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Monday, March 30, 2020

WHISKY QUARENTENA



Talvez por ser apreciador de single malts, sempre fui avesso à ideia de coquetéis com whisky, e aqui creio que encontraria concordância com o mixologista mais herético: não dá para misturar um Islay, um Speyside com soda, angostura ou limão. 

Reconheço que isso pode parecer pedante, mas não apenas: as dificuldades de equilibrar sabores aqui podem ser tamanhas que talvez seja simplesmente mais fácil aceitar que nem todo whisky serve para drinques.

Enfim.

Mas a vontade de provar a "água da vida" de modo mais leve (e no verão!) levou-me aos coquetéis. E há três dias, animado com a puríssima essência de baunilha que Camila trouxe de Londres, inventei um:

1 dose de whisky, usei o Jameson envelhecido em barris de IPA
2 doses de H2OH limão
meio limão espremido
1 fatia de limão para jogar dentro
2 gotinhas de extrato de baunilha
gelo a gosto


Depois vi que Mark Twain inventara coisa semelhante, conforme escreveu em carta de 1874 para sua mulher: 50 ml. de Scotch; 20 ml. de suco de limão, 30 ml. de xarope (qual? de quê?), angostura.

Meu Whisky Quarentena trocou a angostura pela baunilha. E acalmou tudo com o H2OH.

Sunday, August 12, 2018

Valverde, Nilton Bravo de Lima :: Crónicas Peruanas VI


A culinária peruana é exuberante a ponto de estar, sem favores, entre as mais interessantes do planeta. Os endinheirados podem visitar, em fila indiana, os três bambambãs da lista do Top 50 mundial. Está tudo muito certo. E os durangos, mochileiros, inclassificáveis, podem perambular pelas ruelas congestionados da capital peruana e fazer os seus achados. Mochileiros e durangos já devidamente praticamente expulsos de Machu Picchu. Mas não, ainda, das ruelas congestionadas de Lima e seus achados.

Como o Mar Limón y Sabor. À frente o imperdível Lolo. No salão as pinturas do Valverde. Com direito a neon. Ao contrário do Brasil e seu nariz empinado, ninguém acha cafona.






Tuesday, August 15, 2017

Crônicas Siamesas VI ::: Whiskey Thai



 

Não entendo o porquê de os tailandeses chamarem de whiskey o destilado feito de melaço que deveria naturalmente atender por rum. Reparem que na garrafa vem escrito rum, decerto por pressão internacional, acordos de exportação essas coisas. Mas no cardápio de hotéis e restaurantes continuam chamando de whiskey, provavelmente palavra de maior status.

Na Índia era a mesma coisa. Faziam (e fazem) milhões de hectolitros de "whiskey" de melaço, que a comunidade highbrow escocesa desprezava ou no máximo olhava com impaciência, como um monge observa adolescentes buliçosos voltando para casa de ônibus. Levou tempo até que a Índia viesse com um Amrut (aqui), a quem os monges escoceses são forçados a pagar respeito.

Na Tailândia não sei se há de fato whiskey de verdade. Pedi esse SangSom em nosso primeiro restaurante em Chiang Mai. Pedi uma dose e, para nossa surpresa, depois deixaram o resto da garrafa na mesa, como cortesia. Não precisava. Bebi com esforço, por puro amor à antropologia e à etnoculinária. Soube depois que deveria ter diluído em muita soda e gelo, o que seria um bom acompanhamento para o tempero dos curries. Não sei. Achei mais prudente voltar às pilsens.

(Ah, mas justo ali, relativamente próximo a Chiang Mai, já se produz vinho. De que falarei depois)

Thursday, July 20, 2017

Porquinho Jurado




Este ano rolou aqui em casa um polvo no whisky que redundou em fracasso, não deu liga, um pálido arremedo de um que comi no Nanquim há alguns anos.

A ideia de acertar uma receita com whisky me perseguia -- assunto, diga-se de antemão, ainda pouco explorado: uma das bíblias sobre a bebida: Whisky - The Definitive World Guide, do Michael Jackson, dedica apenas duas, de suas quase 300 páginas, ao assunto. De modo que ontem, primeira quarta-feira das férias, com muito frio e chuva, mandamos um lombinho para a panela de pressão. Para além dos temperos cotidianos, leite de coco, chakalaka e, claro, whisky.

