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Wednesday, February 27, 2019

Nilton Bravo : O Documentário


Enfim assisto ao pequeno documentário de Luiz Alphonsus sobre Nilton Bravo, de 1979. Há anos buscava e consegui agora, na ótima exposição Cartografia Poética, no Espaço Cultural BNDES.

É bem pequeno, mas para mim emocionante: o pintor saindo de casa no Lins com a maleta para trabalhar, em ação no próprio bairro, aliás na rua em que morou, Vilela Tavares, ver pinturas para sempre desaparecidas.

Animamos tanto que, depois de traçar a costela suína no Escondidinho, voamos, Rixa e eu. para o Café e Bar Bigode, na esperança de encontrar o painel que ele pinta no documentário. Descubro que eu já estivera lá: um bar muitissimamente bem preservado, com um balcão de mármore de chorar.

Mas sem o Nilton Bravo, desaparecido sob grosseira mão de tinta azul.

Fomos ver a casa de Nilton, com certo travo amargo no coração, eu duvidando mesmo de Dylan Thomas And death shall have no dominion / Under the windings of the sea / They lying long shall not die windily 










Friday, February 22, 2019

O Nilton Bravo no (Ex-) Maior Restaurante Popular do Rio de Janeiro


No final do ano passado encontrei em romance de Antonio Callado a descrição de um Nilton Bravo (aqui) e eis que ele ressurge, nominalmente citado, no conto "São Cristóvão", uma maravilha de Victor Giudice (de quem também já tratei aqui) do livro Do Catálogo de Flores.

Vamos aos fatos.

O narrador está empenhado em travar contato com a misteriosa figura de Pedro Maravella, que enfim o convida para um chope:

Outra hora a gente conversa. Eu moro no trinta e quatro da rua da Quinta. Se você estiver interessado, passa lá no sábado, às cinco da tarde. Depois a gente sai e vai jantar no Sereia. Conhece o Sereia? Fica ali na Elpídio Boa Morte, perto da Praça da Bandeira. Nunca foi lá?

Antes que eu respondesse ele completou:

-- Vamos lá no sábado comer sardinha frita. Você vai gostar. 

Poucas páginas depois, os dois se reencontram:

Partimos para o Sereia, um dos maiores restaurantes populares do Rio de Janeiro. O Sereia tinha noventa e oito mesas, dispostas de maneira semelhante às abcissas e ordenadas da geometria cartesiana. Ao fundo ficava o palco, onde um cenário único destacava a copa, a caixa registradora e um ir-e-vir incessante de garçons equilibrando bandejas pesadas de tulipas de chope ou pratos de sardinhas fritas fumegantes, que o Farofa chamava de "putas de cartola". Tudo isso acontecia sobre um paredão que fazia as vezes de um ciclorama gigantesco ostentando uma sereia de cada lado, pintada a óleo, nas medidas que seriam as prováveis de uma sereia em tamanho natural. O pintor, Nilton Bravo, espalhou sua arte por mil botequins do Rio.

********

O caso, aqui, é mais sério. Não foi só o Sereia que deixou de existir, mas toda a rua, restringindo-se, até onde pude apurar, a um pequeno trecho inominado entre a Leopoldina e a Escola de Circo, próxima do enorme portão do Matadouro onde acamparam as famílias expulsas do Morro do Castelo. 

O que é bem a cara da história (soterrada viva) do Rio.

PS: A foto é de uma outra sereia, de um café e bar na Ronald de Carvalho, em Copacabana. Faz parte do meu catálogo de flores, digo, de sereias.

Wednesday, February 13, 2019

A Descoberta de Quatro Bravos em Tauá



Brillait-Savarin afirmou que “A descoberta de uma nova receita faz mais pela felicidade do gênero humano do que a descoberta de uma nova estrela.”, o que mostra que ele podia entender um bocado de culinária, mas bem pouco de outras verdades (maiores) da vida.


A descoberta de um novo Nilton Bravo é que é mais importante que a de uma nova estrela.


Pude confirmá-lo agora quando, ainda em Oaxaca, recebi mensagem de meu amigo Rixa Xavier dando notícias de ter encontrado botequim não com um novo Nilton Bravo, mas quatro. 


