Sunday, February 08, 2015
Saturday, February 07, 2015
Crônicas Turcas I :: Enfim uma Rima para Fósforo
O passeio parecia fadado se não ao fracasso, exagero aqui, mas à frustração. Ambulantes vendem passeios de duas horas, mas optamos pelo 'oficial' de seis. Afinal, é o Bósforo! Se na confortável barca não havia nadica de informação sobre os lugares em frente aos quais passávamos (ah desolados yalis!...), tínhamos no ouvido aqueles fones que funcionavam e informavam muito mal. A parada em Kanlica ao menos nos provê do famoso iogurte local. E o passeio de seis horas só tem essa duração porque somos desterrados em Anadolu Kavagi, última parada do lado asiático antes que o Bósforo deságue no Mar Negro, ouvindo às nossas costas em bom turco : "Daqui a três horas voltamos pra pegar vocês! Carpe diem!".
Então é isso.
Mas depois de subirmos a colina do Castelo Yorus (aka Castelo Genovês) sob chuva, o céu rapidamente se abre naquele azul que só o Mar Negro conhece e que nos põe comovidos como o diabo. E este mesmo sol que grita no céu aberto vai descansar preguiçoso no caminho de volta.
Sinto que death shall have no dominion e até me inspiro para um soneto em que bósforo e fósforo rimem. Mas isso o pobre do Cruz e Souza já fez (em "Na Mazurka"), uma forçação de barra terrível, Alá me livre.
Friday, February 06, 2015
Como vai? Bem, e você?
Pergunto à colega de trabalho como vai seu filho, ela responde que vai bem, que está numa fase de muita birra, mas vai bem. E não pergunta pelo Dante. Não quero ficar aqui de vitimização, mas não é normal, não é ao menos etiqueta (etiqueta = pequena ética) que o diálogo seja "E aí, como vai?" / "Bem, e você?" ? Quando o assunto é Dante, o complemento "E você?" é omitido, fraturando o que seria mínima função fática da linguagem.
Sempre foi assim, as exceções comprovam e reforçam a melancólica regra. Não se pergunta pelo Dante, assim como perto de mim evitam-se comentários como "Meu filho ganhou uma bicicleta e aprendeu a andar no mesmo dia" ou "Meu filho de um ano já fala nome e sobrenome dos avós" etc. porque sabem que o Dante, aos seis, ainda não fala nem anda de bicicleta.
Querendo talvez me 'poupar', o que fazem é empurrar cautelosamente as crianças com necessidades especiais para debaixo do tapete da História, da história, do dia a dia. É esta uma das primeiras descobertas do pai de O Filho Eterno, do Cristóvão Tezza.
E eu queria tanto crer que a idiota da Silvia Pilz estava errada.
Crônicas Romenas II :: Os Ciganos da Romênia
| Ionut e o pão pronto para assar. Viscri, 2015 |
No segundo semestre do ano passado, tendo já no horizonte a viagem para a Romênia, passei a seguir no Instagram uma moça que publicava fotos de Bucareste, o que me interessava. Publicava também muitas fotos ruins de seus gatos, mas enfim. Cheguei mesmo a interagir com ela em dois momentos : perguntando sobre uma igreja em Bucareste e depois acerca de um possível legado do poeta Celan na Romênia de hoje. Em ambos os casos, ela respondeu mui solicitamente.
Quando estava na Romênia e publiquei algumas fotos do país no Instagram, achei que deveria marcá-la. Das cinco fotos, curtiu duas. Na foto dos ciganos de Viscri, obviamente não curtida e na qual eu pusera #romania, comentou : "Please do not identify Romanians with Romani, it's quite a faux pas."
Lembro aqui que Romani (ou Roma) é a denominação dada aos ciganos na Europa. O recado da moça do Instagram (que atende por 'ainehsodod', não sigam) foi claro: 'Nós romenos não temos nada a ver com essa gente'.
Para além de sua ignorância revelada no preconceito, percebe-se também a ignorância da leitura, de vez que o hashtag fora "Romania" e não "Romanians"! De qualquer modo, mesmo se ela tivesse alertado para isso, não creio sua resposta houvesse sido diferente 'Romênia ou romenos, tanto faz, não temos nada a ver com essa gente'.
O desfecho do caso? Respondi-lhe simplesmente: "Not a faux pas to me." E ela me exclui dos seus contatos.
Via Instagram recebo lição da absurda estigmatização sofrida ainda hoje pelos ciganos na Romênia.
No Brasil, onde há mais ciganos em números absolutos que na Romênia (!), a estigmatização também existe, porém diferente devido a fatores históricos. E há coisas sendo feitas por aqui.
