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Wednesday, December 23, 2020

Dante, aulas remotas, eu

Quando começou essa história de aulas remotas, pensei logo 'Não vou conseguir'. Entravam aí, claro, insegurança e contumaz desacerto com internet. Entrava aí minha preocupação com o Dante, eu tendo que estar com ele, ele atrás de mim, eu me lembrava do Robert Kelly dando entrevista para a BBC: entra a filha dançando, entra o bebê no andador, entra a mãe desesperada atrás, puxando filha filho andador e porta. Foi engraçado mas preferi ver a resposta a isso: se fosse mulher, ela iria sentar a criança no colo, dar de mamar se necessário e continuar a entrevista.

Nela me inspirei quando anuí: partiu, mas vai ser como der, como for possível, tenho filho autista em casa e, como disse Thiago Queiroz, tão acertadamente, "não são os filhos que invadem o trabalho, foi o trabalho que invadiu a vida de filhos e família".

Quando o filho é autista, a parada complica, quem disser que é a mesma coisa leva sopapo. Virtual.

Dei um curso sobre Pink Floyd para os alunos do 1o ano que ia das 7 ás 7:50. Estive à frente de uma roda de conversa chamada "(Precisamos falar sobre) Autismo na Quarentena", que ia das 7:50 às 8:40. Éramos só nós dois. E tantas outras aulas e orientações. Minha tranquilidade é ouvir o ranger da rede, ao menos sei onde ele está e que está bem. Os alunos também ouvem o ranger e sabem onde está o Dante. Num dia de roda de conversa, ele estava muito quieto, o que não é bom sinal. Quando terminei, vi que ele arrastara a poltrona para o meio da sala, bloqueara a porta da frente com o sofá e levara as quatro cadeiras, grandes, para a cozinha. Estava quieto e feliz. Sorria. Suspirei. Tá, Dante, você quer mais chocolate? 

Hoje nos acostumamos um pouco. Ele às vezes vem e se senta no meu colo. Outras vezes pede beijos e shantalas. E pede sempre que eu não feche a porta, no que o respeito totalmente.

Tuesday, November 26, 2019

Mary & Max & Pampi


Antes de passar Mary & Max para meus alunos, advirto 'Não desanimem com o começo, é muita informação, depois as peças vão se juntando'. De fato, há tantos detalhes, tanta riqueza ali e por todo o filme, que reassistir é sempre descobrir e redescobrir, como molhar a mão no rio que nunca é o mesmo.

Mas o final a gente guarda desde a primeira vez e nunca mais esquece. Mary, jovem adulta jovem mãe, formada em Psicologia, enfim viaja da Austrália para Nova York para conhecer pessoalmente o seu amigo Max. Max, o esquisitão, Max, o autista, Max, o Asperger, o Aspie, mas sobretudo o Max que, em meio a suas confusões, rejeitava uma "cura".

Sábio Max.

Quando ela chega em seu apartamento, ele está morto, morrera naquela manhã. E há da parte dela menos tristeza que aceitação, aceitação de que eles tiveram, sim, uma linda amizade. You're my best friend. You're my only friend. E eu já ia escrever 'quem não chora nesta cena já está morto', quando lembrei que nem o Max choraria, já que não conseguia ter lágrimas, a não ser quando cortava cebolas. Mas essas não contavam.

(Bem, Mary enviou algumas lágrimas para ele, mas já quase conto o filme todo) e esta postagem é só pra dizer 

que Pampi, antes de viajar para Londres, deixou-me uma carta embaixo do travesseiro e agora tenho que dar mais spoilers: quando Mary se senta no sofá com Max, ele já morto, ela vê a parede forrada com as cartas que ela lhe escrevera ao longo dos anos, todas rigorosamente passadas a ferro. Então esse final a gente guarda e desde a primeira vez. E chora, lágrimas de cebola ou não.

Aí eu também passei a cartinha e a emoldurei. Cartinha que, debalde meus esforços, continuou amarrotada. E pensar que Max se achava clumsy. Todo pai de autista é meio autista também.

Pendurei-a perto da cama, na primeira parede que olho ao acordar, para que seja sempre a primeira visão do dia.

