Saturday, April 25, 2020

Montes Claros, MG, paraíso, pasto e aguada



No delicioso mercado de Montes Claros (aqui), um dos botecos tem um painel de montesclarenses ilustres. Muito justo. Estão lá Beto Guedes, Darcy Ribeiro, Zé Coco do Riachão e outros três que eu não conhecia e agradeço por poder conhecer.

Mas como assim não tem o Cyro dos Anjos? Montesclarense ilustre que, para além de sua pequena mas consistente obra ficcional, escreveu Explorações do Tempo, memórias onde escondeu Montes Claros sob o nome de Santana do Rio Verde, para não ter problemas com a família mas mesmo assim teve.

Montes Claros frequenta as páginas de Guimarães Rosa como a Pasárgada das muitas  prostitutas bonitas para a gente namorar. Basta lembrar que Doralda, a ex-prostituta hoje casada com Soropita de "Dão-Lalalão", veio de lá.

Montes Claros! Casas mesmo de luxo, já sabidas, os cabarés: um paraíso de Deus, o pasto e a aguada do boiadeiro.

Mas eu seria injusto se em postagem sobre a cidade não citasse também aquele que faltou no painel do botequim:

Diziam os antigos da terra que fazia gosto, verdadeiramente, ouvir missa cantada na Matriz, quando as coristas não haviam atingido a idade provecta em que as conheci e o Maestro Boanerges ainda não era perseguido pelas vozes que a certa altura da vida começaram a acompanhá-lo em casa, na rua, na igreja, por toda a parte, enfim.


As ditas vozes -- comentavam alguns -- nasciam das muitas voltas que durante cinquenta anos a branquinha dera no sótão do maestro. Para outros, seriam artes do Sujo.

Enfim, se é para falar desses Montes Claros: é de lá também um dos discos de músicas para crianças (e não apenas) mais bonitos, de 1979.






















Thursday, April 23, 2020

Montes Claros, seu Mercado


Ouvi dizer uma vez que gringos aterrissavam no Galeão e pegavam táxi direto para o Bracarense. Na época achei meio esquisito, hoje acho o mais certo a se fazer. Aterrissei no pequeno aeroporto de Montes Claros e fui direto para o seu Mercado Municipal. Basta dizer que  me lembrou o San Pedro, de Cuzco (aqui), em menor escala, é claro, mas festa de cores e sabores e trabalhadores pra lá e pra cá. Muito muito tempero e farinhas. Muito buriti, muito rapé, muito queijo, alguma cerâmica do Jequitinhonha, algum fumo de rolo, cachaça. Uma orgia de pequi.

Descobrir que há ali alguns botecos que participam do Festival Comida di Buteco é encetar retornos.
























Wednesday, April 22, 2020

O Cesteiro de Lavras Novas


Apesar da chuva que não dava trégua, Lavras Novas já se pagara. Eu já vira a Serra do Trovão, a Serra do Buieié. Meu chalèzinho era uma delícia, era eu o único ocupante das cinco unidades, serviam-me o café no quarto, eu lia Chekov com chuvas e neblinas.

No arruamento original do século XVIII, um centenário botequim-mercearia de sonho atende pelo nome de Bar do Claudinho e tem Heineken a dar com pau. O Claudinho é simpático, ouve atento minha opinião sobre o assassinato da Marielle, que vê em minha camisa.

A Matriz tem por orago N. Senhora dos Prazeres, está sempre fechada e nem acho ruim. Gosto de vê-la, suas esbeltas torres mal proporcionadas, em meio à neblina. Quando aparece um cavalo, me sinto num filme do Béla Tarr.

Um morador cruza comigo pela manhã: "Esse sereno não quer deixar nós, não".

Mas faltava conhecer o Carlos Aurélio de Carvalho, cesteiro, balaeiro e mestre-esteireiro, patrimônio vivo, (i)material. São ofícios em extinção, principalmente o de esteireiro.

A tradição é indígena, tanto que os maxakáli ainda hoje viajam com o "bicho da taquara", que devoram para saciar a fome e obter sonhos e visões.

Foi Lévi-Strauss quem enxergou aqui equilíbrio entre a natureza -- a taquara extraída das matas -- e a cultura, o objeto criado com o entrelaçamento das fibra.

Encontrei-o com a mão na massa, rádio ligado falando da Quaresma. Carlos Aurélio de Carvalho é mineiramente gentil e atencioso, me ensina feixes de coisas, mas as mãos não param.

Atentem para os tetos das velhas casas mineiras: forros de taquaras com rebuscado jogo de imagens, traços indígenas, traços cristãos.







