Showing posts with label Conto. Show all posts
Showing posts with label Conto. Show all posts

Tuesday, December 04, 2018

Cabeça-de-Porco





Pensando estar atrasado para a consulta, entrei esbaforido no consultório para a grande visão desconsoladora: ele estava lotado. Fui ter com a secretária, achei o último lugar vago e sentei-me, entre um menino de seus 10 anos e um senhor que cochilava. Ao levantar a cabeça, vi que tirante o menino e o senhor que cochilava e que já começava a se reclinar para minha direção, todos os demais entretinham-se com o celular, de onde tirei que celular é o melhor analgésico. Deixemos de ironias, talvez não estivessem ali para tratar de dor lancinante, mas para simples rotina. Ou para ajeitar obturação, ponte, canal, retirar pontos, renovar curativo ou quem sabe não fosse um deles amante da Dra. Roseny, sortudo, porque eu bem que queria mas sabia das minhas limitações.

-- Moço? – o menino ao meu lado puxou papo.
-- Hum.
-- Você viu que o espírito de porco lá da minha rua pegou fogo?
-- Como é que é?
-- Isso, o espírito de porco da minha rua pegou fogo.
-- Espírito não pega fogo – respondi, achando alguma graça naquilo, mas ele nem percebeu.
-- Pega sim, moço. O da minha rua pegou. Morreu gente, até. Morreu um velho, morreu uma moça que dizem que foi ela que começou o fogo.
-- Mas como assim, garoto? Como um espírito de porco pegou fogo?
-- Ué, ninguém sabe direito ainda como foi. Dizem que a moça que começou o fogo estava bêbada e que ela começou o fogo porque o Carlão deixou ela.
-- E quem é Carlão? É o espírito de porco?
O garoto deu uma risada gostosa:
-- Que isso, moço?! O Carlão é o mecânico. Dizem que ele deixou ela, ela ficou puta, tacou gasolina em tudo e acendeu fósforo. Depois ela mesma morreu, eu achei bem feito mas minha mãe disse para eu não dizer mais isso.
Não sei bem por quê, perguntei abaixando a voz:
-- É essa a sua mãe? -- apontando com a cabeça para a mulher ao seu lado.
O menino deu uma gargalhada:
-- Que isso, moço?! Essa é minha irmã! Minha mãe tá no serviço.
Nisso o amante da Dra. Roseny à nossa frente levantou a cabeça para olhar-nos. Sustentei o olhar, que isso seu babaca, tu daqui a pouco entra lá, come a Dra. Roseny e vem vigiar minha conversa?
-- Humm. Mas tua mãe pediu pra você não dizer isso, isso de que foi bem feito pra mulher que morreu, e você tá dizendo.
O menino hesitou:
-- Não.
-- Não o quê?
-- Agora eu não estou dizendo. Eu estou dizendo que eu disse.
Arregalei os olhos genuinamente espantado com a sua argúcia. Esse garoto iria dar muito trabalho às mulheres nas discussões, pensei.


-- Conta mais, garoto.
-- Não tem mais nada. É só isso. O espírito de porco pegou fogo. Morava muita gente lá, além do Carlão, da mulher que pegou fogo e do velho. Tinha uns garotos lá que às vezes jogam bola com a gente, mas deles ninguém morreu.

Nisso entendi o que o garoto queria dizer: Cabeça de porco! É isso! O garoto aqui está querendo dizer cabeça de porco e sorri um sorriso enorme, como uma criança ao ver pinguim pela primeira vez, rindo-me por dentro, como há muito não fazia, como nunca na sala de espera daquele consultório. É isso! Cabeça de porco e veio-me à mente o cabeça de porco primeiro situado na Gamboa. Veio-me aquela ilustração grotesca que um dia o professor de História do terceiro ano trouxe para a turma: a de uma enorme barata sobre a cabeça de um porco morto, representação da época para a vitória do prefeito Barata Ribeiro sobre a resistência do enorme cortiço.

Eu já ia corrigir o garoto, triunfante, quando outra coisa ainda veio-me à cabeça, uma lembrança que chegava esbaforida, antes que eu abrisse a boca. Lembrei-me que também eu vivera na infância o incêndio de um cabeça-de porco, aquela enorme construção decrépita que ficava na minha rua Visconde de Santa Isabel e que abrigava dezenas de famílias, centenas de pessoas, resquício de um Rio pré-Pereira Passos sobrevivendo em meio ao bairro-jardim e que se não enfrentava mais impropérios e humilhações, era porque simplesmente os moradores acostumaram-se com o cortiço, aceitavam-no como parte da paisagem e ele, afinal, não incomodava ninguém. Na verdade, melhor até do que não incomodar, era o cabeça-de-porco que fornecia cerveja para a fina-flor da sociedade do bairro-jardim quando todos os botequins e mercados já estavam fechados, e era o cabeça-de-porco que tinha um quartinho nos fundos onde a Leninha recebia os filhos da fina-flor para que fossem iniciados nas delícias da carne.

