Wednesday, December 07, 2011

Uma Conceição



Como hoje é dia de Nossa Senhora da Conceição, aquela que se equilibra sobre um quarto crescente, escrevo sobre a imagem que tenho.

É imagem barroca de madeira policromada, com suas volutas e panejamentos e furos de bicho. Ganhou-a meu padrasto, a quem sempre chamei de tio, das mãos de um antiquário, pelas fotos que fez para um seu livro. Se é autêntica, se já viveu centúrias, tenho minhas dúvidas, pois foi presente de antiquário e eu não confio nada nesse tipo de gente.

O valor que ela tem para mim é, usemos palavra tão em voga, agregado. Quando voltei de minha primeira viagem a Ouro Preto, que me marcou para sempre, percebi interessado a imagem da Nossa Senhora da Conceição na arca de meu tio. Percebendo, ele disse, de uma maneira tão desintressada, casual, tão matter-of-factly: "Quando você casar, eu dou ela pra você."

Passaram-se anos. Contra todas as probabilidades das casas de apostas londrinas, casei. No dia do casamento, quando Bia e eu abrimos nosso puxadinho em Pendotiba, o Orlando me entrega um pacote. Era a imagem da Nossa Senhora da Conceição, equilibrando-se sobre lua, anjos, nuvens e ternuras.

O Orlando, homem amoroso e difícil (a "Hard Lovin' Man", do Deep Purple, é dedicada a ele), era capaz de surpresas assim.

Tuesday, December 06, 2011

Viva o 1o Seminário Internacional do Bar Tradicional













Quando soube que em vez de coffee break, haveria chopp break, Bia falou que esse negócio não era sério. Mas é. E eu já cantara esta pedra por aqui, acerca deste Seminário que enfim acontece. Para os desavisados, que não se importam quando o bar-mercearia da esquina troca seus azulejos hidráulicos do piso por lajotas brancas, saibam que um encontro como este, que visa a discutir a preservação e existência de botequins tradicionais, é da maior importância, mormente se lembrarmos a quantidades de estabelecimentos fechados nos últimos anos.


De um tempo para cá, fecharam: Arco Teles, Bar do Garotinho, Flor do Leblon, Tangará, Pinhel, Monteiro, Café Progresso, Penafiel da Gamboa, Garoto das Flores, Bofetada, A Paulistinha, Leiteria Santana. Estes os que fecharam para sempre, subiram o telhado, foram pro céu dos botequins, mas ainda tem os que sofrem mortais descaracterizações, como a já mencionada troca de piso, a retirada de azulejos, de quadros, das geladeiras de madeiras, de serpentinas e, mesmo, claro, trocas de itens de cardápio. Em alguns casos, o fechamento talvez fosse preferível.


A discussão não é simples e não se dá só por aqui. Na minha opinião, não se trata de congelar e muito menos tornar os botequins macumba pra turista, com preços estratosféricos. Como a discussão não é simples, ao menos comecemo-la em caráter mais formal, porque decisões heroicas tomadas em mesas de botequim já temos a mancheias.


Aliás e a propósito, ontem mesmo a Prefeitura do Rio criou um "cadastro de bem cultural" com 12 botequins antigos, o que é uma espécie de tombamento informal.


Os bares selecionados são: Bar Lagoa, Nova Capela, Café Lamas, Bar Luiz, Armazém do Senado, Bar do Jóia, Bar do Gomes, Adega Flor de Coimbra, Restaurante 28, Casa Paladino, Bar Brasil e Cosmopolita.


Claro que faltaram muitos outros, mas já é um começo. Para lá de auspicioso.

Friday, December 02, 2011

Vou levar o meu filho a São Januário



O meu filho fará agora três anos: está quase entrando na idade em que deve começar a ser introduzido a alguns horríveis rituais machistas brasileiros, como o futebol.

Dia desses, pego nele pela calada e aí vamos nós para São Januário, apanhar a barca para a Praça XV que, com alguma sorte, não colidirá contra o cais nem nos deixará à deriva na baía.

Como ainda não sabe ler (um dia?), o primeiro gesto há-de ser o universal infantil de colar o rosto à janela aberta, qual cachorrinho em carro, para ver as águas e a terra distante que passam.