Thursday, February 05, 2015
Crônicas Romenas I :: Os Ciganos de Viscri
Na conturbada história da Romênia do século XX, os ciganos, os Roma, comeram o pão que o diabo amassou, pisou e cuspiu, ainda que, de maneira surpreendente, durante a Segunda Guerra o tirano-fantoche Antonescu não tenha sido o colaborador que o Terceiro Reich exigia. (Quanto aos judeus, foi. O Porajmos é que não assumiu as proporções do Shoah.)
Assim como na história do Carlos da menina que queria lasanha, em Bucareste jantei meu porco assado no Caru' cu Bere e conheci uma monja em Stavropoleos; em Sighsoara conheci a cidadela e a casa onde nasceu Vlad Tepes; em Viscri conheci a aldeia medieval habitada por saxões desde o século XII. Mas eu queria conhecer os ciganos.
O simpático guardião de uma das igrejas de Sighsoara não me estimula quando lhe revelo meu desejo, conhecer, conversar, almoçar com eles. Na verdade, me desencoraja, por inteligente que me tenha parecido.
Mas a chance aparece, justo em Viscri.
Os saxões que habitavam a Transilvânia desde o século XII abandonaram o país em massa aquando da queda de Ceausescu. Suas casas, desabitadas, foram ocupadas pelos ciganos. Não sei o que se deu em Viscri, mas por lá ainda há romenos da minoria saxã, de modo que os ciganos, aqui em grandes quantidades, habitam casinhas entre a vila mais moderna e a igreja fortificada, perto da qual há as imponentes casas dos saxões.
Ali parei para conhecer Adriana e seus filhos Ionut e Nikoshor. O caçula chegou depois.
Gozando Junto IIIIIIIIIIIIIII :: Em Istambul I
Em Atenas ano passado optei por não fazer nada para a série 'gozando junto' por dois motivos :: eram tantas as pessoas fotografando que a facilidade me desestimulou; em segundo, tirar fotos para a série poderia acabar me distraindo de outras fotos que gosto de tirar.
Seria natural que a opção fosse mantida em Istambul, mesmo porque as tantas pessoas aqui são muito mais tantas que as da capital grega, mas a profusão de cores e momentos fez com que eu me entregasse a essa minha obsessão despudoradamente. Acho nunca gozei tanto junto em viagem.
Esta é apenas a primeira série de Istambul, a décima-quinta geral.
Wednesday, February 04, 2015
Um homem bebe vinho à noite e vai dormir
Um homem bebe vinho à noite e depois vai dormir. Quando acorda pela manhã, ou talvez no meio da noite escura, tem plena consciência do vinho que tomou e das coisas que pensou e fez, a menos, claro, que a quantidade haja sido demasiada. Há em inglês expressão precisa para isso, sleep off, 'Go sleep off your wine, son'.
Este mesmo homem bebe vinho no final da manhã, a mesma quantidade do mesmo vinho, e vai dormir um pedaço. Acorda com a cabeça tremendamente confusa e tudo que fez pela manhã lhe parece irreal, a ponto mesmo de ele pôr em questão as coisas que fez e pensou antes do vinho.
É como me sinto depois de uma viagem.
Isto não é metáfora para o que sinto, antes preciso delas para exprimir a inquietante sensação.
Algo como as palavras finais de "Ode to a Nightingale" :: 'Fled is that music -- do I wake or sleep?'
Thursday, January 15, 2015
Azulejos do Edifício Alaska, em Salvador
Quando trato da arte azulejar popular, falo muito em escapismo, como por exemplo nestes paineis encontrados na Tijuca (aqui e aqui), e nas delícias da terra sem males onde camponeses de faces rosadas colhem laranjas sem se preocupar com mosquitos ou com o salário de fome (ver estes aqui em São Paulo). Mas absolutamente nada até agora chega aos pés deste maravilhoso painel, em excepcional estado de conservação, localizado no centro de Salvador, mais precisamente na Dois de Julho. O Edifício se chama Alaska e o artista, arquifiel à encomenda, retrata pinguins, morsa (John ou Paul?), urso polar, um caçador inuit. Reparem que o artista congelou (plé) a ação do inuit antes do golpe mortal, de modo a evitar sangue. E reparem também que neste tempo as focas ainda não estupravam pinguins. Em tempos atuais de desgraçada canícula, até quem não dá a mínima para azulejos suspira pelo geladinho...
PS : Os frisos da moldura lembram os do Atelier Moral, do já citado restaurante paulistano. Será?
Este post só foi possível graças à nossa correspondente Camila, da sucursal SSA.