Ficou simplesmente divino. Comemos de garfo por bons modos, mas poderíamos ter usado a colher, tal a maciez. A questão aqui é acertar a quantidade: se muito, toma de assalto, estraga a comida. Se pouco, pra que botar? Colocamos um pouco no começo e outro pouco já mais para o final. Se depois desta segunda, a cozinha ficou rescendendo ao nobre líquido, o resultado final revelou-se harmonioso, mais do que prevíamos até.

Qual whisky? Bem, qualquer um com muita turfa colocaria tudo a perder, de modo que já cortei as ilhas, principalmente Islay. Usamos o Jura (sobre o qual eu já escrevera aqui). Curioso que Jura é uma ilha, separada da Escócia continente por um pequeno estreito (a que chamam de sound), mas sua produção em nada lembra o usual, tanto que é chamado de "highland das ilhas". A edição Jura Superstition é exceção, tendo algum sal na boca e no nariz (mas nada de turfa ou fumaça).

Entusiasmados (en-theos), servimos com um arroz com fruta-do-conde e pimentões assados. Como fizemos muito, sobrou para a tapioca do lanche.


Thursday, June 01, 2017

Nikka : Whiskey Japonês



Sempre quis provar whiskey japonês e a única vez em que vi à venda foi no estonteante freeshop de Istambul há coisa de dois anos. Istambul, Turquia, país muçulmano, Deus, Alá whatever mantenha essa certa tolerância.

Comprei essa garrafinha fofa, parece de botica e a revistei hoje. Um whiskey desses sempre será um bálsamo, ainda que não tenha nada de medicinal como o Laph (aqui). Floral e frutado, laranja, frutos secos. Muito corpo, longo retrogosto. Dulçor. Nada de turfa ou fumaça, mas eu nem procurava isso. É um blend. Agora não lembro por que não comprei um single malt, provavelmente por causa do preço. De qualquer modo, um whiskey excelente. DNA, terroir japonês? Isso não sei dizer. Ótimo do jeito que é.

Sunday, February 05, 2017

Jameson Caskmates ou Vai uma Stout no teu Whiskey?


Participei de uma degustação de cerveja na linda cervejaria / destilaria Birkenhead, perto de Hermanus. Como era de se esperar, as seis cervejas vinham já na ordem sugerida para a prova: da pilsen à stout, tendo no meio uma weiss com mel e ales. Não achei as birras particularmente excepcionais, mas amei o evento: a manhã azul e crocante, meus pés na grama, as companhias. O destaque negativo ficou por conta da última, a quem defini como 'Nescafé frio', para grande desconsolo de uma canadense do grupo, que dela gostara. Mas defendi-me dizendo que eu não gosto mesmo de stout, então minha crítica não seria de grande valor. É isso: não gosto de stouts há anos, e creio que só voltarei a bebê-las com prazer se em Dublin, ali direto da teta da vaca preta, na torre da Guinness, lendo Joyce e Yeats. Porque, de resto, pra que beber papel queimado?

Bem.

No campo do whisky, restrinjo-me aos single maltes, abrindo honrosa exceção para o Jameson Reserva, que mora no coração.

E na volta da viagem, em busca da meu Jameson, vejo que há uma edição especial. Envelhecida em barris de.... stouts. Non posso credere. Hesito, penso, oro. Curioso, compro.

Simplesmente maravilhoso, ainda mais gostoso que o Reserva. Ressalte-se que os barris foram originalmente barris de Jameson. Barris que armazenaram Jameson foram emprestadas à microcervejaria Franciscan Well, para receberem stouts. Depois foram devolvidos à Jameson, ou seja : whiskey, stout, whiskey again.

No nariz, um pouco cítrico, alguma madeira. Na boca, nada de defumado, nada de turfa. Absurdamente suave, um perigo. Por incrível, não senti nada da stout. Talvez por isso tenha gostado tanto?

Monday, September 05, 2016

Crônicas Espanholas II ::: Whisky Español


Descobrir, no mítico bar e restaurante José María em Segóvia, que a Espanha tem um whisky próprio, coincidentemente feito em Segóvia mesmo, foi de fazer eu me beliscar e perguntar-me se não teria já bebido muitas cañas. Não tinha. A garrafa de DYC lá estava à minha frente.