Eu passara o dia em meio a velhas índias zapotecas, vira murais belíssimos, derramara doses copiosas de mezcal goela abaixo, visitara a Igreja de Santo Domingo, comera tamales e gafanhotos, flanara pelas infinitas praças oaxaqueñas, mas naquela noite o que me fez perder o sono foi a notícia vinda do Brasil. Por instantes pensei mesmo que já não era tão ruim assim que a viagem chegasse a seu termo.


De volta, claro, fui lá ver com meus próprios olhos. Curioso é que, uma vez na Ilha do Governador, eu e Rixa preferimos nos perder um bocado pela Freguesia, Praia da Guanabara e Tauá, reservando a Lanchonete Super da Ilha para o final, como quem, sequioso, adia o prazer da água.


Os quatro afrescos retangulares têm as mesmas dimensões e repetem temas caros ao Miguel Ângelo dos botequins: os flamboyants, o castelo, muita água, uma casinha modesta, ausência do elemento humano. Um chama a atenção pelo Pão de Açúcar e transatlântico. Parece que no Pão de Açúcar há uma estátua do Cristo.


Seria fácil criticar o proprietário pelas latinhas que praticamente encobrem um dos painéis, pelas canaletas e luminárias desastradas no meio dos quadros, pela iluminação que dificulta a contemplação, mas prefiro, por ora, elogiá-lo por já ter feito reformas no estabelecimento e optado pela manutenção das obras. O resto, espera-se, vem com conscientização e, claro, tombamento.







Rixa

Monday, January 07, 2019

Nilton Bravo do Arco Teles


Por estranho acaso paramos hoje Dante e eu no centro da cidade (ou "na cidade", como não tão antigamente assim se referiam ao centro do Rio), levados num 422 infernalmente quente mas que, ao menos, tinha janela de onde vinha vento generoso. Ouvimos do motorista que aquele é um "trem-bala": tem que voar para refrescar um pouco. Tá certo.

Depois de um mate na esquina de Graça Aranha com Nilo Peçanha, andamos um pouco pelo Castelo, cuidando para não afundar os pés nas poças de piche, que o asfalto se derretia e um soldado fritava fácil um ovo naquele asfalto. Quando levantamos a cabeça, estávamos na Praça XV e quis atravessar com ele o Arco dos Teles, quem sabe chegar ao Basquiat.

Eu sabia, por óbvio, que no caminho está o Café e Bar Arco Teles, fechado há anos e que, segundo descrição de uma das primeiras edições do Rio Botequim e segundo minha memória, que também já bebi cerveja ali, onde se encontra um verdadeiro "museu Nilton Bravo", com nove painéis do mestre -- o maior acervo do pintor. Em 1999 o guia já advertia o mau estado de conservação e clamava por restauração urgente.

Pois.

Pois hoje havia meia portinha aberta. E embora Dante me puxasse pelo braço, consegui enfiar a cabeça na escuridão e vislumbrar as pinturas! Depois conversei com o que parece ser um dos proprietários. Eles têm ciência do tesouro e pretendem, sim, restaurar os painéis. Ouvi "Não tem como não restaurar". Ele disse serem oito e que até agora encontraram sete. Tenho aqui a informação de que são nove. Ele disse também que não sabe se continuará sendo um bar: vão restaurar e depois alugar.

Mas que pelo menos esse tesouro da arte naïf carioca fique preservado.

Em meio à enxurrada de notícias ruins, fique esta. Junto, claro, com a do final do ano passado que enfim tombava diversos Bravos em nossa cidade.

Fotos originais de Custodio Coimbra, que fotografei do Rio Botequim 1999.



Wednesday, November 07, 2018

Um Nilton Bravo em Antônio Callado


Começa muito, muito bem Bar Don Juan, romance de 1971 de Antônio Callado. Em pleno anos-chumbo pós-AI-5 tem que ter culhão para iniciar uma obra com dois personagens, os lindos João e Laurinha, relembrando em seu apartamento em Santa Teresa a tortura e o estupro que esta sofrera nas mãos de um torturador de nome Salvador.