Aliás, se não me engano, nele também funcionava, no que outrora fora a garagem do que outrora fora um hospital (diziam) uma mecânica. E, agora eu tinha certeza, um dia ele também pegou fogo, numa manhã de dia da semana. Minha mãe, com grande excepcionalidade, deixou que eu descesse, embora já se avizinhassem as horas do banho, do almoço, do ônibus escolar. A chance de poder descer para a rua, numa manhã de dia de semana, era para não se perder. Talvez por isso me lembre tão bem. Cheguei rápido ao local de onde vinha a fumaça, morávamos em pequeno prédio no alto da rua, bastava descer a ladeira, portanto. Ao tomar lugar, tímido, para assistir à operação dos bombeiros, vi que garotos à minha frente, com quem eu nunca brincava. olhavam para mim desdenhosos: “Ih, olha só quem desceu”.

Tive ganas de abraçar aquele menino, mas ele já tinha até se levantado, puxado por sua irmã, olhando para trás numa tentativa de aceno.

Acenei triunfante, levantei triunfante, fosse à merda a obturação. Atravessei correndo o Buraco do Lume e parei no Café Gaúcho, onde pedi um chope, com coquinho, e brindei aos flocos de lembrança da Leninha que ainda se demoravam na minha cabeça.

Monday, February 19, 2018

Farejar o mundo


Dante era ainda muito pequeno quando escrevi um poema assim:

Dante acorda
Um cachorrinho cego
Fareja o mundo.


Não tinha e não tenho a intenção / pretensão que fosse um haikai, era apenas um poema de três versos. Tampouco sei direito o que quis dizer com aquilo. Apenas, parafraseando o Bob, escrevi o que me parecia correto.

De qualquer modo, não faz a menor diferença.

O que passa é que Dante, agora com seus nove anos e já entrando, para meu silencioso desespero, na puberdade, pôs-se de fato a farejar o prever chuvas, coisa que, dizem, cachorros muitas vezes fazem.

Na primeira vez estávamos eu e ele na piscina quando apareceu amigo meu. Dante dizendo o tempo todo que choveria. Por gestos, claro, que ele não fala a língua verbal articulada dos homens e tampouco a dos anjos. Intrigado com aquela insistência, meu amigo perguntou o que ele estava querendo dizer. Quando lhe respondi que era chuva, entreolhamo-nos e ele sorriu: não havia nuvem no céu.

Menos de uma hora depois, o amigo tendo ido fazer outra visita, no Leme, recebo dele mensagem: “Nossa! O Dante tinha razão!”. Chuviscava, eu e Dante já secos e vestidos, contemplativos observando.

A segunda vez foi na pracinha, no indefectível balanço. Ele feliz, porém ansioso, passando as mãos nos cabelos e fazendo barulho de chuva. A mãe de um amiguinho também ela perguntou.  A chuva veio em 15 minutos. Pegou a todos de surpresa.

Quase todos.

Por fim, quarta-feira passada, quarta-feira de cinzas – May the judgement not be too heavy upon us --, estávamos no play brincando de bicicleta (mais brincando que andando) quando os gestos começaram. Uma cigarra, rara no verão deste ano, começou quase simultânea. Não chove, velho – pensei.

A chuva veio de madrugada, na forma de dilúvio bíblico. Quando Dante a farejou, às 18:42, ela ainda se engordava nas cabeceiras da Serra dos Pretos Forros.

Quem cantou a pedra errada foi a cigarra.

Sei que você não acredita em nada disso. Não faz a menor diferença.

Sunday, September 03, 2017

Curtinhas : 2




Ela: Por que você está sempre discordando de mim?
Ele: Isso não é verdade.

*********************

Aluno Caio: Professor, a palavra que define nossa aula é reciprocidade.
Professor: Concordo.

Onde você aprendeu isso?