Não poderia deixar de provar, claro, e o fiz, torno a lembrar, em meio ao ambiente esfuziante do José María e suas tapas maravilhosas. Bebê-lo ali foi como tomar uma Kingfisher nas praias de Goa ou vinho de jabuticaba numa adega de Varre-e-Sai. Ambiência é tudo. Trazer uma garrafa cá para o Grajáu.... bem, aí a carruagem vira abóbora.

Não que ele seja ruim. Ele é anódino. Li algumas resenhas e a galera cai de pau. O funcionário do Museu Gastronómico (onde também comprarmos o espumante de cenoura, aqui), disse que os espanhóis criticam e que os estrangeiros adoram. Bem, talvez adorem como eu adorei, pela experiência.

Mesmo o puro malte lembra um blendado ordinário. Não custa lembrar que nos supermercados espanhóis ele é muitas vezes vendido num pack com uma garrafa de coca-cola. Enough said.

Caiu bem no nosso polvo e camarão ao whisky.









Tuesday, June 14, 2016

Hillrock ::: Single Malt de Nova York



Camila viajando para Nova York pensei em pedir o usual Islay, um Speyside, quem sabe um Islay raro. Depois, on a second thought, pensei 'bobage, sendo New York um dos centros do mundo, minha chance de pedir um indiano (ver aqui), talvez revisitar um belga (aqui)'. Ainda bem foram pensamentos desprovidos de ações. Porque, num third and final thought, atinei... quem sabe um whiskey americano?

Negócio é que sempre desprezei bourbon e não estava a fim de romper com isso. Não quero saber de milho em minha cerveja, muito menos em meu whisk(e)y. Mas aí é que optei por um single malte norte-americano (sim, isso existe!) e isso materializou-se no Hillrock, adquirido pela moça na fantástica Astor.

A destilaria de Hillrock fica a umas duas horas ao norte de Nova York. O mestre de lá é o Dave Pickerell, que trabalhou na Maker's Mark por muitos anos. A parada é tão artesanal (ou ao menos, rararará, quer se passar por) que cada garrafa é numerada e assinada por ele. A minha é do barril HS-4.

Tal artesania faria com que cada garrafa, ou ao menos cada barril, tivesse uma expressão diferente, de vez que, fato, foram expostas à turfa por tempos diferentes....

Gosto dessas coisas. Mas não senti nadica de turfa na minha linda garrafinha.... Será que foi o lote de menor exposição? Até aí, tudo bem, pois eu não estava mesmo atrás de turfa ou teria pedido um Islay.

No nariz, couro, couro molhado e grama, molhada. Algum efeito madeleine aqui me trouxe à memória o campo do América, quando havia campo do América em Vila Isabel.

Na boca, ele é suave, mas com um sabor forte de pimenta. Pimenta branca, pimenta-rosa. Pode até enjoar um pouco, mas a experiência geral é muito boa.

PS: Ah, e aquele outro whiskey transparente na foto? Numa garrafa que parece um vidro de maionese?

Fica para a próxima.



Tuesday, May 10, 2016

CORRYVRECKAN ::: O diabo no mar, no meio do redemoinho


Há muito que não escrevo sobre whisky no blog (última vez aqui, três anos atrás, sobre o indiano Amrut), embora whisky tenha aparecido de leve no poema que fiz para minha mãe aquando de sua partida ("eu que não tenho calmantes senão o talisker"). Bem, agora que a amiga Juliana me trouxe diretamente de Stirling um Ardbeg Corryvreckan, serão horas de atualizar o assunto.

Corryvreckan é o nome do terceiro maior redemoinho do mundo, situado em águas escocesas, perto da ilha de Jura. Está entre os passeios mais perigosos do planeta.  O escritor George Orwell naufragou ali com seu filho de 3 anos em 1947. Quase morreram. Não fosse o resgate, não teríamos hoje 1984. 

Dar este nome a um whisky que, em sua expressão habitual, é já incrivelmente defumado, salgado, marinho e turfado, para se referir a um cask strenght de 57,1%, parece-me muito apropriado, no mínimo como que a exortar 'não diga que não avisamos'.

