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Wednesday, April 28, 2021

SAGRADO CORAÇÃO DA TERRA



Quem guarda tem.

 
Mexendo aqui no meu vinil do Sagrado Coração da Terra, encontro programa de show deles que fui em 1985 na Sala Funarte.
 
Impossível lembrar do meu 1985 sem lembrar do alumbramento que foi o Sagrado.
 
Pouco depois teve show deles no Parque Lage, abrindo para o Beto Guedes.
 
Eu estava ali para os dois -- Sagrado e Beto --, mas a grande maioria estava apenas pelo menestrel de Montes Claros. De modo que, após algumas músicas, começaram a demonstrar impaciência e esboçar vaias. E eu, sentado na marquise do Palazzo Romano, me levantei e mandei, aos berros, que fossem todos, em fila indiana, à merda.
 
E olha que nessa época eu nem bebia cerveja
 
Curioso que outro dia comentei isso com o Marcus Viana, o próprio, o homem por detrás do Sagrado. Ele disse não lembrar desse show.
 
Eu não esqueço

 


 


 

 

Saturday, April 06, 2019

Paul, Blackbird, Lula Livre em Curitiba


Quando Paul McCartney parece bobinho, tentando falar o registro coloquial da língua do país do show ou brincando com ursinho de pelúcia que atiraram no palco, ele está apenas sendo brincalhão. E feliz por estar ali no palco, sua vida.

Porque bobo ele não é.

Quando ele canta "Blackbird" em Curitiba e diz  que é música pelos direitos humanos, e repete pausadamente direitchos humâânos, ele sabe muito bem onde está e o que quer dizer. Tanto que uma galera não longe de nós principia um coro de "ELE NÃO!" que, embora endossado pelos gritos de Evandro e Camila, não vai muito longe. O sujeito da frente meneia a cabeça, com desprezo, desprezível. O casal ao nosso lado começa mesmo a gritar 'ele sim'.

Fiquei só imaginando o que não foi o Roger Waters naquele gramado.

Para todos os efeitos, houve mesmo cartazete de FORA BOLSONARO, recebido com apupos e latas. Amei. Eu já passara o dia com a camisa LULA LIVRE pela cidade (aqui), de modo que, para o show, no que diz respeito a trajes, achei melhor deixar quieto. Mas quando as bombas de "Live and let die" estouraram, gritei Lula Livre a plenos pulmões. Louder than bombs.



Saturday, March 23, 2019

Join Together : THE WHO


Lançada como single em 1972 e depois incluída em algumas antologias, "Join Together" é provavelmente a pior música do The Who. Um Slade piorado, com refrão chiclete de resto agravado pela redundância gramatical ("Join together with the band").

Há um vídeo de uma apresentação em playback que nos remete à segunda fase dos programas do Chacrinha na Globo, quando ele conseguiu ser pior do que fora até então.

Salva a música a jew's harp, mas que muitos podem achar tão irritante quanto o kazoo de "Corporal Clegg" do Pink Floyd (a respeito do qual escrevi aqui).

Foi com esta música tola e detestável que Alan Veste encerrou a apresentação de Tommy ontem no Rio. Explico: depois do Tommy completo (versão filme do Ken Russel e não a do disco original de 69), a banda toca "Won't Get Fooled Again", "Baba O'Riley" "Behind Blues Eyes", "Who are You" e, cereja do bolo, "Join Together" (sem jew's harp).

Cantei a plenos pulmões. Depois de Tommy e dos clássicos, caiu bem demais.

Ontem gravei um trecho, que hoje pela manhã mostrei à Camila. Ela disse: "Ficou bom, mas tem um pessoal aí que desafina, hein?". "Sou eu", respondi e rimos a bandeiras despregadas, como então se dizia.

Nunca amei tanto "Join Together".





Thursday, October 25, 2018

E a minha vida está completa : Roger Waters e Marielle Franco



Escrevi nesta postagem aqui sobre os shows do Roger Waters a que assisti, recapitulando os anos: 2001, 2007, 2012, 2013. E agora, 2018.

Qual o melhor?, perguntou-me uma aluna querida hoje, que foi ao show também. Bem, nunca mais ouvi ele tocar "Money" (música que até então eu não gostava) como em 2001, nem nunca a cachorrada latiu tanto como em 2007 (em um bis!); o The Wall inteiro será sempre o The Wall inteiro, como em 2013 e uma ópera ópera mesmo só em 2013, com Ça Ira.

