Saturday, December 09, 2017

Ouviram do Ypiranga



Tenho sorte de ter um casal querido morando ali. Ou não teria conhecido o bairro. Ou muito me engano ou pouco se fala no Ypiranga, o bairro mesmo do virundum, do decassílabo primeiro do hino. As margens plácidas ainda estão ali, pouco margens e nem tão plácidas, mas resistem. Para lembrar, a Rua do Grito. Perto da Rua Flor Encantada e da Travessa Velho Amor. 

Bairro em franco processo de verticalização. Agora com o prefake, então, nem se fala. É correr para ver as casinhas, os pisos de caquinhos, os cobogós (aqui), os painéis azulejares (aqui), os grafites, os botequins amados (aqui), as aparecidas, o oratório!

























Friday, December 08, 2017

O Ondes Martenot no Rock Progressivo (Canadense)




Ressaltei na postagem anterior (aqui) que o Ondes Martenot foi de todo ignorado pelo movimento progressivo mundo afora. Com exceção, em termos percentuais isso daria zero anyway, do movimento prog em Quebec na primeira metade dos anos 70. Se os compositores eruditos franceses usaram o instrumento inventado por um Professor Girassol francês, nada mais esperado que Quebec fizesse o mesmo. Aquela história: ser mais realista que o rei, mais papista que o papa, já que nem a nata do prog francês usou o misterioso Ondes Martenot.

No progressivo canadense há pelo menos dois registros: a banda one-shot Et cetera (1976) e... o Harmonium! Detalhe: em ambos os casos tocado pela mesma Marie Bernard Pagé, que na primeira banda é integrante (também canta) e, na banda maravilhosa do Serge Fiore, uma convidada.

O que dizer do resultado? No Et cetera, até onde percebi, o Ondes Martenot tem proeminência nas duas últimas faixas. Na última, então, algo como aquele final assombrado e assombroso da "Dancing with the monlit knight". Só que com o Martenot. 

Já no Harmonium, neste álbum duplo chamado L'Heptade que perdeu um pouco a mão, aparece em "L'Exil". Sobre uma camada, grossa, de mellotron, Marie toca o Ondes Martenot. Saiu do estúdio e virou a primeira porta à esquerda. Para entrar na História.






Ondes Martenot, anyone?



Se uma das características do rock progressivo é justamente o uso de instrumentos incomuns no rock, chega a surpreender que não se tenha usado (com uma ou duas exceções) o Ondes Martenot, esse precursor do theremin e, por que não?, do moog.

Por outro lado, o instrumento recebeu ampla acolhida nos meios eruditos, verdade que mui provavelmente pelo fato de sua invenção, em 1928 pelo francês Maurice Martenot,  ter sido contemporânea à produção de muitos compositores. Não por acaso muitos também franceses, Milhaud, Messiaen, André Jolivet. O compositor do "Quarteto para o Fim dos Tempos" foi quem mais usou, mas o concerto para martenot e orquestra (1947) é do Jolivet.

Curiosamente ou não, o martenot tem sido empregue com alguma frequência pelo Radiohead, graças ao guitarrista Jonny Greewod, admirador confesso de Messiaen. "How to disappear completely", do Kid A, é muito ilustrativa. No vídeo que posto, ao vivo, há dois martenots no palco!






Wednesday, December 06, 2017

O Massacre da Tribo Osage


Muito interessante como os EUA gostam de cagar regras para o mundo, sendo que sempre fizeram muito mal o dever de casa. Melhor: nem fizeram o dever de casa, rasgaram as páginas do livro, mijaram em cima, cuspiram na cara do professor.

(Fora de casa, então, nem se fala)

A história do massacre dos índios Osage na década de 1920 é verdadeiramente estarrecedora. Primeiro a tribo foi deslocada de suas terras originais (ouvi alguém dizer pogrom?) para ser colocada numa reserva estéril em Oklahoma. Depois descobriram que a reserva não era tão estéril assim, mas riquíssima em petróleo. Daí o massacre, com refinamentos de deixar nazistas, stalinistas, ustashi e ruralistas brasileiros de queixo caído.

A história está no livro Killers of the Flower Moon: The Osage Murders and the Birth of the FBI, ainda inédito no Brasil.