Desde que se separara, coisa de seis meses, Felipa fazia festa toda sexta-feira. O intuito era tirar fotos e parecer feliz. Esta de agosto foi especialmente esfuziante, as garrafas no chão da cozinha (e na sala, no banheiro e mesmo nos quartos) estão aí. Agora todo mundo foi embora e ela está na cozinha. Nicole, a filha de 14 anos até então em seu quarto, aparece e se senta à mesa. Felipa bebeu mais whisky que o habitual e teve aquela mistura com cerveja. Como ainda toca música na sala, Felipa dança e nisso quebra copo que lavava. Xinga palavrões, palavrões descolados. Em seguida, ainda bufando, junta os cacos com a pá e vai jogá-los num saco plástico de supermercado. Aí, Nicole intervém: Mãe, não faz assim, que isso pode machucar o lixeiro. Tem que embalar com cuidado e botar etiqueta. Felipa congela. Então é assim? Onde ela aprendeu isso? Talvez seu ex-marido tivesse razão: essa escola pública em que ela estuda desde o início do ano fosse mesmo antro de esquerdopatas. E então ela agora vai me ensinar a como jogar fora o lixo? Felipa hesita. Felipa pergunta: Ah, é? E onde vocezinha viu isso, meu amor? Nicole responde: No facebook, mãe. Felipa pergunta de volta: E desde quando lixeiro tem facebook? E despeja triunfante os cacos no saco plástico do Zona Sul.

Saturday, April 01, 2017

Era aqui que eu queria chegar



Pampi sempre reclama quando eu cochilo durante os filmes, isso lá pelas 10 horas. Às vezes já pergunta, antes de começarmos, 'Mas vc não vai dormir não, né?', ao que respondo baixando a cabeça, sem graça. Em contrapartida, sempre acordo antes das 6 e ela naquele sono grosso.

Nesta hora Pampi tem um cheirinho morno, um cheirinho de murta, suave como pelúcia, acorde que nunca finda, um acorde que não acorda, mesmo com os beijos, que se demoram no rosto, no cabelo, nos ombros.

Então desço da cama e vou para a poltrona da sala, onde gosto de reclinar e ficar uns minutos. Chovia e fiquei preocupado com o show de hoje à noite do Elton John, Elton Jones que é como minha mãe sempre falou, já imaginando que teríamos que comprar aquelas enormes capas plásticas nos ambulantes, como a que comprei para o show do Roger Waters, mas a chuva nunca veio.

Percebo que a chuva aperta, mas que há manchas azuis no céu, como retalhos em uma calça jeans. Imagino como seria bom viesse um arco-íris, vou ter com a gata, que continua em silêncio e sem comer, e volto para o cheirinho morno. Pampi continua no sono grosso, mas quando, em resposta aos beijos, os lábios desenham sorrisos, me pergunto no que estará a sonhar.

Abro um pedacinho mínimo da cortina para tentar ler ao seu lado, ao que ela franze a testa. Lembro-me de um personagem de Knut Hamsun que, após ter construído cabana onde passará sozinho o longo inverno, e isso depois de ter pintado a casa de uma mulher por quem se apaixonara, esse personagem se pergunta: "Era aqui que eu queria chegar?".

Saio do quarto novamente, faço o café, me sento ao computador. Quando me viro para espiar o Perdido, o arco-íris.

Era aqui que eu queria chegar? Era.

Thursday, November 13, 2014

Corrupções



A Casa Chamma tudo de prevenção de incêndios localizada em Vaz Lobo ardeu ontem do alicerce ao telhado. Enquanto isso a redação vencedora do concurso sobre corrupção era desqualificada. Aquilo não podia ser texto texto de menino do Ensino Fundamental! De fato não era. Foi o tio do menino João Carlos de Souza Corrêa, professor de Filosofia na Universidade do Brasil, que o escrevera.

Wednesday, October 08, 2014

O Homem que Quase Matou a Gata

Na gaveta do Dante


Teve aquela mulher que matou os peixes. O homem quase matou a gata. O homem sou eu.

Explico: gato persa é aquele peludo, aquela almofada ambulante, aquela maciez de sétimo céu. Isso tem um preço: escovação diária. Quando Isolda veio morar comigo, Dante sequer existia, ela é a primogênita mesmo e não creio trocara sua primogenitura por nenhum prato de lentilhas, nem tivessem elas sabor Royal Canin 30.

Gato novo a gente escova todo dia mas aí o tempo passa, e inda que o amor não diminua (ele cresce), vem o menino e depois tanta tanta coisa até mudança de casa. Até mudança de casa, daquelas de atravessar a ponte e gatos, sabemos, odeiam mudanças.