Começarei por lhe tentar nomear morros e picos e fortes da nossa boca banguela, o Cara de Cão ali, os Órgãos acolá, a Fortaleza de Santa Cruz. Terei que ter palavras para a ponte, que não lhe escapará. Sobre esta, aliás, vislumbraremos engarrafamento, mas disso está poupado o meu filho.

Da Praça XV pegaremos o 209. Ao cruzarmos a Leopoldina, tentarei persuadir-lhe como pode ser bonita, ainda que pesada, a estrutura da enorme Estação. Depois identificar-lhe-ei algumas ruas ao longo do caminho. Quando começar a chover, surgirão velhos edifícios e galpões e depósitos e trapiches abandonados, ruas tristes e carcomidas. Ele quererá saber o nome e o destino de cada prédio, de cada pessoa, e na sua cabeça de criança ficará guardada a mesma imagem que guardo da infância: um ônibus que atravessa rápido, como se em fuga, um mundo estático, feito de personagens de presépio que parecem plantados nos pontos, nas ruas, nos quintais das casas, com a única finalidade de nos olharem enquanto passamos.

Almoçaremos no Santa Genoveva, mas não sem antes, claro, traçarmos meia dúzia das impagáveis empadas da Dona Olímpia no Quinta de São Cristóvão, por sinal um dos templos da vascainidade desta cidade. Tentarei tirar uma foto da velha cozinheira minhota, o que muito o divertirá, já que ela, índia arredia, de tudo fará para não ter a alma capturada em meu Nokia.

Subiremos a pé a Rua São Januário, quando então irei falar-lhe do Policarpo e de minhas tentativas de localizar-lhe a casa. Meu filho tudo ouvirá, mas a esta altura um burburinho irá num crescendo inevitável penetrar em nossos ouvidos.

Lancharemos, numa barraquinha, cachorros-quentes Geneal, que isto aqui é jogo de futebol. Uma Coca-Cola para ele, um latão para mim. Dois pacotes de Biscoito Globo, bandeiras, e aí vamos nós, o coração descompassado ao ritmo do ruído surdo dos passos da multidão a caminho do Estádio, nosso Estádio, patrimônio mundial, glória neobarroca construída com o sangue dos portugueses e dos pretos e dos pardos pobres a quem tentaram humilhar e só fizeram fortalecer.

Das entranhas escuras desse monstro de cimento emergiremos para a luz ofuscante dos holofotes junto aos quais a chuva forma fios de prata brilhando na noite. Lá em baixo, o gramado, lindo, perfeito, parece esperar para ser pisado só por deuses, não por simples mortais. De repente, ele estremecerá, a sua mão apertará a minha, excitado e assustado, os olhos fixos na boca do túnel pela qual saem correndo, um a um, os onze deuses cruzmaltinos, saudados por um grito de vinte e cinco mil gargantas: "Vaaaaaas-coooo! Vaaaaaas-coooo!" Este é o instante mágico, o instante iniciático, que sela para sempre o amor irracional entre um homem e um clube de futebol, um amor para a vida, que ninguém, jamais, poderá alterar.

Esta iniciação é tarefa de homem, dever indeclinável de pai, que mulher alguma entende. Nem adianta depois tentar explicar: "Como é que é o futebol, mãe? Olha, cachorro quente amassado no bolso, uma multidão aos gritos, um gramado a brilhar, preto e branco e cruz de malta por todos os lados e nós, encharcados e roucos, patinando na lama." Enfim, uma paixão inexplicável.

PS: Possível que, no caminho, cruzemos com um e outro tricolor e botafoguense que, passado o impulso inicial de menear a cabeça, certamente entenderão este ritual de passagem e iniciação e sorrirão com simpatia.

PS: Este texto foi adaptado do belo texto de Miguel Sousa Tavares, "Vou levar o meu filho às Antas", de Não te deixarei morrer, David Crockett.