Mas foi só ontem que ele falou sobre a Marielle Franco. Que vestiu a camisa, que dividiu palco com a família -- filha, irmã e viúva. Foi o único não apenas dentre os shows que fui, mas dentre as suas milhares de apresentações em seis décadas.

Não é pouco, digamos.





Saturday, April 07, 2018

Os Shows do Roger Waters no Brasil



Alguns alunos queridos já ansiosos para o show "Us and Them", do Roger Waters em outubro no Maracanã, uma já dizendo que é o show da sua vida. Será (j'espère) o da minha também. Outro.

Prometi-lhes mostrar os programas dos shows anteriores e consegui reunir todos: "In the Flesh" (2001, na Apoteose), "The Dark Side of the Moon" (2007, Apoteose), "The Wall" (2012, Engenhão). De quebra, a joia da coroa: a sua ópera Ça Ira, assistida em São Paulo em maio de 2013, com direito à sua emocionante subida ao palco no final.

Estes são tempos para se ouvir Roger Waters e sua mensagem antifascista. Ça Ira! - Há Esperança!



Tuesday, December 05, 2017

O Show do Magma II



Na postagem sobre os shows deste ano (aqui), não escolhi o melhor, por chato e impossível que seria. Mas o Oscar do mais inesperado vai sem dúvida para o Magma, empatado com o Locanda: duas faces do mesmo universo prog, a luminosa, a obscura. Ao fim, ambas luminosas e obscuras por nos levar a caminhos pouco ou nada trilhados.

Com o Magma tive uma das epifanias musicais mais fortes da vida: era a primeira metade da década passada e eu, que então comprava CDs compulsivamente na Amazon e num site sueco, pus o MDK no discman ao entrar num táxi, numa tarde de sexta-feira entre uma aula e outra.

A pessoa que então desembarcou do táxi era já bem diversa daquela que entrou.

Não me lembro de como foi a aula, apenas lembro que alguns alunos me olhavam boquiabertos, decerto misturei kobaïan ao inglês e português.

O final de semana todo foi assim.

Eu não imaginava como poderia ser um show do Magma, mas o show de São Paulo superou expectativas tidas e não tidas. Não deixa de ser curioso que uma música 'difícil' consiga bater tão de imediato. Ou eu não teria tido a epifania.

Dentro do vasto panorama do rock progressivo (as duas bandas aqui citadas provam-no), criaram um subgênero e, não satisfeitos em criar uma linguagem, uma nova língua. Se o rock progressivo pode ser encarado como estilo ou atitude, esbanjaram atitude. Se depois passaram a compor dentro do estilo zeuhl, a atitude de aventura jamais perdeu-se. Muito pelo contrário, a Christian Vander cabe, como a poucos, o epíteto de visionário.

Ler seus textos para o Studio Zünd, a caixa maravilhosa de 2009, é prova. Ouvir Ëmëhntëhtt-Ré, lançado quarenta anos depois da estreia, idem.

Há palavra inglesa de que sempre gostei, de difícil tradução : uncompromising. Quem entende minimamente Magma ou Van der Graaf saberá o significado.



















Com a Stella Vander

Saturday, December 02, 2017

Os Shows de Rock Progressivo Italiano no Brasil



Acordei todo prog italiano hoje (embora neste exato momento já tenha retornado ao Magma), ouvindo Samadhi e Saint Just enquanto lavava o louçaréu da véspera. Samadhi sempre terá em "L' Ultima Spiaggia" uma das canções mais lindas de todo o movimento, pela flauta, por tudo. Já o segundo do Saint Just, La Casa del Lago, menos experimental que o primeiro, termina com a lindíssima acústica "La Terra della Verità".

Aí baixou o espírito colecionador e reuni os pôsteres dos shows de progressivo italiano por cá. Momento muito oportuno, lembrando que o Locanda acabou de tocar e o Premiata a voltar em breve.

O Banco e Il Balletto di Bronzo tocaram em 2000. O Le Orme, no ano seguinte. A Padaria já veio duas vezes, 2005 e 2014. O Locanda veio este ano. As apresentações de 2000 e 2001 foram dentro do saudoso do RARF, Rio Art Rock Festival.

