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Monday, May 11, 2020

Igreja de São Bartolomeu : Pinturas



Foi lendo sobre as atividades sádicas do Grão-Vizir e Paxá Lala Mustafá (postagem anterior) que descobri que São Bartolomeu, um dos 12 apóstolos, foi esfolado no Daguestão, como atesta pintura bizarra no teto da Capela Sistina, em que ele segura na mão esquerda sua própria pele (!), enquanto na direita segura um alfange, o instrumento do seu suplício. Não é incomum que atributos dos santos sejam os instrumentos do suplício, bastando lembrar a própria cruz de Jesus.

Pois na vetusta Matriz de São Bartolomeu, no distrito homônimo de Ouro Preto, lá está ele na pintura do forro da nave segurando uma espada. Espada, aliás, que também aparece em pintura abaixo do coro.

Achei só uma coincidência que pouco depois de ter lido, no Chipre, sobre o santo eu estivesse numa igreja dedicada a ele em um distritinho mineiro. A igreja do sino de madeira.







Capela Sistina


Saturday, February 16, 2019

O Macaco, a Flor e a Centaura : A Casa do Decano em Puebla


Para escrever F(r)icções Goesas: Vários Mundos Numa Só Vida, bebi sem moderação em  O Pensamento Mestiço, de Serge Gruzinski, de quem usei, abusei e rasurei os conceitos de mestiçagem e hibridismo. Achei que boa parte do que ele escreveu sobre o México, mas não apenas, pois ele vai também aos cinemas de Hong Kong e Peter Greenaway, ao Peru e a  Ovídio, se aplicava, mutatis mutandis, a Goa.

A interpretação que o francês fez dos frisos que emolduram as pinturas das sibilas de um dos salões me arrebatou, pela sua inventividade e erudição (andem elas de mãos dadas). Como ele conseguia tirar tanta coisa de uma pintura que nem mesmo é a principal? E se ele faz assim, também quero, e daí desandei a escrever.

O trabalho foi defendido em 2008. Só agora, em 2019, tenho o prazer de conhecer a Casa do Decano e ver, mesmerizado, o macaco, a flor e a centaura.

PS: A casa, a mais antiga da cidade, passou por poucas e boas. Teve suas pinturas cobertas com cal e quase sumiram para sempre quando vendida para a construção de um cinema. De boca em boca, ouvido a ouvido, falou-se qua ali havia patrimônio imenso e, enfim, conseguiram deter a destruição total do espaço. Ao menos as pinturas foram preservadas.




Wednesday, February 13, 2019

A Descoberta de Quatro Bravos em Tauá



Brillait-Savarin afirmou que “A descoberta de uma nova receita faz mais pela felicidade do gênero humano do que a descoberta de uma nova estrela.”, o que mostra que ele podia entender um bocado de culinária, mas bem pouco de outras verdades (maiores) da vida.


A descoberta de um novo Nilton Bravo é que é mais importante que a de uma nova estrela.


Pude confirmá-lo agora quando, ainda em Oaxaca, recebi mensagem de meu amigo Rixa Xavier dando notícias de ter encontrado botequim não com um novo Nilton Bravo, mas quatro. 


Eu passara o dia em meio a velhas índias zapotecas, vira murais belíssimos, derramara doses copiosas de mezcal goela abaixo, visitara a Igreja de Santo Domingo, comera tamales e gafanhotos, flanara pelas infinitas praças oaxaqueñas, mas naquela noite o que me fez perder o sono foi a notícia vinda do Brasil. Por instantes pensei mesmo que já não era tão ruim assim que a viagem chegasse a seu termo.


De volta, claro, fui lá ver com meus próprios olhos. Curioso é que, uma vez na Ilha do Governador, eu e Rixa preferimos nos perder um bocado pela Freguesia, Praia da Guanabara e Tauá, reservando a Lanchonete Super da Ilha para o final, como quem, sequioso, adia o prazer da água.


Os quatro afrescos retangulares têm as mesmas dimensões e repetem temas caros ao Miguel Ângelo dos botequins: os flamboyants, o castelo, muita água, uma casinha modesta, ausência do elemento humano. Um chama a atenção pelo Pão de Açúcar e transatlântico. Parece que no Pão de Açúcar há uma estátua do Cristo.


Seria fácil criticar o proprietário pelas latinhas que praticamente encobrem um dos painéis, pelas canaletas e luminárias desastradas no meio dos quadros, pela iluminação que dificulta a contemplação, mas prefiro, por ora, elogiá-lo por já ter feito reformas no estabelecimento e optado pela manutenção das obras. O resto, espera-se, vem com conscientização e, claro, tombamento.







Rixa

Saturday, February 09, 2019

As Pinturas de Guttmann Bicho na Ilha


 Enfim conheço as pinturas de Guttmann Bicho (1888-1955) localizadas no Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) Ernesto Nazareth, na Ilha do Governador. Creio ser um dos patrimônios histórico-artísticos menos conhecidos da cidade, ainda menos que o gato-maracajá, seu vizinho.

Para além do interesse intrínseco das obras -- telas coladas nas paredes pelo processo de marouflage -- são curiosas também suas circunstâncias de produção, numa casa de dois andares que sempre funcionou como centro de saúde. Como no final dos anos 20 a febre amarela grassava na urbe, Bicho não apenas voluntariou-se para trabalhar de mata-mosquito como ajudou a construir a casa como operário, desenhando a planta, carregando tijolos, amassando o barro.