Tuesday, November 29, 2011

Sara

Quando a mãe de Sara se soube grávida, ganhou de um amigo um poema que, se não me falho, dizia mais ou menos assim:


Sara é uma linda menina ainda mal-acordada.
Suas pétalas mais sedosas estão ainda fechadas,
dormindo de bom dormir.
Quando Sarinha acordar,
vai pedir leite na xícara de porcelana pintada,
vai querer mel aos golinhos em colherinha de prata,
duas horas vai gastar fazendo trança e castelos.
Estou fazendo um vestido,
uma tarde linda e um chapéu,
pra passear com Sarinha,
quando Sarinha acordar.

Sara acordou há muito, embora ainda adore dormir de bom dormir. Ainda bebe mel aos golinhos e faz castelos e poemas. Assim é Sara. Enquanto seus amigos ficam em dúvida entre Engenharia de Produção, Relações Internacionais e Direito, Sara não sabe se faz Português-Latim ou Português-Literatura. Quando suas amigas iam ver o Mickey, ela subia com o pai para Milho Verde para colher sempre-vivas vestindo saia godê. Ao completar dezoito, não pediu carro nem viagem nem boite, mas uma Olivetti para bater seus textos. Um dia virá o carro, mas será uma kombi que a levará ao México. Sara não dirige, vai ao lado, lendo cadernos de Eisenstein e o diário de Frida Kahlo.

Tenho inveja desse que vai ao seu lado.


O primeiro texto de Sara na Olivetti

Sunday, November 27, 2011

Miniconto visceralmente dinobuzzatiano em que o próprio título é quase maior que o conto


O menino e o sono nunca foram de intimidades, o que talvez explique as madrugadas em claro, horas a fio, para grande desconsolo do pai.

Acometido pela pneumonia, o menino, inda que febril, dormia noites inteiras.

Que saudades das noites em claro, as suas fadigas, ver o dia quebrando as barras.

Friday, November 25, 2011

My sweet George acusado de plágio






My sweet George acusado de plágio ou... Afinal, houve plágio aqui?

Um dos casos mais emblemáticos de plágio na história da música envolve nosso querido George. Poucos sabem / lembram, é provável que tenha havido um abafamento do caso, voluntário ou não, por parte dos admiradores do quiet beatle. Por exemplo, se os dois livros que tenho sobre George, um deles de quase 500 páginas, tratam do assunto, é de causar estupefação que o recém-lançado documentário de Scorsese sobre Mr. Harrison, Living in the Material World, seja silente sobre tema tão controverso, ainda mais se lembrarmos que o documentário é longo, ocupando dois DVDs.

O fato é que a canção "My Sweet Lord", presente no primeiro disco solo (triplo!) de George Harrison foi acusada de plágio por um grupo norte-americano de garotas chamado The Chiffons, hoje mais lembrado por isso do que por qualquer outra coisa (apesar do abafamento). No começo tudo foram flores: All Things Must Pass chegava ao topo das paradas e "My Sweet Lord" era a canção mais tocada. Depois, os espinhos: a acusação, a batalha judicial para que o caso fosse resolvido off-court, o que os advogados dos queixosos rejeitaram, insistindo em que o ex-beatle plagiara a canção "He's so fine".

Passados dez anos, o veredicto: o juiz anuiu que Goerge praticara SUBCONSCIOUS PLAGIARISM. Talvez a Excelência tenha ficado sem graça de afirmar que o ex-beatle plagiou e saiu-se com esta, não sei. O termo parece jocoso, eufemístico, mas, numa análise mais aprofundada, terá sua validade.

Subconsciente ou não, na superfície George teve que desembolsar quase 600 mil dólares, nota preta mesmo para um astro do rock. E mesmo para um homem mais ligado nas coisas do espírito.

Outro dia preparei um texto com algumas questões para meus alunos. Ao fim da aula, toquei, é claro, as duas canções, perguntando-lhes: "E aí, afinal, houve plágio?" A maioria ficou em cima do muro, mesmo porque era um grupo com vários beatlemaníacos. Uma aluna apenas foi categórica no sim.

E aí, houve plágio?

O que eu acho? Bem, uma história: em 1986 ou 87 estava eu em Chicago no carro com meu American dad quando começa a tocar a tal da música das Chiffons no rádio. Pulei no assento, bati a cabeça no teto do Subaru e exclamei: "Mas isso é 'My sweet Lord'!". E olha que não ouvia a música do George há anos... Por aí, avalia-se.