Eu, que de ordinário desprezo como infantis muitas cervejas extremas, muita stout desequilibrada com gosto de pneu, não vejo nada de desnecessariamente extremo aqui. Em que pese a pancada, há, na boca e no nariz, alguma cremosidade e acidez. É ligeiramente mais medicinal que o Ardbeg normal, o que o aproxima do Laphroaig. Notas de couro molhado, madeira e laranja. Um jato de água ou duas pedrinhas são imprescindíveis para domar um pouco a besta.

A besta no mar, no meio do redemoinho.

A embalagem traz duas advertências: "Not for the faint-hearted" (perfeito, e que eu já pensara para o Ardbeg, Laph e Caol Ila) e "No swimming". Faz sentido.

Esta postagem é dedicada à Ju.


PS: Tivesse Orwell sucumbido no maelström, não teria a literatura o 1984. Mas também não teríamos o Big Brother da Globo.... Mas evitemos humor negro, please.

Wednesday, January 06, 2016

Crónicas Chilenas IV ::: República Independiente del Pisco



O pau come libérrimo entre peruanos e chilenos quando o assunto é o local de nascimento do pisco. Um pouco como escoceses e irlandeses brigando pela criação do whisky ou moradores do Grajaú e de Honório Gurgel discutindo em qual bairro nasceu o jogo do taco.

Eu, que em 2015 briguei mais do que gostaria, fico com o Vargas Llosa achando isso tudo uma bobagem. Mesmo porque o marco zero não é o mais importante, senão o local onde hoje ele, seja o pisco, o whisky ou o taco, (re)nasce, reinventa-se.

Mais ou menos nesta postura reconciliadora o maravilhoso bar Chpe Libre, aka República Independiente del Pisco, em Lastarria. Chpe, isto é, parte do Chile e parte do Peru, um inimaginável e improvável país imaginário onde se pode degustar (a palavra é esta!) pisco todos os dias e comer leite de tigre a se fartar. O cardápio é dos mais espirituosos que já vi. O piso é de azulejo hidráulico, se alguém beber até cair ao menos fica bonito na foto.

Mas impossível beber até cair quando se tem uma degustação com quatro leites de tigres daqueles..... ¡Dios! Agora já sei o que pedir antes de ser fuzilado.

O pisco já merecera um post neste blog aqui.

PS: No Chile comemos mais comida peruana que chilena. Sem remorsos. E em restaurante peruano ou não, pedia sempre meu pisco sour peruano. Mas sem brigar.






Wednesday, July 29, 2015

Crónicas Uruguayas III ::: Velhos Bares de Montevideo



Eu já havia lido algo assim, que na capital uruguaia muitos bares estavam preservados não propriamente por uma consciência de patrimônio de seus donos, mas tão-somente porque estes nunca tiveram grana para empreender reformas.

Faz sentido. O próprio Nava, quando tornou-se diretor do SPHAN, percebeu que o proprietário de uma casinha antiga presto substituía as janelas de madeira pelo alumínio tão logo tivesse finanças para isso. E não é? E o próprio escriba deste blog insignificante pouco encontrou de realmente significativo na capital paulista (estamos falando de botequins!, mesmo assim ver aqui, por exemplo) pelo simples fato de a capital paulista ser mais rica que o Rio. Por aqui, a maior parte dos meus achados não se situa na Zona Sul e mesmo nos subúrbios é uma corrida contra o tempo.

Voltemos a Montevideo.

Lá encontrei balcões de mármore, mesas e cadeiras de fórmica, madeira e mármore, geladeiras de madeira, pisos de azulejo hidráulico, pés direitos a rivalizar com o Aconcágua, tudo assim, no centro da cidade, a mancheias. E nem falo do Cafe Brasilero, de 1877, o mais antigo em funcionamento, que este, muito bonito e bem conservado, é um point turístico...sobretudo para... brasileiros (plé). Falo de botequins nada turísticos, pé-sujos onde os macróbios lentamente vertem seus blendados que em suas veias se misturam às águas do Letes.

Disse blendados? Sim, notável que a bebida dileta dos frequentadores não seja cerveja ou vinho, pero whisky! Nenhum single malt, claro, mas notável de qualquer modo... Uma dose de um blendado sai por volta de uns 40 pesos, ao passo que uma pilsen local pequeña sai por 80. Explicado?

