Em postagem de sete anos atrás (aqui) fiz pequeno apanhado dos botequins dignos desse nome em Honório Gurgel, incluindo uma joia de azulejos enxaquetados na rara combinação roxo-amarelo. Chamava-se Lanchonete da Valéria e tenho eu hoje coragem de ver se continuam lá? Azulejos e Dona Valéria?
Não sei. Ontem fui pela primeira vez na feira que tem por lá aos sábados. Que feira. Me dissessem eu estava em Tacaratu, acreditava. Subindo e descendo a feira encontrei esses botecos
Gostei tanto do Bar da Amendoeira (tantos na cidade, mas melhor que Cantinho dos Amigos) que prometi farei meu aniversário lá. Um bolinho de feijoada daqueles a três reais. E na esquina das ruas Marapé com Jurubaíba. Como resistir? Melhor não
Volto à Rua Tacaratu, dois meses depois da descobri-la quando fui com o Dante no Parque de Madureira
Tacaratu! Onde estive em 2019 para ter com os Pankararu (aqui)! E onde Mário de Andrade esteve, na mesmíssima Aldeia Brejo dos Padres que visitei, em sua mítica viagem etnográfica de 1928-29
Já tava bom, né? Tem mais
Foi nesta rua o cativeiro do embaixador suíço sequestrado por Lamarca em 1970
Hoje há por lá imenso batalhão da PM, o que poderia nos fazer pensar: uai, os caras iam fazer um cativeiro justo numa rua de batalhão da PM?
O batalhão (que já tem um péssimo histórico) decerto veio depois. Tentativa de apagar a história revolucionária do país, nada diferente do batalhão erguido na Praça da Harmonia, onde Prata Preta, no começo do século XX, ergueu suas barricadas
Ah, nesta parte 2 permitam-me lembrar que seria bom ter menos bolinho na edição do próximo ano. Bolinho é bom, tudo pode terminar em bolinho, ouvi isso do bicampeão David, do Chapéu Mangueira, que este ano veio com... bolinho.
E, em nossas longas peregrinações pelo Grande Rio, Rixa e eu encontramos um tesouro na figura de um velho botequim, relíquia daquela que amamos e com a qual sonhamos, perto do Edinho do Caranguejo, em Duque de Caxias, o Buteco do Raimundo. Não fazia parte do Festival, sequer serve comida.
Raimundo comprou o bar para beber com os amigos (havia dois ali). Só abre quando quer, fecha a hora que tiver vontade. Recebeu-nos bem e, tricolor doente, lembrava a final do Campeonato Carioca de 1971 entre Botafogo X Fluminense, que culminou com a vitória deste e a conversão do Rixa ao Botafogo, como se o jogo tivesse sido ontem.
Depois uma mosca deve ter-lhe picado e mudou de tom, lembrando-nos que era ex-sargento e tinha porte de armas e outras doçuras. Plé.
Domingo passado marcou o fim (chuif) da edição de 2022 do Comida di Buteco, intitulado "Buteco Vive", de modo a celebrar a volta do festival. Em 2020 até teve um pouquinho, só por entregas, e ano passado teve também um retorno presencial, mas tudo dentro das possibilidades e da responsabilidade, não chegando aos números pantagruélicos da presente edição: 40 cidades, 730 participantes, pouco mais de uma centena só no Rio de Janeiro.
Tiquei 28, média nada má de quase um por dia. Pela primeira vez fui à Baixada: prestigiei os três de Duque de Caxias, mas não consegui visitar os de Nova Iguaçu. Pela primeira vez fui a duas outras cidades: Belo Horizonte e Montes Claros, onde, é claro, só comi os que tivessem pequi. Pela primeira vez levei o Dante comigo em alguns próximos, com resultados nem sempre ótimos, mas valeu muito a tentativa.
Para além do Dante, tive a companhia frequente do Rixa, botecólogo e nilton-bravólogo de primeira, que, parece, quebrou seu récorde, visitando a ninharia de 68.