Saturday, November 19, 2011

Mexendo em Vespero - Русский Прогрессивный рок



Não conheço nenhuma banda russa de rock progressivo nos anos 70. Com certeza, a galera criativa de lá cortava um dobrado com regimes totalitários.

Mas a coisa mudou, e hoje temos LIITLE TRAGEDIES (porventura o mais famoso), APPLE, GOURISHANKAR e a VESPERO, originalíssima no que faz um space rock tingido de cor local (incorporar terroir, sem cair na macumba pra turista é atitude prog bagaray).

Nos anos 80 teve o Autograph.

Do primeiro citado conheço o "Return", que nunca fez muito a minha cabeça, mas confesso que tenho que dar-lhe segundas chances.

O APPLE ("Crossroads") é uma maravilha, principalmente para fãs de Spock's Beard (fase Neal), como eu.

Apesar de uma bateria eletrônica irritante aqui e ali, o "2nd Hands", trabalho do Gourishankar, é muito bom. Interessante ter saído por um selo canadense, o Unicorn.

Tem também o "Rainy Season" (o disco também se chama "Return" ::: coincidência), e aí já estamos entrando na senda da boa música eletrônica, à la Tangerine Dream.

A lamentar que poucas das bandas cantem em russo, principalmente se lembramos que o russo é a língua da alma. O Autograph o fez, o Little Tragedies ora sim, ora não.

Agora ouçam esse VESPERO e me digam se não é uma sonzeira do cacete, à la Birds and Buildings...

Добрый день

Friday, November 18, 2011

O Miguel Ângelo dos Botequins II

Neste post sobre o Nilton Bravo, fiei-me no Jaguar, que contabilizara apenas três quadros restantes do nosso Miguel Ângelo dos botequins. Sou amigo do Jaguar, mas sou mais amigo da verdade. Tem muito mais Nilton Bravo por aí!


Em passeio pelo Cachambi (que passeio!: restaurante Evandro's, Cachambeer, cerveja artesanal no Suingue Brasileiro, rua Vasco da Gama e, last but not least, um Bravo legítimo!), descobri belíssimo painel do Bravo no Café e Bar Brasília. Do Bravo não, dos Bravos... A simpaticíssima Dona Margarida, de claros olhos transmontanos, e interessada pelo meu interesse, revelou-me que o grande painel, feito num dia, foi pintado metade pelo Bravo pai e metade pelo Bravo filho.... Não tem o Bruegel the Elder e Bruegel the Younger?, então temos nosso Bravo Pai e Bravo Filho.

Na periferia do Grajaú, em frente ao antigo zoológico, descobri também um no Café e Bar Canto do Minho que, pelo estilo (vejam o flamboyant / ipê), tem grande chance de pertencer ao catálogo dos Bravo.

Suspeita semelhante nutro em relação a pintura encontrada no Flor do Bairro, localizado no bairro de Vasco da Gama.

E eis que um leitor do blog, o Rixa, descobriu um Bravo na Matacavalos, dentro de um... açougue! Faço questão de reproduzir a foto que ele me mandou como forma de agradecimento.

Mas o que esqueci de mencionar é que tinha esta cidade um autêntico museu do Nilton Bravo no bar Arco Teles, localizado no Arco dos Teles e atualmente fechado. Neste bar havia nove (!) painéis do artista, o maior acervo reunido. Os azulejos eram azuis e pretos, rara combinação. Cheguei a frequentá-lo, mas, infelizmente, não tirei nenhuma foto. A que reproduzo é foto da foto que se encontra no Rio Botequim 1999. O local se encontra em obras e sempre que por lá passo (e mesmo quando não passo) sou assaltado por temores em relação aos quadros.


Se o novo dono os retirou com o intuito de mudernizar o bar, é um ignorante. Se tentar comercializá-los, é bom que saiba que um quadro do Nilton Bravo só tem valor em um botequim. Fora dali, revelará tão-somente as limitações de um pinto naïf. Se os destruiu, é um iconoclasta, um criminoso. Meu temor, percebe-se, é justificado, haja vista a uglification of the world que grassa por aí.