By the way, essa história de a galera beber whisky nos botequins bem que me lembrou Goa....

Iberia

Iberia

Iberia

Iberia

Iberia

Cocktail

Cocktail

Cocktail

Cocktail

Cocktail

Friday, May 30, 2014

Crônicas Gregas 7 ::: Metaxa


Claro que provei da Metaxa, legendário destilado grego feito a partir de varietais nativas. Os nomes não permitiriam mentir: Korinthiaki, Savatiano, Sultanina. O líquido inicial descansa alguns anos em barris de carvalho. O que se evapora recebe o nome de "tributo aos anjos". Algo como "pro santo". Numa segunda destilação, o líquido com sua já característica cor de por-do-sol de Belo Horizonte, passa por mistura de ervas, guardadas em segredo há mais de cem anos. Sabe-se apenas que pétalas de rosa são usadas.

O bouquet é característico e poderia já deixar os mais delicados embriagados. Na boca, tem a agressividade de um cognac. Mas desce muito mais suave. O que pode ser dangerosíssimo.

Provei da Metaxa no alto do Monte Licabetus. Não me venham dizer fiquei alto, que bem alto já estava.




Wednesday, March 27, 2013

Vai procurar a sua AMRUT!


The funny thing is: nas duas vezes em que estive em Goa, ignorei, a ponto de desprezar, os whiskies indianos. Goa, aliás, pareceu-me especialmente fond of them. Achei que uma única dose daquilo iria me matar, de modo que na única vez em que me arrisquei a sair da Kingfisher foi para tomar do fenim, e mesmo assim mais pelo, digamos, "folclore".

E via a galera local cair de boca no whisky deles, seja nos botecos, seja nas praias, quase sempre misturando com refrigerante. Isso, naturalmente, não atraía. Soubesse então que boa parte da produção local é uma mistura de whisky escocês com melaço... me faria aferrar-me ainda mais à Kingfisher.

Só vim a saber que existia coisa chamda Amrut depois. Aliás, eu e a torcida do Bonsucesso. A revolução que essa destilaria vem fazendo, não apenas por seus deliciosos maltes, mas pela tal da "agilização tropical da maturação", só poderá ser avaliada com precisão em alguns anos, que agora estamos no meio dela.

Os escoceses que se cuidem. E / ou invistam mais em marketing.

Meu Amrut é o Peated, envelhecido em barris de carvalho, que minha amiga Erica Palmeira gentilmente me trouxe da Austrália. Em degustação anterior (às cegas), confundi-o com o Highland Park, o que, convenhamos, é já puta elogio. Sabor de turfa acentuado sem, no entanto, soar 'medicinal' como um Laphroaig. Cremoso, com algumas notas cítricas. Never aggressive. Retrogosto fraco, um pouco herbáceo talvez. A impressão geral é excelente.

Wednesday, February 06, 2013

Não é todo dia (mesmo) que se abre um 30 anos



Não irei reproduzir aqui a piada do primeiro encontro do ex-detento, que cumprira pena de 12 anos, com a prostituta, que é piada pesada e suja, além de tecnicamente falha. Mas engraçada bagaray.

Tampouco reproduzirei a formidável resposta do Prokofiev quando perguntado se usaria jazz / elementos jazzísticos em suas composições: "Não tenho tempo pra isso", respondeu o mestre. Êpa. É o que sinto em relação ao whiskies blendados: não tenho tempo pra eles. Mas um 30 anos é um 30 anos. Perguntem à prostituta.

Pois então. Para comemorar duas amizades iniciada no mágico ano de 1982 no mítico São José "de baixo" com duas pessoas ainda relevantes (claro, ou não haveria celebração), optei por um... er, 30 anos, e eis que meu amigo Alexandre Campos (de quem falei aqui) me consegue o Whyte & Mackay 30 anos.

O Whyte & Mackay gosta de produzir expressões etárias pouco comuns no mercado do whisky: 13 (em vez de 12) anos, 19 (em vez de 18), 22 (ao invés de 21), e 30 anos, com o argumento de que aquele aninho extra deu à bebida a chance de amadurecer um pouco mais, conferindo-lhe uma suavidade graciosa e distinta. Parece marketing. E é. Mas prove pra ver.