Gatos falam, falam mais que peixes, mas o homem já não escova o gato e ele encolhe até que um dia o homem o percebe triste demais, como a macaca Lisete daquela mulher que matou os peixes. Corrida para o veterinário.

A gata tem que ficar por lá, para grande consternação do homem que volta para casa com a gaiola amarela vazia. Mais que consternação, culpa. A gata é operada de piometra, e de quebra (devo dizer rasgo?) retiram-lhe útero e ovários.

A gata volta mais magra para casa, mas, pasmem, aqueles comportamentos indesejados como o aliviar-se fora da caixinha e as serenatas da madrugada não conhecem termo. Para piorar, o pelo começa a cair em placas. Outra corrida para o veterinário e, em outro dia, para o banho e tosa.

Isolda, a princesa irlandesa das mãos brancas, parece uma ratinha. Temendo depressão pós-tosa, escondemos todos os espelhos da casa.

É essa a história. Espero que me perdoem. Já prometi a ela e a mim, à babá do Dante, à minha mãe e à tosadora, que nunca mais deixarei de escovar Isolda diariamente.

Isso quando ela voltar a ter pelos, claro. Mas ela está bem, contente e faminta. Aliás, escrevi essa bobaginha com ela ao lado, olhando-me com seus olhos de sol, lambendo as mãozinhas e miando rouco.

A mulher matou os peixes e concedo, pode ser que, com útero e ovários e sua cabelereira, tenha ido uma vida também. E daí? Temos outras seis.

Wednesday, April 10, 2013

Is it because I am ugly?



Estivesse Luna de bom humor diria algo como que a rotatividade das empregadas e babás em sua casa era maior que a de um motel, mas dificilmente o bom humor acompanhava pensamentos desse tipo. Luna precisava de alguém que a ajudasse com Adélia. Uma empregada faz-tudo que também pudesse eventualmente ajudar com a menina ou uma babá que eventualmente pudesse dar uma varrida na casa.

Iam e vinham. A grande maioria sequer fechava os três meses da lei e dos direitos. Houve quem ficasse um mês, uma semana apenas, um dia. Houve (e mais de uma) quem fosse entrevistada, acertasse tudo e depois não aparecesse no dia seguinte. E desligasse, claro, o celular.

A princípio Luna não entendia. Depois entendeu mas quando dizia todos retrucavam que não. Ninguém parava naquele trabalho por causa da Adélia.

Como Luna estivesse à época lendo muito Mark Strand e um poema em especial fosse de sua predileção -- "My life by somebody else" --, ela rascunhou algo sob o seu efeito. A influência, parece-me, se dá menos pela temática que pelo tom, esse tom patético quando diz: "Is it because I am ugly?".

O poema de Luna é este aqui:

So why don't you ladies stay?
is it because he's ugly?
(i've been told he's not)
is it then
because he bangs his head against the wall?
is it because
at 4
he still wears diapers where he pisses and shits?
is it?
is it because he mumbles and grumbles
and moans and groans
when he should already be spinning yarns of his own?
Is it because he sometimes facetioustly threatens us with his lifted arm?
wait
you could've stayed a bit longer
maybe you'd get to see the satellites hidden in his locks
maybe you'd get to hear his unexpected burst of laughter
maybe you'd get to smell a smell that lingers from baby days
maybe you'd get to feel the miracle of his skin
and maybe you'd get to voice the hiss of cicadas as the bearded man does
to his inextinguishable delight
you seem to be in a hurry
and after all I shouldn't blame you
I shouldn't curse you as you turn on your heels
his kin haven't been differently, have they?
so why would you
what obligations do you

Friday, March 15, 2013

A moça que queria atravessar a ponte a pé



A moça queria atravessar a ponte a pé. Tão logo soube onde eu morava, tão logo soube ponte. Não pergunta se podia: quer.

Desde os primórdios de seus quereres, esse querer me lembrava o conto "O vello que quería ve-lo tren", do Rafael Dieste, ao menos na sonoridade da sintaxe.

A ponte, bem o sabeis, administrada pela CCR, é difícil de ser atravessada mesmo de carro e ônibus, motivo pelo qual iniciei minha série "Poemas Escritos na Ponte", que consiste no poema e em foto tirada no dia de dentro do ônibus. Objetivo? Não ficar maluco.