Bar Brasília, no Cachambi:





Bar Canto do Minho, no Grajaú:



Flor do Bairro, em Vasco da Gama:




O açougue na Matacavalos:




O finado Arco Teles:

Le Orme




Neste post aqui lembrei os 40 anos do rock progressivo italiano. Ora, não fica bonito lembrar isso e esquecer que, há exatos 10 anos, isto é, em novembro de 2001, aportou por aqui o Le Orme, uma das bandas mais importantes do movimento.

Vieram tocar no extinto (chuif...) Rio Art Rock Festival, evento que durou mais de uma década e trouxe tantos grupos bons. Com efeito, quando comecei a escutar Le Orme, em 1984, não poderia sonhar que um dia iria vê-los ao vivo. O Leonardo Nahoum trouxera também o Banco no ano anterior. Depois, fora do RARF, veio o Premiata. Ou seja, a Santíssima Trindade do Rock Progressivo Italiano já tocou no Brasil. Não é pouco. Mais ainda se lembrarmos (este blog quer catar o miúdo e o esquecido) que também tocaram Baletto di Bronzo (abrindo para o Banco) e, em um distante Festival da Canção nos 70, o Formula Tre.

O show do Le Orme foi memorável em todos os aspectos. Abriram com "Collage", canção imortal, própria de aberturas e fanfarras, progressiva até a medula no que mescla sonoridades europeias clássicas (Scarlatti) e roquenrol. Tocaram o Felona e Sorona de fio a pavio. Depois, como se fosse beber um copo d'água, Tagliapietra sentou-se no chão, todo de branco, para tocar cítara.

Na véspera eu, macaquinho de auditório, fui ao Hotel Argentina colher o autógrafo do baterista Michi dei Rossi. Ele não foi muito simpático, limitando-se a murumurar "Estrana visione" quando lhe estiquei a capa do meu vinil do Collage, lançado por aqui pela Philips em 1975.

Tenho o autógrafo do Rossi (aliás, tenho o do Tagliapietra também, mas isso é outra história), tenho o pôster do RARF encimando minha coleção de CDs. Tenho as lembranças do show. Já posso morrer tranquilo.

Mas quero viver mais 200 anos, na esperança de revê-los ao vivo.

Thursday, November 17, 2011

A música erudita morreu, viva a música erudita!: Nico Muhly



Quem assistiu a O Leitor prestando atenção à música já o conhece, mesmo sem o saber: Nico Muhly.

Nico é uma espécie de enfant terrible da cena erudita atual. Escreveu uma ópera na qual um solitário anda por Londres à busca de amigos, que queiram ver suas fotos, escrever em seu mural, curtir seus comentários... Quite familiar, uh? A ópera se chama Two Boys, mas já tem outra, a Dark Sisters. Aos trinta anos, tem também um concerto para violino... elétrico. A peça postada chama-se "Skip Town" e é tocada pelo próprio.

Como se percebe, a música erudita morreu. Viva a música erudita!

PS: Prestigie o artista, comprando seus CDs e indo aos concertos / shows. A vida não se resume (ainda) à tela do computador.

O CORNO DO BOTECO

A verdade é que São Jorge impera, quase ubíquo nos botequins cariocas. Vira e mexe surge uma Nossa Senhora, uma Sagrada Família ou um outro santo.

Mas os cornos, antíquissimos e poderosos amuletos do paganismo, fazem-se também presentes. Colocar chifres na frente da casa, no telhado, é prática ancestral, sendo eles dos mais poderosos símbolos de proteção.

No Nordeste e em Goiás colocavam-se cornos na roça. Meu Folclore Goiano, de José Teixeira, confirma. Quem aí já viu um espantalho? Eu vi um em São Tomé das Letras, mas isso serão europeizações que não se enraizaram aqui. O corno, sim. E da roça passou à botica, à mercearia, ao boteco, onde o vendeiro carece de proteção menos do pinguço que quer debitar uma cachaça e mais do governo que quer cobrar-lhe impostos escorchantes.

Seguem três ocorrências de corno: Glória, Flamengo, Praça da Bandeira. No da Praça, os atuais donos, cearenses, disseram-me que os antigos, purtugueses, não gostavam dessas coisas. Pode ser.