Se a sanidade e a civilidade prevalecerem nas eleições deste ano, fizemos a promessa de que em 2023 faremos TODOS os botecos participantes do Rio. Aliás, imagino alguém tentando fazer todos os do Brasil, mas isso seria romance do Georges Perec.
Das avaliações: me senti preso no 8. Tá gostoso, bem gostoso...8! Como sempre, valorizei a originalidade, o que me impediu de dar um 10 para o.... risoto do Salete, o seu prato tradicional. O Cachambeer também teve um pouco de preguiça e surfou na sua especialidade, a costela. Mas eu dei 10, por motivos que respondo a quem perguntar. E 10 pro Folia de Boi e 10 pro Boemia Social Clube. E 10 pro Enchendo Linguiça, sempre original, porque fazer um petisco de casca de pizza chamado "Porras de Linguiça" não é brinquedo, não.
Uma das passagens mais bonitas do 'Grande Sertão' é quando, morta Diadorim, Riobaldo, como que para apaziguar desesperos, vai atrás de quem tivesse conhecido Diadorim menino. Ou melhor, de quem tivesse conhecido Maria Deodorina da Fé Bettancourt Marins menina
Assim chega a Itacambira, onde ela fora batizada
Conhecer a igreja onde Diadorim foi batizada é qualquer coisa de indizível
É fácil associar Paredão a morte, é mesmo óbvio : foi neste arraial desolado, de casas vazias e capim no telhado da igreja, que teve lugar o combate final entre o bando de Riobaldo e o de Hermógenes. Diadorim consegue enfim vingar a morte do pai, nisso sendo ferida de morte. Este combate marca também a morte de Riobaldo Urutu-Branco enquanto jagunço
Mais
Paredão é também espaço do amor. Foi aí que, na véspera desta trágica batalha, Riobaldo, tomado e desnorteado por aquela amor três-tantos impossível, cego de tanta neblina, dá com a língua nos dentes e declara, numa daquelas casinhas, seu amor por Diadorim, para logo em seguida levar um pito
E tudo impossível. Três-tantos impossível, que eu descuidei, e
falei: - ...Meu bem, estivesse dia claro, e eu pudesse espiar a cor de
seus olhos... -; o disse, vagável num esquecimento, assim como estivesse
pensando somente, modo se diz um verso
Diadorim repreende "O senhor não fala sério!", mas logo ficam de bem. E saem para andar, airar um tanto, ouvindo o cochicho do Rio do Sono
PS: eu ainda paquerava Pampi e jogava meus verdes, quando, há dez anos, escrevi no blog citando esta mesma passagem (aqui). Era pra ela, que percebeu e não ralhou. Ainda paquero, ainda jogo meus verdes
Sempre tive muita preguiça desse papo de "No meu tempo que era bom", "A geração de hoje não sabe o que é blablablá". O velho mito da Idade do Ouro, que só admito, com reservas, como parte de um inevitável conflito de gerações
Mas ó, voltando de Montes Claros agorinha, o que me traz Beto Guedes à cabeça e ao coração, lembrei de história. Seguinte: em 1985, último ano do então 2o Grau, todos nós que até recente dizíamos detestar o colégio agora amávamos cada uma daquelas pilastras do Colégio Marista São José, o debaixo, da Barão de Mesquita. Riponga tardio, adorava ter papos cabeça com muitos colegas, festejamos o fim da ditadura, sonhávamos com a faculdade para nunca mais ter que estudar tabela periódica e, não fosse eu à época um pacifista radical, planejaria mesmo dinamitar a ilha de Manhattan
Eu tinha este amigo que fora meu primeiro amigo no colégio, o de cima, em 1976. Ele estava muito, mas muito apaixonado por uma beldade da turma. Beldade esta por quem eu estive apaixonado no ano anterior, e a quem chamei, à época, de Cândida Pérola. Agora éramos bons amigos e eu a chamava pelo nome. Bem, e meu amigo apaixonado? Uma dia ele veio me falar, no desespero daquelas puras paixões adolescentes. Falava como se fosse cometer loucura, falava que passara a véspera ouvindo "Nascente", aquela coisa de estar apaixonado e ficar arranhando a ferida.