A moça queria, a moça chegou perto. Pertinho, pertinha. No domingo a atravessamos de táxi. Eu very excited pensando que que ela vai dizer, ela otherworldly. No percurso, como faz, deita-se no meu colo e depois de me atordoar uns minutos pergunta ao motorista se tem música. Musiquinha. Ele grunhe qualquer coisa e liga o rádio. Começa a tocar o maior pagode. A princípio continuamos quietos. Depois sorrimos. Em seguida rimos. Para logo começarmos gargalhada irrrefreável. Ainda mais que o pagode diz "Saudade, meu amor, saudade...". Rimos de perder as certidões. Cheguei a temer que o motorista pensasse que estivéssemos a zoar dele. Já briguei com muito motorista de táxi, hoje não. E não estávamos a zoar. E estávamos.

E a travessia da ponte?

Desembarcamos no aeroporto. Motorista feliz com a dispensa do troco.

Caminhamos silenciosos para o check-in. Até ela pular no meu pescoço e dizer

Viu? E você dizia que não dava!....

Wednesday, January 02, 2013

Felipa



De todos os muitos comportamentos infantis de Felipa, o que mais me irritava era o de querer forçosamente usar palavras recém-aprendidas. Aqui me lembro de quando fomos a Porto Alegre, nossa primeira viagem grande, e ficamos na casa da minha Tia Glória.

Naquela tarde a Tia se popusera a fazer um bolo com a bela Felipa. Como Felipa insistia em abrir o forno, ela teve que advertir que não fizesse mais isso ou o bolo iria desandar. "Desandar, como assim?" E a tia explicou. Pronto.

Naquela noite, quando estávamos transando, Felipa subitamente parou de cavalgar e disse: "Acho que nossa relação desandou". Puta que pariu. Que ódio. Tudo tão ridiculamente ensaiado na cabecinha dela. Ela achava mesmo que estava num filme de Godard?

Tive que ir para o banheiro. Não conseguiria na frente dela. Tem homem, tem mulher que faz para dar raiva, eu não conseguiria tamanha a raiva.

Raiva dela e da Tia Glória.

Glória começou naquele mesmo janeiro um câncer que iria devorá-la por nove anos.

O nosso começara um pouco antes e sobreviveria à tia.

Wednesday, November 14, 2012

Psicoterapia Indústria & Comércio



Luna sabia que Adélia precisava de terapeutas, não só os fisio. Mas como era difícil acertar com os psi.

Houve uma, indicação, claro, que Luna achou legal. O preço, naturalmente, salgado: 150 reais por 45 minutos. Duas vezes por semana. Mês: 1200 reais. Quase o preço da escola. E, para mais parecido com escola ser: em caso de falta, a sessão é cobrada do mesmo jeito.

Luna reclama, não tem essa grana toda. (Qual o público alvo da psicoterapeuta: magistrados? políticos? globais? jogadores de futebol dos grandes clubes? Então, a psicoterapeuta toda riponga e incensos quer uma clientela bem selecionada. Quem não puder, se foda, vai pro SUS.) Luna regateia, a terapeuta acede: meu preço não baixo, mas deixo então uma sessão de cortesia. Assim, 8 sessões: 600 pau.

Razoável, Luna aceita. Mas Adélia às vezes dorme de tarde. E vêm as febres. E vem o horário de verão, desestabilizador. Adélia falta a muitas sessões. A terapeuta chama Adélia no cantinho: "Olha, ela tá faltando muito, então acho que o melhor vai ser cortar a sessão de cortesia".

Luna não entende a lógica, argumenta. A psicóloga (psi-có-lo-ga) não ouve. Gosta de falar, não é chegada a ouvir. Uma pessoa como todos nós. Chega a dizer: "Ora, mas eu sou uma profissional!"

Engraçado, né? Como ser profissional não pudesse abarcar ser generoso, ser humano. E ninguém está pedindo caridade.

De modo que no momento Adélia está sem psicoterapeuta.

Wednesday, October 03, 2012

Prefiro a morte a uma dieta de rabanetes





Ele bradava Prefiro a morte a uma dieta de rabanetes, a morte!

Tentou mesmo fazer uma divisa, em latim, mas seu avô morrera há muito.

Ela afeiçoara-se naturalmente a eles, antes de precisar.

Como durar união assim? Durou 35 anos. Até que ela morreu aos 40, engasagada.

Com uma folha de couve.

Tuesday, July 10, 2012

LI




LI

Quando a tia provedora, qua aprendera computador só para se comunicar com o sobrinho em Limerick, perguntava Então, meu querido, como foi a noite passada?  e ele respondia Ah this was such a long time ago, ela insistia e ele enfim dizia LI, ela suspirava aliviada, sem perceber que o sobrinho falava em romanos.

