Saturday, December 20, 2014

Marc'harid ::: a vaquinha bretã que amava as flores



Uma das joias da coroa dessa coleção doida de livros de bichinhos nas línguas do mundo inteiro, Marc'harid conta a história de uma vaca florida (flores brancas sobre a pele negra, numa irresistível alusão ao nacionalismo bretão) incompreendida em seu amor pelas flores. A vaca branca come o buquê que Marc'harid lhe dá de presente. A malhada bebe a água na qual nossa heróina vaidosa admirava a flor que acabara de pendurar no chifre. A preta faz cocô sobre a flor azul que Marc´harid contemplava. Não são vacas más, são vacas, demasiado vacas. Marc'harid é que tem gostos diferentes, sensível demais, provavelmente canceriana. Quando o inverno a tudo cobre com seu manto branco, Marc'harid chora e nesse momento Dante chora também. Aliás, ele já quer começar a chorar antes dessa parte e eu peço que espere. As demais três vacas vêm consolar a florida e como depois do inverno vem a primavera, no final tudo fica bem sem que Marc'harid abra mão de sua diferença.

É um lindo livro, de belas ilustrações. Para que se tenha ideia do quanto o bretão é opaco para falantes / leitores de línguas latinas ou germânicas, eis o trecho em que Marc'harid sente-se desolada sobre o campo coberto de neve :: "Diwezhatoc'h e tiskouezas ar goañv beg e fri hag an erch'h a zeuas da c'holeiñ ar vro".




Thursday, December 18, 2014

Mulher Andando Nua pela Casa


mulher andando nua pela casa
Carlos


mulher andando nua pela casa
perfeito decassílabo do poeta
com os seus cinco jambos justapostos
pode ser lido como heroico ou sáfico
no perfeito equilíbrio dos seus ictos
assim Drummond nos reinventa os ritos
com seu poema fescenino e báquico
poeta itabirano de mil rostos
nem na velhice andou em linha reta
moderno enquanto a eternidade atrasa

mulher andando nua pela casa
é verso errado da cabeça ao pé
minimamente não faz ver o que é
mulher andando nua pela casa

Saturday, December 13, 2014

Vassouras ::: Pequeno Ensaio



Bastante empolgado ainda com a história da beladona (só vendo aqui para entender), resolvi conhecer enfim a cidade de Vassouras, onde eu jamais estivera senão uma única vez bem pequeno apenas para cair da rede, dar com a cabeça no chão e desmaiar. Desta feita. permaneci na histórica cidade cafeeira só por algumas horas, mas que já ensejaram este pequeno ensaio.











Monday, December 08, 2014

Três Paineis Azulejares na Tijuca



Não sei por quê, mas algo me dizia que aquela transversal da José Higino esconderia algum segredo, o que se revelou verdadeiro.

Partindo da Zé Higino em direção ao Uruguai, há do lado direito duas casas com paineis azulejares no quintal da frente. A primeira tem um de 48 peças, interessante pela sua relativa contenção :: paisagem bucólica de vegetação temperada, o velho escapismo de sempre. Com algum exagero, pode-se dizer mesmo que a vegetação verdadeira está ali para fazer certo trompe-l'œil com os azulejos.

Pouco mais adiante, numa mesma casa que infelizmente parece habitada apenas por gato gordo escondido sob banco também ele de azulejos (o banco, não o gato), dois maravilhosos paineis de 70 azulejos cada. Nada de contenção por aqui, mas o que Frederico Morais denomina, em Azulejaria Contemporânea no Brasil, "kitsch delirante". Em um dos paineis, um casal (ó, Marília bela!) faz juras d'amor eternas em ambiente tão outonal quanto medieval. As pastilhas cor vinho da parede não poderiam fazer moldura mais perfeita.