O whisky? O aroma impregnou o apê de tal modo que os vizinhos chatos quase reclamaram. Os legais bateram à porta com a desculpa de que tinha acabado a farinha de trigo. Isso enfiando a cabeça porta adentro. Na boca, rico e profundo, (um) pouco amadeirado. Jerez e cerejas. No fim, algo de especiarias, mas o tom geral é de mel e grande suavidade. Se tomado depois de um Islay, trará notas de couro. Em uma palavra: equilíbrio, algo que meus amados Islay nem sempre terão. Nem eu.



PS: Os amigos são a Ariadne e o Renato, que perdeu a barca da história para o whiskão. O Felipe da foto é amizade feita em Chicago em 1986. 27 anos apenas.

Thursday, August 30, 2012

Laddie :::: Single Malt Brasil



Escrevi aqui sobre a alegria de poder comprar single malts mesmo sem viajar e aqui sobre um dos últimos whiskies de Islay que faltava eu provar. Bem, este post então é feliz duplamente, de vez que agrega duas das felicidades anteriores: trata do último single malt de Islay que me faltava provar, o Bruichladdich (Laddie para os íntimos) e, melhor, comprado aqui pela internet em site brasileiro.

O site Single Malt Brasil é fruto do esforço de Alexandre Campos, brasileiro radicado em Londres e, adivinhem, apaixonado por single malts. Conheci-o nos estertores do Orkut e logo chamaram-me a atenção seu interesse e gentileza, ao contrário de tantos "donos de comunidade" que se enchiam de fumos.

Os fumos que atraem Alexandre, como a mim, são outros: são os whiskies de Islay. Não por acaso, apenas após poucos meses de um contato virtual, ele me trouxe uma garrafa desta maravilha que é o Ardbeg. Migramos para o face, nosso contato continuou, e acompanhei a gênese do seu sonho de montar um site dedicado exclusivamente (ou quase!) ao whiskies single malts.

O site está pronto, lindo, e minha primeira compra foi pra lá de satisfatória: preços bons e serviço impecável. Em apenas dois dias, as ondas da minha Laddie (íntimo já) chegavam à minha porta.

Depois do boom do vinho, estamos em meio ao boom das cervejas especiais no Brasil. É possível que esse interesse se espraie também para o whisky e os conterrâneos percebam que o mundo dos destialdos da cevada vai além, muito além, dos Red Labels (para não falar dos Teachers).

Bem, e o Bruichladdich (repeat after me, after 3 drinks!)? Um ótimo malte, mas ao menos esta expressão, o Waves, longe de ser um típico Islay, no que tem de suave, sem a agressividade de um Laphroaig ou Ardbeg.

Bruichladdich já foi mesmo criticado por colocar no mercado tantas expressões, tantos whiskies com "finais" diferentes: com turfa, sem turfa, média turfa, super turfa, orgânico, Bourbon, tripla destilação, quádrupla destilação & so on... A galera de lá se defende: "Ora, você não precisa ter 22 destilarias diferentes...".

Se isso contribuir para aumentar a complexidade de sabores de Islay, sem apelação, podem contar com meu apoio. O site do Alexandre também.

Tuesday, April 03, 2012

Buda no Vaticano


Vais ao Vaticano? Então me traz uma estatueta de Buda!

Dá para imaginar este pedido aí de cima? Difícil, né? Fiz algo semelhante ao pedir a amigo que viajaria à Bélgica uma garrafa do single malt que por lá fazem. A Bélgica, como sabem, é terra das cervejas, das ótimas cervejas, e de maravilhosos chocolates. Eu mesmo já estive lá três vezes, e em todas as três visitei bares, pubs, lojas especializadas e fábricas, como a da Cantillon e da Duvel. Não que eu não tenha mais interesse pelas cervejas belgas, é que muitas destas agora podem ser encontradas por aqui. (Ainda que, claro, sendo a cerveja o pão líquido, nada se compare a poder beber o chopp em seu local de origem, de preferência na fábrica ou em um raio de 100 metros desta.)