Monday, March 26, 2012

Tomei cerveja com Bodhisattva



Bodhisattva é representado com os cabelos longos, hippie avant la lettre que adia sua iluminação, sua entrada no Budado, sua imersão no Nirvana, quando poderia, enfim, cessar Samsara, a roda de nascimentos e mortes, para ficar mais tempo junto aos homens e assim ajudá-los.

Eu já conhecia história suas, sua bela imagem a vi pela vez primeira por ocasião de uma linda exposição no Art Institute of Chicago. A imagem que ilustra este post é, creio, a que vi, imagem japonesa, bem diferente, portanto, das indianas que por aí circulam.

Uma das histórias (conto tudo de memória) dizia que Bodhisattva certo dia caminhava quando deparou-se quando um pombo prestes a ser devorado por gavião. Instintivamente, ele o salva e protege sob seu manto. A ave de rapina, esfomeada, roga ao Bodhisattva que o entregue, o que ele nega com veemência. A ave insiste, explicando-lhe que aquele é seu alimento, daí sua necessidade. Boddhisattva, já não tão convicto, não entrega o pombo. A ave, então, suplica, dizendo que não pedira para nascer assim, para ser o que é, que se não se alimentasse naquele momento, iria morrer.

Bodhisattva não sabe o que fazer. Deixar que o gavião morra à sua frente, quando tudo o que quer é alimentar-se? Não. Entregar o pombo indefeso para a morte? Jamais. Eis que uma uma balança cai do céu e ele coloca a ave em um de seus pratos. No outro, coloca um pedaço de sua carne, cortada do braço. A ideia era dar ao gavião um pedaço de si, de modo a salvá-lo e também ao pombo.

A balança, entretanto, inclina-se para o lado do pombo. Bodhisattva corta mais um pedaço de sua carne, mas o fiel da balança continua inclinado para o lado do pombo. Ele corta mais e mais, porém, a balança teima em inclinar-se para o lado da ave. Num momento de desespero, pula para o prato e a balança, assim, equilibra-se como que miraculosamente. Uma vida por outra vida. O gavião metamorfoseia-se no deus Indra, dizendo que queria por-lhe a prova. Do céu cai uma chuva de ambrosia, que as feridas do Boddhisattva pensa.

Minha amiga Marcela deu outra noite com um vagalume preso em uma teia de aranha. Isso na varanda de sua casinha em Ouro Preto, onde conclui mestrado em filosofia. A noite era cálida e o vagalume piscava SOS. Que fazer? Ao perceber a aproximação humana, Dona Aranha cessa seus movimentos, parecendo ela mesma um pedacinho de madeira enredado na teia. Marcela sabe que, assim que der as costas, a aranha descongelar-se-á rumo a seu banquete. O vagalume pisca SOS.

O mais absurdo de tudo talvez seja que Marcela fora à varanda para fumar um cigarro, interrompendo estudos que faz sobre texto do filósofo Georges Didi-Huberman. O nome do texto? Sobrevivência dos Vagalumes, editado entre nós pela UFMG.

A vida não é cheia de coincidências, basta estar um pouquinho ligado, o que talvez demande um bocado. Ou um pouco distraído, como quem sai para fumar um cigarro numa noite cálida nas Gerais.

Friday, March 23, 2012

Ser Invisível, parte 3



É que Adélia, como aquela velha pobre de uniforme da empresa terceirizada responsável pelo volume da garrafa térmica, não existe.

Adélia não existe, vamos viver, vamos continuar como se ela não existisse, e, à força da prática, seu desaparecimento se dará.

Os defeituosos não existem. As crianças doentes, que têm síndromes e condições e necessidades especiais e o caralho a quatro não existem. A não ser, claro, para a indústria (melhor aqui seria falar em fabriqueta) paralela, parasita, miliciana, que cobrará 450 reais por um par de palmilhas porque sabe que Luna haverá de, forçosamente, pagar.

Um caso em especial não sai da cabeça de Luna.

Sabendo-se grávida, pensou em não ter o filho. Circunstâncias diversas, boas circunstãncias, fizeram-na optar pelo contrário. Uma dessas foi conversa de bar, em que um seu amigo, católico de boa cepa, prometeu-lhe total apoio, vamos ter esse filho e copos no alto para um brinde.