Em São Bartolomeu, reparem o teto





Saturday, April 18, 2020

Ezequiel



Com o braço direito flexionado
em decidida e demorada curva
que remonta às estátuas de Bernini
Ezequiel traz escrita em suas mãos
a dura dor do exílio a dor das mãos
que não choraram quando o deleite
dos seus olhos se foi. Assim quis Deus
Assim o quis coberto de agonias
"Mantém o teu turbante apertado e as
sandálias nos teus pés." E Deus sonhou
a rigidez do diamante em seu rosto.
Aleijadinho então trapaceou
conferindo a seus olhos mansidão
Acentuada quando o sol é posto

Wednesday, April 15, 2020

Painel Azulejar de Iemanjá na Ilha


Foi no dia em que saí para conferir a descoberta do meu amigo Rixa: não um mas quatro Nilton Bravos num bar na Ilha do Governador (aqui). Como a gente não prega prego sem estopa, aproveitamos para nova incursão por alguns bairros da grande ilha.Ticamos o gato-maracajá na Praia da Guanabara, as pinturas de Guttman Bicho (aqui) e, logo no início do périplo, atopamos este esplêndido painel azulejar cinquentenário de um certo Sóstenes a retratar Iemanjá.

Se não engano, no começo da Praia da Guanabara, na garagem de um antigo hotel / motel (?).

Segue a melhor tradição dos Irmãos Igrejas, inclusive na cercadura. Assinado e datado, 1968, sem dúvida um dos mais importantes anos da História.






Quase gêmeos

Tuesday, April 14, 2020

Baruque


A exausta tarde oitocentista chega
a seu termo nos vastos céus de Minas
Cigarras insistentes anunciam
escura e longa noite de neblinas
Aleijadinho ergue-se do catre
onde sonhava amores com Narcisa
Januário, Agostinho e Maurício
estão a postos quando a longa tarde
termina nos exaustos céus de Minas
Os três o equilibram num burrico
e nele vingam mudos a colina
Amarram os cinzéis naquilo que
um dia foram mãos e Antônio esculpe
a atarracada estátua de Baruque.


Monday, April 13, 2020

De profetas e limeriques

Mão de Jonas

Um pouco de disciplina na quarentena não faz mal a ninguém, então decidi não apenas arregaçar as mangas e organizar a biblioteca (a 'livrada' como meu pai gosta de dizer), como terminar dois projetos que eu deixara de escanteio: os limeriques baseados no Livro de Perguntas do Neruda e os sonetos para os profetas do Aleijadinho.

Os limeriques foram deixados de lado há mais de quatro anos. Faltavam poucos, revi tudo e terminei-os. Os sonetos ganhavam poeira na gaveta há quase ano e meio. Dos doze profetas, tinha cinco. Nos últimos quatro dias, fiz mais três, de modo que agora faltam apenas Habacuque, Baruque, Jeremias e Isaías.

Não é mole escrever 'sobre' profetas no Brasil de hoje. Meu objetivo é trabalhar com eles enquanto esculturas do Aleijadinho, embora eu me deixe resvalar, sim, para o personagem mítico-histórico ali representado. Mas aí me interessa o profeta enquanto mitologia e sei que isso pode causar furor tanto nessa crentelhada que tomou o país de assalto como em pessoas inteligentes como meu finado orientador José Carlos Barcellos. Enfim.

Usar os profetas como Kieslowski valeu-se dos dez mandamentos para fazer seu Decálogo. Se bem que, olhando para o que já fiz, o resultado não tem sido assim tão "livre".

Alguns já prontos: Daniel, Abdias, Amós, Jonas, Naum, Joel

Saturday, April 11, 2020

Joel




Na mão direita traz a sua pena
Sua cartela vem na mão esquerda
E se estas são macias e redondas
A profecia fala da lagarta
que descerá à terra como em ondas
Seu traje é especialmente trabalhado
tanto no manto quanto no casaco
sobressai o trabalho dos broslados
Nada disso, porém, lhe empresta paz
Já revelam seus pés desassossego
O que suas palavras nos ensinam
Que diz Joel em seu discurso roto
quando os olhos oblíquos descortinam
a imensa multidão dos gafanhotos? 

Thursday, April 09, 2020

Nick e o Homem de Açúcar


Primeiro disco pronto, possivelmente ainda com o título de Saturday Sun, Nick e seu pai procuram uma gravadora. Fazem lista: Island, Straight Ahead, Hansa, dentre poucas outras. A primeira a responder é a Hansa, já enviando contrato. Por razões não totalmente claras para mim, não fecham com a ela e sim com a Island, o que se revelaria escolha sábia, dada a extrema consideração que eles teriam para com Nick durante toda a sua curta carreira.

E o que faz a Hansa, que já manifestara interesse em fechar com um singer-songwriter?

Bem, acabaram lançando o primeiro disco de um certo norte-americano de nome Sixto Rodriguez, cuja carreira tem lá suas semelhanças com a de Nick: dois discos (1970 e 1971) e praticamente nenhum reconhecimento. A diferença, tal qual Vashty Bunyan (aqui) é que o de Rodriguez veio em vida e de maneira bizarra -- sua música era bastante popular na África do Sul, em Botsuana, no Zimbábue, na Austrália. Todos os fãs achando que ele tinha se matado depois de gravar o segundo disco.

Steve Biko (aqui) era um desses fãs.