João vai em seu encalço na Polícia Central na Rua da Relação. De tocaia no Bar Atlas, botequim na Rua dos Inválidos aonde os policias iam tomar café, o que João encontra?

"E muitos comiam ali também, na base do ovo duro e do sanduíche de pernil com uma cerveja, sentados nas cadeiras azuis do bar, de armação metálica. Tomando seu primeiro cafezinho no Atlas, João não viu ninguém que pudesse ser Salvador. Voltou na manhã do dia seguinte, para uma média com pão torrado, e deixou-se ficar um tempo à mesa (...) Voltou à mesa e, como quem faz cálculos de cabeça, deixou vagar os olhos pelo mural do botequim, um grande lago enluarado, bordado de salgueiros, com um misterioso castelo à direita e dois cisnes se beijando entre nenúfares"

João encontra um Nilton Bravo, no qual descansa atormentados olhos.

Callado é fiel -- e isso nem é mérito ou demérito -- ao Rio factual do final dos 60. Provável que o Atlas tenha de fato existido. Não deixou traços, não consta do inventário de João Antônio (aqui) e muito menos (*sigh) constará do meu (aqui). Permanece, no entanto, eterno. Intacto, suspenso no ar.


Wednesday, November 02, 2016

A Destruição do Nilton Bravo do Sírio e Libanês



No dia 25 de outubro deste ano o jornal O Globo publicou, no caderno (ainda chama assim?) "Rio Gastronomia", pequena matéria acerca das pinturas de Nilton Bravo ainda existentes em restaurantes e principalmente botequins cariocas. Nesta lê-se que um pesaroso Jawad Ghazi, proprietário do restaurante Sírio e Libanês, "teve que aprender a viver sem" seu Nilton Bravo, que ele próprio encomendara em 1966.

O cronista João Antônio, que incluíra a obra em sua pesquisa sobre o pintor, assim o descreveu:

"Restaurante Sírio Libanês - Rua Senhor dos Passos, 217 - ESPETACULAR - Um Nilton Bravo enorme, na lateral, forma de retângulo, com motivos árabes. O mais comprido de todos os que vi".
No entanto, segundo Ghazi:

"A pintura estava toda velha, descascando. Chamamos uns pintores da igreja (Nossa Senhora do Terço e Senhor dos Passos, na Saara) para restaurar, mas eles disseram que, infelizmente, não dava para recuperar mais. Fiquei muito sentido. O mural tinha pontos turísticos da minha terra, como os templos de Baalbek e cedros do Líbano."

Assim, há um ano e meio, por ocasião da mais recente reforma do restaurante, Baalbek e cedros do Líbano, pilastras e poços, lago e barquinho foram cobertos de tinta.

Façamos as contas: um ano e meio atrás dá, sem erro, primeiro semestre de 2015. Ora, eu estive no Sírio e Libanês em junho de 2014, quando encontrei o painel de Bravo em excelente estado de conservação, tanto que escrevi, empolgado, esta postagem aqui.

Então, como interessado apaixonado pelo assunto, venho a público esclarecer que as declarações do Sr. Ghazi são bem pouco convincentes. Repito: o painel encontrava-se em excelente estado, podendo-se mesmo afirmar ser ele a joia de toda a obra de Nilton Bravo, pai e filho, que resistia na cidade.

Quando comuniquei minha descoberta a um amigo nilton-bravólogo, o Ivo Korytowski, este foi lá checar mas já não o encontrou. Isso em 2014 ainda.

Sua destruição constitui-se, portanto, exemplo claro de crime de lesa-patrimônio, mesmo que a obra de Bravo não haja sido, ainda, efetivamente tombada.

Abaixo seguem registros feitos em junho de 2014.








Friday, July 22, 2016

O Tombamento da Obra de Nilton Bravo

Costa do Minho


Andei falando no facebook, mas creio que ainda não por aqui, cousa deveras injusta já que, pasmai (sou o primeiro), graças a este blog hoje a obra de Nilton Bravo sobrevivente nos botequins cariocas encontra-se em processo de tombamento.