Quando for de dono de boteco, vou de São Jorge, Sâo José e corno. Sabem como é, pelo sim, pelo não... chá de barbatimão.


Confeitaria e Bar Solange - Glória



Café e Bar Martins - Flamengo


Bar e Restaurante Carne de Sol - Praça da Bandeira

Wednesday, November 16, 2011

AZULEJOS DE BOTEQUIM

Minha magnum opus sobre azulejos em botequins contará com cerca de dez volumes, sendo que o lançamento do primeiro está previsto para agosto de 2017. De modo a evitar tumultos, como aqueles a que recentemente assistimos no show dos Beatles no Shea Stadium, a distribuição de senhas começará em breve. Atentos, pois!

Entretanto, para saciar a voracidade dos insaciáveis, ora publico alguns teasers do que andei encontrando por aí.

Embora não desgoste de todo de azulejos modernos (haverá mesmo espaço para eles no apêndice do oitavo volume), meu negócio mesmo é azulejo velho, de preferência naquelas inefáveis combinações bicromáticas. São azulejos que, após a montagem, ficam como um tabuleiro de xadrez. A este recurso dá-se o nome de enxaquetamento.

Como era de se esperar, a combinação azul / branco é a mais comum, seguida de perto pelos maravilhosos azul / amarelo. Mas eis que encontramos também azul / azul piscina, azul / rosa, azul piscina / branco, preto / rosa, amarelo / roxo, branco / verde escuro e amarelo / preto.

Ora publicamos somente uma foto de cada (duas da mais comum), a título de exemplo. Se você conhece algum boteco com azulejos assim enxaquetados, deixe a dica nos comentários, por favor.

Santa Mônica -Praça Mauá


Confraria do Bode Cheiroso - Tijuca


Roças do Minho - Grajaú


Fica Bem - Benfica


Jôdecama - São Cristóvão


Almeria - Praça da Bandeira


Tosão de Ouro - Vila Isabel


Balcão Tombado - Caju


105 Pontes - Maracanã


Enchendo Linguiça - Grajaú

Friday, November 11, 2011

Pearl Jam



Mau fã de Pearl Jam, não ouço a banda em casa ou na rua. Entanto, tenho incorporadas em meu repertório didático duas canções -- "Black" e "Light Years". Ou seja, todo anos irei tocá-las e trabalhá-las com meus alunos do 1o ano EM. Não é pouco.

Mas mais do que isso: se rolar show por aqui, de preferência na Apoteose, me chama que eu vou. Assim em 2005, assim domingo passado. Vou sem ansiedades, chego tarde, fico lá trás. Mas curto horrores.

No primeiro teve, para além dos clássicos e outras nem tanto, "Baba O' Riley" já no finalzinho. Morri. A cerveja (jamais esquecerei) era clandestina: Schincariol quente por 5 reais.

Este ano o show abriu com... trecho de As Horas do Philip Glass!!! PQP, como assim? Depois vieram os clássicos e outras nem tanto. O cover foi... "Mother", do Pink Floyd. Pirei o cabeção. O show do Roger Waters, que será em março de 2012, começou aqui.

A cerveja (jamais esquecerei) era a Budweiser morna por 6 reais. Em que pese, antes mesmo do fim da apoteose, já não havia mais para vender. Ou seja, os fãs que lá estavam (os bons e os maus) esgotamos (silepse indispensável) o estoque de cerveja.

Mr. Vedder bem que podia, quem sabe, ter feito um cover também de "Sweet Nuthin'" do Velvet Underground. Mas ninguém é perfeito. Só o Dedé.

Sunday, October 30, 2011

Se hoje é sábado, vou de feijoada

Não me ufano do meu país, nem de minha cidade, com quem já mantive relações de amor e ódio e hoje é muito mais amorosa que qualquer coisa. Por minha cidade refiro-me àquela em que nasci e não esta onde vivo, que adotei e me adotou.