Quando foi diagnosticada a doença de Adélia, esse amigo, católico de boa cepa, desapareceu. Minto. Quem desapareceu foi Luna, ou entraria este texto em contradição. E, mágica inexplicável, desapareceram seu e-mail, seu telefone e mesmo seu prédio! (O amigo, católico de boa cepa, era também vizinho de bairro) Nem uma visita, palavra, mensagem. Na festa de um ano, claro, ele apareceu, porque é importante sair nas fotos. A diferença entre foto e filme.

Para estupefação de Luna, ainda cheia de vida e por isso com seu quê de ingênua, ela tornou-se invisível também para os pais desse amigo. Todos católicos de boa cepa, papa-hóstias, pagadores do dízimo, participantes do bazar pros pobres. Por três vezes -- três vezes --, esses senhores desviaram seus olhos de Luna, que lá vinha com Adélia no carrinho. Dia houve em que Luna cruzou com o pai do amigo, católico de boa cepa, no supermercado, vinham em direções opostas, na mesma ruazinha do mercado, agora ele vai me cumprimentar, mas o senhor, católico de boa cepa, jogou a cabeça para o chão, desviou os olhos, seguiu seu caminho.

Luna ficou chocada.

Tolinha. Não sabe Luna que o pai do amigo, católico de boa cepa, estava preocupado com as contas do dízimo da paróquia de Nossa Senhora das Dores? Não sabia ela que ele estava fantasiando um blowjob com aquela empregadinha que está dando mole pro sacristão?

Esqueceu-se ela que se tornara invisível?

Ser Invisível, parte 2



O sofrimento, pois, nos torna invisíveis. Experimenta perder um pai, se separar, perder o emprego. Ter um filho doente.

Com Luna foi assim, quando descobriu que sua filha tinha doença séria, rara e incurável. Em princípio, claro, tornou-se mais visível, quando vinham todos com vozes pesarosas dizer algo: o verniz das máscaras sociais. Depois tornou-se invisível. No escritório há colegas que de tudo fazem com os olhos para que estes não se cruzem com os de Luna. Porque o esbarrão de olhos, pensam, obrigar-lhes-ia a pergunta inevitável: "E como está a Adélia?". Aquela coisa pegajosoa e pastosa. Empurram Luna para a invisibilidade para depois comentar entre eles 'como ela está quieta, como guarda tudo para si, depois que soube a filha doente.' E assim vamos vivendo com os rótulos, que é mais conveniente.

Luna, ainda bem humorada, apenas pensava: "Funny, tornei-me Luna Nova. À minha revelia. Será fase?" E lembrava-se da Cecília: "Eu tenho fases / como a lua."

Friday, March 09, 2012

Gina



Em solitária noite de lua e gim, Gina decidiu deletar de seu perfil todos que não fossem verdadeiramente seus amigos.

O genocídio consumou-se em pouco menos de uma hora. Falsos amigos, amigos de amigos, ex-issos, ex-aquilos, eu não sou Roberto Carlos, Gina repetia de si para si enquanto aqueles perfis com suas fotos times preferências bandas dissolviam-se no éter.

Dos 728 amigos ficaram 5.

Para comemorar, Gina convidou-os para uma festa sábado à noite, coisinha íntima.

Como ninguém apareceu, deletou-se.

Thursday, March 08, 2012

Caio



Tola a minha estratégia de ler os morangos mofados ao léu, pulando as páginas ao acaso, porque os dois melhores morangos eram mesmo os dois primeiros, descubro em minha leitura matinal no ônibus.

Leio até entrarem duas mulheres que, a falta de lugares, postam-se de pé exatamente ao meu lado e põem-se a tagarelar. Irritante essa história de frescão deixar que passageiros viagem de pé. O 761 não deixa. Mais irritante pessoas acharem que, juntas, têm que falar o tempo todo. O incômodo do silêncio. Estas, para além de falar, roçam as nádegas em meu cotovelo e riem, como que a dizer estamos de pé, enquanto vocês estão sentados, reclinados quase deitados dormindo ouvindo música, mas nem por isso estamos tristes, aliás somos mais felizes que vocês, seus preguiçoso que cochilam e babam, vejam como rimos.

As nádegas roçam em meu cotovelo, as palavras roçam e invadem os morangos, de modo que é impossível continuar. Tenho ganas de pedir digníssimas senhoras, será que poderiam por obséquio fazer-me o imenso favor de calar a porra dessa boca? Não peço, claro, não faria isso depois de quatro doses de Ardbeg, imagina assim a seco, só com Nescafé no estômago.

De modo que desisto.

Fecho o livro, viro para a direita. O sol flamba suave navios e barquinhos na baía. Ao meu lado dorme um anjo de batom, boca levemente entreaberta. Seus seios lembram dois pombos miraculosos. Que voam.