Sua vida e obra podem ser conhecidas no documentário Searching for Sugar Man (2012). Ó que maravilha: um sueco faz um filme sobre um artista americano idolatrado pelos sul-africanos.




Wednesday, April 08, 2020

"A Morte de Stálin" : Filme desastroso


Existe um mandamento tácito no mundo de que é preciso preencher os silêncios, uma vez que estes forçosamente denotam desconforto. Assim em situações tão díspares quanto uma excursão a uma praia distante ou um show de rock. Na excursão, o guia no ônibus não vai nos deixar quietos olhando a paisagem e, esgotadas as informações acerca do objetivo da excursão,  ficará falando ininterruptamente, fazendo piadas, enquetes, elegendo vítimas no grupo. No show de rock, o "porta-voz" da banda, nem sempre o líder, ou membro fundador, ou vocalista, toma para si a tarefa de fazer piadinhas entre as músicas. Quando se trata de um singer-songwriter, os resultados podem ser desastrosos, é só pensar num Nick Drake, que não queria, ou num Neil Young ou Damien Rice, que não são talhados para isso, mas entram no esquema. Tipo, faz parte do entretenimento, 'tem que'. Putz, tão americano.

Acho que isso está presente em pelo menos 90% dos filmes (de) Hollywood. Não tenho dados precisos porque não os assisto.

Há filmes que não são propriamente feitos em Hollywood, mas pagam total tributo à sua estética e nisso, claro, não falta o horror ao silêncio.

O britânico The Death of Stalin, 2017, é exemplo perfeito. Já na primeira cena, o diálogo idiota entre os engenheiros de som da sala de concerto. Quando, vinte minutos depois, chega o momento de transportar o corpo do ditador do chão para a cama, essa coisa de preencher-todos-os-espaços-com-piadinhas-idiotas-americanoides-e-absolutamente-inverossímeis chega a um paroxismo tal que lembro que tenho mais o que fazer.

Sei que o objetivo do filme era ser comédia (black humour???), mas não funciona sequer nesta clave. É apenas horroroso. 

Uma pena porque o argumento era até interessante.


PS: Quem pensar que achincalho o filme por ele zoar com o Stálin vai levar um sopapo. Tenho ódio a esta figura hedionda.

Tuesday, April 07, 2020

Vashty & Devendra (& Nick)


As trajetórias de Vashty Bunyan e Nick Drake apresentam muitos pontos em comum, no que ambos lançaram álbuns produzidos por Joe Boyd na mesma época (Five Leaves Left é de 1969, Just Another Diamond Day do ano seguinte), ambos total e sumariamente ignorados pelo grande público.

Ambos sofreram o impacto: Vashty recolheu-se imediatamente, Nick ainda tentou outros dois álbuns, para a mesma (nenhuma) recepção. O que por óbvio aumentou-lhe a frustração.

Ambos foram imensamente reconhecidos apenas algumas décadas depois.

A diferença vem agora: Vashty ainda estava viva, sendo hoje reconhecida como a Madrinha do Freak Folk.

Devendra Banhart é uma de suas influências. Fã confesso, escreveu à Vashty no começo da carreira e costumava escrever seu nome no braço antes de subir ao palco.

Achando pouco, convidou-a para duas de suas canções, em 2004 e 2019. Ela aceitou.

Gosto particularmente (ou apenas?) da primeira. É a Vashty dos dias diamantes, percorrendo a Escócia de carroça.




Wednesday, April 01, 2020

Bolsonaro no Inferno



Retomei hoje projeto que inventei com algumas perguntas do Livro de Perguntas, do Pablo Neruda. Retomei e encerrei! Mas nesta postagem não falo do projeto.

O Livro do Neruda consiste em 74 partes, tendo, cada uma, quatro ou cinco perguntas em média. Sempre em dísticos. As perguntas não têm ligação entre si. 

Mas qual não foi minha surpresa, ao reler hoje pela manhã, e perceber que os capítulos 70 e 71 fogem à regra, de vez que todas as perguntas estão relacionadas: as dez perguntas dizem respeito às atividades de Hitler no inferno.

Mexendo aqui e ali, adaptei-as para nossa realidade, a do Coprófilo na presidência.

O texto-base que usei é a tradução do Ferreira Gullar, de 2007.


Qual é o trabalho forçado
de Bolsonaro no inferno?

Corre na pista ou da justiça
Aspira o odor dos seus mortos?

Dão-lhe para comer as cinzas
de tantos índios calcinados?

Ou desde sua morte lhe dão
sangue pra beber num funil?

Ou lhe martelam na cabeça
a culpa dos assassinatos?

Ou o deitam para dormir
em cercas de arame farpado?

Ou lhe estão tatuando a pele
para as lâmpadas do inferno?

Ou o mordem sem compaixão
os negros mastins do fogo?

Ou deve ele, noite e dia,
viajar sem trégua com seus presos?

Ou deve morrer sem morrer?
De gripe, eternamente sem ar?