Minha alegria, e orgulho naquele sentido bom, é imensa. Afinal, quando escrevi a postagem "Inventário Final até agora" (aqui), confessei: "E, por fim, já que falei em patrimônio, o objetivo final consiste em pedir incontinênti o tombamento de todas essas obras, de vez que apenas as duas pinturas do Café e Bar Sulista foram oficialmente tombadas, em nível municipal, em 1986."

E não é que? Bem, este blog que já me rendeu amigos (pense um Rixa, um Ivo, uma Camila) e uma noiva (lembre da Camila) acabou chamando a atenção de profissionais do IRPH (Instituto Rio Patrimônio da Humanidade), que entraram em contato comigo (via CAp!) para uma reunião e início dos trabalhos. Hoje acompanhei a Iva em pleno trabalho de campo: conversa com donos, funcionários e clientes, advertências acerca de cuidados com a manutenção, o tombamento em si etc. Tanto no Costa do Minho, no meu Grajaú, quanto no Gurilândia, na Tijuca, fomos extremamente bem recebidos, em especial neste último, em que um dono / filho de dono revelou-se consciente e mesmo empolgado ante a perspectiva de tombamento.

Faltam apenas as visitas aos botequins localizados no centro (Cinelândia, Lapa e Fátima) para que enfim a formalização se dê. Feito isso, partir para a mesma empreitada em relação ao Castelinho do Alto (aqui e aqui), onde se encontra o maior conjunto de Nilton Bravos da cidade. Em seguida, insistirei para que se inclua na leva o tombamento dos botequins com notórias pinturas, ainda que não Bravos: o Flor do Tâmega (aqui), o Bar do Souto (aqui) e o Maringá.
Patrimônio em ação no Costa do Minho

Iva
Iva



Iva no Gurilândia

detalhe do Bravo no Gurilândia

Friday, April 15, 2016

(Hoje encontrei) A Maior Obra do Nilton Bravo da Cidade



Lembrei-me de um conto do Roald Dahl, um de seus contos tipicamente terríveis -- terrível de bom, terrível de perturbador -- intitulado "Parson's Pleasure" em que um sujeito, colecionador de móveis Chippendale, certa vez se depara com a peça mais absurdamente bem conservada no local mais improvável.

Lembrei-me do filme Fahrenheit 451, quando o idiota do Captain Beatty encontra na casa da senhora uma venerável biblioteca, daquelas que ele ouvira falar como se lenda fossem, e seus olhos e boca salivam.

Eu que há anos persigo por toda a cidade (e muito escrevo neste blog, o inventário está aqui), e atravessá-la-ia se preciso, novas obras do Nilton Bravo, tinha defronte meus olhos todo o interior do castelinho, dois andares, cobertos de afrescos do mestre. Dos mestres, pois pai e filho trabalharam nas pinturas. Um total de 16 por 7 metros cobertos, da metade da parede ao teto, dos temas queridos do Michelângelo dos botequins: muitas árvores, muita água, o velho bucolismo de sempre.

Não bastasse, um chão de mosaico, de pequenas e delicadas tesselas. E azulejos e madeirame lindos.

Depois dizem que não há Deus. Eu mesmo andei dizendo.

Agradeço imenso à Irmã Carmen, tão gentil em permitir a visita. E também à Marluci, que ajudou desde o início, e à Luciana. Desejo felicidades ao Colégio Santa Marcelina. Eu mesmo fiquei com vontades de morar ali.

PS: Tenho aqui minhas dúvidas se as pinturas do segundo pavimento serão mesmo do Bravo. Não apenas não havia assinatura, como o estilo, de maior apuro formal, se distancia do que estamos acostumados a ver no nosso autodidata dos subúrbios. Vou pesquisar e examinar por aqui.

PS2: Pela vez primeira estive face a face com um Bravo sem uma cerveja por perto. Bem, a escola é católica, então talvez pudesse eu sonhar com uma trapista -- piadinha inevitável. Mas não. Prefiro rasurar o Drummond :

Como se não houvesse outras sedes
e outros bebidas
Meu repasto é interior
tudo, no coração, é ceia



Segundo pavimento






de volta ao primeiro

PS (ainda) : fique esta postagem presente pro Rixa, nilton-bravólogo que aniversaria manãna. E pro Ivo.