No outro painel temos aves tropicais sobre árvores ou no córrego. Mas reparem que a neve cobre o pico das montanhas do fundo, num evidente confronto de cor local com a onipresente paisagem europeia. Talvez se possa falar em indicador da origem do proprietário, se bem que, como sabemos, neve em Portugal só na Serra da Estrela. (Ou quem sabe, talvez o delírio do meu avô, ao mudar-se de Copacabana para a Tijuca, conforme relatei neste post aqui.)

O painel árcade é assinado por um Celino, que faz graça com as letras. É de supor que o das aves também seja seu.

PS: Morais, ao falar em "kitsch delirante", o faz em tom condescendente e paternal, fino crítico acadêmico que é. Eu amo o kitsch delirante de paineis assim e se pudesse nada mais fazia senão caçá-los por aí.
 





Strawberry Fields Forever ou Soneto Escrito com Baba em que Dois Versos Escorreram Fora



a namorada ama os morangos come
às dúzias no café do hotel sobre eles
derrama lenta e mornamente o mel
que lhe escorre dos dedos lambuzados
de mim reclama que eu sempre os rejeito
e não há mesmo jeito de fazer
que eu desfrute de algo assim tão ácido
fico com o pão tungado no café
com leite e já nem preciso mais
mas ela tudo sabe veio pro
café vestida com vestido apenas
assim me tenta pega um coloca
meticulosamente sob o pano
e me leva à boca e mais outro e todos

e com o que me escorre da boca escrevo
das celestiais virtudes do morango

Sunday, December 07, 2014

Crônicas Búlgaras 5 ::: O Mosteiro de Rila



Ao chegar ao Caraça em 1881, Dom Pedro II exclamou que só o Caraça pagava toda a viagem a Minas. Só não sei se antes ou depois de escorregar na pedra que até hoje traz em si inscrição da duvidosa glória. Parafraseando o Pedrão, digo que só o Mosteiro de Rila paga toda a viagem a Bulgária.

Chegamos lá a partir de Sófia em mínima excursão de três :: nós dois e um velho inglês. Como estávamos em dia de semana no ápice do inverno, tínhamos todo o gélido mosteiro para nós. Fundado por São João de Rila no século X, o complexo foi reconstruído na primeira metade do século XIX depois de um incêndio. As pinturas, portanto, não são assim tão vetustas, o que pouco importa. Símbolo da renascença búlgara, bastião da eslavicidade em meio à ameça e ao domínio turco, uma glória artística para quem ama afrescos.

Repetirei Rila a cada volta à Bulgária.

É tanta coisa para fotografar. Para este pequeno post publico apenas algumas fotos do Inferno ("Изоставят всички се надяваме, вие, които влизат тук", búlgaro para "Lasciate ogni speranza, voi ch'entrate"), assim como no post dos azulejos da Glória publiquei apenas anjos. Um modo de equilíbrio, quem sabe.








PS: E abaixo fotos da estreita saída da caverna onde São João morou. Reza a lenda que só não fica entalado aquele que é livre de pecados. Passei fácil.




Saturday, December 06, 2014

Assisti a The Song Remains the Same. 50 Vezes.


Quando ia passar The Song Remains the Same, aqui traduzido ao pé-da-letra e horrorosamente por Rock é Rock Mesmo, acampávamos no cinema e assistíamos a três ou quatro sessões de uma vez. Num único dia. Sempre assim. A penúria de shows era tanta, estamos na primeira metade dos 80s, que era assim e vibrávamos como se fosse em show, alguns perdiam a linha e outros tiravam fotos da tela até os lanterninhas chegarem.

Em Benji, álbum lançado em fevereiro deste ano pelo singer-songwriter californiano de timbre neil-youngiano Sun Kil Moon (ou Mark Kozelek), a oitava faixa atende por "I watched the film the song remains the same" e dura a bagatela de dez minutos. Venhamos que nada usual para um disco de singer-songwriter.

Seu disco, btw, está na lista dos Top 50 da Mojo.

Ele pode ser ouvido aqui no Spotify. Mas recomendo a quem gostar que compre o CD e assim prestigie o artista e todos envolvidos com o trabalho.