Há vídeos no youtube.

Os Osage sobrevivem. Não apenas têm língua própria, como esta é escrita em alfabeto só dela (!). 

PS: Existe uma banda de rock progressivo italiano dos anos 70 chamada... Osage Tribe! (Tenho o disco) All things are a part.



Wonderland, Michael Nyman



Quando comprei o CD de Wonderland (Michael Winterbottom, 1999) eu já inaugurara, com Gattaca, a prática de ouvir as trilhas antes de ver os filmes. As trilhas me levaram aos filmes e não o contrário, mais comum.

Quando tentei ver o filme, há coisa de quinze anos, não passei dos primeiros vinte minutos. Outra noite sentamos com um Chardonnay geladinho e assistimos mesmerizados de cabo a rabo, só parando para encher as taças.

Aqui uma Londres que não se vê nos filminhos da Julia Roberts ou da Gwyneth Paltrow. Filmado como que em filtros Lo-Fi e Sutro do instagram, só não nos perturbou demais porque estamos já um pouco vacinados, com Leigh e Loach.

Há uma cena de 9 Canções (2004), em que o casal resolve parar de fazer amor para assistir ao concerto de 70 anos de Michael Nyman. (Eu diria que não pararam de fazer amor.) Cena que revela a importância que Winterbottom confere à música e o quão prolífica foi a colaboração entre os dois. Basta dizer que a filha mesma de Nyman (Molly!) compôs a trilha para um outro trabalho do diretor, The Road to Guantanamo.

Molly, Eddie, Nadia, Dan, Debbie, Bill, Eileen, Jack, Darren, Frank. Qual a mais bonita? Diga sem se envolver com o personagem. É difícil. Mas acho que Debbie. Ou Darren.

Camila ouviu aqui "Onward", do Yes. Há quem ouça "We are the champions". Uma música belíssima, a ponto de acharmos que o filme poderia tê-la usado mais.




Tuesday, December 05, 2017

O Show do Magma II



Na postagem sobre os shows deste ano (aqui), não escolhi o melhor, por chato e impossível que seria. Mas o Oscar do mais inesperado vai sem dúvida para o Magma, empatado com o Locanda: duas faces do mesmo universo prog, a luminosa, a obscura. Ao fim, ambas luminosas e obscuras por nos levar a caminhos pouco ou nada trilhados.

Com o Magma tive uma das epifanias musicais mais fortes da vida: era a primeira metade da década passada e eu, que então comprava CDs compulsivamente na Amazon e num site sueco, pus o MDK no discman ao entrar num táxi, numa tarde de sexta-feira entre uma aula e outra.

A pessoa que então desembarcou do táxi era já bem diversa daquela que entrou.

Não me lembro de como foi a aula, apenas lembro que alguns alunos me olhavam boquiabertos, decerto misturei kobaïan ao inglês e português.

O final de semana todo foi assim.

Eu não imaginava como poderia ser um show do Magma, mas o show de São Paulo superou expectativas tidas e não tidas. Não deixa de ser curioso que uma música 'difícil' consiga bater tão de imediato. Ou eu não teria tido a epifania.

Dentro do vasto panorama do rock progressivo (as duas bandas aqui citadas provam-no), criaram um subgênero e, não satisfeitos em criar uma linguagem, uma nova língua. Se o rock progressivo pode ser encarado como estilo ou atitude, esbanjaram atitude. Se depois passaram a compor dentro do estilo zeuhl, a atitude de aventura jamais perdeu-se. Muito pelo contrário, a Christian Vander cabe, como a poucos, o epíteto de visionário.

Ler seus textos para o Studio Zünd, a caixa maravilhosa de 2009, é prova. Ouvir Ëmëhntëhtt-Ré, lançado quarenta anos depois da estreia, idem.

Há palavra inglesa de que sempre gostei, de difícil tradução : uncompromising. Quem entende minimamente Magma ou Van der Graaf saberá o significado.



















Com a Stella Vander

Sunday, December 03, 2017

Azulejos de Manoel Igrejas no Engenho Novo



Se já são poucas as esperanças de encontrar um novo Nilton Bravo pela cidade, ao menos ainda esbarro com um e outro painel dos Irmãos Igrejas (aqui , aqui e tantos outros).