Caio no sono.

Thursday, December 15, 2011

Filho da Puta


Não haverá mais cavalo como aquele. Na primeira metade dos anos 60, precisamente nos anos de 62 e 63, Filho Puta reinou absoluto nas raias do Jóquei.

De todos os jóqueis que o montaram, Barrosinho, de Nova Russas, foi quem mais o compreendeu. Vê-los humilhar os colegas -- cavalos e jóqueis -- era não saber onde terminava o corpo de Barrosinho, onde começava o de Filho da Puta. O fato de Barrosinho medir 1,20 e pesar 40 quilos, o que lhe rendeu entre os colegas despeitados o apelido de Pigmeu, ajudava.

Nas festas que o dono de Filho da Puta promovia no jetset carioca, regadas a champagne e cocaína, Barrosinho proclamava fungando (ou aos soluços): "Esse cavalo não é apenas Filho da Puta, é também filho de uma égua!" Mas ninguém achava graça. Barrosinho, claro, não pertencia e não percebia ser títere. Nem o Filho da Puta.

Mas ganhavam e ganhavam e tudo eram champagne e alfafa fresquinhas. Multidões afluíam de todo o canto para gritar: "Corre, Filho da Puta" e, depois, na vitória, berrarem extasiadas "Filho da Puta! Filho da Puta!". Igual, nem no Maracanã. Tias e mães ouviam filhos e sobrinhos nessa gritaria e, impotentes, nada faziam: era o nome do cavalo.

Em seus lares, esses mesmos filhos e sobrinhos também cavalgavam empregados e empregadas (mesmo, e principalmente, quando chegvam aos 15,16 anos), agregados e agregadas, e chicoteando-lhes o lombo gritavam: "Corre, Filho da Puta!".

Até que um dia apareceu Esmeralda, por quem Filho da Puta caiu de amores. Como estes não eram platônicos, o cavalinho, em meio ao páreo, tinha ereções tão violentas que lhe impediam de correr. Qem acha que exagero, tente. E asssim começou seu declínio. Não havia viseira, tapa-olho, nada: Filho da Puta sentia Esmeralda pelo cheiro e já não terminava corrida.

Tentaram comprar Esmeralda, corredora apenas medíocre, mas seu dono, rival, declarou-a invendável. Barrosinho abandonou-o e em seguida seu dono que, numa festa já não tão badalada, declarou peremptório: "É um grandissíssimo Filho da Puta!".

Foi vendido, exilado em Paquetá, para puxar carroças. Durante a travessia, quem teve a chance de fitar Filho Puta nos olhos óleos entendeu o que realmente é tristeza.

Barrosinho virou garçom do Jóia, o Jóquei virou um imenso shopping center, o país, um matadouro. Seu ex-dono continua o mesmo. E passados alguns anos, quando já mal puxava carroças, Filho da Puta foi sacrificado e virou ração de cachorro.

Hoje é apenas um retrato na parede.

Mas como dói.

Tuesday, November 29, 2011

Sara

Quando a mãe de Sara se soube grávida, ganhou de um amigo um poema que, se não me falho, dizia mais ou menos assim:


Sara é uma linda menina ainda mal-acordada.
Suas pétalas mais sedosas estão ainda fechadas,
dormindo de bom dormir.
Quando Sarinha acordar,
vai pedir leite na xícara de porcelana pintada,
vai querer mel aos golinhos em colherinha de prata,
duas horas vai gastar fazendo trança e castelos.
Estou fazendo um vestido,
uma tarde linda e um chapéu,
pra passear com Sarinha,
quando Sarinha acordar.

Sara acordou há muito, embora ainda adore dormir de bom dormir. Ainda bebe mel aos golinhos e faz castelos e poemas. Assim é Sara. Enquanto seus amigos ficam em dúvida entre Engenharia de Produção, Relações Internacionais e Direito, Sara não sabe se faz Português-Latim ou Português-Literatura. Quando suas amigas iam ver o Mickey, ela subia com o pai para Milho Verde para colher sempre-vivas vestindo saia godê. Ao completar dezoito, não pediu carro nem viagem nem boite, mas uma Olivetti para bater seus textos. Um dia virá o carro, mas será uma kombi que a levará ao México. Sara não dirige, vai ao lado, lendo cadernos de Eisenstein e o diário de Frida Kahlo.

Tenho inveja desse que vai ao seu lado.


O primeiro texto de Sara na Olivetti