"Ah? A música do Beto Guedes? Também acho linda". E ele: "Não, não, essa é bonita, mas, cara, a do Milton!"
Então é isso: dois amigos do 3o ano do Ensino Médio, um deles apaixonado, falam de Beto Guedes e Milton, por que preferem uma versão à outra
Será que hoje....? Meus alunos....? Deixa pra lá
PS: ainda prefiro a verão do Beto, com aquele órgão e aquele piano em ostinato simplesmente assombrosos
Sei
poucas coisas, mas sei reconhecer o sotaque cearense, que amo. Só não
sei ainda precisar se é de Nova Russas, Santa Quitéria, Majorlândia ou
capital, me confundo
Foi assim hoje em Vila da Penha, com o
garçom Antenor do Boemia Social Club. Perguntei logo: 'Vc é cearense de
onde?' E ele: 'Ipu'
Ipu! Onde Iracema lavava os cabelos antes de ver o sol morrer na praia, coisa de 300 quilômetros!
Justo hoje no aniversário do Felipe Barroso, irmão querido cearense, amizade tecida em Chicago em 1986, para quem já disse 300 vezes que não falarei mais isso e acabo falando a mesma coisa sempre:
'Não foste apenas um segredo De poesia e de emoção Foste uma estrela em meu degredo Poeta, pai, áspero irmão'
Ontem, depois de deixar o Dante na escola, fui caminhar um pedaço e me enfiei por umas ruas no sopé do Morro dos Macacos. Enquanto via casas interessantíssimas, percebi me olhavam entre curiosos e desconfiados. Terminei dando voltas na Praça Barão de Drummond, a Praça Sete, dominada pelo imponente Convento da Ajuda, onde há alguns meses encomendei missa para celebrar bodas com a Pampi
A praça encontra-se em estado deplorável, como a maioria dos logradouros públicos da cidade. Sendo manhã de segunda, a sujeira era particularmente acentuada
Para espanar a tristeza, fiz listinha mental de músicas de rock progressivo que terminam com loops memoráveis. Uma lista feita de cabeça, sem pesquisa, despretensiosa. O bacana será comentar o que esses loops têm em comum e no que se diferem. Ainda esta semana faço isto.
Goma :: "Shooting up" (1975)
Faust :: "Picnic on a Frozen River" (1973)
Steve Hackett :: "Shadow of the Hierophant" (1975)
Se repetições, estereotipias, stims e ecolalias são marcas registradas do autismo, não se pense, no entanto, que o autista é previsível. Posso tentar cercá-lo de tudo que gosta: levá-lo à praia com água de coco e rede à mão, como em Maceió, e ele não fazer outra coisa senão insistir em sair dali. Em Prata dos Aredes, em Teresópolis, bem distante do centro, onde nos enfiamos num chalé para virar o ano, tinha piscina e rio, mas choveu quase que ininterruptamente todos os quatro dias ("Os navios soçobram. Continentes / já submergem com todos os viventes") e eu pensei 'Meu Deus, tô ferrado' e ele ficou doce como um alfenim de Goiás Velho, batendo récordes de soninho, um tatu-bolinha ronronando em seu canto, que amou, que Bachelard amaria
Numa das poucas tréguas, saímos os três para passeio pela estrada encharcada cheia de hortênsias. Os três: ele, o guarda-chuva, eu. Foi um passeio tão simples, ele gostou tanto. Eu também. Logo depois ele queria de novo, mas 'as fontes de Maria mais chuvavam' e não pudemos sair e nessa hora ele se irritou
Mas havia uma rede, havia o tablet. As arapongas soavam o gongo sem parar. Na varanda do dia 31 e do dia primeiro do ano ouvimos muito "King of the Universe", da Electric Light Orchestra. Caiu tão bem
King of the Universe I am King, King of the Earth
King of the Universe I am King, King of the Sky
Ontem foi o dia da mentira, o dia do genocida e seu desgoverno. Hoje é o Dia Mundial da Conscientização do Autismo. Viva o Dia Mundial da Conscientização do Autismo!