Shaping the Curve ::: Michael Nyman ao Vivo


Conforme eu já antecipara aqui, tive recentemente a oportunidade de ouvir uma peça de Michael Nyman ao vivo, no caso "Shaping the Curve" pelo Quarteto de Cordas da Cidade de São Paulo acompanhado do saxofonista francês Clément Himbert. Trata-se de peça pouco conhecida, antiga (1990) e pequena (11') que serviu como estudo para a mais famosa "Where the Bee Dances".

Foi a última apresentação do ano do Quarteto na Sala do Conservatório e a de programa mais ousado e, ainda que trocassem a Fantasia de Britten pela do Villa, tocar em uma noite Szymanowski e Nyman é já notável e louvável. Outras apresentações ao longo do ano desvelam o desejo de tocar música de câmera brasileira para além de Villa-Lobos (Santoro, Gnatalli, Guarnieri, Sérgio Assad, Nepomuceno, Almeida Prado, Henrique Oswald, Osvaldo Lacerda) somado a outros compositores menos usais como André Caplet, Leo Brower, Carlos Gustavino e Ginastera. O repertório foi, portanto, o ponto alto da noite.

Quanto à performnace em si, faltaram verve e intimidade na poderosa peça do Szymanovski, que soou como se em mono. O Nyman estava muito bom mas Himbert comeu algumas notas. A violinista Elisabeth Perry já comentara que a música de Nyman demanda enorme esforço físico do violino (para dúvidas ouvir "Angelfish Decay"), e parece que o mesmo se aplica ao saxofone soprano.

O ruim ficou por conta das brincadeiras e piadas, forçadíssimas, do violista Marcelo Jaffé, que já seriam indesculpáveis em concerto didático para o Ensino Fundamental. Percebe-se a intenção de aproximação do público, a velha desculpa de quebrar a sisudez do ouvinte de música erudita etc mas o aprendiz de Jô Soares deveria saber que um sujeito que vai a uma sala de concertos e paga para ouvir um quarteto de cordas tocar peças modernas e contemporâneas é diferente daquele que vai ouvir As Quatro Estações num domingo de manhã na Quinta da Boa Vista ou Ibirapuera. E espero não vejam postura elitista aqui, porque não há.

Thursday, December 04, 2014

O Último Bravo ::: Belmonte de Copa



Não gosto sequer da ideia de botequim com filiais, de modo que o único Belmonte que realmente presta é o da Praia do Flamengo, onde se devora excelente javali aperitivo. Evoé, Obelix.

O de Copacabana, porém, vale a visita por ter o último painel (5 metros) de Nilton Bravo, pintado especialmente para a casa. Aí aprovo :: os caras tiveram a grande atitude de fazer uma encomenda para o que fora e sempre será o "Michelangelo dos botequins", aquele que, segundo Carlos Heitor Cony, será lembrado no Dia do Juízo Final como o maior pintor brasileiro do século. A quinta filial do Belmonte abriu em 2005, ano em que Nilton morreu aos 68 anos.

Nada de paisagens bucólicas e ipês aqui. Em vez, a gritaria quente das araras, praticamente as mesmas da casa do meu amigo e grande nilton-bravólogo Rixa (ver aqui). Dir-se-á certo aburguesamento, concordo, e pode-se mesmo suspirar pelos Bravos suburbanos tingidos por gordura barata, mas a festa das cores decerto nos faz pedir outro e mais outro chope.






Já escrevi muito sobre o Bravo, até soneto pra ele já fiz (ver aqui, com link para outros posts também).

Tuesday, December 02, 2014

Gozando Junto IIIIIIIIIIIIII

Gozando Junto chega à sua décima-quarta edição, sem pretensões de ser a chave-de-ouro do soneto, mesmo porque enjoei de soneto com chave-de-ouro.

Delícia abrir com foto do último dia do Terceirão no CAp. As demais são em Sampa, Casa das Rosas, a linda exposição do Giramundos, a do Dalí.