Já um single malt belga é coisa rara, desconhecida, mesmo por lá. A destilaria The Owl propõe whiskies que possam ser bebidos durante o seu processo de maturação. Assim, o whisky foi engarrafado em seu primeiro ano de vida, em seu segundo, terceiro, e assim por diante. Minha preciosa garrafinha é um malte de 4 anos. Tradicionalistas podem ver oportunismo aqui. Vejo oportunidade. Oportunidade de, com um limão, fazer suculenta limonada e aproveitar ainda os caroços para fazer um colar. Afinal, alguém já imaginou como será dispendioso começar um negócio hoje para só poder começar a colher os frutos em 2024? Tem mais: em assim fazendo, mostram que os chamados whiskies do Novo Mundo chegaram para ficar, sem que isso signifique imitar a Escócia.

Notas de degustação: cor ouro pálido; no nariz é delicado e sutil, com baunilha, mel e principalmente pera. Na boca, é delicado, com notas de cereais e, mais uma vez, pera. O final é seco. Para nosso clima, com gelo ele é ótimo.

A primeira vea que o tomei foi com o Raul, na véspera do show do Roger Waters. Depois o bebi em degustação às cegas, junto ao Ardbeg e Balvenie, e não foi nada difícil identificá-lo.

Citando o slogan da destilaria: um single malte a caminho de um futuro fabuloso. Para ser coerente com a Bélgica: "Un Single Malt sur la route pour un futur extraordinaire / Een Single Malt op weg naar een toekomst buiten verwachting"

Mas ele pode já ser consideardo fabuloso. A seu modo. Lembrando Picasso: "leva-se muito tempo para tornar-se jovem".

Este post é dedicado ao Paulo Emilio Bouzan, que me trouxe a corujinha.

Bunnahabhain


A turfa está em alta. Mesmo marcas tradicionalmente não-turfadas querem ter ao menos uma expressão turfada, como recentemente aconteceu com Arran, Balvenie, Glenmorangie, Jura e Benromach.

O Bunnahabhain, bem, o Bunna, embora de Islay, paraíso para os peat freaks (olha nós aí!) encontrou seu nicho denominando-se "the gentle taste of Islay", isto é, seus whiskies não sabem a turfa ou a sal ou a iodo. Mas recentemente lançou uma expressão turfada.

Controvérsias: há quem diga que Bunna optou por fazer whiskies não-turfados para que pudesse vender mais no passado. Explico: em época em que single malts turfados não eram bem vistos (e bebidos), a produção das destilarias de Islay praticamente limitava-se a fornecer whisky para os blends. Quando Bunna viu que as grandes destilarias já não precisavam de tanta fumaça e turfa assim, passou a produzir whiskies pouco (ou nada) turfados.

Um dos malt makers de Bhuna, no entanto, afirma que seus whiskies sempre foram turfados e que só a partir a partir do começo dos 60 é que isso se deu. Acredito que sua fala seja no sentido de dizer algo como "não somos oportunistas, já produzíamos whisky turfado antes".

Não sei. Tradições existem para serem conhecidas. E transformadas. Uma tradição, by the way, pode ser começada hoje, não? Se Bunnahabhain, na costa leste de Islay, decide produzir whiskies turfados, não em consonância com sua tradição, mas em consonância com a tradição da ilha, acho ótimo. Se decide continuar sendo apenas "the gente side", acho ótimo também.

Na dúvida, bebo desta garrafinha pequenina, baixota como a lindinha que ma trouxe, a Giulia Drummond. Giulia já tem crédito comigo de sobra. Foi elazinha quem fez uma das músicas para o Dante, como se vê e ouve aqui. Precisava trazer-me uma garrafinha de um dos poucos maltes de Islay que eu ainda não conhecia?

Nas notas de degustação, um detalhe muito curioso: apanhei a garrafa com a Giulia no Osbar, na Cinelândia, onde, fazendo o percurso dos botecos, descubro que há por ali uma tradição em batidas de gengibre (!). Pois uma degustação do Bunna revela exatamente isso: notas de gengibre.

Wednesday, March 28, 2012

Tomei cerveja com Bodhisattva, parte 2


O título do post anterior traz Bodhisattva, cerveja e eu, sujeito desinencial. No texto, contudo, a cerveja não aparece e houve quem desse falta. Também costumo sentir falta. Juro que não coloquei o precioso líquido no título só para conseguir mais hits em buscadores e juro que ela não está ali como Pilates no credo.