Wednesday, January 14, 2015
Painel Azulejar da Escola Ferreira Viana
Há um belo painel de grandes proporções (1400 peças?) no que parece ser um auditório na Escola Técnica Estadual Ferreira Viana, na Tijuca (ou Maracanã, como queiram). Só pude ver do lado de fora e não enxerguei assinatura. Aliás tampouco informações na internet. Ao contumaz azul e branco dos paineis azulejares, este adiciona diversos tons de ocre, numa casamento vistoso e feliz. As figuras, humanas ou não, têm acentuado sabor cubista, com seus muitos triângulos e círculos e semi-círculos. Trata-se de uma escola técnica e o artista foi fiel à encomenda. Se isso distancia a obra dos Jogos Infantis de Portinari, no Pedregulho, as cobrinhas em S absurdamente lembram o mestre de Brodowski do Palácio Capanema ou mesmo Burle Marx da Sede Náutica do Vasco (falei aqui).
Boa parte da obra foi irremediavelmente perdida, coberta grosseiramente com cimento.
Tuesday, January 13, 2015
Para Resolver a Questão do Fundamentalismo Islâmico :: A Modest Proposal
Em seu blog, o poeta e filósofo Antonio Cícero escreve ::
Ontem, na Alemanha, terroristas atearam fogo a um jornal que
havia republicado as charges que os assassinos da equipe
do Charlie Hebdo haviam considerado ofensivas.
Proponho que
toda imprensa de todo país democrático adote, de maneira geral, a seguinte atitude: cada vez que
uma matéria publicada por um periódico seja usada como pretexto para um ataque
terrorista, todos os veículos da imprensa republiquem-na com destaque.
Com isso, os
ataques terroristas à imprensa serão equivalentes a tiros pela culatra.
Acho a ideia muito boa, a ponto de me causar uma também, inspirada pelo Cícero e pelo filme Fahrenheit 451 (já aqui).
Lá para o final do filme, Montag, que então recém abandonara seu posto como bombeiro queimador de livros, assassinando seu odioso chefe, propõe em conversa com Clarisse que escondessem livros nas casas dos bombeiros, de modo a causar perseguição entre eles. "The system will eat itself", conclui.
A ideia, que não foi levada a cabo, parece-me ótima e proponho que hackers do bem invadam sites fundamentalistas islâmicos (existem, não?) e neles publiquem as tão "ofensivas" charges do profeta.
Aí eles, que são puros, que se entendam.
Monday, January 12, 2015
Marcelão ou O Sexto Sentido do Dante
Foi num domingo de manhã do ano passado, Dante e eu acampados na casa da minha mãe. Saímos para o passeio no triciclo e então me aventurei a subir até o alto da Visconde de Santa Isabel para mostrar-lhe onde morei de 74 a 80 e, voltando de um exílio no Andaraí, de 85 a 95.
A Visconde de Santa Isabel nasce em Vila Isabel, ladeia o Antigo Zoológico, assiste ao início da Grajaú-Jacarepaguá para tornar-se, irreconhecível do que fora, Grajaú. Com efeito, o trecho iniciado logo após a estrada, uma colina em cujo cimo situa-se exatamente o 486 onde morei e que depois aplaina-se para enfim terminar depois da Canavieiras (em área que já foi tão bucólica que o time do Fluminense concentrava-se ali), em nada é semelhante ao seu troço inicial, no bairro de Noel. Dir-se-iam duas ruas diferentes.
Como disse, morei no pequeno prédio de três andares e seis apartamentos e muitos escadas bem no alto da colina e bem no centro da curva. Ali, com colina e curva, fazia o que mais amava na vida: jogar bola na rua. Os companheiros eram Cláudio, Caco, Branquinho, Branco, às vezes Dentinho e Mamão. Não adianta procurar no facebook, de nenhum sei sobrenome; na verdade sequer o nome dos quatro últimos. Havia ainda os odiosos irmãos César, Marco Antônio e André. E havia o Marcelão. Amigos de verdade eram Cláudio e Caco. Branquinho era solerte e Branco a vítima inclemente do bullying. Dentinho e Mamão não fediam nem cheiravam e com os irmãos o tempo quase sempre fechava. O Marcelão era Marcelão, grande, gordo, afável, vascaíno, a barriga escapando da camisa. Creio que circulava bem tanto entre nós quanto entre César e Marco. Não brigava, não xingava, sempre amável que era. E pelo físico, sempre goleiro também.