Mas eu a vejo mesmo no escuro. E antes mesmo de acordar.


Thursday, August 29, 2019

Will be kids

Lobo Leite-MG
Para este segundo trimestre, desenvolvi com os alunos queridos do 3o Ano um projeto fotográfico. Cada coisa linda: a luta pelos cabelos crespos, Frida, Vasco, invisibilidade, alunos negros, o corpo feminino, o aluno multiinstrumentista, o nascer do sol, família em diversas facetas & todos lindos

Entrei na onda e aqui o meu: (Kids) will be kids, que sempre gostei de fotografá-las, desde a distante exposição Por Dentro e por Fora, Menino, que fiz nos pilotis da PUC-Rio em 1994.

Agora me dei conta: 25 anos. Fique este pequeno apanhado, de viagens recentes, para lembrar

Atotonilco, México

Barra do Piraí-RJ

Bhaktapur, Nepal

Brejo dos Padres-PE

Conceição dos Gatos-BA

Cuzco, Peru

Céu, Marajó-PA

Essaouira, Marrocos
Milho Verde-MG

Morretes-PR

Novo Airão-AM

Oaxaca, México

Parcão-RJ

Praça XV-RJ

Quilombo São José-RJ

Quilombo São José-RJ
Quilombo São José-RJ

Rio Tupana-AM

Rio Tupana-AM

Varanasi, Índia

Vale do Capão-BA

Viscri, Romênia

Viscri, Romênia



Wednesday, November 28, 2018

Fritando Tomates Verdes II




Para fazer tomates verdes fritos o mais difícil será encontrá-los, encontrá-los verdes, que nesse estado eles soem ser escondidos nos depósitos ou sequer são levados para os mercados. Fui em dois hortifutis e dei com os burros n'água, mas o sabichão do meu cunhado conseguiu-os em grande quantidade (Ainda perguntou 'É do carmem que você quer? Esse tem muita água').

Promessa é dívida e embora eu e a turma tenhamos visto o filme no início do ano, a cobrança de fritarmos os benditos era quase que toda aula.

Foi ótimo. Depois de fazerem harumakis para a entrada, todo eles pegaram a faca e logo tínhamos uma Gizé sobre o mármore da mesa. E venham a páprica, a pimenta branca, a farinha de milho, os ovos, a farinha de rosca. Logo os fritei (desta vez deep fried, ao contrário da outra vez que fizera, num distante 2009) para alegria geral dos estômagos adolescentes e outros nem tanto. Esquecemos do alho frito por cima.

Ficaram deliciosos? Bem, it's an acquired taste, das profundezas do Deep South. Basta lembrar do diálogo (que eu e Natália encenamos) entre Ruth e Idgie quando esta oferece à sua amada a iguaria pela primeira vez:

-- Try this.
-- (Silence)
-- So what do you think?
-- They're Ok. (nada convincente)
-- The truth.
-- Ehm... They're terrible.

Então... ficaram mesmo terríveis? Nada. Ficaram deliciosos.













 




Wednesday, September 19, 2018

Marielle Dylan Franco


Há alguns anos já, pra mais de década, trabalho "Blowin' in the wind" com meus alunos do 1o ano EM. Primeiro separo as primeiras partes das perguntas "How many roads must a man walk down" / "How many seas must a white dove sail" etc de suas contrapartes "Before you call him a man?" / "Before she sleeps in the sand?" etc e eles devem, levados pela semântica e sintaxe, juntá-las. Depois, ainda sem dar a letra, toco a música para eles conferirem. Enfim, dou a letra. E basicamente falamos de perguntas retóricas, seu conceito, sua utilização. Terminamos com um texto ótimo que relata o impacto da canção na luta pelos direitos civis nos anos 60 nos EUA.

É isso.

Era isso.

Este ano, a barbárie com a Marielle Franco. E como não relacionar os versos "And how many deaths will it take till he knows / That too many people have died?" com "Quantos mais vão precisar morrer para que essa guerra acabe?", a postagem da Marielle poucos dias antes.

E lá foram eles os alunos atrás das Marielles grafitadas pela cidade. A do Marcelo Ment é uma referência, mas há outras.


porque Marielle é uma semente