Tomei cerveja com Bodhisattva em visita deste ao Rio no final do ano passado. Fomos ao Bar Rebouças, o simpático e minúsculo botequim do Jardim Botânico. Sentamos na calçada e pedimos Heineken. Seu Alberto lembrou, sem zanga, ser hora de almoço e que talvez lhe fosse ruim perder uma mesa assim para bebedores apenas. Mas ele logo percebeu que a quantidade proverbial de garrafas verdes e de bolinhos de camarão com catupiry iriam valer o almoço de uns cinco taxistas.

Muito falamos. Quando discorríamos sobre filmes tabu -- Saló e A Serbian Movie --, vislumbramos no alto do balcão, com os poderes especiais conferidos pela Heineken, uma garrafa de whisky que só podia ser Talisker. Ameaçava chuva grossa, o que inspirava o single malt de Skye. Sob o céu plúmbeo e baixo que pesava como uma tampa, o azul era tantálico. Uma dose do único single malt da ilha de Skye levar-nos-ia a God knows where. A Skye talvez.

Bons bodhisattvas, porém, mantivemo-nos fiéis aos cascos verdes, que sobre a mesa cresciam como cabelos de medusa.

E assim iluminamos a tarde escura.

Saturday, January 28, 2012

Você Jura?



As far as single malt goes, costuma-se dividir a produção escocesa em Speyside, Highlands, Lowlands, Campbeltown e Islands. Islay é um caso especial desta última categoria, pela quantidade de produção e pelas suas características especiais. Minha preferência recai sobre as Ilhas e, não por acaso, sobre Islay, ou seja, já não posso imaginar o paraíso sem turva e fumaça. Já escrevi sobre o Laphroaig e o Caol Illa neste bloguinho.

Mas também adoro o restante das Ilhas: Scapa e Highland Park (ambos de Orkney) e, claro, o poderoso Talisker (da ilha de Skye). Faltava provar o Tobermory (de Mull), o Arran (da ilha homônima) e o Jura (idem). Até que.

O dia vinha sendo cansativo quando, quase que mecanicamente, vou checar se chegou alguma cerveja nova no Pão de Açúcar. Até tinha, mas a surpresa maior estava reservada para a seção de whisky, que aliás nunca checo porque é a sensaboria dos blendados de sempre. Mas desta vez lá estavam dois single malts: o Dalmore e o Jura. Caí pra trás. Então é assim? Dois maltes sequer encontrados no freeshop agora ao alcance de uma descidinha de casa? Isso deve ser mesmo sinal de que algo acontece em nossa economia. For the good or for the bad.

O Jura, claro, não decepciona. A expressão disponível era o 10 Year Old Origin, não turfado, mas ainda assim Ilhas, a lembrar o Highland Park, com um aftertaste delicado e notas de mel. O que pode ser um perigo.

Sunday, October 24, 2010

Prazer a 59,3%



Termino neste momento minha garrafa de Caol Ila Cask Strength, com 59,3% de graduação alcoolica. É pena, pois este whisky de Islay, comprado no freeshop de Copenhague, vai deixar saudadades.

Se em poema publicado aqui no bloguinho, descrevi whisky como o pôr-do-sol no copo, este aqui foge inteiramente a isso, de vez que sua apresentação é pálida, côr de palha.

Se no primeiro post deste ano degustei um outro cask strenght, o Aberlour Abduna'h, este aqui também foge a isso, de vez que, a despeito de seu altíssimo teor, queima menos.

Mas estão aqui a turfa, a fumaça, o sal de Islay. E um frescor inacreditável.

Cask strenght é denominação dada ao whisky tirado "direto do barril", sem que água alguma tenha sido adicionada a ele. Esta adição de água, neste estágio, não representa um batismo, uma falsificação, muito pelo contrário, tanto que a praxe é adição de água, de modo a trazer sabores e aromaa à tona e a baixar o teor alcoolico para mais ou menos 40%, que é a média do whisky. Em alguns casos, no entanto, com o intuito de oferecer um produto diferente, as destilarias vão a alguns barris jovens (menos de 12 anos) e engarrafam direto. Daí o maior teor alcoolico e, por extensão, a grande variedade de sabores possível, pois um barril nunca será exatamente igual ao outro, ainda mais se estamos a falar de single malts Islay.