Eu lembrei disso tudo enquanto empurrava o triciclo que rangia já fraquinho sob o peso do Dantinho. Descemos pela Mearim puxando o freio de mão e então pegamos a Marechal Jofre (e assim o Grajaú homenageia a França na Grande Guerra: Jofre e Verdun) para voltar à Júlio Furtado. Na esquina da Professor Valadares, paro de empurrar e abaixo para conversar de perto e trocar afagos. Seguimos. Na esquina da Itabaiana quem encontramos? Claro, o Marcelão.
Não nos víamos há mais de trinta anos. O reconhecimento foi imediato. Ele é o mesmo.
Quando conto a história à minha mãe, que então esquentava o feijão do pequeno, ela diz:
-- Olha, meu filho, eu sei que você não acredita nessas coisas, mas isso tem um nome.
-- O quê, mãe?
-- Espiritismo -- ela responde em tom sério, quase soturno, como que se a revelar segredo.
Sempre que rolam diálogos assim entre mim e minha mãe, tenho que segurar
o riso, o que faço de má vontade, pois gosto de rir. Ela reclama, não sem alguma razão, que
debocho.
Mas, tá, e o porquê disso tudo? Porque eu realmente não acredito em nada
disso, essas coisas me fazem rir a bandeiras despregadas.
Mas que o Dante, com sua West, com seu autismo, tem um sexto sentido, isso tem.
E assim termina a crônica memorialística, cheia de lacunas. Espiritismo.
PS: Será que o Marcelão ainda joga no gol?
Sunday, January 11, 2015
Meu Autógrafo de Lima Barreto
Compro João Ternura no sebo Lima Barreto e à contumaz alegria de chegar em casa e topar com o pacote fechado some-se a de o dito pacote portar carimbo muy especial, com a cara do atormentado (menos na obra que na vida) escritor carioca. Gostei.
Do Lima tenho o que talvez seja o exemplar mais valioso da minha humilde coleção de primeiras edições e edições autógrafas :: a segunda de Recodações do Escrivão Isaías Caminha, primeiro romance seu. A encadernação em couro, que se desfaz ao toque, peca por não ter a capa original. Em compensação, temos o autógrafo do romancista, ao grande cartunista Vasco Lima. A primeira edição é de 1917. Esta é de três anos depois. Quem já leu diários do Lima sabe quanta fé ele não punha nesses livros oferecidos...
Tuesday, January 06, 2015
O Cavalo de Turim, Pequena Resenha
Mutter, ich bin dumm
Nietzsche
A moça reclama que a primeira palavra só foi pronunciada decorridos mais de vinte minutos de filme. Um monossílabo. No modo imperativo.
Mas O Cavalo de Turim (Béla Tarr, 2011) não era sobre Nietzsche ou sobre pessoas ou sobre Turim ou sobre cidades, era sobre um cavalo. O cavalo. O título já deixa isso claro. E cavalos não falam, mesmo que se dê bom-dia a eles.
Ou falam, a seu modo. Guimarães Rosa dizia que os homens vivem reclamando disso e daquilo, mas se alguém quer saber o que é tristeza de verdade deve olhar fundo nos olhos de um cavalo. É o que este filme faz.
Se o filme é já um registro poderoso da rudeza da vida de camponeses de países frios, ele se alarga se visto como metáfora. Com efeito, a ventania incessante, a dicotomia exterior / interior, permitem a leitura da luta homem X natureza ou homem X sociedade, de uma maneira que não se restringe ao meio rural, de vez que incomunicabilidade e fossilização do cotidiano, as temos tanto na Hungria rural quanto na grande São Paulo.
A fotografia é de beleza meticulosa. Cada still renderia um quadro que eu gostava de ter na parede. A poderosa música, de Mihâly Vig, me lembra "Collected Songs where every verse is filled with grief", do russo Schnittke, sobre a qual escrevi aqui.
Música para acompanhar :: a já citade de Schnittke
Pintura :: "Os Comedores de Batata", de Van Gogh
Romance :: De Verdade, de Sándor Márai
Monday, January 05, 2015
Mark Strand ::: Poesia Tenuamente Iluminada
Só agora fico sabendo que Mark Strand morreu. Pouco mais de um mês de atraso. Aos 70. Talvez não seja a melhor maneira de abrir os trabalhos no blog neste 2015? Bobagem. Aqui fica minha pequena homenagem a ele.
Mark Strand foi 'lembrado' neste blog aqui e aqui. E principalmente aqui, poema todo ele em sua clave, me perdoem a presunção.
E aos críticos que reclamavam da ênfase da morte e desepero em seus poemas, Strand replicou :: "I find them evenly lit".
Subscribe to:
Posts (Atom)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)


















.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)