Francesco eterno

Este tenho emoldurado na parede


Verei pela terceira vez. Veria mil vezes
O mais precioso, pelos autógrafos

Bonus track =)  :


PS: No começo da década de 70, acreditem, o Formula 3 participou de um festival aqui no Rio. Uma postagem que devo a este blog há mais de dez anos. Cheguei a pesquisar na Biblioteca Nacional, cheguei a entrevistar o baterista Tony Cicco.


Monday, November 27, 2017

Os Shows de 2017



2017 não foi apenas o cinquentenário do Sgt. Pepper's e o centenário da Revolução Russa. Foi também inesquecível ano de shows maravilhosos e inesquecíveis. Se a parte erudita no Brasil está um triste descalabro (vamos vender nossas orquestras para engordar a caixinha da Fetranspor?), salvando-se aqui no Rio quase que apenas o Philip Glass (desgraçadamente no mesmo dia do Focus), a parte prog e rock clássico foi muito, muito bem.


Senão vejamos.


Old Road logo na primeira semana do ano. Reprise agora num quintal de Paquetá.

Elton John no Sambódromo, numa noite de dilúvio, mas eu tinha que ir para quitar dívida com a mãe e comigo mesmo. (aqui)

Renaissance no Canecão. (aqui)

The Who em São Paulo e no Rio, pela primeira vez na história!!!!!


Paul em Salvador!!!! (aqui)

Focus em Niterói!! (aqui e aqui)

Locanda Della Fate em Niterói!!!! (aqui)


O improvável Magma em São Paulo!!!!!


No fim do show da banda francesa encontro três simpáticos cearenses que vingaram os 3 mil quilômetros que separam Fortaleza de São Paulo para atender ao ritual zehul. Quando conto empolgado sobre os shows do ano, um deles replica brincando que já posso morrer.


Mas como assim se para 2018 já temos confirmados Steven Wilson, Premiata, Roger Waters e Pearl Jam?!


Quero é viver mais 200 anos.

PS: Ia esquecendo. Bem, não estive no Jethro em SP, mas Camila esteve












Com o mago do xilofone

O Show do Magma I

Com as bênçãos de N.S. das Graças não tinha como dar errado


Meninos, eu vi!

Eu vi um botequim pé-sujo tocando o Mekanïk Destruktïẁ Kommandöh!
Eu vi homens barbados cantando em Kobaïan!
Eu vi moças dançando ao som do ritual zehul!
Essas moças também cantavam na língua do coração
E os homens barbados também dançavam alucinados
Vi toda uma liturgia indescritível
Ouvi toda uma trilha-sonora dos unspekable rites do coração das trevas
Vi um tatuado que regia esta trilha
Vi cabras que viajaram 3.000 quilômetros para estar ali

E se depois, no botequim, se alguém duvidada
Daquilo que eu contava
Eu tornava prudente: "Meninos, eu vi!"



 

Saturday, November 11, 2017

Locanda della Fate :: O Show



A crítica especializada italiana sói ser bastante azeda em relação ao vocal das suas bandas de rock progressivo. Já no primeiro livro que li, Paolo Barotto elogiava o Museo Rosenbach, com exceção do vocalista, segundo ele problema frequente da cena italiana dos anos 70.

Façam-me o favor, Signor Paolo Barotto e todos os demais surdos para o fato de que reside precisamente na voz uma das forças e características mais marcantes disto que deixou de ser apenas uma cena para ser todo um gênero em si próprio: o rock progressivo italiano.

Gosto de dividir essas vozes em três categorias: a dos 'roufenhos' (Alvaro Fella do Jumbo; Stefano Galifi, do Museo; Vito Paradiso, do De De Lind), a dos suaves e melódicos (Cabanes, do Reale Accademia di Musica; Aldo Tagiapietra, do Le Orme; Marcello Dellacasa, do Latte e Miele) e a dos inclassificáveis (Alan Sorrenti, Francesco Di Giacomo, Demetrio Stratos).

Leonardo Sasso, do Locanda della Fate, é a síntese perfeita entre as duas primeiras categorias. Pelo timbre da voz, um roufenho, quase um baixo (e aqui penso num Enzo Capuano). Pelo caráter dir-se-ia pastoral da música, um melódico. Mais que isso, una dolcezza infinita.

Vê-lo e ouvi-lo ao vivo cantando as músicas que ouço ininterruptamente há mais de trinta anos foi emoção grande e não fossem as fotos e autógrafos eu diria que, numa noite de sexta-feira, exagerei no vinho e sonhei com tudo aquilo.

Mas foi bem mais bonito que um sonho.





Amor que uma vida não dá conta