coisa nos últimos séculos. De mãos dadas com um Judiciário viciado, corrupto, egoísta.