Amo: no Rio um de seus principais itens gastronômicos não é folclorizado, não se encontra apenas nos restaurantes chiques para turistas, não é só capítulo de coleção da Abril de cozinha regional. Pelo contrário, é vivo, presente no cotidiano, amado pelos cariocas e com dia especial para sua celebração. Refiro-me, obviamente, à feijoada. De sábado. Restaurante que atende aos trabalhadores do Brasil costumam puxá-la para a sexta. Compreende-se. Feijoada não pode ser na segunda ou terça, nem no domingo. Tem que ser no fim da semana, porque ela pede descansos. Mais do que isso: a completa, como dizia Vinícius, tem que ter ambulância na porta.

Já escrevi por aqui sobre a feirinha dos sábados da Praça XV. Pois passeio completo (e que dispensa a ambulância) é depois da feirinha cruzar o Arco dos Teles. Há vinte anos não se andava pelo centro da cidade numa manhã de sábado. Quem o fizesse só via lixo. Depois era assaltado. Hoje o Corredor Cultural é uma realidade. A área, em que pese certa espetacularização aqui e ali, está revitalizada. E coalhada de restaurantes que servem feijoada...










Duas vezes seguidas fiquei com a do The Line. Embora surda e manca (sem orelha nem pé), é genial. E tem caldinho de grátis!!!! =)

Tuesday, October 25, 2011

Soneto só para a Letícia



Escreveu Bishop não ser difícil dominar a arte da perda, seja de uma chave, de uma hora, cidades, continente, pai. Acho esta arte dificílima e creio que jamais chegarei ao seu domínio, embora o passar dos anos tenda a nos ensinar algo neste sentido. À nossa revelia.

A arte do ganho, que aqui não é sinônimo de vitória, tem também seus mistérios e sutilezas. Ganhei coisas já, e não poucas: chaves, cidades, continentes. Pais e filho.

Outro dia, um soneto. Daquele modo clássico, dedicatória nominal sob o título. Eu já ganhara um conto, de modo análogo, mas quatorze versos assim... foi a vez primeira. O que fazer com o presente, para além de, criança, mostrá-lo a quem surgir pela frente? The art of receiving a sonnet is hard to master.

Pouco ou nada me resta senão retribuir.


SONETO SÓ PARA A LETÍCIA

Eu ganhei um soneto nesta quinta
E a manhã que se anunciava escura
Torna-se leda, tépida, sucinta
Própria da moça que tece canduras.

O tempo vem com suas imposturas
E o soneto, senhores, é arte extinta
A quem interessam rima e mesura?
Twitter e face não deixam que eu minta.

Mas se tenho um soneto, volto aos mitos
pretéritos, de paina, de blandícia,
de paciência e de esquecidos ritos.

E a minha alegria, ledícia, atice-a
sempre a moça de versos manuscritos.
E este soneto é só para a Letícia.

Sunday, October 23, 2011

In Gloria



O que é a Glória? Uma estação de metrô, indicando que Botafogo e Copacabana estão próximas. Para alguns, uma igreja (mas que igreja!). Para uns poucos, também um relógio (e que relógio!). E só. A Glória, como a Praça da Bandeira, é passagem, sem qualquer sentido metafórico.

Mas se mesmo a Praça da Bandeira revela não poucas surpresas para o olhar atento e amoroso (alguém aí já reparou aquele centenário portão do Matadouro lá fincado?), o que dizer da Glória.

Para mim, independentemente de seus palácios, sua gloriosa igreja no Outeiro, sua igreja positivista (!), sua igreja em estilo neogótico inglês de belos vitrais, independente de seus casarões, seus cortiços, suas vilas, seu monumental Hospital da Beneficência Portuguesa, sua taberna, seu relógio de quatro faces, suas ladeiras, suas escadas, seu chafariz setencetista, sua murada, seus maravilhosos botecos sórdidos, a Glória já mereceria lugar de destaque nesta cidade que teima em valorizar apenas praias, samba e futebol [de preferência um único time], pois que aqui morou, por 41 anos, Pedro Nava, mineiro que amou o Rio como poucos. Em Galo-das-Trevas, quinto volume de suas memórias, lê-se:

Há trinta e cinco anos moro no Edifício Apiacá, à Rua da Glória, 190, apartamento 702. Quando para aqui mudei o número era 60. Nosso arranha-céu levanta-se em terreno onde existiu famososo bordel do bairro nunca completamente saneado. Aqui passei quase metade de minha vida. Aqui envelheci. Quer dizer: aqui tive contados minutos de paz e um roldão de dias noites de tormento. (p. 26)

The horror, the horror



Não são poucas as vezes em que as célebres últimas palavras de Kurtz me vêm à cabeça, o que não é nada bom. Elas me vêm à cabeça quando leio que crianças viciadas em crack improvisam um chá de pilha alcalina para saciar/ disfarçar / amainar seu vício na impossiblidade de fumar as pedras. E elas me vêm a cabeça quando.