Este vi da janela do 606 num Dia do Zumbi de muita chuva e, portanto, muito stress para o Dante. Depois do almoço, esgotadas as possibilidades de entretenimento no play, meti-me com ele no ônibus, para sua grande alegria. Fomos à rodoviária e, na volta, ele não quis descer no Grajaú. Seguimos portanto para o Méier. Só depois de muito caminhar a pé é que pegamos o ônibus de volta, vazio, só para nós, trepidando loucamente para o seu delírio.

No Engenho Novo, Rua Caimbé, vislumbro o painel. Volto dez dias depois para as fotos do que é um pequeno painel de 24 peças retratando paisagem alpina, assinado e datado pelo Manoel Igrejas, 1960. Ótimo estado.

De lambuja, a casa ainda tem interessantíssimo piso de caquinhos com trevos de quatro folhas. Não foi muita a sorte?



Saturday, December 02, 2017

Vivendas, Lares e uma Cabana do Subúrbio

Bonsucesso
Em português carioca, vila significa conjunto de casas agrupadas, quase sempre nos dois lados de uma pequena 'rua' sem saída. Meu pai morou numa dessas em Água Santa, bem em frente do soturno presídio cujo soturno paredão usávamos como gol em nossas peladas.

Escrevi sobre entradas antigas e bonitas de vilas niteroienses aqui.

Não raro, porém, encontramos pelos subúrbios e Zona Norte do Rio em geral casas isoladas a ostentar VILLA na platibanda e aí a definição é já bem outra, mais para uma casa elegante situada fora dos grandes centros. 

E o curioso é que às vezes tais casas aparecem com outras definições: Lar, Vivenda e, exemplar encontrado no Méier, Cabana (!).

Bonsucesso

Bonsucesso

Brás de Pina

Vila Isabel

Méier


Os Shows de Rock Progressivo Italiano no Brasil



Acordei todo prog italiano hoje (embora neste exato momento já tenha retornado ao Magma), ouvindo Samadhi e Saint Just enquanto lavava o louçaréu da véspera. Samadhi sempre terá em "L' Ultima Spiaggia" uma das canções mais lindas de todo o movimento, pela flauta, por tudo. Já o segundo do Saint Just, La Casa del Lago, menos experimental que o primeiro, termina com a lindíssima acústica "La Terra della Verità".

Aí baixou o espírito colecionador e reuni os pôsteres dos shows de progressivo italiano por cá. Momento muito oportuno, lembrando que o Locanda acabou de tocar e o Premiata a voltar em breve.

O Banco e Il Balletto di Bronzo tocaram em 2000. O Le Orme, no ano seguinte. A Padaria já veio duas vezes, 2005 e 2014. O Locanda veio este ano. As apresentações de 2000 e 2001 foram dentro do saudoso do RARF, Rio Art Rock Festival.

Francesco eterno

Este tenho emoldurado na parede


Verei pela terceira vez. Veria mil vezes
O mais precioso, pelos autógrafos

Bonus track =)  :


PS: No começo da década de 70, acreditem, o Formula 3 participou de um festival aqui no Rio. Uma postagem que devo a este blog há mais de dez anos. Cheguei a pesquisar na Biblioteca Nacional, cheguei a entrevistar o baterista Tony Cicco.


Friday, December 01, 2017

Magma é coisa de criança



Já ninei o Dante, doente, ao som de Locanda della Fate, experiência geradora deste soneto aqui. Já ninei o Dante, verdade que inesperadamente, ao som do Magma, experiência que esta postagem antiga sobre rock progressivo para crianças me lembrou.

Porque, convenhamos, a sonoridade obsedante, hipnótica e não raro sombria da banda zeuhl não permitirá grandes associações com música para crianças. Ou por crianças.

Bobagem.

Baba Yaga La Sorciere é uma versão que o próprio Christian Vander fez do MKD para coral infantil. Sai o Kobaïan, entra o francês. Mas a magia, mais do que mantida, é enriquecida.

Que coisas mais lindas essas crianças.



PS: Não será demais lembrar que há muitos anos o ELP já fizera música para a Baba Yaga, essa malvada bruxa eslava.