De quebra, ornamentou as paredes com suas pinturas. As do primeiro andar tematizam a história da saúde pública na Ilha do Governador, enquanto que as duas do segundo retratam o aleitamento materno: aqui Guttmann pintou sua mulher e seus filhos.

Tudo isso há exatos 90 anos. 

Tombadas em 1987, as obras estão em razoável estado de conservação, e uma restauração cuidadosa seria bem-vinda.

Como mencionei o gato-maracajá: a primeira estátua colocada sobre a Pedra da Onça foi também da autoria de Guttmann. A que se vê hoje é uma segunda versão.










Monday, February 04, 2019

Frida : O Coração qual cama de dossel



Tendo Frida Kahlo se tornado espécie de ícone pop mundo afora, não surpreende sua ubiquidade em seu país. Ou seja, a pintora não é dos profetas nunca reconhecidos em sua própria terra, estando presente em todas as cidades mexicanas que visitamos. A casa em que ela nasceu e viveu com Diego Rivera é dos museus mais visitados, e estamos falando da cidade que, simplesmente, é a que tem mais museus no mundo.

A visita à Casa Azul, no delicioso bairro de Coyocán, vale? Por óbvio. Talvez nem tanto pelas pinturas ali presentes, mas por tudo que tem de encantatório e evocativo.

Um pouco como as casas de Neruda (aqui) ou a de Jorge Amado e Zélia no Rio Vermelho.

E é preciso visitá-la, à Frida e à casa, para melhor acercar-se do poema que Marty McConnell escreveu-lhe.


Frida Kahlo to Marty McConnell


leaving is not enough; you must
stay gone. train your heart
like a dog. change the locks
even on the house he’s never
visited. you lucky, lucky girl.
you have an apartment
just your size. a bathtub
full of tea. a heart the size
of Arizona, but not nearly
so arid. don’t wish away
your cracked past, your
crooked toes, your problems
are papier mache puppets
you made or bought because the vendor
at the market was so compelling you just
had to have them. you had to have him.
and you did. and now you pull down
the bridge between your houses.
you make him call before
he visits. you take a lover
for granted, you take
a lover who looks at you
like maybe you are magic. make
the first bottle you consume
in this place a relic. place it
on whatever altar you fashion
with a knife and five cranberries.
don’t lose too much weight.
stupid girls are always trying
to disappear as revenge. and you
are not stupid. you loved a man
with more hands than a parade
of beggars, and here you stand. heart
like a four-poster bed. heart like a canvas.
heart leaking something so strong
they can smell it in the street.











Monday, January 07, 2019

Nilton Bravo do Arco Teles


Por estranho acaso paramos hoje Dante e eu no centro da cidade (ou "na cidade", como não tão antigamente assim se referiam ao centro do Rio), levados num 422 infernalmente quente mas que, ao menos, tinha janela de onde vinha vento generoso. Ouvimos do motorista que aquele é um "trem-bala": tem que voar para refrescar um pouco. Tá certo.

Depois de um mate na esquina de Graça Aranha com Nilo Peçanha, andamos um pouco pelo Castelo, cuidando para não afundar os pés nas poças de piche, que o asfalto se derretia e um soldado fritava fácil um ovo naquele asfalto. Quando levantamos a cabeça, estávamos na Praça XV e quis atravessar com ele o Arco dos Teles, quem sabe chegar ao Basquiat.

Eu sabia, por óbvio, que no caminho está o Café e Bar Arco Teles, fechado há anos e que, segundo descrição de uma das primeiras edições do Rio Botequim e segundo minha memória, que também já bebi cerveja ali, onde se encontra um verdadeiro "museu Nilton Bravo", com nove painéis do mestre -- o maior acervo do pintor. Em 1999 o guia já advertia o mau estado de conservação e clamava por restauração urgente.

Pois.

Pois hoje havia meia portinha aberta. E embora Dante me puxasse pelo braço, consegui enfiar a cabeça na escuridão e vislumbrar as pinturas! Depois conversei com o que parece ser um dos proprietários. Eles têm ciência do tesouro e pretendem, sim, restaurar os painéis. Ouvi "Não tem como não restaurar". Ele disse serem oito e que até agora encontraram sete. Tenho aqui a informação de que são nove. Ele disse também que não sabe se continuará sendo um bar: vão restaurar e depois alugar.

Mas que pelo menos esse tesouro da arte naïf carioca fique preservado.

Em meio à enxurrada de notícias ruins, fique esta. Junto, claro, com a do final do ano passado que enfim tombava diversos Bravos em nossa cidade.

Fotos originais de Custodio Coimbra, que fotografei do Rio Botequim 1999.



Wednesday, January 02, 2019

O Solar Duarte ( Crônicas Jequitinhonhas III )




Sobradão oitocentista, o Solar Duarte em Diamantina pertenceu a um dos proprietários da fábrica têxtil de Biribiri, Melo Duarte. Possui diversos afrescos estampados no pau-a-pique tradicional : imagens do começo do século XX de autoria provável de José Joaquim da Conceição Boi, o Juca Boi, pintor, músico, carpinteiro, mecânico. No casarão funciona hoje charmoso hotel, Pouso da Chica, que procedeu a louvável trabalho de recuperação / restauração que durou três anos. Onde não foi possível restaurar, fez-se nova pintura, não tentando repetir o que já havia, mas de cariz francamente contemporâneo.

São três os ambientes decorados: no hall de entrada vê-se cena carioca; na sala de almoço, cena da Praia de Ipanema; no salão nobre, uma imagem tipicamente veneziana. Não faltou também a saudosa fábrica de Biribiri. 

Um trabalho de restauração tão primoroso quanto exemplar.