Sabem o filme O Sexto Sentido? Bom filme, bem feito, perspicaz em seu truque. Mas aquela história de ver gente morta não tem nada de horror para mim. Zumbis, múmias, lobisomens e toda essa palhaçada recente de vampiros não têm absolutamente nada de horror para mim. Horror, horror mesmo, é quando descobrimos, no filme, aquela personagem mãe que mantinha seus filhos doentes para que dela as pessoas tivessem pena. Chegou a matar um dos filhos. The horror.

The horror, the horror são as palavras que me vêm à cabeça quando tomo ciência dos quatro médicos de Taubaté que, na década de 80, retiraram os rins de pacientes AINDA VIVOS para os venderem a pessoas necessitadas de transplante na capital São Paulo. Com isso, mataram quatro. The horror.

Quase trinta anos, são enfim condenados a 17 anos e meio de prisão. Um dos monstros, um neurologista, morreu ano passado. Que o inferno lhe seja doce.

Poderão recorrer em liberdade. The horror.

Durante todos esses anos, continuaram a exercer a profissão, dado que os Conselhos de Medicina não encontrarm motivos para cassar-lhes o registro. The horror.

Não me consta que os beneficiários do esquema (que chegaram a pagar entre 35 e 70 mil reais) tenham sofrido qualquer punição. Receptação também não é crime? The horror.

Quantas vezes usei a palavra horror aqui? Bem mais que Kurtz, não? É que este viu os hororres da colonização belga no Congo, sendo ele mesmo instrumento desse horror.

Mas não conheceu ele os médicos de Taubaté.

Nem a Justiça brasileira.

A Presença dos Gatos nos Pé-Sujos Cariocas

Tenho uma plêiade de ideias para meus pós-doutoramentos, que vão desde "A Inflência dos Single Malts de Islay no Rock Progressivo", passam pela literatura moderna do Sri Lanka e chegam a "Permanência do Kazoo no Rock Progressivo" (até agora encontrei-o em uma música apenas).

Ideias que, no barato, devem render umas 500 páginas.

Outra ideia ainda é esta do título deste post. Not bad, uh?

Agências de fomento - o CAPES, o CNPq, a Faperj - disputam a tapas o privilégio de financiar as pesquisas.


Bar Príncipe - Botafogo




Bar Fica Bem - Benfica




Bar Almeria - Pça. da Bandeira




Bar Flor de Santa Teresa




Bar Poleiro do Galeto - Benfica



(Cadê o gato? Vai lá e sente o onipresente cheirinho...)

Sunday, October 16, 2011

Que las hay, las hay.



Em minha postagem anterior falei no Andy Warhol, com o pretexto de fazer algumas warholices com uma foto do Dante. Quem leu sabe que fiz questão de frisar que o artista norte-americano não é meu artista preferido, não entrando nem em uma TOP 500.

Mas artistas são vaidosos e a mera menção a um colega pode ser suficiente para despertar ondas de gelosias...

Pois não é que a tal da mera menção fez com que meus dois preferidos surgissem inesperadamente à minha frente??? Não em sonhos, que isso serão abstracionices de poetas, mas na materialidade da primeira página do jornal (Modigliani) e em um... queijo no supermercado(Vermeer)?!

É o que sempre digo: no creo en las brujas, pero...

(Y, con efecto, si Vermeer y Modigliani son brujos (lo son), no me vengan con hadas.)

(Na verdade, os dois são dois dos meus favoritos, e não os. Mas deixo assim de propósito, na esperança de que Bruegel, Chagall, Caravaggio, Bosch, Ensor, Delvaux, Klimt e Zizi Sapateiro também dêem as caras...)